sexta-feira, fevereiro 23, 2018

As impressões elogiosas de uma turista paulista em visita a Porto Alegre de 1954

Quem anda pelas ruas de Porto Alegre hoje se depara com um quase completo abandono - mato crescendo e tapando as calçadas, telefones públicos depredados, prédios pichados, sujeira em todas as vias, sem contar a presença de moradores de rua, pedintes, viciados em crack, assaltantes e motoristas agressivos. Em 1954, porém, uma turista vinda de São Paulo escreveu uma carta ao jornal Correio do Povo relatando as suas impressões sobre a capital dos gaúchos, quase todas enaltecedoras e elogiosas (à exceção dos nomes de praias, que considerou plágios de mau gosto, e ao "tráfego desordenado"). Ela gostou sobretudo do Parque Farroupilha, dos edifícios públicos e da beleza da nossa gente. À parte esse último item, o resto, tudo indica, desapareceu miseravelmente nestes tempos em que até o funcionalismo público municipal está com os salários atrasados. 

O candidato a deputado estadual Leonel Brizola comunica aos seus eleitores

1950 foi um dos mais movimentados anos da política brasileira, com as eleições gerais - presidente, governador, deputados e senado - que aconteceram a 3 de outubro, reconduzindo Getúlio Vargas ao poder, desta vez pelo voto popular. Naquele ano, de grande polarização, o jovem engenheiro Leonel Brizola, do Partido Trabalhista Brasileiro, PTB, de apenas 28 anos, tentava o seu segundo mandato como deputado estadual no Rio Grande do Sul, o que conseguiu ao obter mais de 16 mil votos. Recém casado com Neusa Goulart, irmã de João Goulart, radical e candente em seus discursos, Brizola certamente não imaginava que se tornaria um ícone da cena política brasileira, gerando amores e ódios quase em igual proporção. Neste anúncio, publicado no Correio do Povo, meses antes do pleito, o candidato avisa sobre as "chapas" em seu nome - na verdade cédulas que iriam ser depositadas nas urnas, como era a sistemática adotada então. Note-se que há um erro de português: "obitidas".
Tacho, no jornal NH, de Novo Hamburgo, RS. A Charge Online.

quinta-feira, fevereiro 22, 2018


quarta-feira, janeiro 29, 2014


Everaldo Marques, o tricampeão mundial de futebol que virou uma estrela dourada na bandeira do Grêmio e um dos maiores ídolos tricolores


A morte de Everaldo e familiares chocou o Rio Grande do Sul naquele final de outubro de 1974. Um ano e meio mais tarde a família Marques foi vítima de outra tragédia: Sidnei, irmã do jogador, jogou-se do alto do edifício da Renner, durante o incêndio que matou mais de 40 pessoas em abril de 1976.



Pesquisa e texto: Vitor Minas


    Às 22h30min de 27 de outubro de 1974, domingo, o ex-lateral esquerdo do Grêmio e tricampeão mundial de futebol pela seleção brasileira na Copa de 1970, no México, Everaldo Marques da Silva, colidiu seu automóvel Dodge-Dart contra a traseira de uma carreta Mercedes-Benz carregada com 24 toneladas de arroz e com placas de Santa Maria. Ou melhor - não colidiu, foi colidido. 
   Muito popular em todo o Estado, homenageado e paparicado depois da Copa (negro em um clube e em um Estado considerados racistas, foi o único representante gaúcho no selecionado), Everaldo havia, na prática, encerrado a carreira nos gramados e fazia então campanha eleitoral para eleger-se deputado estadual nas eleições de 15 de Novembro de 1974 pela Aliança Renovadora Nacional, ARENA, partido governista.

    Conduzido ainda com vida ao Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, faleceu a caminho – com ele morreram sua esposa, Cleci Helena, e sua filha Deise, de apenas três anos. Cleci teve morte instantânea – foi arremessada para fora do carro. No dia 3 de maio, também um domingo, morreu a irmã de Everaldo, Romilda, totalizando quatro vítimas fatais. O acidente aconteceu em uma grande reta, na altura do quilometro 43 da BR-290 (Porto Alegre-Uruguaiana), município de Cachoeira do Sul.  Tripulado por sete pessoas – Everaldo, Cleci e Deise e a filha mais velha, de seis anos, Denise, a irmã do jogador, Romilda, o tio Jardelino e a cunhada Maria Madalena Pereira da Silva, o carro havia sido presente de uma concessionária de Porto Alegre pelo tri conquistado no México.

   Apesar de todos, no calor do momento, culparem o caminhoneiro Vergilio Broglio (que se confessou “um gremista doente”), de 48 anos, motorista do Mercedez, residente em Santa Maria e que seguia em direção a Porto Alegre, constatou-se que Everaldo, cansado e na pressa de chegar logo a Porto Alegre, dirigia em alta velocidade (cerca de 160 km por hora, segundo apurou a perícia). Já o caminhoneiro não calculou corretamente a manobra de saída do restaurante e posto de gasolina “Constante”, retornando bruscamente à rodovia – ele também não prestou socorro às vítimas e, segundo testemunhas, tentou fugir do local do acidente, sendo interceptado por outro carro que o perseguiu. A rodovia, à época, apresentava pistas em bom estado e era bem iluminada.

   O campeão mundial tinha ido a Cachoeira participar de um jogo dos veteranos do Grêmio contra a equipe de um ginásio local dos Irmãos Maristas – os veteranos venceram por 6 a 3, Everaldo teve uma participação discreta, mas, sem dúvida, foi o responsável pelo bom público pagante. Ele chegou com a família em seu Dodge amarelo (os demais jogadores vieram de ônibus fretado), distribuiu santinhos da sua campanha, deu autógrafos, posou para fotos e, no início da noite, participou de uma confraternização.  Na saída, Loivo – jogador do Grêmio que o apoiava no corpo-a-corpo político - gritou-lhe do interior do seu Chevette: “Nos encontramos em Minas do Butiá pra tomar uma champanha!”.

   Apesar de já não estar mais relacionado entre os titulares do Grêmio ele ainda mantinha contrato de trabalho com o clube (ganhava 15 mil cruzeiros mensais). Havia, inclusive, acertado com os dirigentes a realização de um jogo de despedida, igualmente comemorativo dos seus 15 anos de casa, marcado para julho do próximo ano. No sábado – lembraram depois seus colegas e amigos – Everaldo ainda esteve no Olímpico, participando de trabalhos físicos e treinamentos leves.

   Surgido no Grêmio ainda criança, ele assinou seu primeiro contrato com o tricolor em janeiro de 1961, na categoria infantil - era alto, magro e canhoto no chute. Everaldo foi campeão estadual em 66, seguindo-se os títulos de 67 e 68 (o hepta tricolor). De junho de 1965 a outubro de 1966, esteve emprestado ao Juventude de Caxias do Sul.  Foi convocado para a seleção de 1970, sem nenhuma garantia de ser titular, o que acabou de fato acontecendo graças, sobretudo, à sua aplicação tática e ao seu jogo simples, discreto e eficiente. Na definição do seu ex-técnico Carlos Froner, “era um jogador que crescia de acordo com a importância da partida”. Era também considerado um atleta viril, mas leal em suas disputas, o que lhe valeu o prêmio disciplinar Belfort Duarte da Confederação Brasileira de Desportos.

   Naquele domingo à tarde, no Olímpico, o time da casa, treinador por Sérgio Moacir, havia vencido a equipe do Caxias por 1 a 0, gol de Dionísio. O ataque gremista, formado por Luis Freire, Iúra, Tarciso e Bolívar, teve grandes dificuldades para superar a retranca grená.

   Em meio à grande comoção, Everaldo foi enterrado no cemitério João XXIII, junto com a mulher e a filha – coincidência ou não, o local havia sido campo do Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre. Mais tarde, em homenagem ao jogador, o Grêmio inseriu uma estrela dourada em sua bandeira oficial.

2 comentários:

Charles CO disse...
A estrela foi inserida na Bandeira em 1970.
vieiraadriano91 disse...
sim a estrela inserida em 70 e o pórtico na entrada do olimpico construido em 1971
tambem em homenagem ao tricampeonato da selecao conquistado poe ele
Nani em Nani Humor. A Charge Online.

sexta-feira, agosto 15, 2014

Portais de notícias agridem o leitor com erros crassos

Vitor Minas
   
Não é de hoje que tenho observado os disparates, leviandades, desleixos e erros crassos que acometem esses grandes portais de notícias da Internet. Tudo bem que a informação on-line é obviamente  instantânea, e isto não é o mesmo que escrever para uma revista semanal, mas é indesculpável que o sujeito (no caso o jornalista ou redator) ao menos não faça a revisão básica do que escreveu há pouquinho e que afinal será lido por milhares de pessoas em todo o Brasil e até fora dele. 
   Hoje, sexta-feira, 15 de agosto de 2014, consta este título no portal UOL, um dos mais lidos da rede, e que trata de um jogador chamado Aloísio Chulapa, o qual estaria encerrando a carreira nos campos de futebol. Pois o título da matéria é o seguinte, ipsis literis: 
   "Idolo do São Paulo"
   "Aloísio Chulapa, 39, encerrará carreira em casa e regular cerveja".
   Confesso que não entendi nada, nihil, principalmente o tal "regular cerveja".
  Esse tal portal UOL, que tem muitas coisas boas, precisa urgentemente de um editor.. Se tem um, não trabalharia no meu jornal: "Encerrará carreira". 

sábado, agosto 23, 2014


Getúlio, ou me engana que eu gosto

Vitor Minas

A Globo anunciou que irá passar amanhã, domingo, 24 de agosto, data da morte de Getúlio Vargas em 1954 - portanto, há 60 anos - o filme "Getúlio", que aliás já foi exibido nos cinemas.
Bom,  não vi e não pretendo ver a tal grande produção. Antecipadamente, tenho a quase certeza (só falta o quase) de que é mais uma dessas produções caça-níqueis do cinema nacional, idealizada e boladas para pegar uma grana preta de grandes patrocinadores, via isenção fiscal e essas coisas. Algo parecido com o filme do Lula, com o do Chico Xavier, etc. O diretor eu não conheço mas um filme que tem Toni Ramos como Getúlio e um tal Alexandre Borges como Carlos Lacerda chega a ser risível. Nem é por serem da Globo mas porque, sobretudo no caso do galã Borges, não são bons atores. Borges, no caso, é casado com uma boa atriz, mas ele, como ator, é um canastrão de marca maior. Só perde para aquele cara que foi namorado ou marido da filha da autora de novelas e que foi barbaramente assassinada no início dos anos noventa.
Por essas e outras o cinema brasileiro, de um modo geral, é isso que está aí: picaretagem, ou quase isso, para ser generoso. Aqui no Rio Grande do Sul fizeram um filme sobre a revolução farroupilha, também com atores globais, com muita grana de patrocínio, que é sempre o grande objetivo. A gauchada foi em peso ver a película, que enaltecia a "fibra guerreira" do gaúcho, patente em uma revolução pra lá de questionável e que só atendia os latifundiários (não me chamem de esquerdista, que não sou mesmo, mas é verdade). O ator, também galã da Globo, é somente galã e não um ator propriamente dito. Mas nós, gaúchos - que somos historicamente parvos nisso tudo e perfeitos otários quando se trata de nos engambelarem com ufanismos e elogios farrapos - fomos lá e compramos ingressos nos cinemas. Nós quer dizer eles. Por acaso vi esse povo sair do cinema aqui perto, alguns com cara de decepção, outros bradando, orgulhosos: "Nós somos de fato aquilo tudo!"  Nos dois casos, eles merecem: ao contrário do que dizia o tal Chico Xavier, o mundo é mesmo dos muito vivos. Me engana que eu gosto. E o Millor, hein?, com seu espiritismo cardecista: cada vez mais os vivos são governados pelos muito vivos...

quarta-feira, julho 12, 2017


Posso dar descontos às mulheres, sim senhor

Vitor Minas

Desde que eu me conheço por gente, se é que me conheço, as mulheres pagam menos em festas noturnas, bailes, boates, o que é uma centenária forma de atrair os homens, que sempre tiveram mais dinheiro que elas - isso, claro, em um tempo em que as chamadas damas não eram independentes e dependiam quase totalmente dos machos. Como se sabe, ou se sabia, mulher atraí os homens, ao menos a maioria, que gastam com elas, gerando uma boa corrente de lucro.
Pois agora alguém entrou com uma ruidosa ação judicial, pedido que isso acabe, que se considere tal coisa como discriminação, o que, a rigor, é mesmo. E aí um juiz de direito acata o pedido e, num canetaço, ordena que a partir de agora, em todo o Brasil, a mulher haverá de pagar o mesmo que o homem, e ponto final. Não descobri qual é a punição, ou se ela existe (acho que na prática não existe, que o que vai dar é só muito bolo na portaria).
Para os homens é ótimo, e parece que a maioria das mulheres também acha (pelo menos da boca pra fora), à exceção das bonitinhas e pobres, que não têm dinheiro mas querem se divertir, gastando pouco, quando gastam - mas essas não foram entrevistadas pelos repórteres. Vi na tevê várias moças, todas de classe média, dizendo: "É isso mesmo, é justo, tem que pagar a mesma coisa que o homem!"
O que eu não vi nenhum veículo de imprensa ou da mídia foi questionar por que o Estado tem que se intrometer numa questão dessa, que diz respeito unicamente à iniciativa privada, aos donos de casa noturna, que estão ali ofertando um serviço, que são donos e soberanos em seus estabelecimentos. De repente surge uma medida judicial e diz que o desconto para o belo sexo é, a partir de agora, proibido e estamos conversados.
Penso o seguinte: qualquer comerciante tem o direito de dar descontos a qual categoria ou gênero quiser, seja mulher, homem, gay, transformista, anão albino, professor de história grega, aprendiz de tipógrafo, escritor primitivista, pós graduado em sânscrito, estudante, policial, militar, bombeiro, deficiente físico, sonâmbulo, portador do vírus da hepatite C, afro-brasileiro, boliviano, torcedor do Anapolina, do Grêmio, vegano, carnívoro, vegetariano etc. Por acaso não há, faz tempo, descontos para estudantes e professores? 
Então, meu amigo? Se eu fui salvo de um incêndio por um bombeiro e quero retribuir isso dando desconto de 50% a ele e sua família em minha casa noturna, qual é o problema? Será que o governo (a Justiça faz parte), que no Brasil se intromete em tudo e em todos, tem o direito de dizer que isso é ilegal, que não posso adotar tal atitude dentro do meu estabelecimento, sendo que já pago impostos e tudo o mais, recebendo, aliás, muito pouco em troca?
Acho que não, acho que o empresário, seja ele qual for, pode fazer isso sim. Que os outros, os consumidores, não gostem, rosnem, reclamem, prometam nunca mais voltar, isso é problema deles - que procurem outro local e se acalmem. Se eu quiser dar um bom abatimento para anões pernetas ou domadores de leões, será que não posso fazê-lo? 
Posso sim, no meu preclaro entendimento. Quanto ao Governo, ao Sistema, esse enxerido, que vá cuidar de coisas mais importantes, como, por exemplo, vistoriar essas casas noturnas e ver se estão com os sistemas de segurança contra incêndio em dia e se os banheiros têm a mínima condição de higiene. O resto é intromissão, abuso de autoridade. Já chega a tal proibição de saleiros nas mesas na hora do almoço, supostamente para preservar a saúde da população brasileira, essa mesma que morre nas filas de emergências dos pardieiros públicos e não tem a tal Justiça a seu favor. 

sábado, outubro 17, 2015


Na morte de Miéle, ninguém lembrou de Sandra Bréa

A morte de Miéle, aos 77 anos, como destacaram, em clichê, todos os telejornais, me fez pensar em outra figura emblemática da minha adolescência e início de juventude, naqueles anos setenta: Sandra Bréa. Notei que todos - absolutamente todos - os canais que noticiaram o fato, lamentando o falecimento desse cara que sempre teve a mesma cara (é espantoso como sempre se pareceu fisicamente consigo mesmo, ao longo de décadas, da juventude à velhice), deixaram de falar naquela que foi a musa da sensualidade, o objeto de desejo masculino, a mulher invejada por outras mulheres, não só nos anos setenta como nos oitenta. Quando se via a bela Brea, imediatamente se pensava e se sentia: sexo, desejo, tesão.
Miéle fez um programa na Globo, na segunda metade dos anos setenta, chamado "Sandra e Miéle", em que os dois, em parceria e sintonia, dividiam a apresentação, ela com sua beleza, ele com seu talento. Não recordo bem como era o programa, até porque o tempo passou e meu Alzeimer evoluiu, mas achei no mínimo um lapso, para não dizer uma injustiça, sequer citarem o programa que ele, Miéle, fez com Sandra. Aliás, a imagem dela aparece somente ampassã, de longe, sem identificação, e fica-se por aí mesmo. Brea sequer é citada em algum momento.
Sandra Bréa, como se sabe - ou não se sabe mais - morreu de Aids, uns quinze anos atrás, pobre e abandonada. Foi capa de todas as revistas, e a imprensa usou muito a sua imagem para vender seu peixe e atrair leitores. Não deixou filhos, parece. Oficialmente, morreu de câncer, pois fumava muito, e a imunodeficiência não perdoou. Mais no final da sua curta vida (morreu antes dos cinquenta) foi casada, ou viveu, com o empresário gaúcho Artur Guarisse, também já falecido - aliás, dizem que foi ele que pagou os funerais da atriz.
Não conheci Sandra Bréa, não posso falar sobre ela além do que vi na telinha. Mas sei que foi uma das mulheres mais desejadas do país, certamente ganhou muito dinheiro, viveu uma vida holiudiana - e acabou pobre e quase esquecida. Posso estar sendo sentimental, mas acho que a Globo, a mídia e a imprensa não deveriam esquecê-la assim tão deliberadamente, enquanto se dedicam à vida amorosa de uns tais Chumbinho e Joelma. Também lembro do caso da Vanja Orico, atriz de talento, mulher culta, uma celebridade nos anos cinquenta com o filme O Cangaceiro (o primeiro premiado brasileiro no circuito internacional, com uma fotografia espetacular e uma trilha sonora idem), que morreu recentemente, e não li uma mísera linha em lugar nenhum. (Vitor Minas)

Eneida Serrano, a fotógrafa autodidada


Foto de Eneida Serrano.Republicação. Matéria de Coletiva.net, portal jornalístico, em 29 de janeiro de 2009. Com autorização.

Porto-alegrense, mãe de dois filhos e casada há 31 anos com o músico e arquiteto Cláudio Levitan, Eneida mora no bairro Petrópolis, onde também tem seu estúdio fotográfico. Nasceu em 8 de março de 1952, e da infância na casa dos pais, na Rua Dr. Timóteo, guarda boas lembranças das brincadeiras e atividades que dividia com um irmão. Entre tantas boas lembranças, uma se destaca: as idas para a praia de Atlântida, onde passou muitos verões em família.
Com a atenção voltada sempre para muitas direções, Eneida conta que a escolha pela arte de comunicar foi uma opção casual, surgida após o término do Clássico (o que hoje seria equivalente ao Ensino Médio, mas voltado para a área das Humanas). Ao escolher a profissão de jornalista, seu intuito era aproximar-se da escrita, mas a oportunidade de ter uma câmera (a primeira foi uma Minolta RSC101) e um laboratório fotográfico em casa foi decisiva na paixão pela fotografia. Autodidata, conta que a opção se deu de forma gradual. “Eu fui fotografando e gostando da avaliação que fazia. Virava noites no meu laboratório, revelando”, recorda, com saudades. Formada pela Ufrgs, em 1974, os primeiros trabalhos que lhe renderam alguns trocados foram pôsteres de meninas da Capital.
Projetos
No currículo, a profissional pode destacar os diversos trabalhos de fotojornalismo que realizou para veículos como Veja, IstoÉ e Marie Claire. Atuou também em campanhas corporativas, perfis de empresas, relatórios anuais, catálogos e peças publicitárias.
Atualmente, dedica-se a projetos que valorizam mais o seu entorno. Recentemente, desenvolveu a exposição Interiores (2007), onde mostrou em detalhes o espaço interno de casas coloniais típicas do Rio Grande do Sul. Publicou também um livro sobre o premiado fotógrafo amador Luiz do Nascimento Ramos, o Lunara, que fez muito sucesso no início do século XX. O trabalho de pesquisa a colocou em contato com recordações da família do artista, e a publicação da obra foi uma espécie de compromisso histórico. Outro importante projeto do qual participou foi o livro Brasil - De 1500 a 1999. No dia 22 de abril de 1999, ela e outros 99 profissionais receberam pautas sobre lugares representativos da cultura brasileira. Foi no interior do Amapá que, entre outras imagens, Eneida capturou a cena que veio a ser a capa do livro: uma parteira mestiça segurando uma criança branca. “Esse contraste de raças é marca do Brasil”, registra, recordando as palavras da editora da publicação.
Dos interiores às paisagens; das pessoas ao patrimônio histórico; do ninho de passarinho no seu quintal aos produtos em estúdio, Eneida não tem preferências na hora de fotografar. Gosta de tudo! “Gosto de colocar música e passar horas sozinha, estudando a luz e encontrando um universo num microespaço”.
Seus momentos de lazer incluem nadar, ver filmes de Woody Allen e curtir a sonoridade do uruguaio Jorge Drexler. E lê muito para se distrair, buscando na filosofia do escritor suíço Alain de Botton e em outros autores as inspirações para seu cotidiano. Como boa fotógrafa que é, gosta de viajar – “para exercitar um olhar diferente da realidade”. Em sua última grande viagem, foi a Londres, com a expectativa de quebrar um pouco a rotina de trabalho. Visitou os filhos Lucas e Karina, que moram na capital britânica, reencontrou amigos em New Castle (cidade onde morou durante o mestrado do marido, entre 1979 a 1981) e praticou um jeito diferente de ser fotógrafa - já que, quando viaja, está acostumada a trabalhar 24 horas por dia.
Londres, por telefoneMesmo com seu excelente equipamento na bagagem – uma Nikon D300, o último flash e um bom tripé –, Eneida apostou na mobilidade e decidiu registrar os seus 40 dias na capital britânica pela câmera do celular. A proposta fotográfica veio ao encontro da idéia de um roteiro mais leve, despreocupado e dinâmico. “Essa viagem foi decisiva e importante para mim. Me fez pensar diferente, parar um pouco o trabalho e fotografar de forma mais descontraída”. O resultado pode ser visto em Londres, por telefone, trabalho que reúne imagens do dia-a-dia de uma turista mais atenta ao percurso do que ao destino final.
Ainda em montagem, a mostra é inspirada no livro A Arte de Viajar, de Botton, onde Eneida aprendeu que o meio do caminho pode ser tão interessante quanto os monumentos, museus e locais turísticos. “A viagem é também feita pela chuva, metrô, anúncios, chão, casas. Se a gente não incluir essa parte nos planos, pode resultar em muitos desapontamentos”. Inspirada no livro, ela acredita que a expectativa deve ser colocada em todas as etapas da viagem, não apenas nos pontos de chegada.
A dificuldade encontrada na limitação do equipamento tornou-se um estímulo para a busca de um olhar ainda mais original. “Sem o compromisso de fazer uma coisa maravilhosa, eu fiz a coisa maravilhosa, aliando relaxamento ao registro”, explica, acrescentando que a foto é também o reflexo de um momento pessoal. De seu acervo, foram selecionadas 80 imagens, das quais algumas serão impressas “para uma exposição despretensiosa, com leitura linear e rápida, uma ao lado da outra e sem moldura”.
Rotina pautada pela luz
Levada pelo interesse na claridade matinal, Eneida revela-se uma exímia madrugadora. “É a luz do amanhecer que mais me emociona e mais resultado dá”. Quando o assunto é a definição de características pessoais, reconhece que tudo gira em torno de um ponto de equilíbrio, mas que vez ou outra as próprias qualidades acabam transformando-se em defeitos. “De tão dedicada e persistente, acabo parecendo teimosa e obcecada”, analisa.
Aos 56 anos, mostra-se uma entusiasta com a vida e faz questão de não priorizar nenhum momento específico de sua carreira, já que todos agregaram muito aprendizado. “Cada etapa teve a sua importância, e para cada uma eu olhei com muito interesse”. O grande desafio? Para ela, cada dia que nasce representa uma nova busca, com o desafio de fazer algo muito importante. “Acho que, de tudo isso, depreende-se meu entusiasmo por qualquer coisa”, diverte-se, quando a entrevista vai chegando ao fim.
Escola da VidaLeitora atenta e curiosa, Eneida cita o romancista norte-americano Philip Roth como outra de suas preferências literárias. “Gosto de romances que misturam ficção e realidade. Você sabe que o que está lendo não é verdade, mas se sente envolvido, porque a realidade é a nossa interpretação, a forma como se vê”, filosofa.
Contudo, é a Botton que Eneida refere-se como um guru. Com o objetivo de aplicar aquilo que lê, a fotógrafa se baseou em outro livro do escritor para transpor teoria em prática. Em As consolações da filosofia (2000), conheceu a expressão Escola da Vida, movimento que ensina como aplicar o conhecimento ao cotidiano para resolver pequenos conflitos.
Em solo inglês, procurou conhecer pessoalmente os participantes do grupo, inclusive o mestre, e impressionou-se com o que viu. O local, segunda ela, vende idéias, cursos e palestras, com “a proposta de dizer não à erudição e descobrir mais soluções práticas por meio dos ensinamentos da filosofia, história, política”. Para quem considera o conceito mais um produto do mercado de auto-ajuda, Eneida defende que a Escola é algo muito mais oportuno do que oportunista. “Nós precisamos saber o que os outros já pensaram para resolver suas angústias e nos apropriar dessas soluções”, concluiu.
Para aumentar sua bagagem cultural e profissional, a filósofa das imagens busca no conteúdo dos livros e nas experiências de seu dia-a-dia o foco certo para enxergar com mais beleza as atrações do meio do caminho. Questionando até mesmo o próprio ponto de vista, está sempre alerta na busca pela luz ideal. 

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Neste 21 de fevereiro de 1917 nascia Luz Del Fuego, a naturista e existencialista que chocou os conservadores da época


Hoje ela é pouco lembrada, até esquecida, mas nos anos quarenta e cinquenta uma mulher rica, culta e bonita chocava a sociedade conservadora da época com a sua nudez e o seu "naturismo" - a defesa de um estilo de vida natural que não excluía a luz dos holofotes e shows por todo o Brasil e até exterior. Nascida em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, com o nome de Dora Vivacqua, filha mulher de uma família capixaba rica e tradicional, a 21 de fevereiro de 1917, ela estaria hoje completando 101 anos. Mas Luz del Fuego - nome artístico que adotou - foi assassinada no seu paraíso naturista, na Baía de Guanabara, em 19 de julho de 1967, aos 50 anos, juntamente com seu caseiro, sendo os dois corpos lançados ao mar. Os assassinos eram pescadores e pretendiam roubar a propriedade.  
Apresentando-se nua, com uma grande serpente enrolada em seu corpo, Luz Del Fuego foi considerada uma "ameaça à sociedade" do seu tempo. Existencialista, defendia os direitos da mulher, a liberdade sexual e a livre expressão e denunciava os preconceitos sociais. Escreveu dois livros e foi tema de um documentário de 1954, A Nativa Solitária. Estranhamente poucos hoje lembram dela como uma das precursoras dos direitos da mulher - no mínimo uma grande injustiça. A reprodução é do Correio do Povo de maio de 1950, quando a musa existencialista tinha 33 anos.

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Charge de Myrria, em A Crística, Manaus, AM. A Charge Online.

A maior tragédia da aviação brasileira da primeira metade do século XX aconteceu no Rio Grande do Sul em uma chuvosa noite de sexta-feira

A beleza de Lígia Dorneles Franciosi

Morro do Chapéu: palco da tragédia que abalou o Rio grande, há 58 anos. Nas fotos abaixo, um modelo Constellation, igual ao que se acidentou em 28 de julho, e uma das vítimas: Lígia Dornelles Franciosi. . E Brasiliano de Moraes, uma das vítimas, hoje nome de avenida em Porto Alegre. E, no álbum familiar, a menina Nora Helena com uma irmã e a mãe - ela tinha um diário. O acidente foi a maior tragédia aérea brasileira na primeira metade do século XX, conforme noticiou o Correio do Povo. Acima, reproduções do Diário de Notícias.
O Constellation, com quatro motores, tinha forma de golfinho e era considerado o mais belo, elegante e seguro avião da época. Depois surgiram os Super Constellation, com mais de 100 lugares a bordo.






Vitor Minas, exclusivo para o Conselheiro X.
* Fonte de pesquisa: Correio do Povo, Diário de Notícias, O Cruzeiro e Folha da Tarde.

No dia 28 de julho de 1950, uma sexta-feira chuvosa em Porto Alegre e região, um “pavoroso acidente” aéreo, como noticiaram os jornais, enlutaria a Capital gaúcha: a queda do Constellation da Panair do Brasil matou 51 pessoas, quase todas pertencentes à “nata da sociedade” porto-alegrense. Morreram nomes como Maisonave, Berta, Darrigo, Aita, Blessmann, Rothfuchs, Zaducliver, Dietrich, Fernandes, Frota. Morreram industriais, comerciantes do “alto comércio”, senhoras que freqüentavam colunas sociais, importantes funcionários públicos, políticos – alguns dos quais são hoje nome de ruas e avenidas. Menos de dois dias depois, na noite de domingo, outro desastre aéreo chocaria o Rio Grande do Sul e o Brasil: a morte do senador Salgado Filho, no domingo, matando dez pessoas. Salgado, candidato ao governo do Estado nas eleições que se avizinhavam, seguia para a fazenda do Itu, em Itaqui, onde se encontraria com Getúlio Vargas - eleito presidente nas eleições daquele ano, desta vez pelo voto direto. As bruxas estavam soltas nos céus do Rio Grande.
A tragédia do Constellation – o mais luxuoso avião de carreira de então – consternou uma cidade de cerca de 400 mil habitantes cujo aeroporto de São João não passava de um simples campo de pouso que recebia, entre embarques e desembarques, 16 mil pessoas ao mês, com um movimento de menos de mil aeronaves. Mesmo assim era o terceiro aeroporto mais importante do país. O acidente da Panair mostrou a precariedade de suas instalações e tornou flagrante a necessidade de um novo “aeródromo”.
Foi a maior tragédia aérea daquela primeira metade do século XX no Brasil. Para nos situarmos no tempo: 1950 foi um ano agitado na política nacional, o ano das eleições que reconduziram Getúlio Vargas ao Catete, na então Capital Federal, a “Cidade Maravilhosa”, o Rio de Janeiro, onde o general Eurico Gaspar Dutra ainda governava. A campanha eleitoral estava iniciando naquele mês de julho e somente em agosto Gegê faria o seu primeiro comício em Porto Alegre, vindo da Fazendo do Itu, o seu retiro depois que fora apeado do poder. O governador gaúcho era Walter Jobim, cujas obras de eletrificação se tornaram vitais para a modernização do Estado. O prefeito, Ildo Meneghetti, mais tarde se tornaria governador. Em São Leopoldo, Mário Sperb comandava a municipalidade. Já o noticiário internacional descrevia o início da Guerra da Coréia, com o avanço dos coreanos do norte sobre o sul, derrotando as forças norte-americanas que apoiavam o regime sulista. A Guerra Fria estava no seu auge, e temia-se até mesmo um confronto nuclear com a Rússia.
Em julho, porém, o futebol era o principal assunto – a primeira Copa do Mundo depois do final da Segunda grande Guerra aconteceu no Brasil e, em junho, havia sido inaugurado o maior estádio do mundo, o Maracanã, palco de uma outra tragédia – a derrota do Brasil para o Uruguai e o choro de toda uma nação. Para o Rio rumaram milhares de pessoas, a fim de assistir os jogos e curtir as delícias de uma cidade ainda encantadora, com suas belas praias e agitada vida noturna. Bem mais modesta, Porto Alegre ainda tinha “footings” na rua da Praia, automóveis Buick e Studebaker e muitos cinemas no centro e nos bairros. Naquele dia, por exemplo, as páginas do Correio do Povo anunciavam para segunda-feira a estréia das películas “Traidor”, com Robert Taylor e Elisabeth Taylor, no cine Carlos Gomes, e “Beijou-me um bandido”, em “technicolor”, com Ricardo Montalban, Ann Miller e Cid Charisse, este no Imperial, a “mais luxuosa casa de espetáculos”, na rua da Praia.
Em uma época em que não havia estradas pavimentadas, e a BR-101 não existia nem mesmo em sonho, viajava-se de navios – uma viagem longa, que demorava dias. Ou então de avião, de preferência na Panair do Brasil, a maior e melhor companhia aérea de então. Viajar para o interior do Estado também não era uma tarefa fácil. Os ônibus percorriam estradas carroçáveis, atolavam com freqüência e demoravam dolorosas horas para chegar aos seus destinos. A empresa leal anunciava sua viagem de Guaporé a Porto Alegre com “saídas às segundas e quintas-feiras, às 10h15min”, “viagens em modernos ônibus tipo Gostosão”.
SEXTA-FEIRA CHUVOSA – Na sexta-feira, 28 de julho de 1950, chovia insistentemente em Porto Alegre e região, um tempo ruim que era agravado pelo nevoeiro em determinadas regiões. No Rio de Janeiro, o Constellation de prefixo PP-PCG da Panair deveria partir às 9h30min com destino à Capital gaúcha, uma viagem de de três horas, sem escalas, duas vezes por semana - terças e sextas - até o chamado aeroporto da Air France, em Gravataí, o único em condições de receber aeronaves desse porte.
No início da manhã, no entanto, os passageiros foram comunicados que o embarque só aconteceria pela tarde, não explicando exatamente os motivos. No comando da aeronave estava o comandante Eduardo Martins de Oliveira, o célebre Edu, uma conhecida figura da sociedade carioca que integrava o não menos célebre Clube dos Cafajestes criado por Carlinhos Niemayer. O Clube se notabilizava por suas extravagâncias boêmias, pela vida “dissoluta” e pelas bebedeiras homéricas em que seus membros pregavam peças memoráveis uns nos outros – e em qualquer outra pessoa também.
O comandante Edu pilotava uma aeronave que fez história na aviação mundial. O Constellation, movido a hélice, com quatro motores, foi fabricado pela empresa Lockheed da Califórnia, tanto para fins civis como militares. Aeronave presidencial do presidente Eisenhower, foi o primeiro avião pressurizado de grande uso, distinguindo-se também pelo conforto, o que fez com que fosse adquirido por companhias como a Pan American, a Air France, a Lufthansa, a Varig, a Real, entre outras. Externamente tinha a forma graciosa de um golfinho.
Quanto à Panair do Brasil, notabilizou-se como uma das empresas pioneiras na aviação comercial brasileira, a qual dominou durante décadas. Pertencente à companhia Pan American, aos poucos foi sendo vendida a empresários brasileiros. Deixou saudades, até o seu término, em 1965, inspirando inclusive uma música cantada por Elis Regina: “A primeira Coca-Cola, me lembro muito bem, foi nas asas da Panair”. A canção é de Milton Nascimento e Fernando Brandt. A Panair acabou durante o regime militar, aparentemente uma conspiração comercial capitaneada por figurões do regime e pele direção da concorrente Varig.
No dia anterior e na manhã daquela sexta-feira, 28, uma das passageiras do Constellation, a menina Nora Helena Fernandes, de 14 anos, aluna do colégio Bom Conselho – que retornava com toda a sua família das férias no Rio – escreveu em seu diário: “Dia 27 – Foi o dia mais formidável do mundo. Fiz passeios, apreciei pela última vez a maravilhosa viagem que fiz a esta encantadora cidade, e aprontei as malas para voltar ao Rio Grande e rever minhas amiguinhas. Estou louca de saudade.”
“Dia 28 – Hoje é a viagem de volta. A saída estava marcada para as 8 horas da manhã, levantamo-nos às 6h30min, porém às 7 horas fomos avisados de que o avião só sairia às 13 horas. O vovô fez tudo o que pôde para conseguir passagem no Constellation, mas mesmo apesar da “boa vontade” dos serventes da Panair nada foi possível fazer, de sorte que ele teve que ficar no OK.”
“Às 13 horas recebemos novamente aviso de que o avião só sairá às 14 horas.”
Mais tarde, escreveu ainda em seu diário, já dentro do avião: “Agora são 18h15min. Já...”
Mais não se pode ler, estava queimado: o diário de Nora Helena foi encontrado entre os destroços fumegantes da aeronave.
MORRO DO CHAPÉU – Pelo que se sabe, o Constellation – que partiu do Rio às 15h20min – aproximou-se de Porto Alegre às 18h15min, quando a noite de inverno já envolvia a cidade.
Chovia torrencialmente naquele momento – e isso significava sérios problemas de visibilidade. Por duas vezes o piloto tentou aterrissar no aeroporto de Gravataí, da Air France, que não contava sequer com radar, o que impedia visualizar as aeronaves.Mas era assim em todo o Brasil naquela época heróica da aviação.
Ao que tudo indica, houve problemas no rádio – talvez a bordo, talvez na torre. O comandante Edu, por duas vezes, tentou comunicar-se com a torre do aeroporto, e não obteve resposta. Em seguida, entrou em contato com a estação da Panair, alertando que os controladores de vôo não contestavam as suas mensagens. A Panair, por sua vez, interpelou a torre, a qual informou que era o PP-PCG que não a ouvia, o que explica a insistência do piloto em aterrissar em Porto Alegre e não – como seria recomendável – dar a meia-volta e retornar ao Rio de Janeiro ou procurar novo aeroporto. “Essa, ao que parece, a origem da tragédia, que a chuva, o teto baixo, a pouca visibilidade, transformaram em destruição e morte”, escreveu mais tarde o jornal Correio do Povo.
Por duas vezes o comandante Edu tentou em vão aterrissar, aproximando-se da pista única e em seguida arremeteu. Provavelmente, na tentativa de voltar para o Rio de Janeiro, voando a baixa altitude, na altura de São Leopoldo, o avião chocou-se contra o Morro do Chapéu, a pouco mais de 10 quilômetros da cidade, no sétimo distrito de São Leopoldo, Sapucaia, que ainda não era município (emancipou-se de SL somente em 1961). A explosão jogou pedaços da aeronave a quilômetros de distância e pedaços de corpos foram achados a cerca de 2 mil metros, totalmente calcinados. Hoje mais conhecido como Morro Sapucaia, o Morro do Chapéu é, atualmente, local de esportes radicais e detem a condição de ponto culminante do município, com 295 metros de altitude.
Uma testemunha, o agricultor João Raimundo da Silva, que residia nas imediações, testemunhou o acontecido. Ele estava em sua casa, tomando chimarrão, junto com a esposa – que, por sua vez, preparava o jantar – e ouviu o ruído de um avião que passava a baixa altitude. Ao correr até a porta, observou que a aeronave, após uma manobra, colidiu e explodiu contra o Morro do Chapéu, justamente onde existe uma abertura entre duas grandes pedras. O agricultor anotou o horário – eram precisamente 19h25 min.
A CIDADE ANGUSTIADA – Junto com mais dois vizinhos, João Raimundo seguiu imediatamente em direção ao local, ao qual chegaram depois de mais de uma hora de caminhada. Lá encontraram, junto aos destroços fumegantes, três corpos das vítimas. Em seguida chegaram outras pessoas, além das primeiras equipes de resgate, acompanhadas de repórteres e fotógrafos dos jornais da Capital.
Nessas alturas os boatos de que um grande avião havia caído nas proximidades de Esteio ou de São Leopoldo já havia alarmado Porto Alegre. O escritório da Panair do Brasil, na rua da Praia, encheu-se de pessoas angustiadas – familiares, amigos e conhecidos dos passageiros do Constellation, ansiosos por notícias. Em São Leopoldo – onde a agitação era ainda maior, com grupos se formando nas esquinas e bares para saber e comentar o assunto.
As turmas de resgate – militares, policiais, médicos, enfermeiros, voluntários, curiosos, repórteres – que seguiram para o local da tragédia seguiam por caminhos íngremes, escuros, tortuosos e escorregadios, abaixo de uma chuva inclemente. Eles foram guiados pelo agricultor Emilio Cassel, um dos proprietários daquelas terras e conhecedor da área. A caravana – com muitos jipes militares – levou mais de uma hora para alcançar o Morro do Chapéu, onde enormes labaredas ainda se alteavam contra o céu escuro. No topo do morro foram encontrados quatro corpos – duas mulheres, um homem e uma criança. Junto ao corpo da moça – que não apresentava tantas queimaduras – estava um exemplar do livro “Corrente”, do escritor austríaco Stefan Zweig, conforme anotou o repórter do Correio do Povo. A forte cerração atrapalhava a visibilidade, o que só foi possível solucionar com os poderosos geradores de eletricidade e refletores trazidos pelos militares do Décimo Nono Regimento de Infantaria de São Leopoldo. Os praças imediatamente fizeram um cordão de isolamento. No comando da operação estava o coronel Olimpio Mourão Filho – que, em 1964, saindo de Juiz de Fora com suas tropas rumo ao Rio de Janeiro, deflagraria o Movimento militar que depôs o presidente João Goulart. Também estava presente – orientando o resgate – o major Jefferson Cardim de Alancar Osório, comandante do primeiro Batalhão do Sexto Regimento de Obuses 105. Os repórteres, em não menores dificuldades, tiveram que abandonar seus veículos e fazer cerca de cinco quilômetros a pé, passando por chácaras e peraus, para alcançar o morro.
O acesso era feito pela estrada que ligava a Fazenda São Borja a Esteio. Ao chegarem ao local, encontraram enormes labaredas e muita fumaça.
VOANDO BAIXO - Mais tarde, a perícia – a precária perícia da época – apuraria que o acidente poderia ter sido evitado se o piloto tivesse elevado a aeronave cerca de cinco ou seis metros, o que faria com que conseguisse passar sobre o morro, sem nada acontecer. A conclusão baseou-se, sobretudo, no fato do piloto Edu ter sido encontrado em bem melhores condições do que os dos demais passageiros e tripulantes (mesmo assim, foi identificado por um irmão, que reconheceu uma marca de bala que o atingira na perna, anos antes). Por sua vez, os motores também estavam pouco avariados. Combinadas, as duas evidências indicavam que o comandante do avião avistou o morro não muitos metros à sua frente e tentou, em vão, desviá-lo. O avião provavelmente estava a cerca de 400 quilômetros horários naquele momento, o suficiente para causar a explosão que iluminou a noite chuvosa, o “clarão sinistro”.
Quanto à opinião de alguns moradores, que observaram o avião passar, momentos antes da tragédia – esta foi renegada por um técnico em aviação, morador de São Leopoldo, entrevistado pelo Correio do Povo, ele próprio testemunha ocular da passagem do Constellation. Tais pessoas afirmaram ter visto línguas de fogo saindo da aeronave, segundo antes da queda e da explosão, o que indicaria fogo a bordo. O técnico – não identificado pelo jornal – garantiu que os motores funcionavam normalmente. Segundo ele, a impressão de que o avião estivesse pegando fogo devia-se ao fato de que, à noite, são visíveis as línguas de fogo expelidas pelos tubos de descarga.
A tragédia do Constellation da Panair, naturalmente, consternou o Brasil e foi notícia no mundo inteiro. No dia seguinte, sábado, 29, o Correio do Povo – o maior jornal do Sul de então – saiu com a seguinte manchete em sua contracapa (a primeira página, tradicionalmente, era dedicada a assuntos internacionais e notícias políticas); “A Maior Tragédia Aérea do Brasil”. Abaixo, escreveu: “Coube ao Rio Grande do Sul o triste privilégio de registrar o maior e mais trágico desastre da história da aviação brasileira”, informando em seguida que “a tragédia está consternando a cidade e o Estado”.
A provinciana Porto Alegre, onde todos – pelo menos do mesmo círculo social – se conheciam e conviviam, centrou todas as suas atenções no acontecido, assunto de todas as rodas de conversa e aglomerações nas ruas, cafés e bares. Comparada a ela, a recente tragédia com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, é café pequeno. No Constellation da Panair viajava a nata da sociedade local, nomes conhecidos do mundo dos negócios, da política, figurões da sociedade, famílias cujos nomes frequentavam as colunas sociais.
O número de vítimas também era impressionante, para a época – mais de 50. Nos dias seguintes o Rio Grande do Sul estaria de luto, e as páginas do jornais s encheram de fúnebres convites para enterros. O governador Walter Jobim decretou luto oficial de três dias no Estado e o arcebispo de Porto Alegre, D. Vicente Scherer, afirmou: “Vive o Rio Grande do Sul horas cruéis, e de um extremo a outro de suas fronteiras ouvem-se exclamações de dor e pesar”. Na segunda-feira, na Catedral Metropolitana, totalmente lotada, ele celebrou uma missa em homenagem aos mortos. Escreveu o Correio do Povo: “O grande templo encheu-se de tudo o que é mais representativo da sociedade local, em seus vários ramos de atividades, vendo-se ainda altas autoridades civis, militares e eclesiásticas, bem como representantes de entidades”.
A NATA DA SOCIEDADE - Não era para menos. Entre as 51 vítimas fatais, estavam nomes como o coronel Guarany Frota, sua esposa Maria Antonieta e sua filha Rosa Yara, de 18 anos. Também José Carlos Berta, a esposa Júlia Blessman Berta e o filho José luiz, de 12 anos. Outras vítimas: Tucídides Lopes e a esposa Teodora. Valdomiro Graeff, Balduíno D’Arrigo e Ceci D’Arrigo, José Maia Filho, Brasiliano de Moraes, João Rocha Fernandes, a esposa e mais três filhas; Carmen Rothfuchs, Lígia Dornelles Franciosi, Coracy Prates da Veiga e Alice Veiga; Ilze Krause Dietrich e as filhas Yara, de 9 anos, e Yone, de cinco. Mais: Otávio José da Silveira, Pedro Gay e Maria Gay, Vitória Fabret, Shirlei Tavares, Paulo Vitório Nocchi, Edmundo Pereira Paiva, Valentina Pereira Paiva, Sílvia Giaconni, Irmã Valiera, Francisco Bruni, Sadi Maisonave, Maurício Zaducliver, Luiza e Ieda Zaducliver, Manoel Maltz, Adílio Pessoa da Cunha, Janir Aita, Ralph Montley. Morreram ainda, além do comandante Edu Martins de Oliveira, o co-piloto Domenico Guirlanda Sávio e os mecânicos Álvaro Tavares de Araújo e Alfredo Fernandes Soares, mais do comissário De Rose Viote Pinheiro, a aeromoça Maria Helena Murrai Rivas e o rádio-operador Paulo Figueiredo Ramos.
O caso mais trágico era o da família Rocha Fernandes, que pereceu totalmente no acidente: o Dr. João Rocha Fernandes, químico do Departamento Estadual de Saúde, 47 anos, a esposa Carmen, 40, esta filha de Emílio Rothfuchs, diretor-presidente da empresa H. Theo Moeller, além das filhas Carmen Sílvia, 18, primeiro-anista de Química Industrial, sua irmã Nora Helena, 14 anos, e Iliana Amázia, 13, ambas alunas do colégio Bom Conselho. Já a família Dietrich perdeu Ilze Dietrich, 34 anos, e as filhas Iara e Ione.
Aos poucos surgiam as histórias pessoais que emocionavam os leitores dos jornais.
Uma das vítimas mais ilustres, o engenheiro José Maia Filho, um sergipano que já se considerava gaúcho, era chefe do distrito gaúcho do Departamento Nacional de Obras de Saneamento e responsável pela conclusão das barragens do Salto e Capingui. Também trabalhou no cais de Navegantes e fez a drenagem dos banhados do Taim, entre outras obras, o que incluía o prosseguimento dos trabalhos contras as enchentes que então assolavam Porto Alegre. Ele fora ao Rio de Janeiro a fim de assistir a abertura da concorrência pública para a construção da Barragem do Salto Grande, no rio Jacuí, “obras destinada a assinalar uma época no desenvolvimento econômico e social do Estado” (C.Povo). Maia Filho deixou esposa e três filhos pequenos, e seu féretro teve a presença do governador Jobim e do prefeito Ildo Meneguetti.
Já Thucydides Lopes, de tradicional família porto-alegrense, chefiava o Departamento de Portos, Rios e Canais, DEPREC, na cidade de Rio Grande, onde residia. . Ao lado da esposa, Teodora, havia seguido ao Rio de Janeiro a bordo do navio Itaiti, com passagem de ida e volta, pois sua esposa tinha horror a voar, temendo que, quando o fizesse, viesse a morrer. Com muito custo, ele conseguiu demovê-la da ideia de voltar de navio, enaltecendo a segurança do Constellation. Edmundo Pereira Paiva, por sua vez, foi, por um tempo, subgerente do jornal Diário de Notícias, e sua mulher, Vicentina, exercia o professorado no Colégio Americano. Coracy Veiga, delegado regional do Instituto de Aposentadoria e Pensões de Transporte e Cargas, IAPETEC, descendia de uma tradicional família de Viamão, onde já fora vereador. De igual forma, Brasiliano Índio do Rio Grande de Moraes era delegado regional do IAPI, Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários. Manoel Maltz distinguia-se por ser um comerciante de sucesso, com várias casas no ramo de armarinhos situadas no centro de Porto Alegre. Já Francisco Godoy fazia parte da alta diretoria da empresa Moinhos Rio-Grandenses. Maurício Zaducliver, muito ligado aos esportes – ele morreu com a mulher e uma filha – fora presidente do Sport Clube Cruzeiro até o ano anterior.
LIÇÕES DA TRAGÉDIA - José Carlos Berta – que pereceu ao lado da esposa Júlia e do filho José Luis – pertencia ao “alto comércio”, integrava a Associação Comercial de Porto Alegre e era genro do diretor da Faculdade de Medicina, Guerra Blessmann. Não menos importante, Sady Maisonave, estava na Capital Federal a negócios. Ele havia sido síndico da Bolsa de Fundos Públicos e militava no Rotary Club. Valdomiro Graeff, médico, era irmão do deputado Victor Graeff, de Carazinho.
Outra vítima conhecida, o coronel Guarani Frota, exercia a função de professor da Escola Preparatória de Cadetes. Com ele morreram a esposa Maria Antonieta e a filha Rosa, de 13 anos.
Quatro das vítimas do acidente procediam de Caxias do Sul: Balduíno D’Arrigo e sua esposa Ceci, mais as professoras Irmã Valiera e Silvia Jaconi. Balduíno, Promotor de Justiça, havia sido presidente do Clube Juventude.
A tragédia do Constellation suscitou sérias críticas à precariedade da infra-estrutura que assistia a aviação brasileira. A necessidade de um novo aeroporto civil para Porto Alegre foi seriamente debatida – o São João era considerado, além de precário, ultrapassado. Mesmo assim era o terceiro aeroporto do País em movimento e importância.
“O estado lastimável das pistas do São João, insuficiente para aviões de grande porte, semeado de profundos buracos, que as chuvas empoçam e ampliam, constitui ameaça constante à integridade das aeronaves, o que vale dizer perigo de vida para passageiros e pessoal de bordo”, escreveu o Correio do Povo, uma semana depois. “Já não é nenhum segredo, por outro lado, que o aeroporto de Gravataí ainda não dispõe dos meios técnicos adequados, indispensáveis a uma base civil internacional, em que são freqüentes os vôos noturnos”. Para se ter uma ideia, o aeroporto não contava sequer com um radar.
A queda do Constellation da Panair, com mais de meia centena de vítimas, ainda hoje é lembrada pela sociedade de Porto Alegre. Em 2007, o escritor gravataiense Abrão Aspis lançou o livro “Acidente no Morro do Chapéu”, relatando a tragédia.
Tragédia que aconteceu no dia 28 de julho de 1950, uma sexta-feira. Menos de 48 horas depois, o Rio Grande do Sul teria um novo choque: a queda do avião Lodestar que conduzia o ex-ministro da Aeronáutica, o então senador Salgado Filho. As bruxas estavam soltas. Mas isso é uma outra história. 

Posta em funcionamento em 1949, a rota Porto Alegre-Rio, Rio-Porto Alegre, da Panair do Brasil, significava um espantoso avanço em tempo e conforto para quem viajava entre as duas capitais. O voo, que partia do chamado aeroporto da Air France, em Gravataí, na Base Aérea, era feito nos aviões fabricados pela Lockheeed, pressurizados e com bar a bordo, aterrando no Galeão.  Sem nenhuma escala, durava pouco mais de três horas, em uma época em que as viagens no Brasil representavam desconfortáveis e demorados feitos. Aciuma vemos a reprodução de um anúncio da Panair do Brasil nas páginas do CP.  Viajar no Constellation da Panair, naqueles tempos, era um símbolo de status - e não custava barato.
Repercutindo em todo o País e mesmo no exterior, o acidente do Constellation rendeu edições extras aos jornais da Capital. Um dos jovens repórteres da época era Flávio Alcaraz Gomes, que, até o final da sua vida, se emocionava ao contar - ou tentar contar - o que vira ao chegar ao local do desastre e ver fogo, ferro retorcido e corpos humanos dilacerados. Acima, editorial de O Correio do Povo.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Sessenta anos atrás, em 1954, o centro de Porto Alegre pegou fogo para acabar com a "Casa dos Horrores"


A Revista do Globo, a exemplo dos demais jornais diários, via com alívio a destruição da Casa de Correção, em pleno centro da cidade e já considerado um dos presídios mais sórdidos e superlotados do Brasil, com mais de mil detentos, "celerados da pior espécie", assassinatos, corrupção, torturas e fugas no interior do "velho casarão da Ponta da Cadeia", construído ainda no século 19. 



Pesquisa e Texto: Vitor Minas
   Um “plano diabólico” para a fuga em massa de mais de mil detentos, “celerados da pior espécie” – assim os jornais resumiram um dos fatos mais marcantes na história de Porto Alegre, o incêndio na Casa de Correção, o “horrendo cadeião da Ponta do Gasômetro”, a “casa do inferno”, a “casa dos horrores”, o “tétrico casarão”, ocorrido três meses depois do quebra-quebra pela morte de Getúlio Vargas e mais um episódio no capítulo dos grandes sinistros em prédios públicos registrados na década de cinquenta na capital gaúcha.
    Era o dia 28, último domingo do mês de novembro de 1954, nem haviam transcorridas duas semanas da eleição de Ildo Meneghetti como novo governador rio-grandense e dois meses da inauguração oficial do Estádio Olímpico quando o complexo prisional às margens do Guaíba ardeu em chamas durante quase 20 horas, expelindo rolos de fumaça que podiam ser avistados dos quatro cantos da cidade. Cidade que temeu seriamente pela própria sorte: caso tal tentativa de fuga tivesse dado certo as consequências seriam imprevisíveis para os seus 500 mil habitantes.
    Tudo começou às 18h30min, logo após o encerramento do horário das visitas na rebatizada “Penitenciária Industrial”, já então considerada uma das piores do Brasil, uma “masmorra medieval” com capacidade para 300 presos, porém superlotada por mais de mil.
   O fogo irrompeu na cela 72, no segundo andar, na parte dos fundos da construção, e se propagou com uma rapidez incrível, atingindo também a padaria e a tipografia – até porque tudo havia sido planejado por um grupo de presidiários, os quais praticamente controlavam o funcionamento interno da instituição, tal como hoje dividida em facções criminosas. Desde o mês de agosto daquele ano nada menos do que três princípios de incêndios e de motins já haviam ocorrido ali e a deflagração e outro parecia simples questão de tempo. No dia anterior os agentes penitenciários haviam encontrado no forro de uma das celas um colchão, um monte de palhas e oito litros de gasolina. O clima entre os detentos era, mais do que nunca, de extraordinária tensão – os nervos estavam à flor da pele.
    No entardecer daquele domingo, encerrado o horário de visitas, depois da conferência, um grupo recusou-se a voltar às celas – prenunciando o que viria a seguir, eles só concordaram com isto sob a promessa dos agentes de que estas permaneceriam abertas. Com o início repentino das chamas outro agrupamento passou a percorrer as demais celas: armados de facas, facões, adagas e porretes, obrigaram os outros detentos a também incendiar tudo.
   Em seguida, em “estrondo”, todos começaram a correr pelos corredores em direção à parte térrea e ao portão, forçando a saída. Segundo a direção, havia 1.093 apenados no local, contra não mais do que 40 brigadianos e agentes penitenciários para contê-los. Os bombeiros chegaram em poucos minutos, vindos da estação central, na Praça Rui Barbosa, enquanto homens da brigada e um grupo de socorro da Guarda Municipal (ex-polícia de choque), comandados pelo delegado José Henrique Mariante, detinham os revoltosos a golpes de cassetete e bombas de gás lacrimogêneo, a muito custo impedindo que chegassem à rouparia: se isso acontecesse eles teriam acesso a roupas civis e poderiam se misturar até mesmo às autoridades e fugir às ruas.
   Estabeleceu-se no pátio um “cinturão” de segurança, com duas linhas de praças da Brigada armados com fuzis-metralhadoras e soldados com baionetas caladas, que “calçavam” e imobilizavam os presos contra as paredes. Nesse trabalho destacou-se o tenente Cantalício Camargo, comandante do destacamento local. Com poucos recursos, e dando apenas três rajadas de metralhadora para o alto, ele e seus homens enfrentaram a maré humana de mais de 500 presos, conseguindo fazer – oficialmente sem vítimas fatais – que recuassem.
    A raivosa determinação de destruir de vez o velho cadeião, queimando-o inteiramente, e a certeza de que o plano havia sido elaborado com a participação de gente de fora das grades, fora, evidenciadas pelo fato de que, no mesmo instante em que as chamas se propagavam às margens do Guaíba, os bombeiros haviam se deslocado para combater outra ocorrência em um matagal do morro de Teresópolis, adiante do final da linha dos bondes. Segundo os repórteres, de lá divisava-se perfeitamente o interior do presídio, o que levantava a suspeita de que a pessoa que ateou fogo no terreno pudesse ser comandada à distância pelos detentos, quem sabe através de um jogo de espelhos. Do mesmo modo estes poderiam, das janelas da Casa, avistar a chegada dos caminhões. Outro fato sintomático foi a depredação antecipada da bomba de água do Cadeião.
PÂNICO NA CIDADE – A possibilidade de que cerca de mil homens conseguissem fugir e se espalhassem pelas ruas da cidade, tomando a população de refém, a visão dos rolos de fumaça, o cair da noite, bem como a péssima fama da instituição prisional, a promiscuidade, o histórico de fugas e os fatos bárbaros que lá ocorriam geraram um evidente clima de medo entre os moradores da capital, os quais, naquele entardecer de domingo, encerravam o seu pacato e modorrento final de semana.
     Falava-se inicialmente em muitos mortos e em sangrentas cenas de ajuste de contas entre os próprios presos, com inúmeros esfaqueamentos e até degolas. Um preso disse aos repórteres tem visto uma cabeça jogada dentro de um vaso sanitário. Todavia, pelas versões oficiais, não só nenhum sentenciado teria conseguido se evadir como ninguém, fosse apenado, policial ou funcionário, morreu durante ou depois do episódio. Aos poucos, em contrapartida, surgiam relatos de alguns funcionários que enfrentaram o perigo das chamas e da violência para retirar detentos que ficaram presos em suas celas e outros, doentes (a maioria com tuberculose) hospedados na enfermaria e mesmo os inválidos ou com dificuldades de locomoção.
     Na edição de terça-feira, 30, jornal Folha da Tarde, na matéria “A Trama Sinistra dos Presidiários”, relatou o clima depois do incêndio, quando a situação já havia sido dominada, algo que revela o inferno humano que caracterizava o local: “Em todas as fisionomias dos presos notava-se intensa satisfação. Riam e pilheriavam já que, para eles, qualquer situação será melhor do que a da Casa de Correção. Um presidiário adiantou-nos que há muito vinha entrando gasolina no presídio, em pequenas quantidades, e que em todas as celas havia um foco preparado ao qual foi ateado fogo quando deram alarme na primeira, a 72”. Já o Correio do Povo lembrou que “foi um sinistro dos mais terríveis de que se tem notícia” e que se o plano desse certo “Porto Alegre estaria até agora em pânico, com suas ruas invadidas por homens para quem os conceitos de vida e de respeito ao próximo pouco ou nada significam.”
TRANSFERENCIA PARA MARIANTE – Em grandes operações de segurança os detentos foram sendo realocados em diferentes locais – quartéis da brigada, delegacias de polícia, no Instituto Psiquiátrico Forense (manicômio judiciário) e, principalmente, na Colônia Penal Daltro Filho, na localidade de Mariante, município de Venâncio Aires, para onde cerca de 300 deles foram conduzidos em barcaças do DAER – a viagem pelo Jacuí demorava cerca de quatro horas, com os revoltosos vigiados por soldados armados de metralhadoras. O policiamento na colônia agrícola já havia sido fortemente reforçado por uma companhia do Primeiro Batalhão de Caçadores.  
   Na Casa de Detenção permaneceram 550 homens, abrigados em barracas, em pavilhões não totalmente queimados ou recolhidos aos fétidos e úmidos porões, o “buraco”, enquanto os mais colaborativos voltavam às suas funções habituais. Para a Oitava Delegacia de Polícia, em Petrópolis, seguiram os elementos mais perigosos, entre os quais aqueles apontados como os líderes da rebelião. O chefe do Departamento de Institutos Penais do Estado, Neu Reinert, ordenou o isolamento total do presídio, proibindo qualquer tipo de visitas. O desespero maior, no entanto, provinha dos familiares dos presos, concentrados em frente e que imploravam por notícias.
    Em depoimento oficial um preso chamado Vavá – ou Gaspar Ávila da Silva, líder de quadrilha - afirmou ter sido ele o principal líder do movimento, junto com Washington Aires, o Paulistinha, e Nelson Bassani, os três agora recolhidos aos xadrezes da Oitava DP. As declarações de Vavá surpreenderam as autoridades – até mesmo ao secretário do Interior e Justiça, Theobaldo Neumann, e o diretor do presídio, Aires Rodrigues da Cunha - já que era um preso considerado de bom comportamento. Outro detento chamado Veríssimo Caduri Leal também assumiu a liderança.
ESCOLA DOS VÍCIOS – Em maio de 1971, quando o antigo Cadeião já tinha vindo abaixo, o repórter Isaías Valiatti, durante anos setorista policial da Caldas Júnior e nome reconhecido da imprensa gaúcha, escreveu um interessante artigo intitulado “Casa de Perversão”:
   “Felizmente nem sequer o portão da medonha masmorra que tinha o nome de Casa de Correção ficou de pé para lembrar um passado indescritível. Vamos e venhamos, para que conservar a memória de coisas horríveis? O mundo talvez não se torne ideal com a supressão de imagens nefandas, mas pelo menos a nova geração não terá de perguntar: “O que é aquilo ali?” E a resposta, para ser correta, seria longa, chocante e incompreensível. Não tenho engenho e arte para descrever o que vi e ouvi na medieval cadeia ao longo de tristes anos de reportagem policial para o Correio do Povo e, em certa época, para a Folha da Tarde. Espetáculos que superavam a imaginação de Hitchcock e cenas que nem Dante conseguiu traçar em seu Inferno repetiam-se de tempos em tempos, entre um motim e um incêndio provocados pelos próprios detentos. Paradoxalmente, a Casa de Correção era, em verdade, a escola dos vícios e das anomalias que só uma Casa de Perversão seria capaz de “ensinar” e praticar.
   “Por mais de uma vez, através das colunas deste jornal, chamei, juntamente com outras vozes que terminaram ecoando, contra o claustro imundo e revoltante que era a Casa de Correção. Inadequada sob todos os aspectos, contrariando os mais elementares princípios consagrados pela moderna penalogia, e sempre superlotada – chegou a ter quase 1.500 presos, quando sua capacidade real era para 300 – foi preciso um grande incêndio com um motim sem precedentes, que me coube documentar à época, para chegar-se à conclusão acaciana de que a velha cadeia deveria ser demolida para começar da estaca zero.
   “A penitenciária estadual, localizada no Partenon, pode ter falhas gritantes ou deficiências que devem ser eliminadas, mas jamais chegará a ser o que foi a Casa de Correção. Há problemas de estrutura de funcionamento, de vigilância e de métodos de recuperação que estão sendo encarados em seu devido tempo, mas, creio eu, jamais se encontrará naquele presídio as cenas e as ocorrências tão comuns e freqüentes na famigerada Casa de Correção.
   “Vibrei quando, em 1955, o então governador do Estado presidiu a cerimônia que assinalou a demolição simbólica do vergonhoso presídio. Era o primeiro passo decisivo para riscá-lo definitivamente do mapa da cidade. Era o princípio do fim das celas permanentemente inundadas, pois se localizavam abaixo do nível do Guaíba. Os chamados “republicano” e “democrata”, que num período não muito recuado da nossa história política serviram para castigar os “rebeldes”, iriam desaparecer, juntamente com as amoralidades, os assassinatos com requintes de barbarismo, as negociatas entre presos e funcionários, o tráfico de tóxicos e de álcool, enfim, as bestialidades entre seres que cada vez mais se degradavam num processo crescente de sordidez humana, típico do submundo que era a Casa de Correção.
   “A despeito de tudo isso, surgiram opiniões em favor da manutenção de algo que lembrasse o cárcere e as muralhas que o cercavam. Serviria – argumentavam – como motivação histórica ou turística.
   “Mas eu não estava só. O venerando e bondoso padre Pio, por longos e tenebrosos anos o capelão do extinto presídio, também admitia uma única saída: a destruição total, o arrasamento da Casa de Correção. As razões, como vemos, dispensam maiores comentários.
    “Conservar a imagem da Casa de Correção – respeitadas as opiniões em contrário – seria o mesmo que guardar as imagens de atrocidades que fazem a humanidade recuar no tempo e no espaço. Seria a negação, a antítese do próprio homem.”
 
    Na realidade o problema prisional gaúcho era crônico e vinha desde o século XIX, e a Casa de Correção tão somente simbolizava os horrores e as iniquidades de tal sistema.
   Quando a primeira parte da sua construção foi concluída, em 1855, era chamada de Cadeia Civil e abrigou inicialmente cerca de 200 presos. Construída pelos braços de escravos, suas paredes, formadas pela junção de grandes pedras, chegavam a ter mais de um metro de espessura.  A localização à beira do Guaíba se explicava pelo fácil acesso à água, pela questão da higiene – os dejetos seriam jogados no rio – pelo solo rochoso para assentar firmemente as suas fundações e também pelas características geográficas do local, uma “quina” da cidade e que então passou a ser chamada de Ponta da Cadeia. Em 1897, nos primórdios da República, segundo os historiadores, ganhou o nome oficial de Casa de Correção. A partir daí, de ano a ano, a sua população carcerária só foi aumentando, incluindo presos políticos dos vários movimentos de revolta que caracterizaram o Rio Grande.

    A Casa de Correção teve sua demolição concluída oficialmente no dia 11 de maio de 1967, uma quinta-feira. Uma equipe de funcionários da Prefeitura (Célio Marques Fernandes era o prefeito de Porto Alegre), sob a coordenação do engenheiro João Antonio Dib, dava fim a uma era de horrores que no entanto se repetiria com o não menos infame Presídio Estadual da Chácara das Bananeiras (bairro Partenon), inaugurado em 1963 e bem mais distante dos olhos da imprensa.