Jardim Botânico, Porto Alegre. Fundado em 2006 por Vitor Minas. Email: vitorminas1@gmail.com
segunda-feira, janeiro 06, 2014
domingo, janeiro 05, 2014
Porto Alegre, 1949: o incêndio do Tribunal de Justiça que destruiu milhares de processos e nunca foi esclarecido
Pesquisa e texto: Vitor Minas
Na reprodução abaixo, a notícia do incêndio da Repartição Central de Polícia, acontecido menos de dois meses depois do sinistro do Tribunal de Justiça.
Na reprodução abaixo, a notícia do incêndio da Repartição Central de Polícia, acontecido menos de dois meses depois do sinistro do Tribunal de Justiça.
Um sinistro de prejuízos incalculáveis, um
divisor na história do judiciário gaúcho, um mistério nunca esclarecido: o
incêndio que destruiu o Tribunal de Justiça e a Secretaria do Interior do
Estado “ficará nos anais policiais da cidade como um dos mais dramáticos e
ruinosos, pois que, entre outras coisas, poderá retardar e até desviar a marcha
da Justiça em questões de transcendental importância”, noticiou o Correio do
Povo naquela sua edição de domingo, 20 de novembro de 1949.
O cenário era o “vetusto” prédio da Praça
da Matriz, construído ainda na época do Império e chamado então, com evidente
exagero, de Palácio da Justiça. O dia era sábado, 19. O horário do acontecido, cinco
horas, mostrava uma capital quase deserta, com raros transeuntes
e noctívagos nas ruas e alguns motoristas de táxi – ou de “carros de praça” –
que faziam ponto nas proximidades. Foram eles os primeiros a avistar um “tênue
fio de fumaça” que escapava do edifício e rapidamente se transformava em
“grossos e assustadores rolos negros que irrompiam pelas frestas do portão
principal e pelo teto, já então lançando para o ar um cone de chamas”, conforme
descrição do Diário de Notícias. Por volta das 5h15min a parte principal da
construção parecia “um vulcão em plena ebulição”. Às 5h30min mais nada havia a
se fazer. A fumaça, o crepitar do fogo, o desabamento de vigas, ofereciam um “espetáculo
dantesco” aos circunstantes.
Mais de dez horas depois, auxiliados por
populares e voluntários, os bombeiros das quatro unidades que compareceram ao
local ainda apagavam os últimos focos. Comandados pelo tenente Jarci de
Queiroz, eles perderam a batalha por questão de minutos: já no início do
combate um dos hidrantes falhou, permitindo que as chamas se alteassem
novamente de maneira incontrolável. Pior mesmo foi a falta de uma escada
mecânica que atingisse o segundo andar, atestando a precariedade dos
equipamentos da corporação.
SEM VIGILÂNCIA – A despeito de ser um dos mais vitais prédios públicos do
Estado, o Tribunal da Justiça e a Secretaria do Interior estavam sediados em
instalações acanhadas que datavam de 1870 e nem de longe condiziam com a sua
importância. Juízes chegavam até
mesmo a fazer fila a fim de concederam audiências em suas precárias salas e
dezenas de advogados que por ali circulavam, bem como o quadro de funcionários
permanentes ou dos cartórios, acomodavam-se como podiam em exíguas repartições.
Outro fato lembrado dizia respeito à absoluta ausência de vigilância, já que não havia sequer um guarda destacado para a ronda da noite. Dias antes um funcionário havia notado pegadas suspeitas nos seus corredores e que convergiam justamente para o local onde o fogo supostamente teria iniciado. Também se constatou que havia massa na fechadura, indicando que alguém havia tirado um molde da chave para entrar no local sem ser percebido. Tais hipóteses, no entanto, caíram por terra quando os técnicos do Instituto de Polícia Técnica concluíram que o foco inicial do incêndio teria sido a sala de cafezinho da Secretaria do Interior: lá existia um “bico de gás” e que teria ficado aceso durante a noite.
Outro fato lembrado dizia respeito à absoluta ausência de vigilância, já que não havia sequer um guarda destacado para a ronda da noite. Dias antes um funcionário havia notado pegadas suspeitas nos seus corredores e que convergiam justamente para o local onde o fogo supostamente teria iniciado. Também se constatou que havia massa na fechadura, indicando que alguém havia tirado um molde da chave para entrar no local sem ser percebido. Tais hipóteses, no entanto, caíram por terra quando os técnicos do Instituto de Polícia Técnica concluíram que o foco inicial do incêndio teria sido a sala de cafezinho da Secretaria do Interior: lá existia um “bico de gás” e que teria ficado aceso durante a noite.
Quanto aos prejuízos, não somente para a
Justiça como também para o funcionamento da Secretaria do Interior, foram
imensos e dificilmente mensuráveis. Um bombeiro contaria mais tarde a um
repórter que havia, por sorte, salvado o dossiê de um processo volumoso. Ao
entregá-lo a um funcionário do Forum este, ao ler na capa o nome de uma parte
envolvida, jogou os documentos de volta às chamas... Um dos mais importantes
cartórios de crime – onde estavam processos sobre a colocação de bombas Molotov
e outros que diziam respeito ao Partido Comunista Brasileiro (colocado na
ilegalidade apenas dois anos antes pelo governo Dutra) foi totalmente
destruído, apesar de ser um dos últimos a ser atingidos pelo fogo. Outros
milhares de documentos e ações foram igualmente consumidos ou seriamente afetados.
Processos de heranças familiares, partilhas de bens e inúmeros vindos do
interior do Estado, em grau de apelação, também acabaram destruídos, bem como
40 mil cruzeiros em dinheiro – queimados ou, talvez, surrupiados.
Os prejuízos culturais não foram menores. A
queima total da biblioteca do Palácio da Justiça foi uma das consequências mais
irreparáveis para a cultura do Estado, já que esta era considerada uma das mais
completas do país em sua área, com obras raras do direito e sentenças antigas
lavradas em latim e caprichosamente encadernadas. Já os documentos de
casamentos – cujas cerimônias cíveis aconteciam em uma das dependências do
edifício – não foram afetados pois eram guardados em um edifício próximo e não
no Tribunal. Até mesmo os matrimônios programados para aquele dia, sábado, não
precisaram ser cancelados, apenas sendo transferidos para os cartórios do
registro civil. A situação da Secretaria Estadual do Interior – que funcionava
em parte do casarão que dava para a Rua Riachuelo – tinha agravantes e foi
descrita como um “prejuízo incalculável” devido aos processos que por ali
transitavam – convênios entre o Estado e prefeituras do interior, bem como com
vários corpos consulares e a junta comercial. De parte de tais documentos dependiam
a Repartição Central de Polícia, o Departamento das Prefeituras Municipais, o
Arquivo Público, a Junta Comercial, a Brigada Militar e até mesmo a Biblioteca
Pública ali vizinha.
Com a destruição do edifício do Tribunal de
Justiça os serviços judiciários gaúchos sofrerem um desarranjo que levou meses
para ser reparado, se é que isto era possível. Certamente intencional, o
incêndio foi objeto de muitas discussões nos meses seguintes. O Diário de
Notícias insistiu em seu caráter criminoso, muito embora a deficiente polícia
técnica da época não tenha conseguido provar tal fato. Meses depois, no ano de
1950, um tipo estranho, um vigarista e mitômano de naturalidade espanhola, o
“Major Aragón”, e que estava preso em São Leopoldo, bradou aos jornalistas que
havia sido ele o autor do sinistro. Mas a história era por demais inverossímil
para ser levada a sério. No dia 23 de agosto de 1952, sábado, tal personagem
foi assassinado a tiros por outro detento no pátio da Casa de Correção – um crime
encomendado ou talvez motivado por ciumeiras ou rixas com outros detentos.
Em 1949 Manoel Frederico Gonzales de Aragon
estava preso em São Leopoldo, identificado com outro nome, acusado de
estelionato e que já tinha passagens por outros presídios brasileiros, entre os
quais o de Curitiba, de onde fugira usando uma farda de major do Exército – o
que lhe valeu a alcunha de “major Aragón”. Nascido na Espanha, calvo, ar
inofensivo e de boa cultura, Aragón era um vigarista especialista em criar
“sociedades anônimas”, levando todo o dinheiro arrecadado fraudulentamente. Em
estranha coletiva convocada pelas autoridades policiais ele afirmou ter fugido
da prisão do Vale dos Sinos (fugido e depois retornado...) com a finalidade de roubar um famoso processo
criminal para assim chantagear as partes interessadas e conseguir muito
dinheiro. Ele também disse ser o autor do incêndio da Repartição Central de
Polícia – nas duas versões, poucos repórteres de fato acreditaram no que
afirmava. Mais tarde o Major Aragon disse ter sido torturado pela polícia para
que assumisse a autoria dos dois sinistros, algo igualmente discutível em se tratando da volatilidade da personalidade do réu.
O
certo é que, se houve muitos prejudicados com o episódio (incluindo quem
trabalhava no Foro e perdeu o emprego e fonte de rendas), outros tantos também
auferiram grandes vantagens com a destruição de processos e acusações. Mais
tarde se tentou estabelecer uma ligação entre o incêndio do Tribunal, bem como
o da Repartição Central de Polícia, com um grande aumento da criminalidade em
Porto Alegre no ano de 1950.
Até a construção de uma nova sede para o
judiciário rio-grandense, os cartórios e repartições passaram a funcionar de
maneira improvisada em diferentes locais da cidade, tais como o grupo escolar
Paula Soares, na Rua General Auto, e em casas da Rua Duque de Caxias, onde
antes funcionava a Secretaria da Agricultura. No mesmo local do prédio incendiado seria
construído mais tarde o Foro Central da capital dos gaúchos.
sábado, janeiro 04, 2014
O verão de 1987/88 em que 14 mil latas de maconha boiavam nas praias brasileiras
No dia 22 de setembro de 1987 um navio chamado Solana Star estava sendo perseguido pela Marinha Brasileira, apoiada por agentes do Drug Enforcement Agency ((DEA), órgão anti-drogas norte-americano. Acuados no litoral do Rio de Janeiro - Angra dos Reis - eles largaram toda a sua carga ao mar, a uma distância de 100 milhas marítimas do litoral e, em seguida, se dirigiram sorrateiramente ao porto do Rio, onde abandonaram o navio. A bordo ficou apenas o cozinheiro da embarcação, o norte-americano Stephen Shelkon - imediatamente detido e, depois, condenado a 20 anos de cadeia, cumpridos no presídio Ari Franco, do RJ.
O episódio do Solana Star virou lenda: navio procedente da Austrália (outros dizem que da Indonésia), com destino aos Estados Unidos, carregado com cerca de 20 mil latas de maconha (22 toneladas), (1,25 kg cada lata), das quais apenas 10% foram apreendidas - o restante foi jogado ao mar e acabou chegando às praias brasileiras, no trecho entre o Espírito Santo e o Rio Grande do Sul.
O episódio do Solana Star virou lenda: navio procedente da Austrália (outros dizem que da Indonésia), com destino aos Estados Unidos, carregado com cerca de 20 mil latas de maconha (22 toneladas), (1,25 kg cada lata), das quais apenas 10% foram apreendidas - o restante foi jogado ao mar e acabou chegando às praias brasileiras, no trecho entre o Espírito Santo e o Rio Grande do Sul.
As latas continuaram chegando à costa até o mês de março, fazendo daquele verão (1988) o "verão da lata". Acondicionados em latas de alumínio, fechadas a vácuo, com canabis sativa de altíssima qualidade, foram - dizem muitos - o "último suspiro hippie do Rio de Janeiro" ("A maconha vinha do mar, como dádiva de Deus", comentou um consumidor). O carregamento teria sido feito no porto de Cingapura - o Solana Star tinha bandeira panamenha.
O "verão da lata" jamais foi esquecido pelos apreciadores do produto, dentre os quais se incluem muitos gaúchos e catarinenses. Levada pelas correntes oceânicas, a maconha chegou com fartura ao litoral do Rio Grande do Sul e ensejou viagens alucinadas à sua procura. Muitos a revenderam e, ilegalmente, ganharam dinheiro com isso. A maioria, porém, apenas fumou uma erva de elevado teor de THC. O Verão da Lata acabou virando filme - com o diretor João Falcão - e livro ("O Verão da Lata", de Oscar Cesarotto, editora Iluminuras, 2005). Muitos comentam que "fora do País, ninguém acredita que isso aconteceu". Mas aconteceu. Veja o depoimento de alguns que viveram esse episódio e assumem que o fizeram.
"Eu encontrei em Cidreira, naquele tempo ia pros butecos todo dia. Encontrei uma lata, o restante do pessoal pegou o resto. Aí veio a Polícia Civil. Mas não tinha como segurar todo mundo. A maconha vinha vedada, totalmente vedada, se abria com abridor de lata. Da nossa turma só pegamos uma, mas a notícia se espalhou. Quem tinha automóvel em Porto Alegre saiu adoidado percorrendo a orla e se deu bem. A lata era amarelada. Foi a melhor maconha que até hoje entrou no Brasil".
Hélio, "Mão", 46 anos, morador do Jardim Botânico.
"Encontrei surfando, em Magistério. Vi a lata boiando, peguei e fui ver o que era. Fechamos dois e fumamos. Foi de dia. De noite é que soubemos da notícia. Era uma paulada. Coisa boa"
Alex, 40 anos, morador do Jardim Botânico
"Me falaram que tinha um bagulho forte na praia, em Pinhal. Fui de moto ver e encontrei. Trouxe umas cinco latas de lá. Era só camarão. Peguei um quase nada e ele molhou. Foi o melhor bagulho que eu fumei em 50 anos, dizem que era indiano, era melhor que manga-rosa e cabeça-de-negro. A cor do bagulho era amarela, tinha que abrir com abridor de lata. Dava um cheirão, era prensada a vácuo."
G.B., morador do Jardim Botânico
"Fumei a da lata. Daquele, nunca mais vai aparecer. Eram umas latas parecidas com azeite, amarelas. O efeito era melhor do que cocaína. Não existia coisa melhor. Era um tempo de curtição. Tinha gente que saía de carro daqui, para ir ao litoral, buscar".
C.P., morador do Jardim Botânico.
quinta-feira, janeiro 02, 2014
Manga ia para o Corinthians mas acabou no Inter: 1974
Manga, o grande goleiro campeão pelo Inter, pelo Botafogo e que jogou no Uruguai e também na seleção brasileira, quem diria, só veio para o Internacional por causa de uma tratativa mal sucedida com o Corinthians. Foi em junho de 1974, quando acontecia a Copa do Mundo na Alemanha, que Manguita chegou a Porto Alegre, depois de seis anos fora do Brasil. O Inter de Rubens Minelli, cujo presidente era Marcelo Feijó, já tinha Figueroa e Falcão e com todo esse elenco espetacular seria campeão brasileiro no ano seguinte - 1975, o primeiro título nacional de um time gaúcho e que seria repetido em 76.
Manga tinha 37 anos e achava graça daqueles que o consideravam já velho para o futebol. A matéria é do Correio do Povo de 28 de junho de 1974.
sexta-feira, dezembro 27, 2013
Dezembro de 1995: a Internet ainda não chegava a 100 mil pessoas no Brasil
Era dezembro de 1995, e o Brasil ainda enfrentava grandes dificuldade para entrar com tudo no mundo da Internet. A culpa - em uma época sem banda larga - era do precário sistema de telefonia do Brasil, que ainda não havia sido privatizado. O presidente da República era Fernando Henrique Cardoso, e Sérgio Motta, o seu ministro das Comunicações.
A Internet não contava - vejam só - nem com 100 mil usuários.
Leia a matéria "Confusão na rede", transcrita de VEJA de 27 de dezembro de 1995.
"Houve até quem tentasse alcunhar 1995 como o ano de entrada do Brasil no mundo da Internet. Mas, com um número de usuários que não chega a 100 000, não colou. A partir de primeiro de janeiro de 1996, o sonho de se conectar ao universo da comunicação digital será jogado ainda mais para longe. Na entrado do ano novo, fecha-se uma das maiores portas de acesso à Internet no Brasil, a administrada pela Embratel. O prazo para a estatal interromper seu serviço de conexão de usuários à Internet foi dado pelo ministro das Comunicações, Sérgio Motta, em abril. Sua intenção era boa. Ele imaginava, à época, que no final deste ano a rede já estaria funcionando a pleno vapor e a Embratel poderia deixar a função de provedora de acesso para as empresas particulares e dedicar-se apenas ao trabalho de expandir a infraestrutura necessária.
"Sete meses depois, a situação é bem diferente da pretendida. A principal estrutura de fios e computadores, que deveria estar cobrindo todo o país em setembro, só ficou pronta há poucos dias. Mesmo assim, não está completa. Falta criar centrais de atendimento para receber as chamadas telefônicas dos usuários e encaminhá-las ao destino na rede Internet, seja ele nos Estados Unidos, seja na Austrália, seja no Amazonas. Por conta desse atraso, várias empresas interessadas em servir de porta de acesso à rede ficaram em compasso de espera. Agora, com a saída da Embratel dessa função, ainda não estarão aptas a absorver os 6 000 clientes deixados na mão, muito menos a captar novos.
"Jogo de Paciência - Mesmo com a infra-estrutura básica resolvida em breve, as provedoras terão de enfrentar outro obstáculo: a falta de linhas telefônicas. Não adianta a Embratel ter um sistema de transmissão para a rede internacional impecável, se as provedoras não tiverem linhas disponíveis para que seus clientes a acessem. Elas precisam de dezenas ou mesmo centenas de números de uma só vez. "A carência de linhas é tanta que, apesar de termos separado uma verba de 1 milhão de dólares para investir em telefones, não conseguimos estar nem na metade", lamenta Marcelo Lacerda, um dos diretores da Nutec, empresa provedora de acesso à Internet, hoje com 1 500 assinantes. "Se aceitarmos muito mais clientes com esse número de linhas, corremos o risco de deteriorar a qaualidade do serviço", diz Lacerda. Algumas empresas colocam até 200 usuários para disputar uma mesma linha de acesso, o que torna a entrada na Internet um jogo de paciência insuportável. "Tenho muita curiosidade, mas não consegui uma senha de entrada e tenho receio de ecolher um provedor de acesso de péssima qualidade", diz o analista de recursos humanos Roberto Santanna.
"Ao grupo de ansiosos por entrar na rede, no qual se inclui o analista, provavelmente se juntarão os clientes da Embratel. Isso só não acontecerá se a pressão que a estatal está fazendo para não largar o serviço der resultado. Em outros países, como a França, onde o sistema de telecomunicações também é gerido pelo monopólio estatal, a empresa cuida da infra-estrutura e também é provedora de acesso à Internet. Apenas seguem uma rígida regulamentação que tenta tornar justa a concorrência entre a iniciativa privada e a estatal responsável por traçar os projetos de expansão da telefonia. No Brasil, pelo ritmo em que as decisões sobre Internet andam, isso é assunto para 1997."
quinta-feira, dezembro 19, 2013
Talidomida, o calmante barato e eficaz que causou terríveis deformações físicas nos recém nascidos
As pessoas mais velhas e bem informadas ainda lembram bem deste nome: Talidomida. Prescrito como calmante e sonífero no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, o medicamento (na verdade Talidomida é o seu nome químico e não o de vendas) transformou-se em um sinistro sinônimo da ganância monstruosa da indústria farmacêutica. Lançada sem a devida comprovação de seus efeitos colaterais, testada apenas em ratos, produzida em dezenas de países com nomes comerciais diferentes (Contergan, Distaval, Kevadon, Softnon, Talimol etc), a substância foi sintetizada pelo laboratório Chemie Grünenthal, de Nordrhein-Westfalen, na então Alemanha Ocidental e, dentro em breve, logo após o seu lançamento comercial, em 1956, (como anti-gripal e com o nome de Grippex), transformou-se em uma mina de ouro para a indústria, a qual investiu pesadamente na sua divulgação.
Na verdade, a partir de tal substância, fabricava-se inúmeras marcas comerciais que, somente em um ano, na Alemanha, venderam a assombrosa quantidade de 14 toneladas. Mais de 20 outros laboratórios, em diferentes países de todo o mundo, foram licenciados para a sua produção. No Brasil, a Talidomida chegou em março de 1958, nas marcas Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil e Slip, todas vendidas sem a exigência da receita médica. Era, então, considerado o melhor soporífero jamais inventado, passando também a ser utilizado contra a gripe, a nevralgia, a asma, a tosse e, sobretudo, como antiemético para as mulheres grávidas.Foi justamente aí que ele fez história - uma tétrica história: receitado para muitas grávidas em início de gestação, ingerido em pílulas brancas, era um sedativo barato que provocava um sono rápido, profundo e natural, sem a característica "ressaca" da manhã seguinte. De igual forma, podia ser ingerido em doses maciças que não causaria a morte do paciente, nem mesmo se este quisesse praticar o suicídio. Ideal, e, como logo se viu, fatal, ou pior que isso, para os fetos em início de formação.
Usado nos primeiros 40 dias da gestação, atuava como teratogênico - ou seja, produzia monstros, se é que, infelizmente, assim se pode falar de suas vítimas, calculadas em cerca de 10 mil em todo o mundo. As crianças nasciam muitas vezes sem dois, três ou até quatro membros, dentre tantos outros efeitos observados.A má-formação dos membros tinha um nome científico: focomelia (do grego "phoke" - foca- e "melos" - membros), ou "membros de foca". Os braços dos recém-nascidos surgiam como tocos abaixo dos ombros, semelhantes às nadadeiras das focas. Também se observou deformação dos olhos, do esôfago e do tubo digestivo. De cada duas crianças nascidas assim, apenas uma sobrevivia. Sem entender o porquê daquilo, com problemas de consciência, algumas mães enlouqueceram e outras chegaram a praticar o suicídio. Em 1961, os casos de "focomelia" já eram tantos que se falava em uma "epidemia".
De início foi extremamente difícil descobrir-se a origem de tal fenômeno, o elo comum. Pensou-se nos alimentos, na água, até em poeira atômica. Porém, graças a duas pessoas precisou-se exatamente a Talidomida como o fator causador. Uma delas, o advogado Karl Schulte-Hillen, de 32 anos, não havia aceito a explicação "genética" como a causadora da focomelia do seu filho recém-nascido. Homem saudável e esclarecido, ele descobriu que, coincidentemente, um casal de amigos seus tivera um filho em condições idênticas. Intrigado e inconformado, Karl passou a fazer investigações por conta própria, conversando com as mães que haviam dado a luz a tais "monstros". Ao tentar chamar a atenção da comunidade médica para o que estava se passando, encontrou uma revoltante indiferença e ignorância. Foi então que surgiu em seu caminho o médico Widukind Lenz, um pediatra especializado em genética que aliou-se a Karl, encampando a causa. Lenz, por fim, achou o nexo causal.No dia 16 de novembro de 1961, Lenz comunicou oficialmente à indústria fabricante dos efeitos nocivos dos medicamentes a base de Talidomida - Contergan, no caso da Alemanha Ocidental. Ele, pessoalmente, já conhecia 13 casos. A Chemie Grünenthal, porém, não retirou o remédio do mercado - o que de fato só ocorreu quando a história virou manchete de jornal. O Contergan era o carro-chefe das suas vendas, uma verdadeira "galinha dos ovos de ouro", rendendo milhões e milhões de marcos.Sooou então o alarma em todo o mundo. Nesse tempo, às suas próprias custas, Schulte-Hillen contratou oito fisioterapeutas que, juntamente com ele, passaram a percorrer a Alemanha Ocidental, à procura de vítimas da Talidomida. Entre agosto de 1964 e dezembro de 1965, visitaram 1.600 das 3.000 vítimas vivas da substância. Com seu endereço publicado nos jornais, choveram cartas, narrando novos casos.
A maioria das vítimas da Talidomida estava na Alemanha e na Inglaterra. Nos Estados Unidos, graças a uma mulher, o medicamento (lá chamado de Kevadon), não chegou a causar tantos danos e sofrimentos (não mais do que 20 vítimas). A ser fabricado pela Merrel Co., uma empresa de Cincinati, Ohio (e que ainda hoje é uma das grandes do mercado farmacêutico), não chegou a ser liberado pela Secretaria de Alimentos e Remédios (FDA, sigla em inglês). Apesar das terríveis pressões da indústria, a médica responsável pela aprovação, Dra. Frances Oldham Kelsey, recusou-se a dar o parecer favorável, alegando que as provas de garantias de não havier efeitos colaterais deletérios eram insuficientes. Em agosto de 1961, quando o escândalo veio a público, ela recebeu do presidente John Kennedy a medalha por Destacados Serviços Civis, por reter a aprovação da Talidomida - medalha esta que é uma das mais altas condecorações daquele país.
NO BRASIL - A Talidomida chegou ao Brasil em março de 1958, com os nomes de Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil, Slip. Em março de 1962, o Serviço Nacional de Fiscalização de Medicina e Farmácia proibiu o uso da Talidomida em todo o país, mandou apreender os estoques e cassar as licenças de fabricação. A medida, no entanto, não surtiu lá grandes efeitos pois o medicamento continuou ainda a ser usado durante anos devido à falta de informação da população, do descontrole na distribuição e, sobretudo, graças à omissão do governo e ao poder econômico dos laboratórios. Em 27 de novembro de 1973 foi criada, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Associação Brasileira dos Pais e Amigos das Crianças Vítimas da Talidomida, entidade declarada de utilidade pública.
Nos últimos anos o interesse pela Talidomida trouxe novamente o debate à tona. Conforme alguns testes - ainda não plenamente comprovados - ela teria eficácia na luta contra a lepra, contra a tuberculose e até para aumentar a resistência de pacientes aidéticos. A questão, entretanto, ainda está em aberto. (Pesquisa e texto: Conselheiro X.)
terça-feira, dezembro 17, 2013
O telefone celular, em 1991, era "o mundo no bolso"
Para vocês, que têm vinte e poucos anos, essa época parece inimaginável - alto pré-histórico, talvez. Mas, não faz muito, telefone celular era uma grande novidade, e poucos tinham acesso a ele. Hoje são mais de 200 milhões de aparelhos - e até carroceiros o usam com a maior naturalidade. Garimpando os arquivos, O Felizardo descobriu um exemplar da revista Veja de 8 de maio de 1991. O título era "O Mundo no Bolso", e noticiava a grande novidade que, pasmem, já tinha 3 mil usuários no Rio de Janeiro! - a telefonia celular, ou os "telefones portáteis". O sistema era caro e complicado, como se pode imaginar.
Vamos transcrever algumas partes dessa matéria "jurássica":
"A platéia não entendeu nada. Durante uma sessão do filme Três Solteirões e uma Pequena Dama, em cartaz no Cine Rio Sul, no shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, o toque abafado de um telefone ecoou numa das poltronas do cinema. Um dos espectadores, uma loira elegante, tirou um telefone da bolsa, atendeu a chamada e teve uma conversa rápida com um interlocutor. Era a socialite Aparecida Marinho, 38 anos, ex-mulher de Roberto Irineu Marinho, um dos herdeiros do império da Rede Globo. Aparecida levou ao cinema um telefone celular - um aparelho portátil que se comunica através de ondas de rádio - para conversar com sua filha, Maria Antonia, 13 anos, que não pode ir à matinê com a mãe. "Esse telefone é um estouro. Nunca perco o contato com os meus filhos, e, quando fico presa no trânsito, ganho tempo fazendo ligações", diz Aparecida.
"Os telefones celulares desembarcaram no Rio de Janeiro no final do ano passado e caíram no gosto de 3 000 assinantes na cidade - entre os quais empresários, políticos e colunáveis, que agora fazem ligações de dentro de carros, barcos, aviões, restaurantes ou à beira-mar. Facilitam bastante a vida de seus usuários - mas também fazem sucesso como símbolo de status da estação. (...)
"A vantagem mais óbvia dos telefones móveis - que chegaram aos Estados Unidos há sete anos e contam hoje com 5,3 milhões de assinantes - e que eles acabam com um castigo a que o usuário era submetido, o de ficar preso à mesa de trabalho ou em casa, para dar ou receber um telefonema. Agora, basta levar o telefone celular no bolso. "Ganhei liberdade", explica o executivo Richard Klien, vice-presidente da empresa de navegação Transroll, que comprou um telefone celular. Na semana passada, ele precisou fazer uma viagem a Brasília - e fechou um negócio milionário em pleno ar.
"A vantagem mais óbvia dos telefones móveis - que chegaram aos Estados Unidos há sete anos e contam hoje com 5,3 milhões de assinantes - e que eles acabam com um castigo a que o usuário era submetido, o de ficar preso à mesa de trabalho ou em casa, para dar ou receber um telefonema. Agora, basta levar o telefone celular no bolso. "Ganhei liberdade", explica o executivo Richard Klien, vice-presidente da empresa de navegação Transroll, que comprou um telefone celular. Na semana passada, ele precisou fazer uma viagem a Brasília - e fechou um negócio milionário em pleno ar.
(...) "A grande desvantagem do sistema de telefonia celular no Rio de Janeiro são os preços salgados. Os assinantes têm que pagar uma série de taxas para entrar no sistema. De depósito para a Telerj, é preciso pagar 1167 131 cruzeiros. Depois de dois anos essa caução pode ser devolvida se o usuário desistir da linha. Para comprar um modelo de telefone celular, os preços variam de 250 000 cruzeiros a 600 000 cruzeiros por aparelho. O minuto de uma ligação comum custa menos de 6 cruzeiros. Apesar dos preços salgados, mais de vinte pessoas se tornam usuárias do sistema a cada dia."
domingo, dezembro 15, 2013
O dia de 1938 que os Estados Unidos pensaram estar sendo invadidos pelos marcianos
Além de ator e cineasta genial, Orson Welles protagonizou um dos mais conhecidos episódios de pânico coletivo já registrados nos Estados Unidos.
Foi em 1938, 30 de outubro, data que, nos EUA, é uma espécie de primeiro de abril brasileiro - o dia dos bobos, das brincadeiras e dos trotes. No caso, levava-se ao ar a adaptação do famoso livro de H. G. Wells, The War of the Worlds, "A Guerra dos Mundos", publicado no ano de 1899 e um dos clássicos dos primórdios da ficção científica, narrando a invasão da Terra por seres alienígenas - marcianos, no caso.
Na época acreditava-se na existência de uma civilização marciana e nos famosos "canais" do planeta vermelho. Nesse dia, por volta das 8 horas da noite, a emissora Columbia Broadcasting System, CBS, de Nova Iorque, passou a transmitir ao vivo a adaptação do romance encenada no The Mercury Theatre. Super-realista, muito bem feita, a peça - uma adaptação de Howard Koch - foi tida como um fato verdadeiro, embora vários avisos, antecedendo o programa e mesmo ao longo deste, avisassem que aquilo era apenas ficção. Não adiantou: mal o "Theatre Mercy" iniciou a sua introdução padronizada, tocando músicas de dança, muito ouvidas em hotéis e salões de baile, a música cessou e entrou a voz de um locutor: "Senhoras e senhores, interrompemos a nossa programação de dança para um boletim especial da Intercontinental Rádios News. Aos 20 minutos para as 8 horas, o professor Farrel, do Observatório do Monte Jennings, em Chicago, comunicou haver observado uma série de explosões de gás incandescente a intervalos regulares no planeta Marte. O espectroscópio indica que o gás é hidrogênio e se dirige para a Terra com fantástica velocidade (...)"
Minutos depois, a música seria interrompida novamente para outros boletins, dando conta de que o Governo norte-americano havia solicitado aos observatórios que vigiassem Marte, uma vez que um astrônomo canadense havia confirmado as explosões iniciais e que um abalo, "quase da intensidade de um terremoto", havia ocorrido perto de Princeton. Em breve, as informações se tornaram mais alarmantes: "Informa-se que um enorme objeto flamejante, possivelmente um meteorito, caiu numa fazenda nas vizinhanças do Grovers Mill, Nova Jersey. O rastro de luz no céu foi visto num raio de centenas de quilômetros, e o impacto foi ouvido em Elisabeth, muito ao norte".
O pânico começou a se instalar entre ou ouvintes, que julgavam tratar-se de autênticos boletins jornalísticos, tanto que várias pessoas pegaram seus automóveis e saíram a procurar o local da queda, incluindo aí o próprio diretor do Departamento de Geologia da Universidade de Princeton. O próximo informe era ainda mais alarmante: "O flamejante objeto que caiu do céu não era meteorito, mas um enorme cilindro de 30 metros de diâmetro, semi-enterrado numa cratera. O professor assegura que o cilindro é, positivamente, extraterrestre".
Quando isso foi levado ao ar, os telefones da polícia e dos jornais de inúmeras cidades começaram a estrilar histericamente, com multidões apavoradas perguntando se aquela história era verdadeira - só o Times recebeu 875 chamadas. O mesmo aconteceu com o escritório da Associated Press de Kansas City. As ligações vinham de diferentes cantos do país - Los Angeles, Salt Lake City, do Texas. Algumas pessoas asseguravam ter visto as chamas e um velhinho, vestindo apenas pijama, correu para a casa do vizinho, dizendo "não querer morrer sozinho."
Em bando, congestionando todas as vias de saída da cidade, os nova-iorquinos amontoavam-se em seus carros para fugir da "invasão marciana". Alguns homens se ofereceram para lutar e "expulsar" o invasor e uma mulher tentou o suicídio ingerindo veneno - só não conseguiu pois o marido conseguiu tomar-lhe os comprimidos das mãos. Em algumas localidades do Alabama o povo se reuniu para rezar e centenas de médicos e enfermeiros se apresentavam para prestar serviços. Pessoas com crises nervosas, muitas delas em estado de choque, baixavam os hospitais - somente na localidade de Newark foram 15.
Nessas alturas o monstro marciano já tinha mostrado a sua cara e já fazia estragos incríveis. Conforme o programa "a batalha que teve lugar esta noite terminou com a nossa derrota (era a voz de um capital do Exército) (...) Sete mil homens esmagados pelos pés de metal do monstro ou reduzidos a cinzas pelo raio quente. (...) O monstro domina a parte central de Nova Jersey (...) As estrada para o norte, para o sul e para o oeste estão congestionadas pelo tráfego humano".
O invasor marciano era mesmo de aparência apavorante - uma espécie de serpente cinzenta, se arrastando sobre tentáculos, a boca em forma de V, "com as salivas pingando dos lábios sem borda, que parecem tremer e pulsar."
Orson Welles, apesar de já conhecido em seu País, ganhou notoriedade mundial com o episódio da "invasão dos marcianos". Ele contava apenas 28 anos de idade e ainda não havia feito o seu célebre filme - Cidadão Kane, de 1941. De qualquer forma a "invasão alienígena" de 1938 mostrou a que ponto as pessoas são influenciáveis e, de certa forma, como isso é contagioso. (Pesquisa: Conselheiro X.)
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