Segunda-feira, Junho 30, 2008

Para os gordinhos de verdade: Vigilantes do Peso



Se você tem problemas de obsesidade, pode participar da reunião semanal dos Vigilantes do Peso, que acontece todas as terças-feiras (amanhã tem, portanto) na avenida Ipiranga, 5.200, ao lado do Bourbon Shopping - na realidade, junto ao 35 CTG. As reuniões acontecem às 18h30min. O Jardim Botânico é um dos poucos bairros que conta com o Vigilantes.

O Vigilantes do Peso é uma organização que oferece programas de emagrecimento saudável e sustentável, baseados em princípios científicos comprovados, e faz parte de outra organização maior - a Weight Watches, de nível mundial, e da qual já participaram mais de 25 milhões de pessoas.
Para saber mais acesse http://www.vigilantesdopeso.com.br/

Anote aí



* Faculdade de Psicologia da PUC-RS, a Fapsi, completa - hoje, dia 30 - seus 55 anos de existência. A Faculdade iniciou suas atividades no dia 30 de junho de 1953, e foi o primeiro curso de Psicologia da Região Sul - sua duração é de dez semestres (cinco anos). A diretora da Fapsi, Blanca Susana Guevara Werlang, conta com 50 professores, 10 funcionários e três estagiários. A Faculdade de Psicologia fica no prédio 11 do Campus da avenida Ipiranga. Tel.: 3320-3550, ou www.pucrs.br/fapsi

Do Baú: o pessoal do Casseta, 23 anos atrás

Em julho de 1985, quando Sarney era o presidente recém-empossado da "Nova República", e A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, o livro mais vendido, o pessoal do Casseta e Planeta (está faltando o Bussunda) completava oito meses de seu jornal O Planeta Diário - que fazia o maior sucesso. Nesta matéria, reproduzida de Veja de 24 de julho de 1985, eles dizem que o lucro do tablóide de humor era de "700.000 cruzeiros" - suficiente apenas para fazer uma boa feijoada familiar naqueles tempos de inflação alta. Olha ela aí de novo... (Arquivo do Conselheiro X.)

* Clique em cima para ver a imagem ampliada. Dá pra ler perfeitamente a matéria.

Quem quiser fumar, que se fume! (2)

Bogart: não largava o cigarro, nem nos filmes, nem na vida pessoal.


Quando você pára de fumar as 48 horas iniciais são, por assim dizer, de chapação: a mente se torna diferente, as mãos ficam levemente trêmulas, o humor irritadiço (o sujeito pode, inclusive, se tornar violento e explosivo) e, sobretudo, bate uma fome canina, ao mesmo tempo em que o olfato se aguça de uma forma incrível. Sente-se o cheiro de tudo, os cheiros que você não sentia antes, incluindo aí o do próprio cigarro. Ontem, na rua, senti, a 50 metros, o cheiro da fumaça do cigarro. Apertei o passo para fazer a confirmação, e lá estava uma mulher com um deles entre os dedos - aquele cheiro era daquele cigarro.
Também as ruas ganham odores. Ruas que antes eram inodoras, de repente passam a cheirar a coisas bem prosaicos, como o odor de plantas, de umidade, de cigarro, de urina, de mofo, de mil coisas. A nossa própria casa também, e nem sempre são odores agradáveis. Você sente o cheiro do cigarro entranhado em tudo - no travesseiro, nas roupas, na toalha.
Aos poucos porém, passando essa fase crítica, o olfato parece que volta ao normal, assim como o apetite, extraordinariamente aguçado nos dias iniciais de abstinência. Claro, falo por experiência pessoal, já que sou veterano em parar de fumar - já parei seis meses, dois meses e meio, um mês, uma semana. Os sintomas sempre foram os mesmos. Uma coisa eu notei: ao contrário do que muita gente diz, você não fica o tempo todo só "pensando naquilo". Dá até para esquecer do cigarro.
Já o apetite é um capítulo à parte. Quem vai parar com o tabaco, e está em casa, deve estocar bastante coisas nas prateleiras dos armários e na geladeira. Não só doces como salgados, azedos, amargos, qualquer coisa comestível - frutas também valem. Haja comida, meus amigos! É o fenômeno da compensação, acredito.
Ontem comi tantas coisas, e tão diferentes, que quase tive uma diarréia. Banana, doce de uva, abobrinha, chocolate, doce de côco, laranja, manga, macarrão, salada de tomate e cebola, guaraná, galinha assada, carne assada - a lista é grande. Um chiclete na boca ajuda muito, não esqueçam disso.
Da mesma forma, é altamente recomendável, nesses dias, não tomar café e ne nem beber nada de álcool. O café é o maior amigo e compadre do cigarro, os dois são unha e carne, nossa memória, nossos cromossomos, sei lá, já identificam a simbiose entre um e outro, e, ao primeiro gole, vem a vontade de puxar um cigarrinho. Além disso a pessoa fica agitada, o que é sempre ruim nessa fase em que é preciso estar calmo e se dominando.
O gozado é que só me tornei fumante aos 30 anos, o que não deixa de ser um contrasenso e, obviamente, uma burrice. Lembro bem da cena: estava para fora, em uma Estação da Embrapa, e, sei lá porque, pedi um cigarro a um pesquisador. Pela primeira vez na vida traguei - já havia fumado de mentirinha antes. Traguei - e para ver como essa droga é forte - senti imediatamente uma tontura, tanto que me agachei, temendo, quem sabe, cair.
O pior é que gostei da tonturinha - e filei outro do sujeito. Traguei de novo. No outro dia, comprei alguns avultos, e fumei tragando. No segundo dia comprei uma carteira de Free Box - marca que fumei por muitos anos. Por ser um cigarro fraco, cheguei, certa época, a consumir dois maços por dia - 40 cigarros.
Conta-se que Yul Brinner (não preciso explicar quem é, não é mesmo?) fumava quatro maços por dia, o mesmo acontecendo com Humphrey Bogart, que fumava ainda mais, e bebia o dobro do que fumava.
Sinceramente, não sei como conseguiam - não dá tempo, nas horas em que estamos acordados, pra fumar tanto. Deve ser a história de acender um no toco do outro.
Bom, mas chega disso agora. O tempo está úmido no Jardim Botânico, de cara fechado, cinzento, bem segunda-feira mesmo. (Conselheiro X.)

Domingo, Junho 29, 2008

Colombo se foi do bairro




Pois é. O Home Store das Lojas Colombo na avenida Ipiranga, esquina com Arno Vontobel, fechou as portas e saiu do bairro. Nas portas, há um afixo comunicando a transferência, sem especificar o local, e pedindo que os clientes paguem suas prestações em outras lojas da rede.
O Home Store da Colombo - maior rede de varejo do Estado e uma das maiores do Brasil, e cuja sede é na cidade de Farroupilha - foi inaugurado no Jardim Botânico há não mais do que cinco anos, e era o único no Estado. Voltava-se para as classes A2 e B.
Resta saber quem ocupará aquele amplo espaço, um dos mais valorizados da zona, nas proximidades da PUC e da Terceira Perimetral, e com uma boa área frontal de estacionamento.

Quem quiser fumar que se fume!




Curiosidades inúteis: Leonel Brizola, aos 14 anos, e Luis Inácio Lula da Silva quando era ainda bebê, ao lado de uma de suas irmãs, em Pernambuco.
* Bom, o domingo, no JB, amanheceu com a mesma cara dos outros dias: temperatura na casa dos 18 aos 20 graus, céu meio fechado, com o sol querendo dar as caras mas não dando - pelo menos no período da manhã.
* Hoje é um bom dia para aproveitar o Jardim Botânico, aquele que deu nome ao bairro. O ingresso custa 2,00 reais por pessoa. Muitos anos atrás, eu levava minha filha e meu sobrinho, pequenos, para ver as tartarugas e as carpas no laguinho. Hoje, o meu sobrinho - que é sobrinho emprestado, digamos - tem vinte e tantos anos e trabalha como bancário. Vive com uma menina, tem horário certo pra tudo, estuda, é responsável.
Naquele tempo eu achava que ele iria ser, como se dizia no tempo em que o Uruguai era banhado, um garoto "da pá virada". Com um pouco de sorte, acabaria no Central. O pai era um sujeito meio hippie que vivia longe, nem escrevia para o menino, a mãe transava artesanato em feiras - nada contra - e o garoto, vez em quando, me chamava de pai. E era também agressivo - uma vez pegou uma tartaruga com as mãos e soltou-a no chão. Partiu o casco do pobre quelônio (tartaruga é um quelônio!).
* Por que estou falando disso? Deve ser a umidade relativa do ar, e porque vão fazer 24 horas que não fumo um cigarro. Ah, essas histórias de fumantes são comoventes, patéticas, ridículas. No fundo só interessam aos próprios fumantes. O certo é que a gente fica elétrico, agitado, irritado, quando está nessa crise de abstinência - que, aliás, passa em três ou quatro dias.
Como dizia Mark Twain, parar de fumar é fácil, já parei mais de quarenta vezes.
* Um conhecido, lá da Serra, que hoje fatura uma grana legal fazendo catálogos industriais para as empresas da região de Caxias, sempre foi fumante. Gêniozinho do computador, trabalhava feito um mouro (será que eles trabalhavam mesmo?), quebrando todos os galhos para o dono do jornalzinho local. Estressado, fumava a todo momento. Um dia resolveu parar - só que a brincadeira durou apenas cinco ou seis horas: ele simplesmente demoliu os móveis do próprio quarto e depois saiu a comprar um maço de Free.
Em um bar-restaurante da Protásio Alves, em Petrópolis, há um coroa baixinho que dá plantão lá todas as noites. Acredito que seja aposentado: pois esse indivíduo, baixinho, gordinho, careca e de voz possante (geralmente os baixinhos tem a voz grossa...), um dia gritou que iria abandonar o "vício". Ninguém acreditou.
* Voltei lá esses dias e vi que ele não acendia mais nenhum cigarro, entre os copos de vinho. Parou mesmo. "O segredo é pegar ódio do cigarro", ensinou ele, todo prosa. "Você tem que dizer, cigarro, eu te odeio, eu te odeio, te odeio!". Tá bom, tá certo, repliquei, mas e se o cigarro disser "tudo bem, eu não presto mas eu te amo!"
* Salman Rushie (não sei se acertei na grafia do nome), aquele dos Versos Satânicos, condenado à morte pelos muçulmanos por ter escrito não sei o quê que eles lá consideraram ofensivo ao Profeta, quando soube que estava com a cabeça a prêmio, a primeira coisa que fez foi filar umcigarro: fazia mais de oito anos que tinha parado. É, são tantas emoções que a roda gira e volta ao ponto inicial.
* Outro sujeito que conheço - aliás, um tanto mentiroso e balaqueiro - vivia falando mal do cigarro e dos fumantes, aconselhando todo mundo a parar e dizendo que se arrependia de ter colocado um cigarro um dia na boca. Fumava desde os 13 anos, dois ou três maços por dia, até que, enfim, parou, com muito sacrifício, imagina-se.
Só que agora, nas últimas vezes que o vi, estava fumando um cigarrinho, todo envergonhando, cheio de justificativas, dizendo que era só por diversão, pra se acalmar etc etc, e que "na semana que vem" já iria parar. Tá bom, me engana que eu gosto.
* No entanto, devo reconhecer que isso - de parar e lá de vez em quando fumar um cigarrinho, sem retornar ao velho vício - de fato acontece na realidade. Aconteceu com o Moquinho, querido e falecido amigo. Fumou quando adolescente e início da juventude. Passional, amava as mulheres (geralmente algumas meio vagabundas ou, pior, esnobes) perdidamente, sentava numa mesa dessas boates que se autodenominam de "uisquerias", chamava uma morena e ficava ali, enchendo a cara, fumando e amansando os cornos.
* Um dia, porém, saiu dessa vida. Mas, lá de vez em quando, sempre em mesa de bar, pedia um cigarrinho a alguém que estava fumando - às vezes pedia dois - fumava e se recusava a tragar o tercerio. Esquecia do assunto. Pra ver como as aparências enganam e todas as certezas, certa hora, se negam.
* Como dizia Rubem Braga - que tive o prazer de conhecer pessoalmente na Bahia, faz muito tempo, e que, ao contrário do que eu pensava, não me mandou pastar - um dia escreveu, ele que era fumante e veio a morrer de câncer: "Quem quiser fumar, que se fume!" (Conselheiro X.)

Sábado, Junho 28, 2008

ESEF completou, hoje, 65 anos de existência


Esta foto mostra a época da construção do muro de concreto que hoje protege a Escola.
Neste sábado a direção, os professores e alunos comemoraram os 65 anos da Escola, cujo diretor Ricardo Petersen (foto), diretor da Escola, foi um dos homenageados


Uma escola de ponta, reconhecida em todo o País pela sua qualidade do ensino. Assim é a Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ESEF, também conhecida como “Campus Olímpico” da URGS e intimamente ligada à história do bairro, com o qual interage e mantém estreitos laços comunitários.
Afinal, é na ESEF que, todos os dias, centenas de pessoas vão fazer a sua caminhada matinal, correr, passear, praticar exercícios físicos ou então participar de cursos e eventos ligados à área da educação física e da saúde.


“Às seis horas da manhã, quando abrimos o portão, já tem gente aqui na frente, esperando para entrar, e a grande maioria é das redondezas”, orgulha-se o professor e diretor da instituição, Ricardo Petersen. Com cursos de especialização nos Estados Unidos, Ricardo se formou na ESEF em 1973, e especializou-se em Desenvolvimento Motor.
Contando cerca de 800 alunos (700 na Graduação e outros 100 na pós), nos cursos de licenciatura e bacharelado em Educação Física, a Escola dispõe de cerca de 40 professores e outros 45 técnicos administrativos.
São 11 mil metros quadrados de área construída e 12,5 hectares de área total.
“Somos, sem dúvida, uma das melhores escolas do Brasil na nossa área”, afirma o diretor. Nos últimos anos, apesar das dificuldades financeiras inerentes ao ensino público (há apenas uma verba irrisória para a manutenção), a ESEF recebeu um grande impulso e vem procurando sempre inovar e oferecer coisas novas aos seus alunos e à comunidade. O fechamento das contas só é possível graças às rendas (cerca de 50 mil reais) obtidas com matrículas e mensalidades em diferentes atividades (a base de 60 reais por pessoa), como piscinas e ginástica para a terceira idade.
Tecnologicamente a Escola está em boa situação – são 130 computadores e equipamentos modernos, especialmente na área de pesquisa. “Temos também 35 programas de extensão e projetos financiados ou em parceria”, informa Petersen. Desses, 20 são voltados para a comunidade e 15 dirigidos a crianças e jovens.
TALENTO E MEMORIA - Um dos mais importantes projetos já implantados é o Centro de Lazer do Idoso, frequentado especialmente pelas mulheres (há apenas um homem) e com atividades diárias. “A procura é sempre muito grande e não podemos absorver todos os interessados”, revela o diretor.
Buscando, basicamente, formar profissionais em Educação Física, a ESEF desenvolve ainda uma produção científica própria, em um bem equipado laboratório. São estudos sobre a resistência humana, a precisão muscular, os efeitos das práticas esportivas, o desgaste os organismos, entre outros.
É o chamado LAPEX – Laboratório de Pesquisa do Exercício, geralmente comandado por doutores e doutorandos de Educação Física (a Escola tem 28 doutores e seis mestres). Há também o Centro de Excelência Esportiva e um projeto de Detecção de Talentos Esportivos iniciado há dois anos. Neste caso vai-se às escolas e centros comunitários para se avaliar o potencial de atletas iniciantes que, caso aprovados, passam a fazer parte do Banco de Talentos.
“É algo semelhante ao que se faz em Cuba e na Austrália, parte da idéia de transformar o Brasil em uma potência olímpica”, explica o professor.
Já o projeto de Excelência Esportiva consiste em avaliar atletas já consagrados, equipes e seleções, analisando o rendimento de cada um deles. Estão incluídos aí a avaliação das seleções de remo, canoagem, judô, esgrima, por exemplo, ou atletas laureados, como o judoca João Derli. Outro destaque é o Núcleo de Esportes de Base, aqui representado pela ginástica olímpica feminina (que pode revelar novas Daianes dos Santos) e pelo judô.
Graças a um convênio, conseguiu-se a compra de modernos equipamentos no valor de quase 200 mil reais. “Temos um equipe de dez meninas e uma pré-equipe de mais dez, na faixa de 7 a 17 anos, embora o número total seja de 150”, informa Petersen.
JUDÔ, GRANDE DESTAQUE - Já o judô – outro grande destaque da ESEF – envolve 250 alunos e vem obtendo excelentes resultados. A ele se combina outra modalidade – a Luta Olímpica.
Com dois ginásios, um centro natatório, um galpão crioulo, oito salas de aula, uma biblioteca especializada no esporte, muito visitada por alunos de outras instituições semelhantes (e aberta à comunidade), um prédio administrativo, um bar, um prédio de musculação, uma pista de corrida e atletismo, locais para o tênis, além do laboratório, a Escola Superior de Educação Física tem várias formas de esporte e lazer abertas à comunidade, como a natação (para todas as idades), sem contar eventuais cursos, como o de Yoga. A instituição edita duas revistas especializadas e mantém intercâmbio com outras universidades, algumas delas do exterior. “Temos um convênio com a Universidade do Porto, em Portugal, sendo que vem gente de lá para cá e vai gente daqui para lá, dar cursos rápidos”, diz o diretor Ricardo.
Um projeto ambicioso, mas que ainda não deslanchou por falta de recursos, é o Centro de Memória do Esporte e que também englobará, no futuro, a dança. “A idéia é transformarmos ele em uma espécie de Museu, pela concepção moderna, com peças, doações, tudo, algo que não existe hoje no Rio Grande do Sul. Mas ainda estamos batalhando por verbas e o Centro está funcionando em local totalmente inadequado”, lamenta o diretor.
CACHORROS E MUROS – Não faz muito, a ESEF cercou-se de altas paliçadas de concreto à sua volta e centralizou entrada e saída em apenas uma torre de vigia. Com isso acabaram-se os problemas de falta de segurança dos últimos anos, já que a cerca de arame, especialmente no lado da Felizardo Furtado, tinha uma abertura que dava acesso a todo tipo de gente.
“Entravam também muitos cachorros vadios e até cavalos de carroceiros das redondezas, que ficavam estacionados aqui dentro. A quantidade de cocô que recolhíamos era enorme”, conta o vice-diretor, Luis Fernando Moraes. Também foi contratada uma empresa de vigilância do local. “Hoje não temos mais problemas nessa área”, garante Moraes.
Funcionando em dois turnos, a ESEF não tem aulas de graduação à noite, muito embora sejam desenvolvidos outros tipos de cursos e atividades nesse período. “E só não abrimos no sábado por falta de recursos”, informa o professor .Os portões são abertos, de segunda à sexta, das 6 horas da manhã às sete da noite, período em que qualquer morador do bairro (ou de fora dele) pode frequentar esse espaço, que pode até ser considerado público.
Outra coisa que pouca gente sabe: a Escola conta com um canil (paga-se uma diária) para hospedagem de cães – algo, sem dúvida, muito útil para quem mora sozinho e, ao viajar, não tem com quem deixar seu animal.


História remonta aos anos 30, com Getúlio e Cordeiro

A ESEF está no Jardim Botânico desde julho de 1963 mas sua história remonta ao final dos anos 30, quando o Governo do Estado resolveu criar o Departamento Estadual de Educação Física por recomendação do Interventor Osvaldo Cordeiro de Farias. As profissões ligadas ao esporte tinham sido regulamentadas naquele ano e o Rio Grande do Sul não quis ficar atrás.
Foi então nomeado como diretor da Escola o capitão Olavo Amaral da Silveira. A seu lado estava um grupo de entusiastas – Valdir Calvet Echart, Frederico Gaelzer, João Gomes Moreira Filho e Max Hanke. Não havia um local centralizado e cada modalidade tinha aulas em diferentes pontos da cidade. O curso durava dois anos e a primeira turma formou-se em 1941 – eram 98 homens e 26 mulheres. Em 1942 a Escola transferiu-se para o Estádio do Cruzeiro, a “Colina Melancólica”. Em 1956 estava no prédio da Associação Cristã de Moços. No dia 21 de outubro de 1969 o ministro da Educação, Tarso Dutra, assinou o decreto de federalização da Escola, o que de fato só aconteceu a 16 de setembro de 1970, com a vinda do ministro Jarbas Passarinho e a presença do governador Perachi Barcellos.

O dia que Ana Paula Arósio quer esquecer


* Um dos mais belos rostos da televisão brasileira, a atriz e modelo Ana Paula Arosio viveu uma grande tragédia em sua vida pessoal.

Veja esta e outras matérias nas postagens do ano "2006", à esq., no blog.

Titanic afundou porque o aço era de terceira


"Se o navio tivesse sido construído com chapas de aço de melhor qualidade, a tragédia poderia ter sido evitada, ou pelo menos amenizada". Quem afirmou isso foi o arquiteto naval norte-americano William H. Garzke, coordenador do estudo sobre as causas da tragédia do navio Titanic - aquele que rendeu filmes e livros.
Divulgado em setembro de 1993, o relatório - feito por especialistas da Sociedade dos Arquitetos e Engenheiros Navais de Nova Iorque - concluiu que o aço utilizado na construção do maior navio do mundo, e que se partiu em dois em 15 de abril de 1912, na sua viagem inaugural entre a Inglaterra e os Estados Unidos, era de má qualidade, de terceira categoria. Se fosse usado um material melhor, o iceberg que colidiu contra o transatlântico não teria feito um rombo de mais de 90 metros no seu casco, matando 1522 pessoas.
Através de análises fotográficas e testes físicos realizados com destroços do navio, os cientistas descobriram que as chapas de aço do casco do Titanic eram impróprias para navegação em águas tão frias como as da costa canadense, local do desastre, onde a temperatura do mar chegou, na noite da tragédia, a 2 graus negativos.
Segundo eles, as chapas desse tipo de aço racham ao tomar contato com águas geladas, detonando uma reação de estilhaçamento semelhante à que acontece com o vidro.
"O naufrágio do Titanic ocorreu mais por uma fraqueza de suas chapas de aço do que devido à violência do choque com o iceberg", esclareceu William Garzke.
Os destroços do Titanic - um gigante de 271 metros de comprimento e dez andares - foram encontrados em 1985, a 4.000 metros de profundidade, no mar da costa canadense, por um grupo de cientistas franceses e americanos. O estudo provou que o casco co navio quebrou como se fosse de vidro, e não foi perfurado, como se acreditava antes.
Ou seja, a empresa White Star Line, preferiu economizar e acabou dando margem a uma das maiores tragédias marítimas de todos os tempos.
* Para ler outras matérias desse gênero clique em postagens "2006"

Duplamente campeão


Campeão estadual no ranking de avaliação dos melhores colégio gaúchos, o Colégio Tiradentes, da Brigada Militar, na avenida Aparício Borges, aqui perto, é frequentado por muitos alunos do Jardim Botânico. A avaliação - uma pesquisa encomendada pela RBS, em parceria com a Secretaria de Educação do Estado - analisou 2.720 escolas.
Um dos alunos do Tirandentes é Matheus Brandt da Rosa, 15 anos, filho de Edson e Sueli. Edson, para quem não sabe, é porteiro do condomínio Costa do Sol, na rua Guilherme Alves, junto ao Supermercado Gecepel, onde mora com o filho e a esposa, Sueli.
Matheus (na foto, à esquerda) é judoca - foi campeão municipal e estadual de judô, e frequenta a Escola Superior de Educação Física, ESEF, na rua Felizardo.

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Ele fez a previsão...


"O bairro São Luiz, como aliás foi por muito tempo conhecido, não apresenta verdadeiramente qualquer notabilidade maior do que as ajardinadas terras de nosso futuro horto botânico.

"É um lugar de condições modestas e, pela circunstância de se achar encravado entre o Riacho e o cerro de Petrópolis, viveu sempre jugulado à sua embaraçante situação de bairro sem uma via própria de acesso. A sua radial, todavia, é a perimetral rua Barão do Amazonas.

"No entanto, não nos cabe dúvida que no dia em que as formidáveis laterais do arroio Dilúvio (avenida Ipiranga) estiverem completamente urbanizadas, propiciando o extraordinário tráfego desse imenso Vale do Sabão, desde a Agronomia até a Beira-Rio, assim como os demais quarteirões ribeirinhos, tomarão outro aspecto e se constituirão na zona mais próspera da cidade".
ARY VEIGA SANHUDO, historiador, "Crônicas da Minha Cidade", livro escrito nos anos 50.

Dia cinzento




Foi uma sexta-feira de céu nublado e uma intermitente chuva fina sobre o Botânico. A temperatura esteve na casa dos 18, 19 graus - bem mais elevada do que nos últimos dias. O riacho Dilúvio, ou Ipiranga (onde D. Pedro não deu o grito de independência ou morte), com suas águas escuras, corre caudaloso neste final do mês de junho. Na outra foto, um dos novos empreendimentos imobiliários do bairro, na rua La Plata, esquina com Veríssimo Rosa.

* Para ampliar as imagens, clique em cima delas.

Ela também lê


Com seus olhos de mormaço (ou de cigana), Fernanda Zaffari também lê o Conselheiro X.

Velha Guarda


Seu Manoel e Marquinhos, dois representantes da velha guarda do Jardim Botânico. Seu Manoel, à esquerda, foi um dos que ajudaram a construir o Condomínio Residencial Felizardo Furtado, nos anos setenta, quando trabalhava na construtora Gus Livonius. Ele é nascido em Portugal, porém jamais botou os pés na terrinha. Ah, e também é gremista.
Já Marquinhos - ou Marco Aurélio - está se recuperando de um problema de saúde. Saúde, Marquinhos!
A foto foi tirada no antigo bar do seu Alécio Caselani, na rua Felizardo. Ao fundo aparece o grande Ci, já falecido.

Anote aí


O atrapalhado agente secreto está hoje no Bourbon Ipiranga
* Neste sábado, no campo do Tamandaré, em Petrópolis (atrás da Oitava Delegacia de Polícia), acontece a tradicional Feste Junina, com muitas atrações. Confira.
* Nesta segunda-feira, dia 30, das 9 às 17 horas, a Pontifícia Universidade Católica-RS realiza a matrícula dos classificados no Vestibular de Inverno 2008. Informações no site www.pucrs.br/vestibular.
* Professores e alunos das cidades de Bom Jesus, São José dos Ausentes, Vacaria, Lages e São Joaquim estão recebendo, em suas escolas, um livro e um caderno de atividades sobre a biodiversidade regional. As obras fazem parte do projeto Biodiversidade dos Campos de Cima da Serra, que busca levar à comunidade as pesquisas desenvolvidas no meio acadêmico, popularizando o conhecimento científico. O Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS, na avenida Ipiranga, colaborou com as pesquisas por meio do Setor de Ornitologia, sob a coordenação da professora Carla Suertegaray Fontana, em conjunto com os pesquisadores Mário Repenning e Cristiano Rovedder. A equipe que escreveu os livros soma 32 co-autores ligados à PUCRS e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O material será entregue, gratuitamente, aos professores das escolas estaduais e municipais, para ser trabalhado em sala de aula. Informações pelo e-mail relacionamento.mct@pucrs.br

* Neste sábado, das 14h30min às 17 hs, na quadra do Condomínio Residencial Felizardo Furtado, acontece mais uma aula de futsal gratuita para crianças e adolescentes de 4 a 14 anos. Ministrada pelo professor Michael (michaelzurc@hotmail.com), a aula busca a integração e socialização dos pequenos. Depois das atividades, será servido um lanche para os participantes.

* Hoje, sexta-feira, na quadra esportiva do Parque Ararigbóia, haverá aulas de alongamento, jogos adaptados, ginástica, voleibol, yoga e musculação. O Parque é aberto à comunidade e conta com mais de 700 alunos, muitos deles vindos de outros bairros. As inscrições devem ser feitas previamente. O Parque é coordenado pela professora Loreti Rucatti, da Secretaria Municipal de Esportes. Informações pelo tel.: 3338-3304.

* Agente 86 - quem não lembra dele? Pois agora o famoso seriado dos anos sessenta e setenta, bem familiar das pessoas com mais de 40 anos, está nas telas dos cinemas, em uma nova versão e novos atores. Você pode assistir ao filme neste final de semana, nas salas Cinemark do Bourbon Shopping da avenida Ipiranga, esquina com a Guilherme Alves. Horários: 12 hs/ 14h30mins/17h05min/19h40mins/22h15min.

* Cinemark - Outra boa pedida, no Bourbon Ipiranga, é "Sex and The City", já popularizado em canais a cabo. Horários: 18h30min/21h35min. Há "O Incrível Hulk" está nos seguintes horários: Legendado - 12h05min/17h10min/22h20min. Dublado: 14h35min e 19h50min.

As salas Cinemark oferecem ingressos promocionais, na sessão das 15 hs, de segundas às sextas, a R$ 4,00 a inteira e R$ 2,00 a meia entrada. Para saber mais acesse o linck do Cienmard do Conselheiro X., à esquerda.

Quinta-feira, Junho 26, 2008

Arquitetura anos 70


Imagem de ontem de um dos oito prédios do Condomínio Residencial Felizardo Furtado. Construído em meados dos anos setenta, na época do regime militar, sua arquitetura é toda quadrada, sólida, funcional - até um tanto stalinista, como um grande caixote habitado por mais de 3 mil pessoas.
* Para ampliar a imagem, clique em cima dela.

Anote aí


* O Curso de Nutrição da Faculdade de Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia da PUC-RS realiza, no próximo dia primeiro, terça-feira, uma palestra do ciclo "Nutri Hour" - a Hora da Nutrição. O palestrante é o médico João Ricardo Turra Magni, que falará sobre Avaliação de Composição Corporal. O objetivo do evento (gratuito) é o de atualizar conhecimentos de Nutrição e é aberto aos estudantes de todos os cursos da PUC. Tais encontros acontecem sempre na primeira terça-feira de cada mês, das 19h30min às 20h30min, no auditório do prédio 5, no campus da avenida Ipiranga. Inscrições na sala 804 do prédio 12A ou pelo telefone 3320-3646.
* Lista de aprovados no CREDPUC. A PUCRS divulgou, nesta quarta-feira, a lista de alunos aprovados no processo seletivo ao CREDPUC 2008/1. A relação completa está no site www.pucrs.br/beneficios . O benefício é destinado a alunos de graduação de todos os níveis, carentes de recursos financeiros, mesmo com mentalidade trancada. Os selecionados podem obter 50% de crédito sobre as mensalidades, exceto a primeira. O CREDPUC é renovável semestralmente. Para o início do reembolso há um ano de carência, a contar da data da formatura. Informações na sala 111 do prédio 15, no campus da Ipiranga, ou telos telefones 3320-3500, ramal 4627, e 3320-3936, ou pelo site.
* O Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da PUCRS está com inscrições abertas, até 25 de agosto, para o Curso de Especialização em Direito e Cultura Indígena. O evento está previsto para iniciar dia 5 de setembro, às sextas-feiras e sábados. Informações pelo tel.: 3320-3537, ou www.pucrs.br/direito/especializacaoculturaindigena

Ele também lê


O compositor e jornalista Ronaldo Bastos ("Clube da Esquina"), morador do Leblon, parceiro de Milton Nascimento e de tantos outros, também lê o Conselheiro X.

Incêndio das Lojas Renner: o Joelma gaúcho


Chamas logo consumiriam o prédio. A irmã do ex-jogador Everaldo (à direita) preferiu saltar do alto.


Vitor Minas
* Texto inédito e exclusivo para o Conselheiro X.

Eram 13h45min de 27 de abril de 1976, uma terça-feira com “temperatura em elevação, ventos soprando de leste a norte, fracos”, quando alguns rolos de fumaça começaram a sair do interior das Lojas Renner. Três horas depois a sede de uma das mais tradicionais redes de magazines do Sul do País transformava-se em um esqueleto calcinado e fumegante.
Dezenas de vítimas e desaparecidos, quase oitenta feridos, desabamentos, explosões, pânico, histeria, caos urbano, linhas telefônicas congestionadas, desencontros, confusão, choros, acusações recíprocas e velhas cobranças – este o saldo da tragédia que parou Porto Alegre naquele outono dos anos setenta.
Cerca de 200 mil pessoas, entre moradores e trabalhadores do centro, curiosos vindos dos bairros mais distantes, mórbidos natos, desocupados, batedores de carteiras, bombeiros, policiais, médicos, enfermeiros, soldados do Exército, brigadianos a cavalo e dúzias de alvoroçados repórteres acompanharam ou participaram de um pesadelo que lembrava o ocorrido no edifício Joelma, em São Paulo, dois anos antes, quando, oficialmente, 188 pessoas perderam a vida em circunstâncias semelhantes.
Por um bom tempo o incêndio do Joelma - e o sucesso do filme-catástrofe “Inferno na Torre”, assistido por milhões de brasileiros - alimentou um justificado sentimento de insegurança e sinistrose nos habitantes dos grandes centros urbanos. A revelação a olhos vistos de que a mais rica cidade do País não tinha condições de fazer frente ao perigo das chamas e, pior, que isto representava a regra geral, rendeu dezenas de inflamadas matérias na imprensa, gerou verbosos discursos políticos, modificou algumas leis específicas, alterou e melhorou determinadas coisas no varejo sem, contudo, resultar em uma nova política na área de segurança contra o fogo nas principais cidades brasileiras.
Em meados de 1976 seria a vez de Porto Alegre ter o seu Joelma e de demonstrar mais uma vez o quanto a incúria, o descaso e, talvez, alguma dose de fatalidade, podem se combinar para repetir um enredo que só se modificou em detalhes e cifras de óbitos e feridos. Foi, disparado, a maior tragédia repentina que se abateu sobre a cidade e certamente, por sua alta voltagem emocional, a que mais marcou seus então 1 milhão de habitantes. Comparado a ela, o incêndio das Lojas Americanas, em dezembro de 1972, parecia café pequeno.
Nada, é óbvio, indicava que aquela banal terça-feira, nem quente e nem fria, com termômetros que oscilavam entre 20 e 24 graus, fosse se transformar em um filme de horror para seiscentas pessoas e desorganizar completamente a vida dos porto-alegrenses.
Os jornais que chegavam às bancas traziam manchetes pouco emocionantes, a maioria versando sobre a viagem que o presidente Ernesto Geisel fazia à Europa (Valery Giscard D’Estaing enchia o Brasil de elogios: segundo ele, desde o final da Segunda Guerra, emergíramos como “potência mundial”) , a situação de Angola e o auxílio cubano, as eleições em Portugal, a Argentina (onde ocorrera o golpe militar em 24 de março), o Oriente Médio (a Síria invadira o Líbano, em um banho de sangue) e os ecos dos jogos da dupla Grenal. Em Paris, onde foi recebido pelo embaixador Delfim Neto, Geisel – o condutor da “abertura política lenta, gradual e segura” - reafirmou publicamente a boa notícia que já havia dado aos gaúchos e ao governador Synval Guazzelli em setembro do ano anterior: o Terceiro Pólo Petroquímico seria mesmo instalado no Rio Grande do Sul – e com parcelas de recursos franceses. Na área das telecomunicações, um telefonema do ministro Quandt de Oliveira para o presidente brasileiro, no Palácio de Versalhes, inaugurava a Discagem Direta Internacional entre o Brasil e a Europa.
Na área esportiva, no estádio Olímpico, o Grêmio de Paulo Lumumba vencera o Atlético de Carazinho por 2 a 0, com gols de Zequinha e Iúra. Trinta mil pessoas assistiram ao jogo, no domingo. Já no estádio Centenário, o Internacional havia derrotado o Caxias por 1 a 0, gol de Batista. Os dois jogos eram válidos pelo Campeonato Gaúcho, liderado pelo Inter, que seria bicampeão brasileiro brasileiro. E no dia seguinte, quarta-feira, no Maracanã, a seleção brasileira enfrentaria o Uruguai pela Copa Atlântico (acabou vencendo por 2 a 1, gols de Rivelino e Zico, com cenas de pugilato entre os jogadores). No plano doméstico, o vereador governista Paulo Santana (Arena) defendia o cercamento do Parque Farroupilha, palco de um crescente número de assalto e crimes de morte. Por sua vez, o prefeito Guilherme Sociais Vilela alertava para o inchaço de Porto Alegre e propunha uma série de obras e medidas para evitar que a cidade se tornasse inviável nos próximos vinte anos (conforme as mais recentes estatísticas, a região metropolitana somava 1.481.518 habitantes e 30% das famílias possuíam rendimentos de até 1,5 salário mínimo).
Nos cinemas estreavam “Zorro”, uma refilmagem com Alain Delon no papel principal, e “W. – A Marca do Terror” – a história de uma mulher que é vítima de vários acidentes estranhos, sempre precedidos pela aparição da letra W. A “Macaca Esquecida”, peça infanto-juvenil do jornalista gaúcho Caco Barcelos, contando os problemas de uma cidade grande, prosseguia suas apresentações no Teatro de Câmara.
Para os trabalhadores gaúchos e brasileiros, porém, a grande novidade a ser anunciada dizia respeito ao aumento do salário mínimo – o Primeiro de Maio cairia no próximo sábado e aguardava-se o pronunciamento do Ministro do Trabalho informando o reajuste. A programação das emissoras de tevê – canal 12, Gaúcha, Canal 10, Difusora, Canal 5, Piratini, e Canal 7, Educativa – podia ser consultada nas páginas dos seis diários que circulavam então na Capital: Correio do Povo, Folha da Manhã, Folha da Tarde (que completava 40 anos de circulação naquela Terça), Zero Hora, Diário de Notícias e Jornal do Comércio.
Sabia-se, assim, que às 14 horas, na tevê Difusora, teríamos o filme “Caminhos Incertos, enquanto a Gaúcha exibiria, no mesmo horário, “Os Monkees Estão Soltos”. Na Segunda-feira, 3, estrearia a nova novela das 10, Saramandaia, com Dina Sfat, Sonia Braga, Wilza Carla, Juca de Oliveira e Milton Moraes. Havia meses, logo depois do Jornal Nacional, os brasileiros acompanhavam as peripécias do taxista Carlão em “Pecado Capital”.
A partir das 14 horas daquela terça-feira, no entanto, todas as emissoras de rádio e televisão da cidade voltaram suas atenções para o incêndio das Lojas Renner, transmitindo a todo momento flashes do da esquina da rua Doutor Flores com a Otávio Rocha.
Ali erguia-se um edifício construído no início dos anos trinta, um grande magazine ofertando uma extensa linha de produtos que ia de roupas infantis a eletrodomésticos. No alto funcionava o Terrasse Renner, restaurante e casa de chá.
Justamente naquela terça, às 15 horas, o Terrasse apresentaria a nova coleção de inverno da indústria de roupas Renner, griffe tradicional de vestuário masculino e feminino cujo slogan – estampado em peças publicitárias na mídia local – centrava-se no chamativo mote “Basta uma vontade louca e viver e pronto”.
O fogo iniciou as 13h45min, no terceiro pavimento, em um pequeno depósito de tintas – elemento de facílima combustão – talvez causado por problemas no ar condicionado, algo que já ocorrera antes e não merecera maiores atenções, e foi devorando tudo pela frente. Calcula-se que, naquele momento, cerca de 600 pessoas estavam no interior do edifício, a maioria clientes da loja, além de casais e executivos que almoçavam no restaurante. Por sorte, metade dos 300 funcionários da casa trabalhavam em um sistema de “horário ronda”, muitos haviam largado às 13 horas para o almoço e só deveriam voltar às 15. Isso, aliado ao movimento comercial, ainda fraco no princípio da tarde, evitou um número maior de vítimas.
ARAPUCA
Neste momento, no primeiro andar (na verdade o terceiro pavimento) o funcionário Luis Carlos Bandeira atendia a clientes na seção de eletrodomésticos.
“De repente chegou um colega e falou que a loja estava incendiando, que era pra descer todo mundo. Eu e outros seis colegas não descemos, queríamos apagar o fogo, pois eu tinha a certeza de que o incêndio tinha começado ali mesmo, no depósito de tintas. Procurei extintores mas foi tarde. Havia muita fumaça e a gente percebeu que não adiantava mais nada. Então decidimos salvar clientes e colegas. Subimos três vezes até o terceiro andar, nas duas primeiras vezes foi fácil, mas no último já tinha muita fumaça e estava quente. Cada vez a gente trouxe para baixo três ou quatro pessoas. A gente precisava ajudar porque o pessoal estava meio perdido, tinha até gente subindo as escadas ao invés de descer”.
Na última tentativa encontrou, agarrada às cortinas, uma moça completamente histérica que parecia querer fugir pela parede. Luís precisou aplicar-lhe um tapa no rosto para que saísse do estado de choque e recobrasse a razão. Agarrando-a com os dois braços, ele pode afinal carregá-la sem resistência.
Outra que escapou do inferno, uma moça de 24 anos chamada Maria Helena, fazia compras no quarto pavimento da loja quando foi avisada do fogo. Barrada pela cortina de fumaça, não conseguiu descer e rumou instintivamente para o terraço.
“- Todo mundo foi pra cima e um homem me ajudou a subir. Eu disse a ele que estava me sentindo mal e que ia desmaiar. Ele falou: se tu desmaia, tu não sai daqui.”
No terraço, viu pessoas deitadas no chão, sem entender se era uma forma de se proteger da fumaça ou se haviam desmaiado. Em seguida, retirou o lenço que prendia seus cabelos e amarrou-o na boca.
“Esperei uns dez minutos e durante todo o tempo tropecei numa porção de gente que estava caída. Tinha uma senhora que queria se jogar e eu gritava para ela não pular que a escada vinha chegando”.
(Salva pelos bombeiros e medicada no Hospital de Pronto Socorro, Maria Helena seguiu para a casa de uma colega. Lá acalmou-se um pouco, tomou banho e jantou. Antes de tentar um difícil sono a base de tranquilizantes, disse a todos que não teria condições de passar por aquilo tudo novamente e que, se visse que morreria queimada, teria preferido saltar do alto. Mal sabia ela que, 50 horas depois, experimentaria o mesmo horror em novo endereço).
Em pânico, atropelando-se e pisoteando-se umas às outras, as pessoas corriam para o alto, erro que custaria muitas vidas e transformaria o trabalho dos bombeiros um penoso confronto contra uma implacável estrutura de cimento e ferro - o prédio era uma autêntica “arapuca” com apenas duas saídas no térreo. Mais tarde se saberia: havia, sim, saídas em cada andar, ligando o edifício ao prédio ao lado e uma outra, de emergência, no alto. É bem provável que todas estivessem trancadas àquela hora, e mesmo que não estivessem poucos funcionários conheciam tal recurso salvador: afinal, ninguém havia sido orientado sobre como proceder em caso de incêndio.
Isso tudo – janelas quadriculadas e vedadas por ferro, corredores estreitos, equipamentos antiquados e que não funcionavam e nenhum esquema previsto para situações de risco – explicariam o elevado número de mortos e feridos.
Posteriormente, o major Ricardo Kelleter, comandante do Centro de Operações da capital, informou: os extintores de incêndio do edifício seriam suficientes para controlar as chamas em seu início, se utilizados corretamente e, claro, se estivessem todos em perfeitas condições de uso. Segundo o major, um soldado da Brigada Militar encontrava-se no quarto andar no momento em que as chamas irromperam no setor de tintas e poderia – com dois ou três extintores – ter dominado a situação. Porém, por mais que procurasse, o PM não encontrou nenhum desses equipamentos. Ademais, na confusão que se seguiu, não havia ninguém que pudesse informar da localização do equipamento. Ele então tratou de salvar a própria pele, descendo as escadas e ganhando a rua.

“Veio o estouro desencadeado pelo medo, e na correria dos que procuravam escapar do inferno já prenunciado, pessoas caíram ao chão, feriram-se, tiveram suas roupas rasgadas. Eva Maria Braga Cançândino, atendida no Pronto Socorro com algumas escoriações, estava na sobreloja e declarou que não chegou a ver nem fumaça e nem fogo. De repente sentiu-se empurrada, recebeu pancadas de todos os lados e acabou desmaiando. Quando recobrou os sentidos estava no HPS”. (Correio do Povo, 28.04.1976)

Porém, para as três dezenas de pessoas que almoçavam no terraço, a percepção de que algo extraordinário estava acontecendo demoraria mais alguns minutos.
Eram 14h10min quando o garçon Kurt notou gritos e um inusitada movimentação nos andares abaixo. Ao descer para o pavimento inferior, viu rolos de fumaça obscurecendo a estreita escada de ligação entre os pavimentos. Imediatamente, ele voltou para o restaurante, onde o pânico já se instalara.
Assim como Kurt, Paulo, um confeiteiro de 59 anos, revestiu-se de sua coragem máxima e não se deixou levar pelo desespero. Paulo e Kurt ganhariam a condição de “homens fortes” da tragédia, acalmando os mais histéricos e orientando-os nos procedimentos de sobrevivência. De posse dos extintores – que, ao contrário da maioria, sabia utilizar corretamente – Kurt tentou de pronto combater as chamas. Ao constatar a inutilidade do ato, ordenou que todos molhassem as próprias roupas e colocassem panos umedecidos junto à boca e nariz para evitar o efeito tóxico da fumaça e atenuar o crescente calor. “Calma, vamos esperar o socorro dos bombeiros, que já estão chegando!”
Uma hora depois, já salvo e sem maiores ferimentos, ele contou aos repórteres: “Se eu não mantivesse a calma para orientar os funcionários que estavam nos últimos pavimentos, mais da metade teria se jogado para o chão. Todos estavam desesperados. Eu molhei as roupas do corpo e o avental, fazendo o mesmo com a roupa dos outros. Ensinei que deveriam manter um pano molhado próximo ao rosto”.
Sidnei Marques da Silva, 40 anos, cozinheira do restaurante, irmã de Everaldo, campeão mundial de futebol na Copa do México e ex-craque do Grêmio, não manteve essa calma indispensável e tornou-se a primeira vítima conhecida da tragédia que mal iniciava – desesperada, saltou no espaço com seu uniforme branco, caiu por quase trinta metros, bateu em uma proteção de marquise e desabou no chão da praça Otávio Rocha em meio à correria e aos gritos da multidão.
Eram então 14h10min. Se ficasse onde estava, protegendo-se com panos molhados, Sidnei, que estava grávida de três meses, certamente seria salva pelos bombeiros. Coincidentemente, ela morreu no mesmo dia em que seu irmão, sua cunhada e uma filha destes, de apenas três anos, perderam a vida em um acidente de carro: 27 de outubro de 1974, um ano e meio antes. Também por um desses desígnios do Destino que parecem acompanhar os grandes dramas outro irmão seu, o massagista Ariovaldo, chegava no local naquele exato momento.
Alguns minutos depois foi a vez de um funcionário da Renner, mais tarde identificado como Paulo Roberto Apolo, 19 anos, passador de roupas no quinto andar, voar para a morte. Os dois sequer haviam sido tocados pelo fogo.
Embaixo, a multidão hipnotizada tentava acalmá-los, gritando em coro: “Não pulem!, não pulem!”
Quem quase pulou foi Ilasir Barreto Gonçalves, de 21 anos, caixa do restaurante:
“Tudo aconteceu com uma rapidez incrível. Primeiro veio o cheiro da fumaça e os funcionários e os frequentadores fizeram alguns comentários, sem grandes preocupações. Os funcionários chegaram a lembrar o que aconteceu há alguns meses, quando um circuito no ar condicionado provocou um cheiro parecido, mas que desapareceu logo. Mas desta vez em dois minutos já tinha muita fumaça. Aí todo mundo começou a correr e a gritar. Uns querendo descer, outro querendo subir. O seu Jonas (ecônomo e arrendatário do Terrasse) tentava acalmar as pessoas. Eu gritava “socorro”, chamando pelo seu Jonas e pela dona Teresinha (esposa deste). Corri para a janela, olhei para baixo e pensei em me jogar. Mas fiquei com medo da altura e voltei. Procurei a porta mas a fumaça tava me sufocando cada vez mais. Aí eu voltei pra janela. Nesse momento eu vi uma escada grande, de ferro, que vinha subindo na minha direção. A escada não chegava nunca, parece que passou toda uma vida. Rezei muito, em voz bem alta, até que eu consegui pegar na ponta da escada. Nessa altura eu já estava quase desmaiando. Depois não lembro de mais nada. Acho que desmaiei. Não sei quem me tirou daquele inferno. Me levaram para um hospital e eu nem sei qual é. Quando me recuperei já estava em casa”.
(No dia seguinte Ilasir, moradora na Vila Esmeralda, em Viamão, na região metropolitana, voltou ao local para saber dos colegas e para recuperar a bolsa com dinheiro e documentos que havia jogado lá de cima. Recebeu-a um tanto chamuscada, mas com todos os pertences dentro).

Já o garçon Gentil da Silveira Porto, 37 anos, havia oito trabalhando no Terrasse (conhecia perfeitamente a escada e o desvio enganoso que esta sofre na sobreloja), escapou ileso por uma questão de segundos. Graças sobretudo à sua presença de espírito.
Contou ele: logo depois de ouvir gritos de “fogo” a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foram os conselhos que lera em um livro - em caso de incêndio, não pegar elevador ou subir para o terraço. Seu raciocínio providencial: Gentil desatou a correr pelas escadas, “sem ver nada pela frente”. Ao alcançar o terceiro andar deparou-se com uma cortina de fumaça que se espraiava pelos pavimentos abaixo sem contudo invadir a sobreloja, onde muita gente gritava e corria às tontas.
“Se tivesse demorado um pouquinho mais ou tentasse salvar alguém eu não conseguiria sobreviver”, explicou na saída.
Outra pessoa que conseguiu descer pela escada relatou na saída: “Passei por várias seções da loja e vi pelo menos os corpos de umas doze pessoas estendidos no chão. Não se mexiam, não diziam nada. Coisa horrível, meu Deus. No meio de tanta fumaça eu às vezes tropeçava nos corpos”.
Quem teve ao lado alguém que o contivesse nessa hora pode escapar do pior. Ilma Coutinho Costa, uma senhora que almoçava no Terrasse Renner em companhia do marido, Ari, deve a sua vida ao companheiro.
No dia anterior Ilma chegara de Jaguarão, para fazer exames médicos na capital. Depois de feitas as compras na loja, os dois decidiram almoçar ali mesmo. Confrontada com a fumaça e o calor, desesperada com o inferno que se originara nos andares abaixo, ela chegou a ensaiar o salto, colocando um pé na amurada e projetando meio corpo para fora – nesse instante foi segura por Ari.
Com muito esforço, agarrando-a pelo pescoço, ele evitou a queda da mulher durante uma meia hora que lhe pareceu interminável. Salvos pela escada, foram dos primeiros a descer. Ari, chorando, com sangramentos na cabeça e os cabelos chamuscados, contou aos repórteres: “Nós estávamos almoçando quando todos começaram a sentir cheiro de fumaça. Corremos para a escada de emergência mas não dava mais. Ela estava cheia de fumaça. Era melhor ficar pois se tentássemos descer certamente morreríamos sufocados. Mas a fumaça foi aumentando e o calor também. Aí começou o desespero. Era correria para todos os lados. Não sei como eu caí e quebrei minha cabeça. Mas isso não foi nada. O pior foi a crise de nervos que deu na minha mulher, ela não agüentava mais, tossia muito e me convidou para se atirar do prédio. Como eu disse para ela que era melhor esperar que a qualquer hora a escada dos bombeiros chegaria até nós, ela correu para a janela e só deu tempo de eu agarrar metade do seu corpo. Sabe lá o que é ficar quase meia hora agarrando ela com a metade do corpo balançando para fora? Eu estava a ponto de largá-la. Não tinha mais forças para agarrar. Minhas mãos estavam doentes e eu senti que aos poucos ela estava escorregando. Até que a escada apareceu e nós dois descemos. Se os bombeiros levassem mais um minuto para colocar a escada perto de nós, eu ia largá-la, não aguentava mais”,.
A chegada dos bombeiros, das ambulâncias e de um batalhão de fotógrafos e repórteres logo seria seguida por soldados do Exército e por helicópteros da Base Aérea de Canoas que sobrevoavam o local – toda a região central e bairros mais próximos estavam paralisados pela tragédia.
Temendo assaltos, e também porque não havia outra coisa a fazer naquelas circunstâncias, os comerciantes do centro fecharam as portas e uma turba de comerciários, escolares, office-boys, curiosos de todos os tipos e procedências, passou a disputar o melhor ângulo de visão.
Dos prédios mais próximos pessoas jogavam sacos de leite para quem estava no terraço das Lojas Renner. Em breve tais locais estratégicos seriam evacuados e ocupados pelos soldados do Corpo de Bombeiros, que ali instalaram mangueiras. Atendendo ao pedido das autoridades médicas, as emissoras de rádio transmitiam urgentes apelos para que a população acorresse aos hospitais a fim de doar sangue.
A sessão plenária da Assembléia Legislativa que acontecia na Palácio Farroupilha, na Praça da Matriz, a 500 metros dali, foi suspensa por “falta de condições psicológicas para o prosseguimento dos trabalhos”, isso depois que o deputado Waldir Walter (MDB) ocupou os microfones para relatar o que tinha visto minutos antes: “O caso é tão grave que o Rio Grande do Sul compreenderá. Há dezenas de pessoas lá em cima do prédio, os helicópteros não podem descer. E, na minha opinião, queira Deus que não haja vítimas, mas é da maior gravidade o incêndio que está lavrando nas Lojas Renner, eu vi de perto, testemunhei uma das grandes tragédias do nosso Estado”.
Prontamente, o presidente João Carlos Gastal, colocou a ambulância e o corpo médico da Casa à disposição do Hospital Cristo Redentor, na Zona Norte da cidade, especializado em traumatologia e queimados e para onde seguiam muitos feridos. O hospital montou uma operação de emergência, com dezenas de novos leitos. A direção do Pronto Socorro, por seu lado, proibiu a visita aos pacientes e mobilizou-se toda para o atendimento, recebendo o auxílio de mais de uma centena de médicos que para ali convergiram. A Companhia Rio-Grandense de Laticínios e Correlatos, Corlac, enviou dois caminhões carregados de saquinhos de leite para distribuir aos intoxicados pela fumaça. Ambulâncias de clínicas particulares chegavam ao centro a fim de auxiliar na remoção dos feridos.
O cabo Alcides Gonçalves, 28 anos, 13 no corpo de bombeiros, era um dos que passavam pelo local na hora do início do fogo. Mesmo com problemas nos pés (estava em licença médica) e sem nada a protegê-lo das chamas, correu para dentro do edifício e tentou salvar os que lá se encontravam. Pouco tempo depois, com o rosto e os braços cobertos de remédios contra as queimaduras, explicou singelamente a sua atitude: “Numa hora dessas a gente não pensa em nada, não quer saber o que vai acontecer. E, depois, bombeiro não pode ver bombeiro mal”.
Duas faces do mesmo drama: ao tempo em que centenas de homens e mulheres faziam fila no posto do Banco de Sangue no Largo da Prefeitura para suprir a demanda nos hospitais, aproveitadores, punguistas e assaltantes agiam quase impunemente na cidade fragilizada. Ao ouvir os apelos no rádio o auxiliar de enfermagem José Jorge Escalante, 32 anos, quatro filhos pequenos, saiu de sua casa, na avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus, e seguiu apressadamente rumo ao HPS. Ao atravessar o parque da Redenção, próximo ao auditório Araújo Viana, foi interceptado por uma dupla de assaltantes. Esfaqueado no peito, morreu quarenta minutos depois, no próprio HPS.
TERCEIRA VÍTIMA
Abrindo caminho em meio à multidão, o primeiro carro do Corpo de Bombeiros, vindo do quartel na avenida Silva Só, chegou ao local às 14h20min, seguido de outros da estação Floresta. Dez minutos depois um veículo equipado com escadas Magirus encostou em frente ao prédio. Os bombeiros ligaram as mangueiras nos hidrantes existentes e deram início efetivo ao salvamento.
A primeira escada, a maior, subiu lentamente. Outras duas foram dispostas no lado, na rua Doutor Flores. A multidão acenava para as pessoas que estavam nos últimos andares. Ambulâncias começam a chegar de todos os lados. Das janelas do edifício pessoas acenam com as mãos ou com lenços, implorando socorro imediato. Muitas delas jogavam seus pertences do alto.
De súbito, a cabeça de um homem projeta-se pelo interior das grades de uma janela. Sufocado pela fumaça, e na intenção de alcançar a escada que se aproximava, ele havia quebrado os vidros para respirar ar puro quando – provavelmente intoxicado – desmaiou sobre os cacos pontiagudos e morreu devido aos cortes no pescoço. Exatamente nesse instante um bombeiro pulava no parapeito para resgatá-lo.
A vítima foi identificada como Germano Jonas, 67 anos, ecônomo do restaurante Terrasse Renner, um alemão naturalizado brasileiro. Nascido em Frankfurt, Germano morava no próprio edifício com a esposa Teresinha e a sogra de 82 anos, que também pereceram no incêndio.
No alto do prédio, o confeiteiro Altair Giacometti tirou o casaco e iniciou uma arriscada descida segurando-se em uma calha. No meio do caminho esta entortou e Altair quase caiu. Mesmo assim, conseguiu escorregar até o terraço e ali agarrou-se à escada dos bombeiros, chegando são e salvo ao solo. Lá recebeu o abraço de um sobrinho que observava a cena junto à multidão.
Às 15h05min as primeiras pessoas – os garçons Nelson e Flávio – puderam finalmente colocar os pés na escada, sob aplausos da multidão. Já na calçada, Flávio bebeu alguns goles de leite e informou que ainda havia mais de trinta pessoas no terraço, muitas delas desmaiadas. Em seguida, ele próprio desmaiou. Minutos depois foi a vez do casal de Jaguarão ser salvo.
Com isso estava evidente que quase todos, inclusive aqueles que penduravam-se nas cornijas, poderiam sair dali com vida. A escada – que parecia não conseguir elevar-se além do penúltimo andar – chegava agora ao terraço, onde destacavam-se as figuras de outras pessoas à espera do salvamento. Elas vão descendo em fila indiana, algumas chorando, muitas tremendo. Quando chegam ao solo são brindadas com goles de leite e rapidamente embarcadas nas ambulâncias que seguem rumo ao Pronto Socorro e aos demais hospitais da cidade. Algumas precisam de respiração artificial.
A essas alturas, a compacta massa humana tem que ser afastada à força. Helicópteros sobrevoam o local. O deslocamento do ar espalha a fumaça e atiça as chamas, o que irrita sobremaneira os bombeiros.
Na verdade, a não ser por uma presumida função psicológica – serviria, em tese, para demonstrar o curso das iniciativas e, por conseguinte, acalmar as vítimas – nunca se entendeu, de fato, o que tais máquinas faziam no local do incêndio. Não havia heliporto algum e nem os tripulantes dos helicópteros estavam preparados para tais ações de salvamento.
Não bastasse a falta de roupas especiais e de suficientes máscaras a protegê-los da fumaça e dos gases – algo que havia sido prometido à corporação depois do que acontecera nas Lojas Americanas – os bombeiros enfrentavam dificuldades adicionais em terra. Os poucos hidrantes revelaram-se insuficientes e a saída foi recorrer ao rio Guaíba, em cujas margens lanchas da Companhia de Socorro Naval bombeavam água para os carros-pipa que faziam um penoso vai-e-vem de abastecimento.
Às 15h15min, através de megafones, a Polícia Militar apelou a todos para que se retirassem – são auxiliados nisso por tropas da Polícia do Exército que imediatamente afastam os populares.
Por sua vez, a energia elétrica dos prédios mais próximos já fora desligada. O comandante geral da Brigada Militar, coronel Jesus Linares Guimarães, recém havia chegado ao local quando um soldado informou que alguém acendera uma vela em um dos apartamentos do último andar do edifício localizado na esquina da rua Vigário José Inácio, onde, no térreo, funcionava a loja Escosteguy. Minutos depois, os PMs e o comerciante respiraram aliviados: tratava-se apenas da lanterna do zelador que fazia uma ronda de verificação.
A esse tempo os bombeiros estavam convictos de que nada mais de efetivo restava então a fazer. Emílio Rocha Fontoura, 20 anos de profissão, irritado, disse aos repórteres: “Isso aqui é uma verdadeira ratoeira humana”. Outro colega seu, o soldado Jandir Carvalho, lamentou: “Tentei tirar várias pessoas lá de dentro, mas elas não passavam pelas janelas”. No interior do edifício explodiram botijões de gás. Um homem desacordado continuava dependurado com uma perna e um braço para fora da janela. Um bombeiro aproximou-se e lançou-lhe um jato de água. O homem se refez imediatamente, e o soldado foi aplaudido pela multidão.
Quem estava no terraço do edifício Apesul, defronte ao Renner, na avenida Alberto Bins, pode ver o corpo carbonizado de uma pessoa que agarrava-se a uma janela de um dos últimos andares. O jornal Folha da Manhã – que mobilizou uma grande equipe de repórteres, sendo recompensando com uma das mais completas coberturas do fato - retratou este momento.

“Quinto andar. Não dava para sair por nenhuma das janelas, eram muito pequenas e com grades. O fogo já alcançava as escadas do quinto andar e as pessoas corriam desesperadas, em pânico, tentando alcançar o terraço, único lugar onde poderiam fugir daquela ratoeira.
Um bombeiro, que subiu na escada Magirus para retirar as pessoas que ocupavam o terraço, vindas de todos os andares do prédio, contou depois, desolado: “Da escada deu pra ver o interior do restaurante, no terraço da loja. Entre as cadeiras e mesas, vi perto de uns dez corpos pelo chão, ou mais. Não sei se estavam mortos ou se procuravam se proteger, no desespero.”
A água era jogada pelos bombeiros, posicionados com as mangueiras nos terraços e andares superiores dos prédios vizinhos, todos agora evacuados. Quem estava no terraço do edifício da Apesul (financeira), na avenida Alberto Bins, pode ver o corpo carbonizado de uma pessoa, não dava para distinguir direito se era homem ou mulher, agarrado numa janela do quinto andar.
Quem falou com essa pessoa, antes de morrer, foi o PM Eusébio: “Era uma mulher, eu falei com ela, tentei agarrar para trazer para a escada Magirus onde eu estava. Mas não deu. Eu senti o medo e o desespero nela. A janela era estreita demais, ela conseguiu quebrar um vidro e passar um braço e a cabeça. Atrás dela, dentro da loja, estava tudo escuro por causa da fumaça e dava pra ver o fogo também. Não deu pra tirar ela dali.”



No prédio do Hospital de Pronto Socorro, na avenida Osvaldo Aranha, a tarefa da direção tampouco era das mais fáceis: tratava-se de improvisar da melhor forma possível um satisfatório esquema de atendimento a dezenas de feridos que ali aportavam, a grande maioria intoxicados pela fumaça (entre os socorridos no HPS e nos hospitais da cidade poucos apresentavam queimaduras mais sérias e não houve nenhum óbito de feridos nos dias seguintes).
Um apelo do diretor da instituição, Ubirajara Motta, atraiu rapidamente centenas de médicos que não pertenciam aos quadros da casa. Unidades móveis haviam sido deslocadas até as proximidades do edifício Renner, porém era no HPS que os familiares das possíveis vítimas da tragédia poderiam agora ter alguma certeza ou colher informações mais seguras.
Obviamente, a confusão era total dentro e fora do HPS, e o desespero atingia paroxismos. Outro apelo do diretor para que os motoristas deixassem livres as vias de acesso aos hospitais da cidade, especialmente a avenida Osvaldo Aranha, a Ramiro Barcelos e a avenida João Pessoa, por onde passavam as ambulâncias e as viaturas, foi devidamente atendido e evitou o caos absoluto.
Soldados da Polícia do Exército organizaram um cordão de isolamento em torno do Hospital, ameaçado de invasão por parte dos parentes das vítimas. O capitão da Brigada Militar, Servo Tellier e sua esposa, Alba, buscavam informações do filho, Paulo.
Sem conseguir identificá-lo entre os feridos, o militar voltava para junto da mulher quando avistou os dois – mãe e filho – abraçados do lado de fora, ela chorando e ele tentando acalmá-la.
Paulo explicou: com folga das 12 às 14 horas, havia saído a fim de matricular-se no exame supletivo e, quando voltou ao local de trabalho, deparou-se com o prédio ardendo em chamas. Preocupado com a sorte de seus companheiros, correu para o HPS – e ali reencontrou a mãe. Quando viu o desfecho feliz o capitão Tellier, com voz embargada, disse que agora era a sua vez de colaborar, doando sangue. E prontamente voltou para o interior do hospital.
Poucos mantinham esse autodomínio. José Wilson Rodrigues, cuja irmã trabalhava na loja, não conseguiu sequer chegar ao balcão de informações: antes disso teve um ataque convulsivo e caiu ao chão. Uma moradora das proximidades do Edifício sofreu uma crise nervosa e ao chegar ao HPS só conseguia pronunciar uma palavra: “terremoto, terremoto...”
Terremoto era o nome de um filme-catástrofe lançado no ano anterior.
A estas alturas, por assim dizer, Porto Alegre havia parado. Nenhum ônibus podia largar passageiros nos terminais da Praça XV e da praça Rui Barbosa. Todas as guarnições da Brigada Militar, do Primeiro Batalhão, do Nono, do Décimo Primeiro e até os soldados que faziam o policiamento do Palácio Piratini, estavam no local.
A Polícia isolou a rua Voluntários da Pátria até o elevado da Conceição, a Pinto Bandeira, a Coronel Vicente, a Vigário José Inácio, a Doutor Flores e a Salgado Filho, no sentido bairro-centro. Linhas de ônibus foram desviadas e proibiu-se o estacionamento em muitas áreas. A avenida Júlio de Castilhos, uma das principais artérias do centro, transformou-se em um imenso calçadão de pedestres. Sensível à tragédia, a comissão organizadora do Primeiro Seminário Internacional de Investimentos no Estado do Rio Grande do Sul, cujo encerramento deveria acontecer à noite, com um banquete na Associação Leopoldina Juvenil, cancelou o evento. Ao mesmo tempo a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, OSPA, divulgava uma nota à imprensa cancelando a apresentação do maestro Isaac Karabtchevsky e do solista Roberto Szidon, também programado para aquela noite. O prefeito Guilherme Socias Vilela compareceu ao Pronto Socorro e, irritado, condenou o que definiu como “exploração da tragédia para fins políticos”: “Não posso admitir que oportunista algum pretenda tirar proveito eleitoral disso”, atacou, sem dar nome aos bois.
Vilela referia-se ao líder da oposição, Brochado da Rocha, e ao também medebista Carlos Serafim Pessoa de Brum.
O primeiro havia convocado a bancada oposicionista para uma precipitada “tomada de posição quanto ao incêndio das Lojas Renner”, enquanto o segundo distribuía aos jornalistas cópias de seu projeto-de-lei estabelecendo normas mais rígidas de “habite-se” e prevendo a construção de heliportos nos edifícios mais altos de Porto Alegre, projeto aprovado pelos vereadores, porém vetado pelo prefeito anterior, Telmo Thompson Flores sob a alegação de que isso iria encarecer a construção de moradias em um país carente nesse setor. “Lamento não haver heliporto no edifício, o que poderia ter salvo vidas”, retrucou Pessoa de Brum.
De fato, pouco ou nada mudara desde o incêndio das Lojas Americanas. A imprensa aproveitou para lembrar os grandes incêndios que marcaram a Capital: o do edifício Malakoff, primeiro “arranha-céu” da cidade, com quatro andares, construído em 1864; o do Grande Hotel; o do Tribunal de Justiça; o do Palácio da Polícia; o do colégio Júlio de Castilhos; o da Casa de Correção; o do depósito de fogos Fulgor; o do Restaurante Dona Maria.
O FOGO EM OUTROS PONTOS DA CIDADE
Às 15h30min um pedaço do edifício não resiste ao furor das chamas e à devastação das explosões.
No lado da rua Doutor Flores, entre a construção principal e a loja Imcosul, parte das paredes externas – o equivalente a cinco andares – vem abaixo. Vinte minutos depois desabariam aquelas situadas entre o edifício principal e o Armazém Riograndense. Vidraças, anúncios e objetos próximos às janelas aos poucos também vão caindo. Um velho bombeiro caminha na direção da rua Voluntários da Pátria para ajudar na junção das mangueiras e diz aos repórteres: “Não se pode fazer mais nada”.
Do total de mais de 200 homens mobilizados para o combate ao fogo e salvamento de vidas, 12 estavam feridos. Um deles – o soldado Manoel dos Santos – teve de ficar internado no Pronto Socorro para se recuperar da intoxicação dos gases.
A fumaça é agora mais intensa do que nunca e, quando se dissipa, revela a figura carbonizada de uma pessoa com o braço para fora de uma das janelas. Pelos megafones os bombeiros pedem a evacuação dos andares ocupados sobre a loja Comercial Louro, na esquina da rua Doutor Flores.
Um cena emblemática é colhida pela lente dos fotógrafos: os manequins, nas vitrines, incendiando como se fosse tochas humanas e derretendo-se à vista do público.
Nesse momento um dos carros-tanques deixa o local para atender dois outros incêndios, um na rua Fernando Machado, também no centro, e outro na rua Otávio Correa, no bairro Cidade Baixa. Neste último, no edifício Cury, a senhora Albertina Giacomini assistia pela televisão as imagens da tragédia das Lojas Renner quando uma garota bateu à sua porta, dizendo que “tudo estava queimando”.
“Eu sei, estou assistindo”, respondeu ela. Somente alguns minutos depois é que entenderia o que estava se passando ao ver os moradores correndo em pânico pelas escadas: um princípio de incêndio lavrava ali mesmo, junto à porta do apartamento do zelador. Os soldados rapidamente debelaram as chamas e descobriram a causa – um capacho embebido em gasolina, colocado junto à zeladoria.
Já na rua Fernando Machado, em uma velha casa de cômodos, a situação era mais séria. Segundo os moradores, um dos pensionistas, conhecido como “Jamanta”, deixou aceso o fogareiro que costumava usar para o preparo de suas refeições e saiu à rua, “aperitivar”. O pequeno botijão explodiu e as chamas tomaram o quarto e invadiram as outras peças. A destruição foi completa e 11 famílias tiveram de ser encaminhadas a um albergue público a fim de passar a noite.
Enquanto isso, nas cercanias do edifício Renner, a multidão – acrescida por levas de novos curiosos – não queria perder nenhum detalhe da tragédia que já completava quatro horas. Coube aos PMs a cavalo afastar e conter os mais inconvenientes. Alguns punguistas foram presos e conduzidos algemados à delegacia.
O fogo continuava lavrando e, surpreendentemente, parecia recobrar intensidade. Por medida de segurança, máquinas e móveis começaram a ser retirados do prédio ao lado do Armazém Riograndense.
Cai a noite e a cidade adormece com um pesadelo real: um número ainda desconhecido de mortos (falava-se em mais de cinquenta), dezenas de feridos, caos urbano e, para alguns dos familiares e amigos das prováveis vítimas, a incerteza de saber, afinal, quem estava ou não lá dentro.
Já no final da tarde de terça, sem transporte, centenas de pessoas que trabalhavam na área central da cidade voltaram a pé ou de carona para casa. Os raros táxis disponíveis foram disputados aos berros ou transformaram-se em lotações. Muitos porto-alegrenses preferiram esperar pelos cafés e bares até que o torvelinho maior passasse. O assunto é um só: o incêndio das Lojas Renner.
Na redação da Folha da Manhã, a 300 metros dali, Janer Cristaldo – na época um dos cronistas mais lidos da imprensa gaúcha – estava concluindo o seu artigo a ser publicado na edição do dia seguinte no qual comentava o grande número de mortes causadas pelo trânsito nas cidades e estradas do País (o automóvel, no seu entender, é a arma preferida dos brasileiros). Ao final, acrescentaria: “Enquanto escrevo estas linhas, irrompeu um incêndio no centro da cidade. Pelo ruído dos bombeiros, ambulâncias e helicópteros, deve ser um dos mais graves. Preparem-se os porto-alegrenses para: a) debates apaixonados de políticos em véspera de eleições; b) novos projetos para segurança dos edifícios; c) reuniões de condomínio para estudar o problema; d) aumento do preço das cordas; e) reprise de “Inferno na Torre”. Daqui a seis meses ninguém mais lembrará do assunto. Ocorrerá então outro incêndio. E recomeçará mais uma vez o blá-blá-blá.”
Dezenove horas. Os repórteres correm para as redações a fim de escrever às pressas suas matérias. O sinistro seria igualmente manchete em todos os jornais e telejornais brasileiros.
Enquanto isso, do topo dos prédios vizinhos, bombeiros estafados continuavam lançando água sobre os focos restantes. Para os soldados, o dia seguinte reservava a mais desagradável e inglória das tarefas – o resgate dos corpos e a contagem das vítimas que não tiveram a sorte de escapar daquela gaiola de cimento.
O RESCALDO
Na quarta-feira, 28, os tablóides de Porto Alegre circularam com uma única grande manchete: o grande incêndio, o maior que a Capital já assistira em toda s sua história. As edições rapidamente se esgotavam. Até aquele momento havia reconhecidamente três vítimas fatais.
Os trabalhos de rescaldo iniciaram pela manhã. Desde às 7 horas, como se fosse um mórbido piquenique urbano, centenas de pessoas haviam afluído ao centro especialmente para “ver o incêndio”. Desciam dos ônibus, dos táxis, de automóveis particulares. Muitas procediam de bairros distantes e não queriam de forma alguma perder o segundo capítulo do espetáculo – a retirada dos corpos. Os jornalistas também já estavam a postos: todos tinham alguma história para contar e todos se mostravam irritados com o tratamento dispensados pelos soldados da Brigada Militar. Em grupos, os PMs – com caras de poucos amigos - cercavam os repórteres para verificar as credenciais. Um cordão de isolamento isolava o local.
A rigor, os bombeiros já não tinham mais nada a fazer. Durante a noite os soldados prosseguiram lançando jatos de água e preparavam-se agora para entrar no prédio, identificar a quantidade e a localização das vítimas, bem como averiguar as condições para um resgate seguro. Zero Hora relatou aquela manhã: “Os bombeiros conversando, os brigadianos complicando pela mínima coisa e o público aumentando”.
Um pouco antes do meio-dia, a assistência foi acrescida por uma leva de balconistas e funcionários de bancos e financeiras. O major Clóvis Defensor dos Santos, comandante do Primeiro Batalhão de Incêndio (e de toda a operação), de binóculo à mão, observava o prédio dos mais diferentes ângulos e fechava-se em copas, respondendo aos repórteres com palavras breves e que pouco acrescentavam às informações já obtidas.
Em “off” alguns bombeiros deixavam vazar suas queixas. Um dos heróis do dia anterior – um tenente um pouco mais loquaz – observou: “Só se lembram dos bombeiros quando ocorre um caso como este. Não se lembram que não temos recursos para fazer o mínimo necessário. E bombeiro ganha muito pouco. Como as pessoas esperam tudo de um homem que ganha por volta de mil cruzeiros por mês, enquanto os que dependem do nosso trabalho às vezes ganham milhões”. Naquele sábado o salário mínimo regional seria majorado para 768,00 cruzeiros
Outro herói – o estafeta Alcides, aquele que estava passando pelo local, o primeiro a entrar no prédio para tentar debelar as chamas – estava de volta, desta vez para solicitar ao comandante seu internamento em um hospital. Precisava realmente, pois as queimaduras ulceravam seu rosto.
Ainda pela manhã, um advogado e mais alguns integrantes da diretoria das Lojas Renner chegaram para retirar documentos que estavam no prédio número 148, em cima do Armazém Riograndense, parcialmente atingido pelas chamas.
Saíram discretamente, levando papéis, fichas e pastas da folha de pagamento dos funcionários e sequer deram declarações. Mas confirmaram: o prédio estava totalmente segurado, o suficiente para cobrir as despesas de reconstrução e reposição de estoques.
No mesmo dia, em comunicado oficial, a empresa lamentou a tragédia, agradeceu o auxílio e a compreensão de todos e informou que a sede passaria a funcionar provisoriamente na filial do bairro Passo da Areia, zona norte da cidade. Nenhuma loja abriu suas portas naquele dia, voltando a funcionar normalmente apenas na quinta-feira
A primeira investida aos andares superiores aconteceu às 9h30min e durou apenas alguns minutos. Nas ruas mais próximas e no calçadão da Otávio Rocha via-se toda sorte de objetos queimados e uma grande quantidade de saquinhos de leite vazios. Antes mesmo de removerem quaisquer escombros, os soldados contaram 19 corpos. Do interior do edifício - divisava-se ali um monturo de tijolos queimados, ferros retorcidos e toda espécie de objetos irreconhecíveis - ainda vinham estouros constantes.
Às 12h30min os bombeiros fizeram uma demonstração de ordem unida, logo imitada pelos PMs e, em seguida, pegaram pás, picaretas e enxadas, preparando-se para entrar no prédio.
A remoção, entretanto, só começaria mais tarde, quando quatro camionetas estacionaram em frente, três delas entrando até onde foi possível. As vítimas – ou o que delas restou – deveriam ser acondicionadas dentro de sacos plásticos, mas estes revelaram-se impróprios e foram substituídos por lençóis de pano branco, mais resistentes e respeitosos. Uma emissora de rádio, sintonizada em alto volume nas proximidades do edifício, foi estrepitosamente vaiada ao “informar” que 25 corpos já estavam prontos para serem identificados no IML.” Isso às 14h30min, quando nem haviam sido iniciados os trabalhos de remoção.
À tarde, já eram 23 os corpos avistados, a maioria nos dois últimos andares, de pessoas que provavelmente desmaiaram ou morreram intoxicadas pela fumaça. Outras foram encontradas perto das janelas ou na escada. Em apenas um andar havia corpos no meio do pavimento. Do elevador – onde, comentavam alguns, muitos tinham se refugiado – nada restava e nada foi encontrado.
O jornal Folha da Manhã retratou o que foi aquele dia seguinte.

“Junto às cordas de isolamento os argumentos eram os mais diversos, todos com a mesma intenção: chegar mais perto do prédio. “Preciso pagar o imposto predial, posso passar?, é lá no décimo andar”, diz o rapaz ao brigadiano, que é irredutível: “O Sindicato está fechado”.
Um público bem menor, constituído basicamente de estudantes, tinha também pessoas moradoras da grande Porto Alegre, que vieram “ver o que aconteceu” bem de perto para depois contar às famílias e vizinhos. “É o tipo de gente que vai na tourada e torce pelo touro”, desabafou Ismael Rodrigues, executivo que estava fazendo um lanche na galeria A Nação.
Velhas senhoras aproximam-se dos cordões de isolamento, olham para cima, em direção ao prédio sinistrado e fazem caretas de horror e espanto, como se o fato estivesse ainda acontecendo, enquanto uma grande maioria é impassível e não sabe dizer, objetivamente, por que está ali.
Mão na boca, cigarros acesos, braços cruzados, como se protegessem alguma coisa, ali estão muitos estudantes, crianças e pessoas, mulheres em particular, que foram fazer compras no centro e aproveitaram para dar “uma espiada” na cena.
Quando alguém consegue furar o cordão de isolamento, através de qualquer argumento, as outras pessoas, as que continuarão atrás da corda, lançam-lhes um olhar misto de simpatia e inveja, pois afinal tiveram a “sorte” de assistir as coisas mais de perto.
Em sua maioria, são jovens. Muitos ofice-boys, mães e desocupados ficam satisfeitos pelo fato de fazer parte de tal espetáculo. Não é um público constante, todavia. Pelo contrário, há uma espécie de “rodízio” que possibilita a todos tomarem seu lugar junto à corda(...)”

Populares assistiam a tudo em silêncio, voltando o pescoço a cada translado. Um menino de uns 12 anos ultrapassou o cordão de isolamento e, assediado por um policial carrancudo, exclamou: “Que barato!” Agarrando-o pelo braço, o soldado respondeu: “É uma zorra mesmo, meu amiguinho, mas o teu lugar não é aqui”.
Calçando “gigantescas e negras luvas”, os bombeiros prosseguiam no trabalho de remoção, “a pior parte”. Duas vítimas, irreconhecíveis, estavam, por assim dizer, coladas: uma mulher que abraça e protege uma criança.
No Instituto Médico Legal a tarefa de identificação é um penoso exercício de paciência e lógica, um trabalho “lento, mas o único possível”, conforme reconheceu um legista. Familiares, parentes, amigos e principalmente dentistas que tratavam das vítimas são convocados para tanto.
Ao final do dia, 14 corpos já haviam sido identificados: Joaquim Brum Fernandes, 61 anos, e a esposa Ieda Marisa Furtado Fernandes, 44, residentes à rua Luciana de Abreu, em Porto Alegre. Os dois viviam de rendas e estavam almoçando no restaurante Terrasse.
José Wiest, 38 (ou 36) anos, o primeiro a ser identificado pelos legistas. Com queimaduras leves, foi reconhecido pelo cunhado. Era cozinheiro do restaurante havia cinco anos. Morreu pendurado em uma das janelas.
Manoel Couto Carvalho, 81, e a esposa Olga Pacheco Carvalho, 79. Também estavam almoçando no Terrasse. Identificados pela arcada dentária.
Teresinha Fonseca Precioso, 34 anos. Morava em Bagé e tinha vindo sozinha a Porto Alegre, a passeio. O marido, Aloisio, capitão do Exército, afirmou reconhecê-la por uma “melindrosa” com os nomes do casal e pelo fato de portar um anel de brilhantes e um relógio de ouro.
Vera Lúcia Feijó Rodrigues, 25 anos, funcionária das Lojas Renner. Retardou-se no prédio, tentando salvar o dinheiro do caixa. Foi encontrada na escada, com diversas bolsas de colegas ao seu redor. Residia na Vila Medianeira, Viamão.
Jaci Vieira D‘Avila, 47 anos. Trabalhava como cabeleireira da loja e residia ali perto, na rua Doutor Flores. Natural de Passo Fundo.
Doly Teresinha Ballestrin, 47 anos. Também funcionária, morava na sua Silveiro, bairro Menino Deus, em Porto Alegre.
Edmeo Lobo, 48 anos. Advogado, maçom. Trabalhava no consultório jurídico da Caixa Econômica Estadual há 20 anos. Almoçava na hora o incêndio.
Germano Jonas, 67 anos. Gerente do restaurante Terrasse Renner. Nascido em Frankfurt, Alemanha, e naturalizado brasileiro.
Fátima Elaine Castro Pinheiro, 18 anos. Funcionária da loja. Morava na rua Edgar Pires de Castro, Zona Sul de Porto Alegre.
Luis Carlos Machado, 42 anos. “Maitre” do Terrasse há mais de 10 anos. Morreu porque se retardou muito, ajudando os clientes a se salvarem. Quando tentou sair, já era tarde. Identificado por uma ponte móvel na arcada dentária e por uma perfuração na perna direita.

À tarde de Quarta e durante todo o dia seguinte, centenas de pessoas concentraram-se na entrada do Instituto Médico Legal, na avenida Ipiranga, na tentativa de identificar parentes e amigos desaparecidos.
Na maioria dos casos isso só era possível mediante o exame da arcada dentária – única parte do corpo humano que mantém suas características originais depois da carbonização – seguida pela conseguinte comparação com a ficha fornecida pelo dentista. Segundo explicaram os peritos, mesmo um anel de ouro derrete-se inteiramente quando exposto à altas temperaturas. Obturações, serviços de prótese, dentes ausentes ou em tratamento específico eram minuciosamente analisados.
Para evitar maiores tumultos o local foi isolado por policiais. Às 15h15min chegaram três carros fúnebres: homens e mulheres, em desespero, disputavam cada fiapo de informação.
Consolado por um policial, Olinda Wiest, 41 anos, irmã de José Wiest, o cozinheiro, repetia: “Como meu irmão foi morrer? Não consigo suportar tudo isso”.
Chorando muito, Jani Borges tentava identificar o corpo de sua única filha mulher, de 23 anos, funcionária da loja e que tinha sido dada como desaparecida. “Como é que ela vai ser identificada? Minha filha era perfeita, parecia uma artista de cinema, tinha uma dentadura perfeita, nunca precisou de dentista. Agora isto, que sempre foi motivo de alegria para nós, vai dificultar o seu reconhecimento”, dizia ela.
O major Clóvis admitiu a dificuldade do trabalho de reconhecimento das vítimas: “Será praticamente impossível determinar o número total de mortos”.
O farmacêutico Norberto Silva procurava sua esposa, Luisa Maria Moreira da Silva, de 28 anos, balconista do terceiro andar. Até às 18 horas, depois de preencher a ficha de identificação no Centro de Operações da Brigada Militar, ainda não havia ainda conseguido qualquer informação.
Em igual estado, José Dili Cerqueira, 48 anos, buscava o filho José Francisco, de 26 anos, cozinheiro do restaurante Terrasse. Ele, pai, tinha vindo de Pelotas e caminhava desorientado pela capital: “Já procurei por aí tudo e nada”.
Mais intrigante era o caso vivido por João de Deus Carvalho, que veio do município de Santiago à procura de seu filho Rui, de 19 anos. Passados dois dias em Porto Alegre, ainda mantinha esperanças de que o rapaz não estivesse no edifício no horário do incêndio. Segundo alguns colegas, Rui estava no quinto andar quando o fogo começou. Outros disseram que não, que ele tinha saído à rua um pouco antes. Uma pessoa chegou a afirmar tê-lo visto caminhando na avenida Júlio de Castilhos, àquela tarde. Rui morava no bairro Petrópolis.
“- Juro que vi meu filho caminhando transtornado por uma rua de Petrópolis. Ele não morreu no incêndio, outras pessoas também viram ele na hora do incêndio, fora do prédio. Eu vinha para cá (IML), hoje pela manhã, e na avenida Protásio Alves avistei meu filho. Ele tava de calça branca, camisa branca listrada de azul. Pedi para o taxista voltar, ele teve que fazer um retorno mais adiante. Quando voltamos, ele já não estava mais lá.”
Confuso e desesperado, João não sabia mais o que fazer. Para todos os efeitos a família já estava providenciado a ficha dentária.
Cabisbaixa, olhos vermelhos, o rosto inchado, Vera Lúcia Palmeira era a imagem do desconsolo. Pudera: perdeu quatro parentes. Na tarde do incêndio, Vera estava na Praça XV quando viu a fumaça e a agitação das pessoas. Imediatamente correu até o edifício, onde trabalhavam uma tia e três primas suas. Uma delas, a balconista Sandra, tinha noivado não fazia muito.
O desencontro de informações era tanto que duas pessoas cujos nomes apareceram nas listas de mortos divulgados em meio ao burburinho do Instituto Médico Legal na realidade estavam bem vivas: o médico José Mariano Vieira Haensel e Fernando de Araújo Carvalho.
O primeiro trabalhara no próprio Instituto, como voluntário na identificação das vítimas, e o segundo era neto do casal Manoel Couto Carvalho, de 81 anos, e Olga Pacheco de Carvalho, 79 – estes sim, vítimas do incêndio. Outras duas dadas como desaparecidas reapareceram pouco depois: um rapaz que viajou para Caxias e o outro que reapareceu sexta à tarde, na casa dos pais.
OS “PAPA-DEFUNTOS”
Em frente ao IML um novo personagem - para quem o cheiro da morte é perfume - dava agora o ar de sua graça: o agente funerário, facilmente identificável pela conversa animada, risos nem sempre discretos, piadas e olhares ansiosos em direção aos clientes em potencial. Um grupo de oito ou nove deles, representando as principais funerárias da cidade, tentava, um de cada vez, cabular a freguesia e fechar ali mesmo seus negócios.
A técnica de aproximação do “papa-defuntos” era quase sempre a mesma: a máscara facial contrita, gestos curtos e respeitosos, achegava-se a algum familiar, aquele que tem cara de quem vai pagar a conta – e fazia a proposta.
“O senhor está procurando algum amigo, algum parente? Eu posso conseguir que o senhor entre no IML, eu conheço bem o pessoal de lá. Ah, leve este cartãozinho aqui... Na volta fale comigo, tá?”
Quase sempre dava certo.
Por volta das 14h30min de quinta feira, horário em que muita gente se aglomerava junto aos cordões de isolamento, tais “corretores” pareciam insuficientes para atender a crescente clientela. Pela manhã boa parte deles empenhara-se em pescar clientes nas ante-salas dos hospitais, anotando nomes e endereços de quem havia falecido pela madrugada ou estivesse em estado muito grave. Mas era em frente ao IML – onde a categoria sempre gozou de boas relações – que os negócios realmente frutificavam. Um dos estratagemas – o de sugerir “que, a essas alturas, já estão faltando caixões” – influenciava os espíritos mais ingênuos: “Pai, vai logo lá na funerária porque o homem disse que se a gente não for depressa não consegue caixão”, disse uma senhora aflita ao marido. O casal procurava um filho, dado como desaparecido e ainda não identificado pelos legistas.
Ao sentir à aproximação de alguém estranho – em especial os repórteres – os agentes funerários mudavam de atitude e assumiam um imediato ar arredio que podia se tornar hostil em poucos segundos. Desviavam a conversa, emudeciam ou recusavam-se a dar nomes. Ou mesmo ameaçavam: “Se tu botar qualquer coisa contra nós aí no teu jornal, tu vai te arrepender, viu?”
À tardinha – movimento fraco, negócios feitos - partiam rapidamente em suas inconfundíveis Kombis sem nenhum letreiro de identificação.



Até o final da quarta, 14 vítimas já haviam sido identificadas. Na quinta-feira, os bombeiros ainda prosseguiam no perigoso trabalho de remoção e de procura de corpos: um foi encontrado nesse dia.
O comércio próximo ao edifício já havia fechado suas portas e os prédios da rede de lojas Imcosul e do Armazém Riograndense – abrasados pelo calor – foram declarados impróprios e condenados. Um forte cheiro de fumaça e de carne humana queimada que saía dos escombros atestava a existência de vítimas – ou parte delas – ainda não localizadas.
Os técnicos do Instituto de Criminalística sequer haviam iniciado a perícia para determinar as causas do acidente e versões divergentes já vinham à tona – problema em um aparelho de ar condicionado, um curto-circuito – embora parecesse certo a localização do foco inicial, o pequeno depósito de tintas do terceiro pavimento.
Carlos Guido, perito criminal, explicou didaticamente as linhas de raciocínio a serem seguidas para determinar a origem de qualquer sinistro desse gênero.
Primeiro, seria feito um vasculhamento de toda a área atingida e, em seguida, um exame de condensação de fuligem e enegrecimento das paredes capaz de denunciar a incubação inicial do fogo. Nesse caso é também de grande valia o boletim dos técnicos do Corpo de Bombeiros que, sempre que acontece um incêndio, vão ao local e registram em detalhes o seu desenvolvimento. Eles observam onde há maior incidência de chamas, a sua cor e a cor da fumaça emitida, estabelecendo assim a natureza dos objetos queimados. Outro item relevante é o exame da rede elétrica, de força e de iluminação (a rede elétrica das Lojas Renner havia sido trocada há cerca de dois anos e estava dentro dos padrões exigidos, informaram). A fiação, revisada, pode determinar o ponto exato onde ocorreu o curto-circuito – se é que ocorreu. Todo material considerado útil é recolhido aos laboratórios do Instituto, para detidos exames. Obviamente, isso tudo não é uma tarefa fácil, pois o fogo destrói elementos preciosos, sem falar nos danos causados pelo próprio trabalho dos bombeiros.
São três as causas de incêndio, explicou. A comum: combustão espontânea, determinada pela ação de bactérias, habitual em matas. A acidental: faíscas, eletricidade estática, pontas de cigarro acesos, tocos de vela esquecidos, fósforos jogados descuidadamente ao chão e também o clássico curto-circuito. A proposital: casos de piromania, vingança, para esconder crimes ou obter vantagens ilícitas, cobrar seguros etc. De certa forma, a causa proposital é a mais fácil de ser esclarecida pelas perícias, já que dificilmente existe o crime perfeito.
SÍNDROME DO PÂNICO
A estas alturas a cidade inteira mostrava-se absorvida e atônita pela tragédia. Porém, nas cercanias do local do incêndio, os lojistas, ariscos e nervosos com a súbita notoriedade, preferiam lamentar a interdição da área e a queda no movimento de clientes. O barulho infernal das máquinas revirando os escombros, o mau cheiro que emanava do interior do prédio e que persistiria nas próximas semanas, o irritante zum-zum das pessoas – o fantasma do sinistro, tudo isso estava bem vivo e presente.
(Passados quinze dias Maria Beatriz, funcionária de uma loja da Otávio Rocha, já não aguentava mais: “É um martírio ter de vir para o trabalho diariamente. Depois do incêndio não tive mais sossego, chego até a sonhar que o que restou do prédio está vindo abaixo”. Neusa, empregada do Café Haiti, nas proximidades, sofria com o barulho ininterrupto: “O barulho das máquinas começa pela manhã e vai até o final do dia. É tão forte que parece que vai arrebentar com os nervos da gente”).
Vivendo uma espécie de melancolia pós-traumática, os balconistas aproveitavam a ociosidade reinante para atender os jornalistas que fuçavam tudo e ouviam a todos, anotando às pressas impressões e medos daquelas privilegiadas fontes.
Iara, 24 anos, funcionária de uma loja da Otávio Rocha, folgara na terça-feira e tinha sido poupada do espetáculo – quando soube, ficou traumatizada a ponto de não ter coragem de voltar para casa. Seu marido estava viajando e os dois, como diz, “também moram em uma gaiola”.
“Eu estava pensando em comprar um apartamento para mim. Queria um lugar para morar mas agora mudei de idéia, acho que vou comprar uma casa. Onde eu moro tem um extintor pequeno em cada andar, mas ninguém sabe mexer neles”. Faz uma pausa e acrescenta, como se falasse do mundo lá fora: “É tudo um absurdo, eles não pensam nunca na gente, só em vender, e quando acontece alguma tragédia ainda é que vão pensar. Porque antes ninguém pensa.”

O trânsito de veículos na área central da cidade desorganizou-se completamente (demorou uma semana para voltar à normalidade), apesar do apelo das autoridades para que os motoristas deixassem os carros em casa. Em vão.
Nos dias seguintes, o que se viu foi uma loucura coletiva. Na auinta-feira a avenida Farrapos congestionou, a Mauá engarrafou e o Túnel Conceição transformou-se em uma neurastênica garagem coletiva. A Júlio de Castilhos, a Independência, a Osvaldo Aranha a avenida Protásio Alves eram intermináveis fileiras de carros.
Em sua edição de sexta-feira, 30, sob o título “Morbidez e Sadismo”, o jornal Zero Hora, em sua coluna “Informe Especial”, anotou:
“Até ontem à noite uma multidão de curiosos continuava firme ao redor do prédio semidestruído das Lojas Renner, enquanto continuavam os trabalhos de localização e remoção das vítimas. Insensíveis aos apelos das autoridades e mesmo ao perigo representado pela possibilidade de um desabamento, centenas de pessoas ali continuavam, atrapalhando o trânsito e o deslocamento de gente que, por força do trabalho, teria obrigações a cumprir naquela área. Move-as a morbidez e o sadismo, os mesmos sentimentos baixos que fizeram com que muita gente, aos gritos, mandasse saltar as pessoas que apareceram às janelas da galeria Malcon, quando apareceu fumaça no prédio. E mais: diversas pessoas estiveram no IML a pretexto de identificar supostos parentes e amigos, apenas para olharem os restos mortais das vítimas. Triste, mas verdadeiro.”
(Uma loja de material fotográfico da praça Otávio Rocha foi mais além e colocou à venda em sua vitrine uma série de instantâneos do incêndio, como se o prédio queimado fosse uma espécie de sinistro cartão-postal da cidade)
O jornal referia-se a um falso alarma de incêndio que causou pânico na Galeria Malcon, na rua dos Andradas. No meio da tarde de quarta-feira alguns rolos de fumaça começaram a sair pelas janelas de um dos andares superiores do edifício. À simples menção da palavra “fogo” uma multidão apavorada precipitou-se para a rua enquanto outros penduravam-se nas janelas, aos gritos – a mesma reação irracional de 24 horas antes. Desta vez boa parte da assistência – talvez por expresso sadismo ou então querendo manifestar sua reprovação a histerias inúteis – torcia declaradamente pelo touro. Muitos gritavam “pula! Pula!” Minutos depois, com a chegada dos bombeiros, o circo foi desmontado. O incêndio, na realidade, resumia-se a um lixo que pegara fogo. O fogo estava em toda a parte – real ou imaginário.
Em São Paulo, onde a tragédia também repercutira intensamente, no dia da tragédia, uma doméstica pulou do décimo primeiro andar de um prédio vizinho ao de uma fábrica de tintas que estava incendiando no bairro de Cambuci. Ela não corria nenhum risco real de vida e imolou-se estupidamente.
Na tarde de Quinta, em Alvorada, na região metropolitana, uma casa de três peças virou cinzas. Os moradores – um casal e três filhos – tinham saído um pouco antes e ninguém ficou ferido. Segundo um vizinho, um escapamento de gás foi a causal.
Em Porto Alegre, um pensionato feminino que funcionava na rua Riachuelo pegou fogo: desta vez o incêndio era real, obrigando mais de 50 mulheres a fugirem às pressas em trajes de dormir. Entre elas estava Maria Helena – aquela que havia escapado do incêndio da Renner e que disse não ter condições psicológicas para enfrentar tal drama novamente. Muitas moças, driblando o frio e a fome, sem dinheiro e sem ter para onde ir, passaram a noite no salão ao lado, cedido pelo Sindicato dos Metalúrgicos. O fogo – presumiu-se – havia sido provocado por um ferro elétrico esquecido em uma tomada. Por sorte ninguém se feriu gravemente. O major Clóvis – com marcadas olheiras e um aparência de profundo cansaço – comandou pessoalmente a operação.
Um pouco antes, no térreo do edifício Continental, na avenida Borges de Medeiros, a principal artéria do centro da cidade, aconteceu um princípio de incêndio logo debelado pelos soldados, possivelmente causado por alguém que jogou um fósforo ou um cigarro aceso no poço de energia. No local funcionava uma loja de calçados e o cinema Lido – em sessão naquele horário. Mas não houve tumulto.
Na Sexta-feira à tarde, na rua Itaboraí, no bairro Jardim Botânico, populares avistaram fumaça saindo das janelas do sexto pavimento de um prédio com cerca de 300 moradores. Dona Porfíria estava chegando em casa e surpreendeu-se com o alvoroço da vizinhança. Informada de que a fumaça vinha do seu apartamento, exclamou:
- Meu Deus, o pão está queimando!
Ela estava fazendo pão no forno a gás e, distraída, saiu à rua. Os bombeiros – que já estavam escalando o oitavo andar- recolheram as escadas.
Na segunda-feira um curto-circuito em uma máquina de costura assustou mais de 50 funcionárias e clientes de uma loja de modas na rua Marechal Floriano e provocou frisson no comércio em volta. A chave-geral da energia foi desligada e a calma restabelecida.
Na terça-feira outro curto-circuito, desta vez em uma agência do banco Bradesco da avenida Assis Brasil, causou corre-corre e gritaria. Minutos antes, na vizinha Caixa Econômica Estadual, alguém acionou o alarma geral, assustando mais de 30 funcionários e alguns clientes – eles não sabiam se era assalto ou incêndio.
Na quarta os bombeiros correram para a rua Santana – o fogo estava se alastrando em um prédio de 18 apartamentos – e encontraram lá um morador que dormia com o cigarro aceso.
Na quinta, na rua Leopoldo de Freitas, bairro Passo da Areia, uma mulher jogou-se do segundo andar depois que um “espiriteira” pegou fogo e atingiu a sua empregada doméstica. As duas foram encaminhadas ao Pronto Socorro – a doméstica com algumas queimaduras e a patroa em estado grave.
Enquanto isso alguns vigaristas aproveitavam o momento para a práticas de golpes manjados. Na sexta-feira soldados da Brigada Militar prenderam dois homens que se faziam passar por bombeiros. Eles visitavam o comércio, pedindo dinheiro para “restaurar” a corporação.
Nas semanas seguintes o Estado, o Brasil e, por extensão, o Mundo, pareciam regidos pelo elemento fogo – ao menos nos noticiários da imprensa, que destacava com lentes de lupa tudo que cheirasse a queimado: um incêndio destruiu um depósito no bairro Navegantes e um pavilhão de um clube de futebol de São Borja (a cidade não tinha Corpo de Bombeiros e as chamas foram apagadas a base de baldes de água); em Caxias do Sul uma fábrica de acordeões pegou fogo e em Paso de Los Libres, na Argentina, fronteira com o Brasil, uma farmácia só livrou-se graças ao auxílio dos hermanos brasileiros do outro lado da ponte. Um curtume de Sapucaia do Sul escapou por pouco da destruição total e um incêndio numa das balanças do terminal graneleiro da Cooperativa Tritíticola Ijuí, Cotrijuí, em Rio Grande, deixou sete operários feridos – quatro em estado gravíssimo. Na costa da Espanha um grande navio petroleiro ardeu em chamas.
Bem antes disso, na sexta-feira, 30 de abril, o jornalista e escritor Sérgio Jockymann escreveu em sua coluna diária na Folha da Tarde: “Pois há três dias que Porto Alegre tem pelo menos um milhão de peritos em prevenção de incêndio”. Para ele, “o milagroso, o extraordinário, o espantoso é que essas calamidades só aconteçam de vez em quando. O normal seria que tivéssemos uma tragédia por dia.” Em Zero Hora, o humorista Carlos Nobre não perdeu o trocadilho: “As discussões dos políticos para tomar medidas contra incêndios servem apenas para botar mais lenha na fogueira”.
Um mês depois a Folha da Manhã observaria: “Uma espécie de histeria coletiva vem envolvendo os habitantes de Porto Alegre”. Nesse período, a mera menção da palavra “fogo” bastava para estrilar os telefones do Corpo de Bombeiros.
A população – antes adormecida e quase insensível ao perigo – via agora um Joelma e um Renner em cada prédio. Pessoas evitavam tomar elevadores, síndicos faziam reuniões extraordinárias para discutir medidas de segurança, instalações elétricas eram vistoriadas de cabo a rabo, fumantes eram denunciados como incendiários em potencial e corretores de seguros – mais desembaraçados e seguros do que nunca – festejavam a boa fase em seus negócios. Vivia-se a era de Mercúrio.
Mercuriais e igualmente candentes eram os debates e as cobranças. Todos concordavam em um ponto: a tragédia poderia ser evitada, embora ninguém assumisse a culpa e dela, na realidade, todos saíssem chamuscados.
“Aproximadamente 50% dos prédios de Porto Alegre poderão oferecer cenas tão ou mais dramáticas que as da Renner”, declarou o técnico Cláudio Hansen, integrante da Comissão de Estudos e Prevenção de Incêndio da Prefeitura. Mais original, o secretário municipal de Obras e Viação, Jorge Englert, afirmou que “janelas não são fundamentais” em casos de incêndio e enumerou algumas vantagens dos edifícios “gaiolas”: economia de ar condicionado e, em caso de fogo, seu abafamento, pois “não há alimentação de oxigênio: “O importante são as saídas especiais e isoladas”. E acrescentou que no caso do proprietário recusar-se a cumprir a lei, a Prefeitura não teria como obrigá-lo a isso. Já o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Rio Grande do Sul, Mário Maestri, concordou com a exigência de normas mais rígidas, “mas não levadas a extremos”.
A imprensa variava de tom. Enquanto o Correio do Povo apressou-se a elogiar o que chamou de “esquema perfeito” de socorro e atendimento às vítimas (“digno de aplausos em todo o sentido foi a ação imediata do Corpo de Bombeiros e todas as autoridades de qualquer nível”) a Folha da Manhã ressaltou que, no dia da tragédia, “a cidade, de um modo geral, não funcionou”.
No item prevenção os principais órgãos evitaram críticas diretas à direção das lojas Renner, algo explicável pelo grande volume de anúncios que a empresa – um dos orgulhos empresariais do Rio Grande do Sul - carreava para seus departamentos comerciais.
EM CAXIAS DO SUL, 21 HIDRANTES
O grupo Renner – um símbolo de operosidade e da solidez empresarial gaúcha - nasceu a 2 de janeiro de 1912, quando Antonio Jacob Renner (Alto Feliz, 1884-1966), neto de imigrantes alemães, fundou uma modesta indústria de fiação e tecelagem na cidade de São Sebastião do Caí, a 70 quilômetros da Capital.
A prinícipio a empresa destacou-se pelo pioneirismo na fabricação de capas de chuva impermeáveis, as quais – por sua qualidade e resitência - se tornaram famosas em todo o Estado. Em 1914 a indústria chegou a Porto Alegre.
Vinte anos depois estava produzindo roupas, comercializadas em mais de 5 mil pontos de venda em todo o Brasil, além de calçados de couro, máquinas de costura, resinas e tintas para construções. Em 1922 nascia as Lojas Renner. No final da década de trinta o grupo, com mais de 2 mil funcionários, já era um dos principais empregadores do Estado e, mais tarde, nome de um clube de futebol, campeão gaúcho de 1954, o primeiro a superar a dupla Grenal e no qual jogava o craque Enio Andrade. No início dos anos setenta as Lojas conquistavam o primeiro lugar entre as redes de magazines do Estado, investindo pesadamente em anúncios publicitários.
Em abril de 1976 havia, no entanto, uma conjuntura de mercado extremamente benéfica para o público leitor: a existência de cinco diários de circulação em bancas, pertencentes a três grupos econômicos diferentes – Caldas Júnior, Rede Brasil Sul e Diários Associados – competindo entre si e contando com uma tarimbada equipe de profissionais. Como era usual naquele tempo – e também pela necessidade de resguardo em um período de fortes pressões governamentais – as matérias não eram assinadas e raras fotos recebiam o crédito de seu autor. De qualquer modo, a cobertura do incêndio das Lojas Renner foi, nas circunstâncias possíveis, um bom momento da imprensa gaúcha.
Já no dia posterior à tragédia todos os correspondentes foram mobilizados para checar as condições de segurança contra fogo nas principais cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
De Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Rio Grande, Passo Fundo, Novo Hamburgo, Lages, Florianópolis – emergiam as mesmas constatações: em todos os casos, sem exceção, o que acontecera em Porto Alegre apenas mudaria de data, nome e endereço. Em Caxias do Sul só existiam 21 hidrantes para uma população de 180 mil habitantes e mais de uma centena de edifícios. Uma pesquisa feita por uma emissora de rádio local descobriu que apenas dois em cada quinze caxienses sabiam utilizar um extintor.
Nesse contexto, em Caxias, pontificava uma honrosa exceção: com seus 17 andares, a recém inaugurada agência do Banco do Brasil dispunha de um moderno sistema de segurança contra fogo: duas saídas de emergência, paredes externas feitas de concreto em vez de tijolos, paredes internas sem a presença de material inflamável ou combustível, amplas janelas de vidro e alumínio e um moderníssimo mecanismo de evacuação estilo “tobogã”. Em caso de incêndio podia-se soltar um tubo de lona desde o alto até o chão e escorregando por ele desceriam as pessoas. Dois elevadores – ou “jaús” – presos em trilhos nas paredes externas e capazes de parar em qualquer ponto do prédio serviriam como opções de fuga.
Ainda assim restavam duas perguntas: quem sabia disso tudo e quem estava treinado para uma situação de emergência?
Por outro lado, não havia surpresas quanto à precariedade das corporações especializadas. Em nenhum – absolutamente nenhum – município gaúcho eram oferecidas aos bombeiros condições operacionais sequer razoáveis. Nem mesmo a Câmara Municipal de Porto Alegre ou a Assembléia Legislativa do Estado, com 12 andares, mostravam-se de acordo com os padrões de segurança. Na região metropolitana um caso chamava a atenção: a cidade de Viamão, colada à Capital e com quase 100 mil habitantes, não apenas dependia inteiramente da ação dos soldados como nem mesmo dispunha de uma só linha telefônica para comunicar uma ocorrência urgente.
De um modo geral, assim era o Brasil de Norte a Sul. Sob o título “Trágica ratoeira humana” a revista Veja que circulou no dia 5 de maio tentava, sem êxito, achar uma exceção.
São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Rio de Janeiro – o Brasil pouco aprendera com a tragédia do Joelma e a população dos grandes e médios centros estava entregue às mãos do Destino”. Disse a revista: “Em Teresina, por exemplo, a precariedade da corporação chegou a provocar episódios ridículos, como no início do ano passado, quando uma turma de salvamento foi estrondosamente vaiada ao descer de um táxi e sem levar qualquer instrumento ou ferramenta capaz de apagar o fogo que destruía uma simples residência, no centro da cidade. “O Corpo de Bombeiros aqui não existe”, afirmou o comandante da Polícia Militar(...)”
No entanto, o incêndio da Renner – uma das muitas tragédias na pródiga safra da década de setenta – deixara suas marcas e alguma coisa precisava ser feita para satisfazer a opinião pública.
Nas semanas seguintes a Prefeitura de Porto Alegre mobilizou o seu departamento de Fiscalização a fim de verificar as condições dos edifícios da cidade, e muitas portas lacradas que impediam a ligação entre um andar e outro foram derrubadas a golpes de marretas sob o aprovativo olhar dos moradores.
No dia 14 de maio o prefeito Guilherme Socias Villela enviou projeto-de-lei à Câmara propondo a doação de uma área de mais de 6 mil metros quadrados, no bairro Praia de Belas, para a instalação da nova Estação Central do Corpo de Bombeiros. Ao mesmo tempo foi dado início a uma campanha comunitária com o objetivo de dotar a capital de uma eficiente rede de hidrantes – existiam cerca de 500 em toda a cidade quando as necessidades mínimas exigiam 5 mil. Sob o argumento de que a municipalidade não dispunha de recursos para fazer frente a tal volume de despesas, Vilela apelou para a colaboração dos empresários, que poderiam “adotar” quantos hidrantes quisessem.
Na segunda-feira o governador Guazzelli reuniu-se com o alto comando da Brigada Militar e prometeu, solenemente: “Não vou regatear recursos, tudo o que o nosso corpo de bombeiros precisar para ser reequipado eu vou dar”. E informou que uma velha reivindicação – a construção de mais três novos quartéis (além dos cinco já existentes) na capital – seria concretizada ainda em seu Governo.
Na esfera municipal, uma nova lei seria em breve votada e aprovada por unanimidade – desta vez para ser realmente cumprida: a instalação obrigatória de extintores de incêndio em todos os prédios. Discutia-se, ainda, a obrigatoriedade dos chuveiros automáticos – os “sprinklers” – nos edifícios com mais de 20 metros de altura.
Dois dias depois da tragédia todas as filiais das Lojas Renner reabriram normalmente. Representantes da empresa já haviam percorrido os hospitais da cidade, tentando encontrar seus funcionários com vistas a determinar o número exato de desaparecidos, embora o cálculo final somente fosse possível na sexta ou no sábado, quando os últimos se reapresentariam para receber seus salários do mês de abril.
A equipe que trabalhava no edifício incendiado foi remanejada para as demais filiais, incluindo Pelotas e Novo Hamburgo. A sede provisória, no bairro Passo da Areia, foi adaptada às pressas para a nova função, e um grupo de secretárias recebeu a dolorosa incumbência de prestar informações a respeito dos mortos e desaparecidos. A cada toque do telefone seguiam-se embaraçosas explicações, permeadas de silêncios emocionados e lágrimas nem sempre furtivas.
- Sentimos muito, meu senhor, mas esse nome está na lista do Instituto Médico Legal e o senhor deve se dirigir para lá – dizia uma secretária de plantão, esforçando-se para manter um tom de normalidade.
Clientes acostumados a comprar com determinado funcionário queriam saber desta ou daquela pessoa, se estava bem ou se estava na relação das vítimas fatais ou dos desaparecidos.
Nas semanas seguintes a Renner veiculou uma série de anúncios institucionais com depoimentos de antigos clientes que externavam seu apreço e carinho pela empresa.
O CIRCO PEGA FOGO
Em Porto Alegre, naquele abril de 1976, restava a viva lembrança do que acontecera ao edifício Joelma, um prédio de 25 andares da avenida 9 de Julho, no coração de São Paulo, talados pelas chamas na manhã de primeiro de fevereiro de 1974, com um saldo oficial de 188 mortos e mais de 300 feridos. O horror daquelas imagens calou fundo nos porto-alegrenses que, um mês antes, haviam acompanhado o drama das Lojas Americanas.
O Joelma foi, de longe, o caso mais famoso, talvez porque tenha sido filmado e fotografado minuto a minuto.
Isso porém não foi possível na tarde de domingo, 17 de dezembro de 1961, em Niterói, Rio de Janeiro. Àquela hora, uma multidão calculada entre 2 e 3 mil pessoas – metade das quais eram crianças - assistia à apresentação final dos trapezistas do Gran Circus Norte Americano quando o toldo de lona pegou fogo e, em menos de três minutos, deixou mais de duzentos mortos, a maioria pisoteados. Outros cento e tantos morreram nos dias seguintes nos hospitais de Niterói e do Rio de Janeiro. Os cálculos, contudo, finais falaram em 600 feridos e 323 vítimas fatais.
A tragédia chocou o mundo. Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Argentina ofereceram ajuda às autoridades brasileiras. Os Estados Unidos enviaram uma remessa de plasma sanguíneo e medicamentos. Um avião da Força Aérea Argentina trouxe médicos e especialistas do Instituto de Queimados de Buenos Aires. Todos os cirurgiões plásticos da Guanabara – inclusive o doutor Pitanguy, que ainda não despontaram para a notoriedade mundial - foram convocados a trabalhar e estabeleceu-se uma ponte marítima entre Rio e Niterói para o transporte de feridos e toneladas de medicamentos, e outra ponte aérea entre São Paulo e o Rio.
O Rio Grande do Sul, por sua vez, coletou e enviou em um avião da FAB 50 litros de plasma sanguíneo. A secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro proibiu a venda de bebidas alcoólicas por três dias e o presidente João Goulart foi pessoalmente visitar os feridos nos hospitais. Em um emocionado apelo nos rádios e na tevê, o palhaço Carequinha pediu mais doações de sangue. O incêndio do Circo em Niterói viria a ser a maior tragédia no gênero registrada em todo o mundo.
O mais chocante se revelaria nos dias seguintes, quando comprovou-se o seu caráter criminoso. Surgiu então o “monstro de Niterói” – “Dequinha”, um favelado carioca, preso inúmeras vezes por furto e “vadiagem”. Conforme confessou, havia ateado fogo no circo para se vingar de um tratador de elefantes que o esbofeteara, e também para saquear as vítimas mortas: feita a combinação sinistra, um cúmplice seu jogou gasolina na lona – síntético feito a base de derivados de petróleo – e Dequinha riscou o fósforo.
No dia seguinte, absolutamente tranquilo, o incendiário vendeu alguns litros de sangue nos hospitais do Rio e foi preso somente depois que a sua companheira de barraco comentou o fato com alguns vizinhos e estes, chocados, procuraram a polícia. Para não ser linchado, o “monstro de Niterói” foi recolhido à Fortaleza de Santa Cruz, sob a guarda de soldados do Exército.
Até então, no Brasil, o maior flagelo desse tipo datava de 14 de junho de 1953, quando centenas de pessoas, a maioria “gente de cor” e “empregadinhas domésticas”, na expressão da revista O Cruzeiro – divertiam-se ao ritmo dos sambas em um baile popular em homenagem a Santo Antonio, o santo dos casamenteiros.
Instalado na parte de cima de um velho sobrado, o Clube 28 de Setembro - rua Florêncio de Abreu, centro de São Paulo – contava com um único acesso, uma escada de madeira que rangia ao peso de poucas pessoas. Embaixo, funcionava uma loja de tecidos.
Poucos perceberam o calor estranho que vinha do assoalho até que, aos 25 minutos da madrugada, rolos de fumaça invadiram o salão fazendo com que uma verdadeira onda humana se projetasse em direção à escada. Em poucos minutos muitos corpos, caídos ao chão, foram sendo esmagados, enquanto outras pessoas atiravam-se das janelas. No final de tudo contabilizou-se 53 mortos, incluindo um bombeiro. Poucos estavam carbonizados – o pânico incontrolável é que os matou.
Nas duas década seguintes o fogo retornaria às páginas da imprensa. No Rio, o da boate Vogue, em 14 de agosto de 1955, com cinco mortos e cinquenta feridos; o do Edifício Astória, também com cinco mortos, em junho de 1963; o da Favela da Praia do Pinto, que destruiu 800 barracos, feriu 32 e deixou 5 mil desabrigados. E, em São Paulo, o de São Bernardo do Campo, em dezembro de 1970, com 14 operários mortos e mais de 100 feridos, seguido do edifício Andraus, em 24 de fevereiro de 1972, com 17 mortos, quase 400 feridos e seis horas de duração.
Mas é do Joelma que os brasileiros lembram. O edifício da avenida 9 de Julho, quase no coração de São Paulo, fora concluído há apenas dois anos e nele estavam instalados a sede e os escritórios da financeira Crefisul. Seus 25 andares, revestidos internamente com lambris, cortinas e muitas divisões de madeira, além de incontáveis aparelhos de ar condicionado que sobrecarregavam a rede elétrica; seu telhado de placas de cimento e amianto térmico e uma grande caixa dágua que não permitia o pouso de helicópteros - tudo isso, somado, formava o sonhado cenário para uma grande tragédia.
E ela começou, efetivamente, quando faltavam 15 minutos para as 9 horas da manhã de Sexta-feira, primeiro de fevereiro, no décimo segundo andar. Em 20 minutos o fogo chegava ao topo, tempo que os bombeiros, driblando o caótico trânsito de São Paulo, levaram para chegar ao local com suas três escadas Magirus que atingiam o limite máximo de 45 metros. Um helicóptero da Operação Para-Sar – o único apropriado para a situação - conseguiu manter-se imóvel a poucos centímetros do teto e salvou muitas vidas. Pelo menos vinte pessoas já haviam se jogado pelas janelas. Somente uma hora e meia depois do início do fogo é que o primeiro bombeiro conseguiu saltar no alto do prédio para dar início ao resgate. Dezenas de soldados e oficiais – dos 450 que participaram da operação - arriscaram a vida rodopiando na cordas e escalando andar por andar. Carros-pipa trouxeram água de uma distância de até 30 quilômetros – os hidrantes, para variar, eram insuficientes. Às 16h15min, quando as últimas chamas foram debeladas, cerca de 500 mil paulistanos tinham assistido ao vivo o drama.
A causa, presume-se, originou-se de problemas em um ar condicionado – costumeiro vilão de tais episódios. E talvez pudesse ser combatida a tempo – e quem sabe debelada - se os ocupantes do prédio soubessem manejar os equipamentos anti-incêndio instalados em cada andar. Os próprios bombeiros testemunharam: os extintores e as mangueiras estavam intactos em seus lugares.
O FOGO NAS LOJAS AMERICANAS
Até 1976 Porto Alegre já havia sentido na carne o efeito de pelos menos dois sinistros e não precisava mirar-se no exemplo do Andraus ou do Joelma para extrair lições e adotar medidas de prevenção.
Na tarde de segunda-feira, 3 de maio de 1971, ao aproximar-se as festas de São João, a cidade foi sacudida pela explosão do depósito de Fogos de Artifício Fulgor, na rua João Inácio, 150. A chamada “tragédia do Quarto Distrito”, zona operária e fabril, matou pelo menos oito pessoas – alguns jornais falaram em dezesseis – demoliu quatro prédios e vários carros, quebrou os vidros da Quarta Delegacia de Polícia e causou danos consideráveis em um raio de 2 mil metros. A vibração foi sentida até mesmo em alguns edifícios do centro. Segundo testemunhas, “parecia que haviam jogado um bomba atômica ali”. Um cogumelo de fumaça elevou-se contra o céu, onde, coincidentemente, naquele momento passava um avião a hélice – muitos moradores imaginaram que ele havia caído e explodido contra o solo.
Mais de cinquenta repórteres acorreram ao local e constataram um “cenário de filme de guerra”. Um deles, transmitindo ao vivo pela tevê, comentou: “Isso não é o Vietnã, é Porto Alegre em 197l”.
Cerca de sessenta feridos foram conduzidos aos hospitais da cidade. Sobre a ponte do rio Guaíba, a centenas de metros, recolheu-se pedaços de um homem. Não tardou a ser apurado que a fábrica de artifícios – na verdade um tosco armazém de dois pisos, concentrando não só foguetes e bombinhas de traque – estava abarrotada de explosivos a base de pólvora, em desobediência ao Plano Diretor do município que proibia tal atividade naquela área.
A tragédia, de fato, fora anteriormente sinalizada: o depósito já havia sofrido duas explosões menores e não dispunha da mínima segurança. Mas nada fora feito pelas autoridades.
Entre as hipóteses aventadas como causa, a primeira dizia respeito a um caminhão carregado que teria tocado um fio de energia elétrica na rua e originado um curto-circuito na rede. Nunca se soube e provavelmente jamais se saberá de coisa alguma: o inquérito a respeito nunca foi divulgado. Em 1971 tais fatos não precisavam ser respondidos ou explicados.
Dois anos e meio depois da explosão da Fulgor e um mês antes do Joelma – a 29 de dezembro de 1973, um sábado - uma pequena festa de final de ano dos funcionários das Lojas Americanas, rede de magazines com filiais espalhadas por todo o Brasil, transformou-se em uma tragédia que estragou o reveillon de muitos gaúchos. E aconteceu também em um edifício do centro da cidade – desta vez na rua da Praia, quase esquina com avenida Borges de Medeiros, a hoje “Esquina Democrática” – e só não causou mais vítimas porque não havia movimento de clientes e, dos 300 funcionários da loja, não mais do que quinze estavam no interior do prédio àquele horário. Assim como o edifício Renner, o prédio era uma “jaula”, com apenas duas saídas para ruas diferentes e quase todas as janelas vedadas por grades.
O fogo iniciou alguns minutos antes das quatro horas da tarde, denunciado pela fumaça que vinha do painel de eletricidade da sobreloja. Das seis funcionárias que estavam no andar acima, uma jogou-se sobre a marquise e as demais trancaram-se no banheiro, gritando por socorro.
Os bombeiros chegaram em 20 minutos – sem escadas, sem máscaras contra gases e com um dos carros sem água. Água que também faltou nos hidrantes – ou melhor, faltaram os hidrantes, que haviam sido retirados por força das muitas obras municipais que, em tal época, rapidamente iam cobrindo a cidade com um tapete de asfalto e concreto.
Assim, cerca de 100 mil litros precisaram ser bombeados do lago Guaíba, a meio quilômetro de distância. Mais tarde, na ritualística oficial das explicações, chegou-se a alegar que a água tratada estava muito cara e que era preciso economizar.
Os bombeiros defenderam-se, pedindo maior fiscalização da prefeitura e garantindo que, neste caso, não lhes foram passadas as informações mínimas necessárias. Sequer lhes disseram que haviam gente no prédio, lembrou o comandante.
Fosse como fosse, entre as perdas e os danos estavam as cinco moças asfixiadas pela fumaça, das quais uma apresentava profundos cortes no pescoço, prova de que teria desmaiado ao tentar passar por uma das pequenas janelas basculantes – o mesmo caso de Germano Jonas. Como de praxe, abriu-se um inquérito policial que, para a surpresa de ninguém, nunca veio à luz.
Comandando as investigações estava um velho conhecido da imprensa: o delegado Geraldo Ivo Gaston, o mesmo da explosão da Fulgor e o mesmo que dali a dois anos e meio iria cuidar do inquérito das Lojas Renner.
A IMPLOSAO
Na manhã de 30 de maio, um domingo frio e chuvoso, o que havia restado da sede das Lojas Renner foi visto pela última vez por cerca de 200 curiosos que se comprimiam atrás do cordão de isolamento para assistir o derradeiro ato de tudo, o “gran finale”.
Mais de 90 quilos de explosivos tinham sido estrategicamente colocados em pontos sensíveis do prédio que, em poucos segundos, ruiria de “fora para dentro”, uma explosão peculiar, quase asséptica, sem riscos para a vizinhança e inédita no Rio Grande do Sul, garantiam técnicos e autoridades.
A implosão – neologismo cunhado a partir da bem sucedida experiência pioneira com o edifício Mendes Caldeira (30 andares), em São Paulo, por si só já era um espetáculo.
Para aqueles que haviam assistido às imagens na tevê, o efeito lembrava a explosão de uma bomba atômica. Durante semanas, os técnicos da empresa contratada haviam planejado cuidadosamente a operação, anunciada ao público semanas antes, sempre envolta em um certo mistério e, até alguns dias antes, indefinida quanto ao dia e à hora. O nervosismo geral era visível: nada poderia dar errado.
Dezenas de repórteres, cinegrafistas (a tevê transmitiria ao vivo) e fotógrafos colocaram-se a postos desde o início da manhã: às seis horas, a área em volta foi isolada por soldados da Brigada Militar e, em seguida, foi feita a verificação dos prédios vizinhos, evacuados na noite anterior. Era a terceira vez que se fazia uma implosão no Brasil e a primeira em que se contratava uma empresa nacional – a Triton S.A., de São Paulo.
Segundo o engenheiro responsável, Hugo Takahashi, 365 bananas de tritonita – variante da dinamite, ou TNT – a maioria dispostos nos três primeiros pavimentos, em cartuchos espalhados em pequenos orifícios, dariam cabo da resistência das fortes estruturas construídas havia quase meio século.
Três minutos antes da implosão um carro dos bombeiros fez soar a sirene, sinalizando o início da contagem regressiva. Eram exatamente 8 horas e 51 minutos quando o engenheiro acionou o detonador. Ouviu-se então um barulho surdo (90 decibéis), seguido de uma grande nuvem de poeira branca que envolveu toda a praça Otávio Rocha. Pedaços de pedras voaram a uma distância de até 30 metros. Vidraças dos prédios vizinhos rebentaram com a vibração. Do início ao fim, quando todo o prédio ruiu sobre sua própria base, passaram-se apenas seis segundos.
Assim que se dissipou a nuvem de poeira foi-se também a carga de tensão humana e os funcionários da empresa, tentando disfarçar o nervosismo, começaram a conversar animadamente com os repórteres e as autoridades. Hugo Takahashi comentou, satisfeito: “A implosão foi perfeita”. O major Clóvis repetiu a expressão e o secretário Jorge Englert foi ainda mais ufanista: “Isso é uma prova do adianto da engenharia brasileira”.
Já o público – ansioso, à espera de um grandioso espetáculo – não mostrava-se muito satisfeito com o que vira, ou não vira. Empunhando um guarda chuva, envolto dos pés à cabeça em agasalhos contra o frio do final de maio, um homem queixava-se, decepcionado: “Não deu pra ver nada, só a nuvem de poeira”.
A destruição do prédio punha um termo final à busca pelos restos dos desaparecidos que supunha-se ainda estarem sob os monturos. Destes, três trabalhavam na própria loja e os demais eram pessoas que saíram de casa dizendo que iriam fazer compras na Renner e nunca mais voltaram.
Familiares e amigos vinham tentando, sem sucesso, adiar a implosão – eram, contudo, vozes fracas e anônimas demais para serem ouvidas.
Na noite do dia 15, Sábado, uma equipe de médicos, odontologistas, legistas e peritos conseguiu identificar mais três corpos: Luisa Rodrigues Fernandes, 30 anos, Shirles Chaves, 39, e José Francisco Nunes Cerqueira. Eles foram encontrados por volta das 14 horas, por um equipe de funcionários da Triton que fazia a remoção dos escombros. Estavam vestidos e não portavam documentos. “Com certeza não há mais nenhum aqui”, declarou um dos técnicos, em tom definitivo.
Captada a senha, as autoridades municipais sentiram-se à vontade para proclamar que o período de resgate dos corpos estava definitivamente encerrado e o empenho para encontrar aqueles que constavam na lista dos desaparecidos cedeu lugar aos preparativos técnicos que antecediam a implosão.
Não obstante, nesse meio tempo os operários comentavam coisas que logo ganhavam às ruas e respingavam nas redações dos jornais. Sabia-se que a quilômetros dali, em um conjunto de barracos da Vila Farrapos, na Zona Norte da cidade, algumas crianças maltrapilhas habituadas a brincar com o lixo haviam encontrado coisas estranhas, mal-cheirosas e desagradáveis em um terreno baldio. Porém as caçambas prosseguiam despejando peças de roupas, máquinas e tecidos quase intactos – o espólio do grande empório Renner.
No dia seguinte à implosão, uma segunda-feira fria que já anunciava o cinzento inverno gaúcho, seu João de Deus Carvalho, pai de Rui, o rapaz de 19 anos que alguns disseram ter visto caminhando pelas ruas de Porto Alegre na tarde do incêndio, arrumou suas malas e preparou-se para voltar à cidade de Santiago. Durante um mês ele vivera o pesadelo da dúvida, o exasperante drama de percorrer hospitais, albergues e delegacias à procura de uma figura intangível que vira, mas não vira. Por fim, esgotados todos os recursos, nada mais havia a fazer: o próprio cenário da tragédia, o edifício de dez andares no centro da cidade sumira do mapa para mais tarde dar lugar à uma moderna construção com amplas janelas envidraçadas – o novo prédio das Lojas Renner, tão ou mais imponente do que o anterior. E, presume-se, bem mais seguro.
Um dos maiores incêndios em vítimas fatais registrado no Brasil, o sinistro das Lojas Renner matou oficialmente 28 pessoas e deixou 14 outras desaparecidas – desaparecidos estes que nunca mais apareceram. O laudo técnico não esclareceu a possível causa.

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Inédito

Aguarde: nos próximos dias o Conselheiro X. publicará a história (inédita e exclusiva) do incêndio que parou Porto Alegre, 32 anos atrás.

Anote aí

* A PUCRS divulgou, hoje, quarta-feira, o listão dos aprovados do seu Vestibular de Inverno 2008. Para ver a lista, acesso o site www.pucrs.br/vestibular.


* A Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (Famecos) realiza, de 8 a 17 de julho, o curso de Extensão em Jornalismo Criminal (Policial). As aulas acontecerão de terça à quinta-feira, das 9 às 12 horas, abordando temas como A Evolução da Prática e das Técnicas do Jornalismo Policial, Os Principais Erros na Investigação Jornalística e Como Investigar e Informar com Correção e Ética sem Ferir a Privacidade. Exemplos práticos e teóricos de investigação jornalística, com os professores e jornalistas Adriana Irion, Humberto Trezzi (foto) e Renato Dorneles. Inscrições na Pró-Reitoria de Extensão - sala 201 do prédio 40, no campus central, na avenida Ipiranga, 6681 - Tel.: 3320-3680.
* Último dias para reingresso. Até o dia 30 de junho os alunos afastados da vida acadêmica podem requerer o reingresso na PUC-RS. O requerimento pode ser preenchido na Coordenadoria de Registro Acadêmico - sala 108 do Prédio 1, ou pelo site www.pucrs.br/cra, ou ainda pelo telefone 3320-3573. Para os reingressos no campus Viamão e Uruguaiana os estudantes devem procurar as respectivas secretarias.
* O Instituto de Bioética da PUC promove, dias 3 e 4 próximos, o Oitavo Curso de Inverno de Bioética. O tema central será O Início da Vida, com discussões sobre os aspectos técnicos, jurídicos e éticos a ele relacionados. As inscrições, com preços promocionais para estudantes, podem ser feitas na Pró-Reitoria de Extensão - sala 201 do prédio 40, no campus da avenida Ipiranga, ou pelo e-mail institutobioetica@pucrs.br

Você já foi ao Botânico? Pois vá e relaxe

O JB é uma ilha de paz que vizinha com o barulho da Perimetral

Entrar e permanecer lá é uma terapia: árvores e plantas por todos os lados, um laguinho onde se avistam grandes carpas e tartarugas nadando e mergulhando, sem nenhum receio de serem incomodadas. A quietude natural desse espaço verde só é quebrada pelo som dos passarinhos ou quando tartarugas saem do seu banho de sol e jogam-se novamente na água. Em volta, ouve-se o vento sacudir a copa das árvores e zunir entre as taquaras e os bambus. De vez em quando a voz de crianças, de casais de namorados, de colegiais em excursão.
Instituição que deu nome ao bairro, um dos cinco mais importantes do País, o Jardim Botânico é o refúgio perfeito para quem busca uma ilha de tranquilidade em meio à agitação urbana. Localizado junto à Terceira Perimetral, a história desse local confunde-se com a da comunidade à sua volta. Com 41 hectares de área total, perdeu muito da sua extensão original, que já foi de mais de 8O hectares. Parte de suas terras foi repassada à ESEF, outro tanto à PUC e ao Círculo Militar. Mesmo assim, abriga a mais completa coleção da fauna nativa do Rio Grande do Sul – e é esta, justamente, a filosofia da instituição.
“A idéia é representar o máximo possível a flora nativa do Estado”, informa Elisabete Martins da Silva, que dirige o setor de Comunicação Social e trabalha aqui há 30 anos. “Quando iniciei, era um descampado, não tinha quase nada”, recorda ela. “Mas o Jardim Botânico teve um salto de qualidade muito grande nos últimos anos”.
CAIXINHA DE SURPRESAS – No local funciona, além do Jardim, a administração central da Fundação Zoobotânica (que engloba o Zoológico de Sapucaia) e o Museu de Ciências Naturais. “O pessoal não sabe o que é isto aqui, nós somos uma caixinha de surpresa”, afirma Elisabete.
Poucas pessoas sabem, mas, além de local de visitação e lazer, há importantes trabalhos de pesquisa, de educação ambiental e até um serpentário (aberto à visitação pública) com mais de 400 cobras e serpentes, cujos venenos são extraídos e enviados para institutos fisioterápicos a fim de se produzir soros e medicamentos, trabalho executado pelo Núcleo Regional de Ofiologia de Porto Alegre, NOPA. A maior parte desses ofídios é capturada por pesquisadores, embora muitas pessoas disponham-se espontaneamente a trazer exemplares e doá-los à instituição.
São 11 mil metros quadrados de área construída e uma história com muitos altos e baixos. O prédio central, por exemplo, foi construído para servir como instalações da Televisão Educativa do Estado, a TVE, Canal 7 – que, aliás, nunca chegou a funcionar no Botânico. “Fizemos adaptações na estrutura, na qual estamos hoje”, diz a jornalista.
TRISTE MEMÓRIA - Idéias equivocadas por parte dos administradores públicos estaduais quase destruíram a concepção original do Jardim Botânico. Inaugurado em 10 de setembro de 1958, o período que vai de 1964 a 1974, especialmente, é de triste memória para os funcionários da casa. Esta ficou quase sem investimentos, desprestigiada, a área original foi repartida e pensou-se até em construir aqui um grande Centro de Convenções, come estacionamento para mais de mil veículos, o que seria o caos.
A partir de 1974, com a administração do professor Albano Backes, a situação melhorou, organizou-se novas coleções, retomou-se as expedições em busca de novas plantas e houve a definição – que vigora hoje – de se focar os trabalhos na flora nativa. Nos final dos anos 80 implantou-se um núcleo de educação e, em 1997, foram construídas as instalações para o Banco de Sementes e novas casas de vegetação, além de novos prédios, da compra de equipamentos modernos e contratação de mais funcionários (hoje são cerca de 100). Outra importante atividade são os estudos para licenciamento de empreendimentos de geração de energia eólica (ventos) no Estado, uma fonte de energia limpa em crescente valorização.
Em 2003, através de lei estadual, o Jardim Botânico foi declarado Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul. O presidente da Fundação Zoobotânica é Carlos Rubem Schreiner. Ney Gastal é o diretor do Museu de Ciências Naturais e João Carlos Correa Jardim o diretor do Parque Zoológico.

Áreas temáticas, aves, anfiteatro, fauna e flora nativas. E muita pesquisa
Passear pelo Botânico é conhecer a flora nativa do Estado, embora existam espécies de muitas partes do mundo. A criação de “áreas temáticas” foi muito importante para a sistematização dos trabalhos. Hoje existem muitas delas, como a de plantas perfumadas, a de plantas medicinas, a das ameaçadas de extinção, etc. Biológos – e muitos fazem estágio aqui – partem para o interior, à cata de novas espécies, as chamadas “expedições”. Também merece destaque o trabalho com fósseis nativos.
Não só a flora como a fauna recebe atenção dos pesquisadores. “Nós temos o registro de 105 aves nossas e, inclusive, vamos fazer uma publicação destinada a elas”, conta Elisabete. Os biólogos e outros pesquisadores igualmente desenvolvem um trabalho de educação ambiental, proferindo palestras em colégios, para estudantes de todas as idades.
Outra coisa que pouca gente sabe é que o Museu tem um setor destinado à comercialização de mudas da flora nativa para qualquer pessoa interessada. Há também um anfiteatro, destinado a shows, concertos e apresentações musicais que já chegou a reunir 10 mil pessoas alguns anos atrás, conquanto hoje não esteja sendo muito usado.
Aberto ao público de terça a domingo, integrado à comunidade, tanto o Jardim Botânico quanto o Museu de Ciências Naturais (chamado Museu Padre Balduíno Rambo, em homenagem a um dos fundadores e primeiro diretor da Fundação Zoobotânica) recebe milhares de visitantes a cada mês. Mesmo assim, a segurança não chega a ser um problema (até porque é uma área policiada e cercada) e não se registram invasões de seus limites. A Vila Juliano Moreira, localizada nos seus fundos, com dois hectares, já foi desapropriada pelo Governo do Estado e deverá ser regularizada e entregue aos seus moradores atuais de forma legal. A idéia é urbanizá-la.
COLÔNIA AGRÍCOLA - Falar em Juliano Moreira é falar no passado do local, quando aqui funcionava a Colônia Agrícola do Hospital Psiquiátrico São Pedro, conhecida como “Casa de Passagem Juliano Moreira”. Destinada a pacientes com problemas mentais (que muitas vezes fugiam e vagavam pelas ruas do bairro), junto a ela foram construídas residências para os funcionários que trabalhavam no local. Com a desativação da estrutura maior, as casas foram passando dos pais para os filhos, originando a pequena vila em direção à avenida Cristiano Fischer.
JARDIM BOTÂNICO – Av. Salvador França, 1427. Tel.:3320.2024 – Email: jbotanico@fzb.rs.gov.br – Serpentário aberto de terça a domingo, das 10 às 16 horas.

Os famigerados manuais que nos "enervam"

Chacrinha: vim para confundir, não para explicar

Migrar de uma máquina fotográfica mecânica, com toda regulagem manual - abertura, velocidade, foco - para uma dessas digitais tem lá suas grandes vantagens, reconheço. Logo eu, que sou conservador a esses respeitos e, sob certos aspectos, ainda acho o filme insubstituível.
Pois, para entrar na era do blog, tive de me render às maravilhas tecnológicas e comprei uma Sony digital, um modelo simples, básico, e nem por isso menos complicado. A máquina é excelente, faz tudo, tira fotos coloridas e em preto-e-branco e até filma! - ah, homens das cavernas, nosso tempo está passando...
O problema é que esta minúscula câmera, que cabe no bolso da calça, e, se facilitar, até no buraco do dente, tem recursos até demais, controles demais, ícones demais, funções demais. E tudo é pequenininho, cheio de atalhos e de luzinhas, aperta aqui faz assim, aperta ali, faz assado. Coisa de louco.
Como sou um sujeito de "poucas luzes" culturais (só li um livro na vida, O Pequeno Príncipe, e não entendi direito a história... ), me debrucei sobre o manual de funcionamento da minúscula Sony do sr. Akio Morita, imaginando que, com isso, dominaria o bicho. Ledo e ivo engano.
Folheando, lendo, relendo e trelendo o maldito manual, experimentando aquilo que eles mandavam, acionando comandos, botões e funções, fui, aos poucos, ficando - como dizia meu pai - "enervado", ou em "estado de nervos". Um comando eliminava outro, que por sua vez conduzia a um novo caminho, que parava logo adiante, para voltar atrás (volta pra frente é difícil) e, no fim, totalmente embananado, enervado, estressado, derrotado, humilhado, larguei tudo de mão e fiz como aquele careca que só tinha três fios de cabelo na cabeça e queria ir bem penteado a uma festa. Pois, penteando as melenas, caiu-lhe um fio. Penteou de novo, caiu o segundo - só restou o derradeiro. Irritado, o careca largou o pente de mão e disse pra sua imagem no espelho: "Dane-se! Vou descabelado mesmo."
Aconteceu o mesmo comigo. Gritei "danem-se os quiabos!" e larguei tudo de mão. Quem nasce pra tostão nunca chega ao milhão, quem é da idade da pedra jamais chegará à era digital. Essa é a constatação nua e crua.
O ruim mesmo é descobrir que nem tudo é culpa da nossa burrice. Garanto que isso já aconteceu e acontece com vocês: descobrir que esses irritantes manuais de aparelhos eletrônicos e digitais são a coisa mais inútil e mal escrita do mundo. Não orientam nada, são sintéticos demais, não têm a menor didática, foram feitos para complicar e confundir, não para simplificar e ensinar.
Ou os sujeitos que redigem esses manuais pensam que já sabemos tudo, ou acham que nem devemos saber nada - a coisa é por aí.
A verdade pura e simples é essa: os manuais são piores que bulas de remédio, foram feitos ou por gênios ou por idiotas, ou talvez pela mistura dos dois.
Façam o teste: peguem um manual, qualquer manual, pode até ser de liquidificador, e vejam se conseguem entender aqueles mandamentos, aquela linguagem ténica empolada. Pois eu, do alto da minha sapiência, não consigo entender nenhum deles. Se esses caras fizessem um manual ensinando como abrir um guarda-chuva, a gente não iria entender patavinas.
Tudo bem, sou da idade da pedra lascada, e, nessa condição, bem que gostaria de dar umas bordoadas com meu tacape de pedra no crânio genial nesses arrogantes-idiotas-geniais que escrevem os famigerados manuais, sejam os do sr. Morita ou do Zé da Esquina. Viva a velha máquina manual, viva a Kodak, viva o guarda-chuva, viva o fogão à lenha! Morte aos cientistas nipônicos e aos gênios da lâmpada! (Conselheiro X.)

Imagens do Botânico: no tempo das carroças



*Para ver as imagens ampliadas, clique em cima delas.

O Jardim Botânico, no passado, era um bairro de chacareiros, de funcionários públicos, de plantações de agrião e flores e, naturalmente, de muitas carroças. Pois elas continuam em nossas ruas, e são um meio de sobrevivência para muita gente, especialmente catadores, como se vê nestas fotos feitas ontem - dia nublado e frio - na rua Itaboraí, perto do supermercado Gecepel.

Terça-feira, Junho 24, 2008

Zaffari Ipiranga irá completar 10 anos






Ele foi, e é, o mais importante estabelecimento comercial do Botânico, o empreendimento que modificou as características do bairro e valorizou toda a região à sua volta.
Visto da Ipiranga, torna-se ainda mais grandioso – e quem não se lembra dos vários anos da sua construção, em um terreno que faz parte da história do JB, com dois campinhos de futebol varzeano? Pois ali (avenida Ipiranga, 5200), em 16 de novembro de 1998, implantou-se o Borbon Ipiranga, empreendimento do grupo Zaffari, empresa que fatura mais de 1,5 bilhão de reais por ano, emprega cerca de 8 mil pessoas e é a quarta maior receita do setor no Brasil e a única entre as quatro grandes redes de supermercados com capital cem por cento nacional.
Fazer compras ou simplesmente passear no shopping Ipiranga é um programa quase obrigatório para todos os moradores do Jardim Botânico e dos seus arredores. Pudera: de porte médio, acolhedor, com 70 mil metros quadrados de área construída, 52 pontos comerciais, vários quiosques de serviços, uma praça de alimentação com 700 lugares, o local conta ainda com um hipermercado aberto das 8 horas da manhã até à meia-noite e que também funciona aos domingos.
Ali é possível se assistir aos mais recentes lançamentos cinematográficos, para todas as idades, em algum dos oito cinemas da marca Cinemark, inclusive em horários matinais, a preços reduzidos. Nerão se encontra um bom chope, uma comida portuguesa (restaurante Calamares), café e música ao vivo, além de concertos comunitários e cantores e instrumentistas de qualidade que tocam na praça de alimentação, não só música popular brasileira, como pop, rock, baladas, bossa nova.
No interior do Ipiranga estão vários caixas eletrônicos, uma agência da Caixa Econômica Federal, uma casa de jogos e uma banca de revistas extremamente sortida, com centenas de títulos em todas as áreas. Há, ainda, mais de uma dezena de telefones públicos, banheiros em perfeito estado de limpeza e fraldários. Externamento, no subsolo, o estacionamento abriga centenas de veículos.
GIGANTE – O grupo Zaffari é totalmente gaúcho, o único entre os quatro grandes com capital totalmente nacional e gestão familiar (apesar de muito assediado por grupos estrangeiros).
Os hipermercados Zaffari são voltados para um público classe A e B, que buscam variedades de produtos, atendimento especial e conforto na hora das compras.
Costuma-se dizer que o Zaffari não briga por preços pois disputa um segmento mais abastado. No ano de 2004 a rede faturou 1,3 bilhão de reais, com receita por metro quadrado de 11,2 mil reais – maior que o líder mundial norte-americano Wal-Mart. A empresa, no entanto, não costuma revelar os valores dos seus investimentos.
Além de, recentemente, ter comprado o estádio do tradicional clube de futebol Força e Luz, no vizinho bairro de Santa Cecília (negócio de 9,5 milhões de reais), investiu pesadamente em São Paulo, no bairro de Perdizes, área nobre da cidade. Lá, recentemente, abriu um Bourbon voltado para a classe, com 175 mil metros quadrados (quase três vezes maior do que o Ipiranga) de área construída, cerca de 200 lojas e 10 cinemas. A idéia é competir com o grupo Pão de Açúcar e suas lojas especiais – o investimento total não foi revelado.
No Rio Grande do Sul, o Zaffari compete com o grupo Sonae (marcas Nacional, Big e Maxxi), que agora pertence a Wal-Mart.
Nada mau para uma empresa que iniciou em 1935, quando o fundador Francisco José Zaffari e sua esposa Santini de Carli montaram uma pequena loja de comércio na Vila Sete de Setembro, no interior de Erechim. Anos mais tarde a empresa expandiu-se para Herval Grande.
Nos anos cinquenta os negócios iam tão bem que a família inaugurou as primeiras filiais nas localidades vizinhas e, em 1960, chegou a Porto Alegre, abrindo um atacado. O Zaffari atua, desde os anos 80, na industrialização e comercialização de alimentos e é dono, hoje, das marcas Café Haiti e biscoitos Plic-Plac.
* Zaffari Bourbon Ipiranga – Tel.: 3315.5111

Na inauguração, Arthur Moreira Lima
A inauguração do Bourbon foi uma solenidade e tanto: naquele dia 16 de novembro de 1998 mais de 2 mil pessoas se acotovelaram na esquina da Ipiranga com Guilherme Alves para assistir aos festejos e aos discursos. Primeiramente o consagrado pianista carioca Arthur Moreira Lima executou o hino nacional brasileiro. A orquestra e o coral da PUC também se apresentaram para o público e para uma comitiva de autoridades que incluía o prefeito em exercício de Porto Alegre, José Fortunatti. A matriarca da família Zaffari, dona Santina, viúva do fundador Francisco José, fez o corte da fita inaugural, tendo ao seu lado o diretor-superientende da Cia Zaffari, Marcelo Zaffari.
Disse Marcelo: “Este shopping é uma flor com pétalas de concreto e vidro que se abre no bairro Jardim Botânico para tornar Porto Alegre ainda mais bela e agradável”.
PRÉDIO INTELIGENTE – Concebido pelos mais modernos padrões arquitetônicos, tendo em vista a satisfação e o bem estar dos clientes e visitantes, o Bourbon ocupou 1350 empregados diretos na sua construção. O terreno tem 39 mil metros quadrados (dos quais o hipermercado ocupa 10,8).
Um sistema de última geração controla toda a infra-estrutura do prédio: climatização, segurança das portas, rede hidráulica e até a refrigeração automática dos alimentos. A energia elétrica é garantida por três subestações que atendem de forma independente os cinemas, o shopping e o hipermercado.
O Borbon faz parte dos chamados “prédio inteligentes”, tanto que, em caso de queda da energia elétrica, ela é automativamente ativada por um sistema automático que garante energia contínua por mais 24 horas, bem como a regulagem da temperatura do ar condicionado central.
A obra, que revolucionou a vida do Jardim Botânico, trouxe inúmeros benefícios para a comunidade. A ponte sobre o Dilúvio, na Guilherme, por exemplo, foi construída naquela ocasião, em uma parceria entre a empresa e a Prefeitura. Também foram asfaltadas as ruas em volta do complexo, foi aberta a 18 de Setembro para o tráfego e se investiu em iluminação pública e em obras do esgoto cloacal na Guilherme Alves, na 18 de Setembro e na avenida Ipiranga.
Por outro lado, a associação dos moradores acompanhou de perto todo o processo de instalação. Em reunião com representantes da Cia Zaffari, a AMAJB (conforme a então secretária Laura Ferreira) cadastrou cerca de 500 moradores do bairro e imediações que desejassem trabalhar ali, sujeitos posteriormente ao processo de triagem e seleção.

Ele também lê


O cartunista e jornalista Augusto Bier - pai do Alemão Blau - também lê o blog do Conselheiro X.

Viver em condomínio, tema de palestra no CRFF



* Para ver as imagens ampliadas clique em cima delas.

A psicóloga Maria Alice Lourenço (com consultório na Barão do Amazonas) fez ontem uma palestra no Condomínio Residencial Felizardo Furtado. Realizado no salão de festas do conjunto, das 19h30 às 20h30min, versou sobre o tema "Convivência em condomínios: as possibilidades de alternativas e convívio coletivo em nossos dias". O evento foi aberto a todos os moradores do maior condomínio do Jardim Botânico, com 944 apartamentos.


* Para conhecer a história do Condomínio Felizardo Furtado, inaugurado em 1976, pelo Presidente da República, clique nas postagens de "Abril" e "Maio", a esquerda.

Segunda-feira, Junho 23, 2008

Gente do Botânico (1)

Edson: cantor é o Julio Iglesias.



Porteiro do condomínio Costa do Sol (72 apartamentos), na rua Guilherme Alves (junto ao Supermercado Gecepel), Edson Brandt da Rosa, 49 anos, é o entrevistado de hoje do Conselheiro X. Veja o ping-pong;


- Conselheiro: O que você mais gosta no Jardim Botânico?


- Edson - Gosto da Itaboraí, da Felizardo. O Jardim Botânico tem como característica especial a boa convivência, é parecido com uma colônia, uma cidade do interior.


- Conselheiro: E do quê você não gosta no JB?


- Edson: Do preço do metro quadrado da construção civil, que é muito caro. E da falta de policiamento.


- Conselheiro: Time?


- Edson: Internacional


- Conselheiro: Músicas preferidas?


- Edson: As do Júlio Iglesias. E também do Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso.


- Conselheiro: Quais são suas melhores recordações?


- Edson: De Porto Alegre, do Hospital Moinhos de Vento e, em criança, quando ganhei um carro do Batman.


- Conselheiro: Bebida?


- Edson: Cerveja.


- Conselheiro: Uma frase?


- Edson: "Faça o que tem que ser feito, não deixe para depois".


- Conselheiro: O que gostaria de ter feito na vida?


- Edson: Gostaria de ter uma casa própria.


- Conselheiro: Do que se arrepende?


- Edson: De nada.


- Conselheiro: O que é o futuro, pra você?


- Edson: Eu e minha esposa, envelhecendo juntos.

Rapidinhas

* FALECEU, no último sábado, Fernando - ou Fernandinho - morador de rua, conhecido pela honestidade e simpatia (embora, ultimamente, se tornasse um tanto agressivo). Fernandinho vivia há muito tempo no Jardim Botânico. Segundo informes ainda não confirmados, sofreu traumatismo ao bater com a cabeça na calçada.
* SEQUESTROS TELEFÔNICOS - A direção do Condomínio Residencial Felizardo Furtado colocou cartazes nos elevadores alertando sobre os falsos sequestros que buscam extorquir dinheiro das vítimas, mediante chamadas telefônicas. Golpe que já se tornou comum, consiste na voz de uma pessoa que, geralmente, diz estar com o filho da vítima em seu poder, exigindo dinheiro ou cartões telefônicos para libertá-la. Quase sempre a chamada parte de dentro de algum presídio, muitas vezes de outros Estados.

JB: zona em crescente valorização

* Para ver o mapa ampliado, clique em cima dele.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, o Jardim Botânico contava (Censo do ano 2000), 11.494 habitantes, o que representava 0,84% da população do município. Destes, a maioria eram mulheres: 5.163 contra 6.331 homens, dos quais, no geral, 1,61% eram analfabetos.
Considerando a pequena área do bairro (2,03 kms quadrados, ou 0,43% da área de Porto Alegre), a densidade demográfica chegava a 5.662,07 habitantes por quilômetro quadrado. O JB integra a Região 16 do Orçamento Participativo.
Oito anos atrás, tínhamos aqui 4.171 domicílios, com um rendimento médio dos responsáveis de 12,32 salários mínimos mensais – menor do que Petrópolis e superior ao do Partenon.
CIDADE RADIOCÊNTRICA – O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental, datado de 1999, divide o território de Porto Alegre em nove macrozonas. O Jardim Botânico faz parte da Macrozona 1, a chamada “Cidade Radiocêntrica”, englobando o território compreendido pelo centro histórico até a Terceira Perimetral.
Esta é considerada a zona mais bem estruturada do município, uma região mista, residencial, comercial, de prestação de serviços e até de pequenas indústrias, com proteção ao patrimônio cultural. Ou seja, pode-se fazer muitas coisas por aqui, mas sempre dentro de regras que não alterem o perfil do bairro, a chamada “miscigenação”, ou “mistura de atividades”.
A Cidade Radiocêntrica inicia junto ao Laçador e segue pelas avenidas D. Pedro II, Carlos Gomes, Senador Tarso Dutra, avenida Salvador França, Aparício Borges, seguindo por Teresópolis, avenida Campos Velho (faixa preta) e Icaraí.
Oficialmente, a Prefeitura Municipal estimula, nesta área, uma grande variedade de usos dos terrenos e atividades, como hospitais, shopping centers, universidades, parques, centros culturais, sempre com o objetivo de que a população local tenha como atender as suas necessidades sem fazer grandes deslocamentos. É o que a Secretaria de Planejamento chama de “Corredores de centralidade”. Já a região entre a avenida Protásio Alves e o Porto Seco, por exemplo, é chamada de “Corredor da Produção”. Lá, são estimuladas as atividades produtivas juntamente com as residenciais.
UMA DAS QUE MAIS CRESCEM – O Plano Diretor, que deverá ser modificado e adaptado em não muito tempo, permite que se construa, em certas partes do Botânico, edifícios com até 18 andares (altura de 52 metros máximos). É o caso, por exemplo, das margens da Salvador França e de alguns trechos de esquina da Ipiranga. Porém, para se fazer uma construção desse porte é preciso dispor de um espaço amplo – ou quatro lotes de 11 metros.
Conforme o arquiteto Hermes Puricelli, da Secretaria do Planejamento Urbano, o Jardim Botânico “é uma das zonas que mais está crescendo na cidade, embora ainda não tenha explodido. É uma zona em crescente valorização e daqui a algum tempo vai ser difícil, por exemplo, sobreviveram as velhas casas de madeira que sempre existiram no Botânico. O setor imobiliário está de olho nesta região da cidade”.
LIMITES OFICIAIS – Segundo a Prefeitura Municipal, o Jardim Botânico inicia no ponto de convergência da avenida Ipiranga (ponte do arroio Dilúvio), com a General Tibúrcio. Dali o limite segue pela Eça de Queiroz, Itaboraí e Machado de Assis. Da Machado vem até a Felizardo e encontra a Felizardo Furtado. Da Felizardo Furtado segue até o limite norte com o Jardim Botânico e, por este limite, sempre por uma linha reta e imaginária, na direção oeste/leste, até a avenida Cristiano Fischer. Da Cristiano segue até a Ipiranga (linha do arroio Dilúvio), até novamente o ponto de convergência do arroio Dilúvio.

Viagens do Conselheiro por terras brasileiras


Estamos em 2008, se não me falha a memória. Pois fazem exatamente dez anos que fiz uma viagem inesquecível pelo Brasil, saindo de Floripa, onde morava, pegando carona com dois amigos que voltavam de carro para Brasília (lembro que era a época das eleições, aquelas em que Roriz ganhou de última hora do Cristóvão Buarque). Permaneci lá uma semana - não conhecia Brasília - e achei a cidade bem melhor do que imaginava, não pela arquitetura do Niemeyer e sim pelo clima e pela gente.
Como o ar do cerrado é extremamente seco, fiquei logo afônico, porém descobri um antídoto: comprei um descongestionante nasal Sorine, esvaziei e coloquei água lá dentro. De meia em meia hora, espirrava aquilo nas narinas, e assim consegui ao menos continuar falando. Falta de umidade no ar emudece o cara.
De Brasília segui, de ônibus (o melhor modo de conhecer o Brasil é viajando por terra, só que é cansativo), para Palmas, a Capital do Tocantins, uma cidade que nasceu no início dos anos noventa, toda planejada.
Bom, eu esperava encontrar algo tipo faroeste, como diziam as notícias sobre a região. Tocantins, desmembrada de Goiás, já está na região Norte, e tem alguns aspectos amazônicos. No ônibus vi uma índia, pura, falando no seu idioma com duas criancinhas, seus filhos. Lembrei dos tempos em que convivi com esse povo.
Palmas, com pouco mais de 200 mil habitantes, me surpreendeu e contrariou minhas expectativas, pra melhor: é uma cidade limpa, ordeira e funcional, com gente de todos os Estados, o povo é educado e eficiente, há um frenesi geral de ganhar dinheiro, o custo de vida é alto e o calor - ah, esse é infernal. A gente sua às bicas, o tempo todo. Mesmo assim, gozado, o povo de lá - talvez por ter muitos mineiros - prefere andar de calças em vez de bermudas, como nos demais estados com clima tórrido.
Hoje, se eu fosse um desses garotos de vinte e poucos anos, acho que arriscaria fazer a vida em uma terra dessas: há muitas coisas a se fazer, e a receptividade aos gaúchos, como mão-de-obra, é das melhores.
De Palmas segui para Imperatriz, a segunda maior cidade do Maranhão, às margens do rio Tocantins, na divisa entre os dois Estados. É a chamada região do Bico do Papagaio, terra de pistoleiros, de grilagem, quase sem lei, e lá o bicho pega. Imperatriz é - ou era - maior ainda do que Palmas, com edifícios altos e algo que muito me impressionou: o transporte é feito quase que exclusivavemente por moto-táxis. Há mais de 2 mil na cidade, uma verdadeira chuva deles é vista nas ruas, aliciando clientes. Se pagava, na época, um real, e ia-se assim a qualquer ponto da cidade.
Ninguém era legalizado, nada - o sujeito comprava uma moto e saía atrás da clientela. Até mulher velha, lá, anda na garupa de moto. Algumas perdem a dentadura.
Imperatriz é outro mundo. Há riquezas ao lado de muita miséria - não à toa, é a cidade com maior número de leprosos do Brasil. O analfabetismo campeia e posso garantir que abrir uma banca de jornais naquele lugar não é nenhum bom negócio. Havia uma em que comprei um diário da Capital (da família Sarney, pra variar), e o dono quase me beijou a mão: acho que fui o único cliente daquele dia.
Me hospedei em um hotelzinho muquifa, ao lado da estação rodoviária, e dei uma boa risada ao ver, no quarto, um cartaz avisando: "É proibido cuspir nas paredes". Isso mesmo: cuspir nas paredes. Depois, circulando pela cidade, descobri que isso, tanto ali quanto em São Luís, é uma espécie de esporte, ou mania, ou tique, sei lá - cuspir no não, nas paredes, cuspir para o alto, para os lados. Talvez um ato de protesto, digamos.
O custo de vida era irrisório. Em um bar, uma garota de programa - por sinal, bem interessante - disse que o preço dela por eram cinco reais, com serviço completo. Como eu tinha cara de barão, quis me cobrar dez. Bebemos apenas uma cerveja juntos. Recordo que apareceu uma outra colega sua, que estava apaixonada por um cara e sofria de dor de cornos. Chorava muito, e também era bem bonitinha. "Dor de corno em mulher é pior do que em homem", explicou a minha acompanhante.
Na beira do rio Tocantins, onde há um balneário, sentei em uma barraca e pedi uma cerveja. Senti um gosto estranho no copo - ele, antes, havia servido cachaça e esquecera de lavar o recipiente. Mas não reclamei, só avisei para trocar - em Roma, como os romanos...
O povo maranhense é simpático e cordial, bom de conviver, e solidário. Em São Luis, na Capital, encontrei um pessoal assim, gente boa. São Luís não tem praias boas próximas ao centro, e tem-se que ir uns 10 ou 15 km para fora para encontrar a primeira delas. O mar, no centro, é escuro, cor de soja de lentilhas, quase mangue.
A vida também é muito barata por ali, e o dinheiro é escasso. Entrei em um restaurante, em bairro de "classe média", tomei uma cerveja e paguei com uma nota de cinco reais. O garçon me trouxe o troco em moedinhas de cinco centavos amarradas por um durex. A cena da falta de troco, ou dinheiro circulante, se repetiu em outros locais.
Achei o povo maranhense um tanto soturno e esmagado, sem esperanças, levando a vida como podem. Na divisa com a região Amazônica - meio Nordeste, meio Norte - o Estado é muito peculiar, até na música: coisas que tocavam aqui há trinta anos ainda fazem sucesso por lá, como a Jovem Guarda, Vanderlei Cardoso e Reginaldo Rossi.
Em São Luís, no centro, em uma parada de ônibus, vi uma mulher - que esperava o coletivo - baixar a calcinha na frente de todos e uninar ali mesmo. Ninguém disse nada ou achou muito estranho. Também notei que eles adoram uma sopa bem quente, de preferência ao meio-dia, a quase 40 graus de calor. E não morrem por causa disso.
Ao contrário de Palmas, São Luís não é abafada e seu calor não derrete as pessoas em razão da brisa oceânica - uma delícia que me lembrou a Bahia - que sopra de maneira quase incessante. Hospedei-me em uma pousada, uma casa muito antiga, um daqueles velhos sobrados recuperados do início do século XX ou talvez de antes, e sempre dormi bem. Os donos, um casal, tinham morado no Paraná e retornado não faz muito à sua terra. "É difícil a gente se acostumar em outros cantos", disse ele, um homem muito calmo e correto.
Em São Luís também tive uma outra experiência interessante: o golpe "Boa Noite, Cinderela". Será que caí? Bom, mas isso eu conto amanhã. (Conselheiro X.)
* O tempo está fechado e feio no Jardim Botânico. Além de úmido. A temperatura deve andar pelos 10, 11 graus. Este final de semana não foi bom para os bares e restaurantes - ainda não saiu o salário e o pessoal anda meio econômico. A maioria preferiu ficar em casa.

Domingo, Junho 22, 2008

Guga, o tenista grunge que renovou Roland Garros com saques, cores e comportamento


1997. À exceção dos próprios tenistas profissionais, ninguém no Brasil tinha ouvido falar em Gustava Kuerten, o Guga. Porém, em junho daquele ano - lá se vão onze outonos - um rapaz de 20 anos (nasceu em 10 de setembro de 1976), 1,91 metro de altura, 76 quilos, cabelos longos, barba rala e um estilo "grunge" de se vestir, conquistava o primeiro e mais importante dos seus muitos títulos - o de campeão do torneio de Roland Garros, na França, um dos mais importantes do mundo do "grand slam" - as competições em Winbledon, na Inlalterra, os abertos dos Estados Unidos e da Austrália e, é claro, esse, na França. Guga havia se profissionalizado havia apenas dois anos.

Recentemente, Guga, hoje com 31 anos, despediu-se do tênis profissional, na mesma quadra que o viu vencer. Emocionou-se e até ganhou um pouco da terra e do saibro da quadra de seu técnico e "segundo pai", o gaúcho Larry Passos. A diferença é que, agora, o tenista catarinense, fanático torcedor do Avaí, tem algumas dezenas de milhões de dólares de patrimônio e um nome reconhecido no mundo todo. Ao lado de Maria Esther Bueno, tricampeã em Winbledon, Guga tornou-se o maior nome masculino do tênis brasileiro de todos os tempos. E um orgulho para a sua terra, Santa Catarina.

MULTICOLORIDO - Ao vencer o espanhol Sergi Bruguera, naquele torneio, Gustavo Kuerten - o azarão da disputa - ganhava o primeiro dos seus três títulos no "Maracanã do tênis".

Em sua edição de 11 de junho de 1997, ainda antes da final, a revista VEJA - que parecia acreditar que ele já tinha ido longe demais - escreveu: "Nunca o esporte nacional vira antes um azarão desse quilate. Guga chegou a Roland Garros há duas semanas como mais um entre as dezenas de tenistas anônimos que, todos os anos, inscrevem-se para a competição. E, para espanto da imprensa especializada internacional, e dos brasileiros, que nunca tinham ouvido falar no seu nome até segunda-feira, foi abatendo de forma implacável as celebridades que se apresentaram na sua frente. Na sexta-feira, quando venceu o belga Filip Dewulf na semifinal, já computava entre suas vítimas o russo Yegeni Kafelnikov e o austríaco Thomas Muster, respectivamente campeões do torneio em 1996 e 1995. O adversário seguinte, Bruguera, ganhou em 1993 e 1994."

E prosseguia: "Aos 20 anos, Gustavo Kuerten entrou em Roland Garros pela porta dos fundos. Antes de chegar ao torneio, ocupava apenas a 66 posição no ranking dos melhores tenistas do mundo e nunca havia vencido um torneio de primeira classe do circuito internacional. "Ainda não sei se sou uma estrela do tênis ou se continuo o mesmo", disse a VEJA um incrédulo Guga na quinta-feira enquanto brincava num flipperama ao lado do estádio."

Depois das vitórias de Roland Garros, os jornalistas internacionais passaram a chamá-lo de "surfista do saibro". Algo que também chamou a atenção, naquela ocasião, foram as roupas do tenista brasileiro. "Num esporte em que a tradição manda os atletas usar impecáveis roupas brancas, Guga apresentou-se com uniforme berrante, mais apropriado a um jogador de futebol: todo azul e amarelo, incluindo meias e sapatos. Surpresos, os organizadores do torneio procuraram os representantes do fabricante de roupas para pedir que moderassem na profusão de cores do uniforme. Não. Guga limitou-se a colocar na cabeça uma bandana com fundo branco, e manteve sua figura de surfista grunge. "Como pensaram que eu não iria longe no torneio, nem trataram do assunto diretamente comigo", conta o jogador" - escreveu VEJA em sua matéria (capa da edição de 11 de junho de 1997).

A revista dava mais detalhes do comportamento do catarinense: "Fora das quadras, mais surpresas. Enquanto a maioria dos jogadores do torneio se hospedava em hotéis caros e luxuosos de Paris, o brasileiro se escondia no modesto Mont Blanc, 70 dólares a diária. Foi nesse hotel que se hospedou quando esteve em Paris pela primeira vez, há cinco anos. Diz que foi bem tratado e não muda mais. Também costuma frequentar a mesma pizzaria, a Victoria, e se divertir no mesmo flipperama, ao lado do estádio de Roland Garros. Embora não aparente, Guga é sempre assim, metódico e disciplinado. Até hoje, quando joga nos Estados Unidos, dispensa os hotéis reservados pelos organizadores e vai para a casa de tia Vicky, uma inglesa que o recebeu quando lá esteve pela primeira vez para disputar um torneio juvenil. "Ele é uma pessoa de hábitos conservadores", diz João Carlos Diniz, promotor de eventos e amigo da família do jogador de Florianópolis."

Embora desconhecido do grande público, em 1997 Guga já era afamado no circuito do tênis brasileiro, por seu "jogo sólido", com bolas colocadas nos limites da quadra e muita velocidade. "Ele tem talento e personalidade para ficar no topo", afirmou então o americano John McEnroe, um dos maiores tenistas de todos os tempos. Como se vê, acertou: Guga ficou por mais de um ano como o tenista número 1 do mundo.

"Guga tem ainda uma arma poderosa em sua mão direita: o saque", escreveu VEJA. "Segundo o último número do Jornal do Tênis, órgão oficial da Associação do Tênis Profissional, Guga tem o décimo sétimo saque mais veloz do mundo. A bolinha arremessada por sua raquete chega a alcançar 206 km por hora. É uma velocidade tão grande que o adversário não tem tempo de reagir".

ORIGENS - De uma família de classe média, descendente de alemães, Guga tem um irmão mais velho, Rafael, formado em ciências da computação e professor de tênis - é ele quem cuida de seus negócios. O mais novo, Guilherme, sofria de paralisia cerebral e vivia sob os cuidados de uma babá. Comerciante de esquadrias de alumínio, o pai, Aldo, havia morrido de ataque cardíaco há 11 anos. Guga disse então: "A ele costumo dedicar cada momento de minha vida". A mãe, Alice, trabalhava como assistente social na Telesc, a empresa telefônica de Santa Catarina, à época, além de dirigir a Fundação de Educação Especial, do Governo do Estado. A avó, Olga, foi a primeira patrocinadora - os primeiros torneios foram bancados pelas Indústrias Schlösser, uma tecelagem da família, em Brusque.

"Ao despontar para o mundo do Tênis, Guga levava uma boa vida frequentando uma das 42 praias de Florianópolis. Para não ficar longe da família, nem das praias, recusou inúmeros convites de universidades americanas e de clubes alemães que o queriam para reforçar suas equipes. O mar e o surfe sempre foram duas grandes paixões fora da quadra", prosseguiu VEJA, concluindo: "O aparecimento da exótica figura multicolorida como uma pilha Rayovac em Roland Garros foi saudado como uma brisa de renovação num esporte em crise. Hoje, há centenas de torneios realizados no mundo a cada ano, rios de dinheiro correndo para os bolsos dos tenistas."

Sol e nuvens




A cara do dia foi assim: entre o céu azul e o cinzento. Veja duas imagens colhidas hoje à tarde, uma na rua Veríssimo Rosa e a outra - a do edifício - na La Plata. Duas faces do mesmo bairro.

Sois hydrópico? Andaes triste?

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Oitenta e oito anos atrás, exatamente em maio de 1920, a Revista da Semana - uma das grandes publicações brasileiras da época - publicava muitos anúncios de remédios, tônicos, ungüentos, fortificantes, revigorantes etc - a maioria, como se pode imaginar, pura falcatrua. Entre os anunciantes mais tradicionais, estava a nascente indústria automobilística, com o Studebaker, marca que não mais existe no Brasil. (arquivo do Conselheiro X.)
TEMPO BOM - Depois de dias cinzentos, chuvosos e frio, o sol volta a brilhar sobre o bairro, mesmo que esteja entre muitas nuvens. A temperatura deste domingo é amena.

Sábado, Junho 21, 2008

Um atentado aos nossos ouvidos

Rodaika: que vozinha...

Voz, na televisão, é tão importante quanto a imagem - mas parece que isso não vale no nosso Estado. Ligue a tevê e confira: no Jornal do Almoço tem aquela Rosana não sei do quê: a moça, além de não ser nenhuma miss, (até aí tudo bem) parece que fala pela barriga, ou que tem uma batata quente entalada na boca. Na TVCOM, Canal 36, a coisa é ainda pior: uma menina que tem o exótico nome de Rodaika (parece marca de pneu) apresenta uma voz tão esganiçada, tão aguda, que nem dá pra chamar de voz e sim de cacofonia. E um outro garoto, que apresenta o programa Patrola, na RBS, simplesmente agride os nossos ouvidos - na minha opinião, ele e essa Rodaika são as vozes mais belas da televisão brasileira. Eles e o Jerry Lewis.
Porém, o pior mesmo é quando a gente fala do tempo. Hoje, os meteorologistas estão com tudo, são quase astros da mídia. Pois tem um, de sobrenome Kuhn (deveria ser proctologista), o "homem do tempo", que todo santo dia (deve acordar às 3 da manhã) está nas rádios da RBS, dando o boletim e apresentando suas previsões, sempre usando o "eu" para tudo. Bom, esse sujeito é o cúmulo, e a gente não sabe se dá risada ou desliga o rádio - comparativamente, o som que ele emite é parecido com os guinchos dos babuínos do Quênia quando estão melindrados ou ofendidos - vou usar essa figura na falta de outra pior.
Admiro dois tipos, nesses casos - os que têm bons dentes e os que têm boa voz. Acho, entretanto, que esse pessoal de televisão e do rádio deveria passar antes pelo consultório de uma fonoaudióloga, para educar a voz e não agredirem tanto os telespectadores. No meu tempo de guri, diziam que, pra engrossar a fala, a gente deveria comer giz. Demóstenes, o grego, o falastrão, um tribuno do porte do Pedro Simon (verdade!), era gago de nascença, mas aprendeu a falar direitinho colocando pedrinhas na ponta da língua e fazendo discursos para as ondas do mar:"Trabalhadores atenienses!". Fácil assim. (Conselheiro X.)

O cinzento do primeiro dia de inverno

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Foi um sábado cinzento, com cores cinza, céu fechado, e um vento que tornou a sensação de frio - em torno de 10 graus - ainda mais intensa. O primeiro dia de inverno realmente teve a cara da estação. Poucas pessoas saíram às ruas - a maioria preferiu ficar em casa. Veja nestes flagrantes como estava o Jardim Botânico na tarde de hoje.

Agenda


* O Museu de Ciências e Tecnologia da PUC está abrindo espaço para a realização de festas de aniversário onde será possível apreender brincando. O Aniversário Genial, como está sendo chamado, conta com uma equipe especializada, composta por monitores que acompanharão o grupo nessa aventura de descobrimentos. São oferecidos convites personalizados para os convidados, um cartão especial parabenizando o aniversariante, espaço para a realização dos lanches e shows em horários alternativos, de acordo com a necessidade do grupo. O agendamento é feito com antecedência, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18 horas, pelo e-mail relacionamento.mct@pucrs.br ou pelo tel.: 3320-3521.
A festa pode ser realizada de terças a domingos, das 9 horas às 17, dias e horários de funcionamento da exposição do Museu.
* O Programa de Pós-graduação em Zoologia da Faculdade de Biociências da PUC-RS recebe inscrições, até 27 de junho, para o processo de seleção para os cursos de Mestrado e Doutorado.
O edital e o formulário de inscrição estão disponíveis napáginaww.pucrs.br/pos/zoo. Informações no segundo andar do prédio 12, ou tel.: 3320-3568, ou zoologia-pg@pucrs.br
* Seminário Economia às 5 e meia. Com André Cunha, professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS. Tema: A Crise nos EUAe Suas Repercussões na Economia Mundial. Nesta segunda-feira, 23, às 17h30min, na sala 814 do prédio 50 da PUC (avenida Ipiranga). Entrada franca. Informações: 3320-3524.
* Ciclo de Palestras História e Historiografia: Breves Reflexões. Palestra "O Mundo às Vésperas da Grande Guerra (1850-1914)", com o professor Helder Gordim da Silveira, coordenador do Programa de Pós-Graduação em História. Dia 24, terça-feira, das 17h45min às 19 horas, no auditório do Prédio 5. Será arrecadado 1 kg de alimento não-perecível.
* Extrato da Biblioteca por E-mail. Desde o último dia 16 as bibliotecas da PUC-RS oferecem o novo serviço de extrato por e-mail. Sempre que forem feitos empréstimos no balcão de atendimento, o extrato do usuário será enviado por e-mail para o endereço registrado previamente, relacionando todos os empréstimos em poder da pessoa e suas respectivas datas de devolução. Os empréstimos e datas de devolução também podem ser acompanhados pelo site http://verum.pucrs.br/ALEPH, clicando na opção usuário.
* Viagem ao Chile. A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC promove a viagem de estudos "Arquitetura Contemporânea Chilena". A atividade inclui visitas a obras de arquitetura nas cidades de Santiago e Viña del Mar. A arquitetura recente do país é considerada uma das melhores do mundo. Podem participar estudantes e professores de arquitetura e arquitetos em geral. As inscrições podem ser feitas até o dia 26 (Quinta-feira), na Pró-Reitoria de Extensão (prédio 40). A viagem ocorrerá de 10 a 16 de outubro. Informações pelo Tel.: 33203680 ou proex@pucrs.br

Baú do Conselheiro: Camila Pitanga aos 16 anos

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Camila Pintanga, hoje com 30 anos, e mãe de um filho, já parava o trânsito aos 16. Na edição de 26 de janeiro de 1994 da revista Veja - há 14 anos, portanto - a filha de Antonio Pitanga aparecia em uma pose sensual e já prometia ser o que é: a gostosona não-burra, bem estilo brasileiro, que faz todo homem babar. O título já diz tudo: De dar água na boca. (Arquivo do Conselheiro X.)

Sexta-feira, Junho 20, 2008

"Muitas Ondas": local de livros, café e cultura

Mara: "A cultura é a minha área".Livros e revistas para alugar. Brinquedos e jogos para crianças e adultos. Café capuccino, refrigerantes, cerveja, suco, crespes, doces e salgadinhos - além de um karaokê e, na área externa, um mini-golf. E, sobretudo, um ambiente agradável e aconchegante, com segurança, e extremamente bem localizado: está ali, na rua Felizardo, 351, entre a Guilherme Alves e a Barão do Amazonas.

Este é o "Muitas Ondas", uma locadora de livros e revistas (além de jogos) que funciona há três anos no Jardim Botânico e já tem um cartel de mais de 200 clientes - muitos deles fixos e, a maioria, moradores do próprio bairro. "O pessoal do livro é muito fiel", explica a proprietária, a professora Nilta Mara Severo Freitas - que, entre outras coisas, também é autora de um livro infantil.
Trabalhando a portas fechadas (é preciso apertar a campainha na calçada), o Muitas Ondas é a única locadora de livros e revistas do Jardim Botânico. Pequeno - não mais que 8o metros quadrados - com banheiro, atrai pessoas interessadas em cultura ou que simplesmente vão ali para conversar e trocar idéias - o que pode ser temperado por um bom café. São quase três mil títulos - a maioria de literatura (há também obras espíritas, técnicas, educativas), com destaque para os lançamentos e os best-sellers do momento. "Tenho a lista dos dez mais vendidos da Veja, e compro todos os lançamentos", informa Mara, uma professora de Artes aposentada do Estado (mas trabalhando pela Prefeitura). "A cultura é minha área, e gosto porque aqui convivo c om gente interessante", diz ela.
LIVROS PRÓPRIOS - Mara iniciou o sue negócio com os próprios livros de sua biblioteca, mais os de sua mãe - e, aos poucos, foi comprando mais e mais, e também ganhando doações. Sem fazer muito alarde do negócio - a coisa funciona mais na propaganda boca-a-boca - ela montou a sua locadora, que, conforme diz, "funciona em horário emocional", muito embora esteja quase sempre aberta - o horário vai das 10 horas às 22 horas, de segunda a sábado.
Gradualmente foi conquistando o seu público - que só não é maior pois tanto ela quanto o marido, o corretor de imóveis Ângelo - fazem questão de manter a segurança em um bairro (assim como todos os demais) de crescente violência.
"A segurança é fundamental, e muitas mães deixam os filhos aqui, brincando e lendo, enquanto fazem outras coisas", afirma. Se trabalhasse sem grades, de portas abertas, a freguesia certamente iria aumentar.
O "Muitas Ondas" não tem somente livros, café, jogos, ou lanches: há muitas peças de artesanato nas prateleiras, todas à venda, o que dá ao ambiente um toque especial. No verão, muitas pessoas - especialmente mulheres e casais - sentam-se nas mesas do pequeno pátio para saborear algum suco ou uma cervejinha, degustar doces ou salgadinhos e, é claro, jogar uma conversinha fora - se for sobre livros, melhor ainda.
"Tenho muitos clientes no Conjunto da Felizardo, e isso que não fiz propaganda por lá ainda", garante ela. No inverno, que hoje inicia, o "Muitas Ondas" (que ganhou esse nome em homenagem ao mar de Cidreira) se torna ainda mais agradável e aconchegante, e é uma boa pedida para a época de frio. O público é de todas as idades - há senhoras de mais de 70 anos, em busca de um determinado livro, e crianças de seis ou sete anos divertindo-se com jogos ou procurando obras infantis, inclusive gibis.

SERVIÇO:
Muitas Ondas - Rua Felizardo, 351
Tel.: 3061.4753 - 9153.6293
Horário: 10 hs às 20 horas, de segunda a sabado.
Preço da locação do livro: R$ 0,40 (diária)
Requisitos para locação: documento de identidade, CPF e comprovante de residência (contas de luz, telefone, água, carnês)

Apesar do tempo, será noite de sexta-feira

Para ver a imagem ampliada, clique em cima dela.
A sexta-feira é de chuva fina e tempo totalmente fechado no Botânico - aliás, em toda a Porto Alegre. Não dá pra dizer que é um daqueles belos dias de outono, como se vê - a umidade faz o frio se tornar mais intenso.
É o tipo de clima que os motoqueiros de tele-entrega adoram: um vacilo no asfalto e créu. Pelo visto, vai continuar assim nos próximos dias.
É, mas é sexta-feira (o Inverno entra oficialmente esta noite), e o pessoal vai cair na gandaia. Com um tempo desses, o bom mesmo é pegar um barzinho com ambiente intimista - se tiver lareira, melhor ainda.
Pouco tempo atrás o Jardim Botânico era totalmente carente nessa área. Mas, agora, com o progresso (sempre ele), temos algumas boas opções: dois pubs - aquele da Serafim Terra, bem aconchegante, e o da Felizardo, mais amplo, recentemente reinaugurado, com música ao vivo para quem gosta, e dois ambientes.
A garotada prefere o Cavanhas, na Barão do Amazonas, e outros o treiller da Tia Zefa, ali perto. Mais popular, o Bora-Bora continua com a sua clientela, até altas horas da noite. Mais caro e família, o Bambino, na Terceira Perimetral, é outra boa pedida, assim como a churrascaria do 35 CTG, ao lado do Bourbon, com suas simpáticas mesas de madeira e shows de dança e música.
Falando em Bourbon, tem lá o restaurante Calamares e o Doce Pecado (será que não errei o nome?), bem ali na entrada, além das opções da praça de alimentação. Noite boa, aliás, para pegar um cineminha. Ah, e tem o Stúdio, na rua Itaboraí, número mil e poucos, além dos lanches do Cláudio Lanches. Na Salvador França, está o André, com o seu Fome Zero.
Como hoje é dia 20, e ainda restam dez ou onze dias para o final do mês, o pessoal deve estar meio encolhido nos gastos, esperando sair o pagamento. Mesmo assim, sempre dá para se fazer alguma coisa. Nem que seja no motel Sherwood ou no A2, do outro lado da Ipiranga, entre a Barão do Amazonas e a Guilherme Alves.
E, para colocar alguma coisa bonita e sensual ilustrando essa matéria, vamos entrar no túnel do tempo e voltar ao mês de novembro de 1992 - quase 16 anos atrás, tempo em que Collor ainda era o presidente do Brasil. Quem encontramos? Luana Piovani, uma garotinha de 16 aninhos, que mal despontava para ser musa (estreava na tevê) e ainda não era tão metidinha como hoje (chamou caetano Veloso de "banana de pijama"...). A matéria é da revista Veja de 25 de novembro daquele ano, cuja capa era uma entrevista exclusiva com Madonna, então vivendo o seu auge e dizendo que gostava "de apanhar e levar tapas" - na cama.
Bom final de semana a todos.
* Atualizando: agora, no início da noite, o céu abriu quase completamente, o vento castiga a todos e o frio se faz mais intenso. Duvido que chova amanhã - se é que é possível prever alguma coisa nesse nosso clima.

Quinta-feira, Junho 19, 2008

Fome Zero: ponto de referência

Trabalhar na Terceira Perimetral, à noite, não é para qualquer um. Com o aumento da violência, os comerciantes da avenida Salvador França andam precavidos e fechando cada dia mais cedo.

Inaugurado em 9 de abril de 2003, a lanchonete e restaurante Fome Zero - ali, perto da rua Surupá - é um dos pontos de referência no comércio do local.

O proprietário do Fome Zero é uma figura conhecida do bairro, onde está há 30 anos - André Notti Miranda. Comerciante por vocação - está nesse ramo desde os 18 anos - André não reclama do movimento (vende, em média, cerca de 100 almoços diários). Aberto de segundas aos sábados, das 10 às 24 horas, ele trabalha ao lado da esposa e tem mais três funcionários para auxiliá-lo. O público que frequenta o Fome Zero é formado, basicamente, por trabalhadores de empresas das redondezas e moradores do bairro.

"Ter um comércio na Terceira Perimetral tem vantagens e desvantagens", diz. "A vantagem maior é o movimento. Por outro lado tem o barulho, a falta de acesso para os carros, que passam batidos, e a violência". A respeito dessa última, André confirma: "A chinelagem aumentou em 100%, todo dia dá alguma coisa, ontem mesmo deu tiros aqui perto".

Antes de abrir o Fome Zero, ele teve uma choperia em Rondônio, Estado onde viveu por cinco anos.
Para rodar o filme, clique na seta à esquerda do vídeo

O velho cinema Pirajá: casa de tintas


Na época área dos cinemas de bairro - que foi dos anos trinta aos meados dos anos setenta - o cinema Pirajá, na avenida Bento Gonçalves, um pouco adiante da rua Luis de Camões (ao lado do atual Arquivo Histórico Municipal), foi um dos preferidos dos moradores do Jardim Botânico, assim como o cinema Miramar.

Ao contrário de tantas outras casas de exibição, o cine Pirajá mantém a sua fachada - ou seja, ao menos existe fisicamente. Lá, agora, funciona um comércio de venda de tintas e material de construção.

O Botânico nos anos 60: quase rural

Outro antigo morador do bairro (embora não tenha nascido aqui) é Rui Cintra, de 56 anos, dono de um pequeno bar nos fundos do Supermercado Gecepel, na Guilherme Alves. Suas lembranças remontam aos anos sessenta, quando o bairro era formado por casas de madeira, chácaras, plantações de agrião e de flores, a Guilherme Alves e a Barão do Amazonas eram ruas de chão batido, com esgotos a céu aberto que corriam livremente às margens das vias.

“A Guilherme Alves não tinha nem saída, ia-se até a Valparaíso e do outro lado era um banhadal. Em volta do riacho havia um monte de malocas e uma ponte de madeira que dava passagem para o Campo de São Pedro, que é hoje a Vila Cachorro Sentado”, conta ele, recordando que ainda se tomava banho e se pescava no Arroio Dilúvio, especialmente a montante, nas alturas de onde hoje é a PUC. “Lá existia uma ponte de madeira e famílias inteiras iam lá, passar o dia, tomar banho, tinha muita areia ali”.
Por essa época o local onde hoje está o Conjunto Residencial Felizardo Furtado existia a Chácara Nossa Senhora do Caravaggio, provida de uma pequena vertente, o chamado “parquinho”. Seu Rui recorda de muitas outras do mesmo tipo – a chácara do seu Zé, dos Pieretti, das Camélias. Acima, mais adiante havia o campo do Sul Brasil. Diferentemente de hoje, as ruas nem sempre levavam a outras ruas. “A Salvador França, por exemplo, só ia até a Felizardo, depois era mato, para se ir à Protásio se seguia pela Tibiriçá, onde hoje está o posto de gasolina do Darci”, afirma ele.
Em meados dos anos setenta, quando se iniciou a construção dos blocos residenciais, vieram milhares de trabalhadores, muitos deles provenientes do interior do Estado – e isso modificou totalmente a paisagem do bairro. “Antes todo mundo se conhecia e se cumprimentava, quando chegou essa turma mudou tudo, a rua Felizardo encheu de gente indo e vindo, virou quase uma rua da Praia”, rememora Rui.
Desse período merece destaque o bar da Dona Tida (da família dos “Bravos”), uma antiga moradora, já falecida, que adaptou a sua casa de madeira, na Felizardo (onde hoje está uma creche), e a transformou em bar e restaurante, com mesas de sinuca, venda de bebidas e refeições disputadas pelos trabalhadores da obra. “De vez em quando dava confusão ali”, informa. Já havia, então, o armazém dos Mocelin e, mais adiante, na esquina com a Barão, o do seu Alécio. Para aumentar a renda, aproveitando a vastidão dos terrenos, algumas famílias faziam puxados e alugavam pequenas peças que serviam de moradia os trabalhadores.
ANOS SESSENTA – Quem viajasse no tempo e retornasse aos anos sessenta e início dos setenta no Jardim Botânico encontraria um bairro quase rural, com um reduzido número de prédios e estabelecimentos comerciais. Já havia, é certo, um posto de gasolina na Barão com a Valparaíso (continua a existir) e também uma padaria (Barão com Felizardo), no mesmo local e no mesmo prédio em que há uma hoje. “Do outro lado, na Felizardo, havia um campinho de futebol, muito usado pela turma dos Bancários”, recorda seu Rui. “Na esquina da Barão com a Itaboraí havia o comércio do seu Antonio, relativamente forte. Tinha também o seu Edu e dona Maria. E onde hoje está o Bora-Bora era um terreno, um comércio onde se fazia argamassa que muita gente vinha buscar de carroças. Do outro lado era um comércio forte, o armazém do seu Caboclo.
Uma curiosa indústria que existia na época tinha muito a ver com o bairro – uma fábrica de artefatos para cavalos e carroceiros localizada na Guilherme, defronte à atual igreja de São Luís, e que produzia não somente carroças como ferraduras. “Era do seu Lúcio. Ele era, por assim dizer, o industrial da ferradura e se dava bem porque aqui tinha muito carroceiro e muitos cavalos. Tinha vários empregados e foi a nossa primeira montadora, muito antes da GM”, recorda, divertido, seu Rui.
Nesse mundo tão pequeno, o lazer era igualmente simples. “Na Semana Santa se passava filmes em um bar da Valparaíso com a Salvador, se colocava um grande pano branco na parede e todo mundo se reunia para assistir filmes religiosos”. Os cinemas mais próximos eram o Ritz, o Miramar e o Brasil, este último próximo ao Partenon Tênis Clube, onde atualmente está um posto de gasolina.

A vantagem de ser distraído

Se o sujeito é distraído, ele sofre muito - como todo distraído sabe muito bem, especialmente naquela hora da madrugada, quando se volta pra casa e se procura a chave da porta - cadê ela? Onde é que deixei?
Pois é, mas eu conheci uma pessoa - grande amigo, que, aliás, já se foi - cuja distração o salvou de uma grossa enrascada.
Pra começo, devo dizer que ele era, fisicamente, do tipo do Bill Gates: cabelinho eriçado para cima, um certo ar intelectual, calmo, simpático (isso o tornou um grande vendedor de anúncios) e, sobretudo, um óculos de grau 12 nos olhos, o tal "fundo de garrafa". Grau 12 é soda, é uma quase cegueira, se vê (imagino eu) tudo embaçado e fora de foco e até atravessar uma rua pode se transformar uma séria dificuldade.
Um dia esse meu amigo estava jantando em uma pizzaria ali perto do Hospital de Clínicas, na companhia do seu irmão. Era noite e a casa estava quase cheia - eles lá, em um canto, conversando e bebendo uma cerveja.
Acontecia da mesa deles estar localizada de frente para a porta de entrada. Uma hora, meio para o final da noite, entraram três sujeitos - e esse meu amigo, que chamávamos de Moquinho (diminutivo de Mocorongo) levantou os olhos, distraidamente, olhou o cidadão e, sabe-se lá porquê - no meu entender, por distração, ou porque pensou conhecer o sujeito ou ainda porque ele era gente boa - cumprimentou-o com um "e aí?", fazendo o gesto de positivo com o polegar.
A conversa deles continuou normalmente, regada por uma bebidinha, até que, uns quinze minutos depois, os três fregueses que haviam chegado sacaram as armas e anunciaram: era um assalto. Foram até o caixa, recolheram tudo o que havia para recolher e, depois, passaram a percorrer as mesas, de armas em punho, saqueando todos os pertences da clientela.
Nessa hora Moquinho e seu irmão se tocaram que estava acontecendo um assalto - e que todos, inclusive eles, teriam de entregar tudo para os bandidos. Calmamente, foram retirando carteira, relógio (celular não, porque isso aconteceu há mais de 10 anos), documentos, e colocando sobre a mesa, conforme os caras ordenaram.
Quando um dos assaltantes chegou à mesa dos dois, para pegar o que tinha, o outro - o que era o chefe e que meu amigo havia cumprimentado, sem nunca ter visto mais gordo - interveio e ordenou ao comparsa: "Esses aí não, esses tão liberados". Em seguida, deram no pé e nunca mais foram vistos - foi, como se vê, um assalto bem sucedido.
Penso nisso e dou risada toda vez que me lembro. E não deixo de considerar que aqueles bandidos foram gentlemans, verdadeiros cavalheiros da ordem da bandidagem, agiram como profissionais no sentido mais lato da palavra. Provavelmente o chefão deles considerou que aquele gesto com o polegar, de positivo, lhe trouxe sorte (e acho que trouxe mesmo) e que meu amigo, no fundo, era mesmo um cara simpático - e era. Quer dizer, por causa de um simples cumprimento, de um gesto civilizado, Moquinho e seu irmão foram os únicos a escapar da pilhagem, os únicos que não perderam nada. Vejam só como a distração às vezes pode ser uma grande qualidade.
Já a direção da pizzaria, imagino, ficou com a pulga atrás da orelha em relação aos seus dois fregueses. Quem sabe lá não estavam coniventes com os assaltantes e foram ali para sacar qual era a do ambiente? Bom, o certo é que os dois irmãos nunca mais voltaram
lá. A sorte dificilmente bate duas vezes à mesma porta. (Conselheiro X.)

Quarta-feira, Junho 18, 2008

A Pré-História do E-mail

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O e-mail - ou correio eletrônico - praticamente substituiu as cartas comuns que todos nós, uns tempos atrás, mandávamos para os mais variados cantos do país e do Mundo - e que, além de exigir selo (e dinheiro), demoravam um bocado para chegar.

É, mas a gente não lembra direito de como tudo isso começou. Simplesmente parece algo normal, como beber um copo de água, só que não é bem assim.

Vejam nesta matéria que o Conselheiro X. descobriu em seus alfarrábios, datada de 17 de fevereiro de 1993 (pouco depois do impechment de Collor), na revista Veja - quinze anos atrás, portanto. Não faz muito tempo - e tudo mudou tão radicalmente que a gente nem consegue imaginar como era a coisa em seu início, e tinha apenas 2 mil usuários. Digamos que era algo exclusivo do meio universitário - dos professores e pesquisadores de universidades - e havia custos, sim. A Internet engatinhava, àquela época - sabem o que é Brasnet? Acompanhem.


"Conversa Digital


"Através de uma rede de correio eletrônico, cientistas , cientistas brasileiros trocam informações com colegas no exterior"


"Uma nova forma de comunicação está ganhando espaço entre os acadêmicos brasileiros conectados com a era da informática. Mais veloz que o telex, mais confiável que o fax e tão fácil de usar quanto o telefone, em todo o mundo esta nova mania se chama correio eletrônico. Ela permite o intercâmbio de correspondência digital e informações entre pesquisadores. No ano passado, a Brasnet, o braço brasileiro da Internet, a maior rede mundial de computadores, cresceu quase 500%, elevando a 2 000 o número de computadores nacionais ligados ao sistema. Na Internet, há mais de 1,3 milhão de computadores conectados. Eles trocam mensagens e programas entre si utilizando canais de transmissão de dados e via satélite. Todas as universidades americanas fazem parte do sistema, bem como a maioria dos centros de pesquisa europeus. Cada máquina possui um endereço eletrônico, para o qual são enviadas cartas e mensagens.

"A vantagem para os pesquisadores brasileiros conectados ao correio eletrônico é que o computador se transforma numa ágil ferramenta de comunicação com o mundo e deixa de ser apenas uma máquina eficiente mas isolada. "Antes eu era obrigado a esperar mais de um mês para obter uma resposta por escrito de um pesquisador do exterior a fim de tirar uma dúvida", diz o professor Imre Simom, do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, um usuário frequente da Internet. "Com o correio eletrônico, me comunico rapidamente com o exterior e, em um dia ou dois, alguém me manda uma carta digital com a solução do problema". Um dos mais assíduos correspondentes eletrônicos de Simon é o francês Christian Choffrut, professor do Laboratório de Informática Teórica e Programação da Universidade Paris VII. "Através do correio eletrônico, trabalhamos como se estivéssemos um ao lado do outro", disse Choffrut a Fábio Altman, correspondente da VEJA em Paris.

"A primeira providência de Choffrut quando entra na sua sala na universidade é verificar se há alguma correspondência eletrônica em seu computador. "É como se estivesse consultando minha secretária eletrônica", diz o francês. Mesmo de casa, Choffrut consegue ter acesso às mensagens enviadas a seu computador instalado na universidade. Ele aciona o seu Minitel, o serviço de videotexto francês, que funciona através da linha telefônica convencional, e "entra" em seu micro na escola em busca de alguma carta digital.

"Além de mandar mensagens individuais, o sistema também permite o envio de correspondências coletivas. Os bolsistas brasileiros no exterior se comunicam através do Brasnet. Eles escrevem uma mensagem e, em vez de endereçá-la para apenas um usuário, mandam a carta digital para a Brasnet, que envia uma cópia do texto para os cerca de 1 500 associados a essa pequena rede nacional.

IMPEACHMENT - Foi através do Brasnet que, no dia 29 de setembro do ano passado, esses mesmos bolsistas acompanharam a votação do impeachment do presidente Fernando Collor. Os resultados da votação do Congresso Nacional eram veiculados pela rede por pesquisadores brasileiros que acompanhavam o impeachment pela televisão. Além de tratar assuntos sérios, também há espaço para brincadeiras no Brasnet. O cearense Mauro Oliveira, de 38 anos, que faz doutorado na Universidade Paris VI sobre o ensino de rede de computadores, ficou conhecido na rede nacional como "Mauro Pacatuba". O brasileiro difundiu pela Brasnet durante 55 semanas seguidas, sempre às sextas-feiras, a "Rádio Uirapuru de Itapipoca", um programa escrito de humor. A rádio só teve 55 emissões porque Mauro Pacatuba, em certo momento, verificou que o uso lúdico do Brasnet tinha se transformado num vício. "Resolvi parar para me dedicar à minha tese", diz o brasileiro.

"Além da rapidez e da eficiência desse sistema, os especialistas em computação apontam outra vantagem no uso do correio eletrônico. Segundo um estudo da empresa Hewlett-Packard, uma mensagem eletrônica custa bem menos que uma carta ou um fax. A empresa gasta 22 centavos de dólar para mandar uma mensagem de duas páginas pelo correio eletrônico para uma de suas subsidiárias espalhadas pelo mundo. Isso é metade do preço de uma carta internacional e quase oito vezes mais barato que um fax."

Uma do Macanudo Taurino.




Um dos maiores chargistas e cartunistas brasileiros, cheio de prêmios nacionais e internacionais (ganhou até na Bulgária!), Santiago - batizado com o incrível nome de Neltair - fez muito sucesso, tempos atrás, com o seu personagem bagual, o Macanudo Taurino. Republicamos uma dele, sem autorização do autor, é claro.

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Qual o barato dos pichadores?

Pois é. Manhã de um belo sol, poucas nuvens, um frio que está bem melhor do que ontem. E o Jardim Botânico segue no seu ritmo: novos edifícios sendo erguidos, gente que chega, gente que sai, um assalto aqui, um arrombamento ali, um ciclista atropelado, Salvador França a mil - assim caminha a humanidade botaniquense.
Palavrinha estranha essa - botaniquense. Não deve constar em nenhum dicionário, mas é assim que nosso povo - os mais antigos - se chama. Se ainda fosse Vila Russa o nome do bairro, como é que nos chamaríamos? Russos, quem sabe. Ou cossacos.
Caminhando pelas ruas do Botânico - nem todos têm carro, ainda (segundo as estatísticas, dois em cada três porto-alegrenses têm, embora não seja o nosso caso) - constatei um fenômeno (nem tão fenômeno assim) que já havia visto no Partenon: a pichação. Lá, no nosso vizinho, não escapa nenhum prédio. É realmente incrível como esses pichadores são ágeis e onipresentes - e como se arriscam, inclusive a caírem de um segundo ou terceiro andar e quebrarem os cornos na calçada. Mas como são obstinados - esse mérito não podemos lhes negar - conseguem fazer aqueles arabescos imcompreensíveis em toda parte. Nenhum prédio, muro, casa - nada é poupado. Não sei o que essa garotada (imagino que sejam garotos, ou será que não?) pretendem com essa estranha ocupação, o que lhes dá de proveito, qual o barato da coisa. Deve ser como cheirar cocaína, adrenalina a mil (ou naftalina, como disse o Jardel), emoções à flor da pele, sensação de risco, essas coisas bem humanas e idiotas.
Não é que agora eles - os hunos - chegaram com tudo ao Jardim Botânico e estão mandando ver. Na Terceira Perimetral, na Salvador França, ali perto do Fome Zero (um abraço ao nosso amigo André, uma das maiores fortunas do bairro!) está tudo pichado, inclusive os tapumes das obras. Ou seja - o comerciante, o empresário, o morador ou seja lá quem for, dá um duro danado, capricha na fachada da sua casa, empresa ou prédio, deixa tudo bonitinho, pintadinho, caprichado, e de repente, na calada da noite (desculpem o clichê mas não encontrei outra expressão no momento) uma milícia de hunos vai lá e mete spray em tudo, emporcalhando o que antes talvez fosse belo.
Vou perguntar de novo: qual o barato dessa gente? Qual será a grande emoção que dá sair por aí, à noite, nesse frio de congelar pinguim, munido de spray, talvez de escada, sei lá, para desenhar ou escrever aqueles sinais góticos que só eles entendem?
Tem coisas que ninguém explica. Dizem que o besouro, tecnicamente, não poderia voar, pois é muito pesado e tem asas curtas. Só que ele, como todos sabem, voa - meio desajeitado, aos trancos e barrancos, mas voa, contrariando a tese dos cientistas.
Pois os pichadores são parte desse fenômeno, contrariam a lógica. Ninguém consegue entender o porquê (talvez algum psicólogo saiba) da coisa, a razão, a motivação dessa gente, que bem poderia estar em casa, fazendo palavras cruzadas, torturando o gato ou passando a mão na bunda de empregada. Porém eles saem à noite, na surdina, para realizar uma obra de enfeiamento da cidade - talvez para eles seja de afirmação perante os colegas de ofício, a sua tribo, ou horda.
Cá prá nós: essa gente, quando a Brigada chega e lhes dá uma flagra, deve apanhar (merecidamente, na minha opinião) pra chuchu. Bom, talvez seja esse o grande barato da coisa; ser apanhado e apanhar do brigadiano. Êta gentinha masoquista, sô! (Conselheiro X.)

Ela também lê




Gabrielle Chanas também lê o Conselheiro X.

Terça-feira, Junho 17, 2008

Belo Botânico: o riacho e a Natureza serena







Imagens do Jardim Botânico nesta terça-feira fria, mas de sol. O riacho Ipiranga - ou arroio Dilúvio - com suas águas turvas e imundas que contrastam com a serenidade plantada da Natureza em volta. Ao meio, a ponte, na rua Veríssimo Rosa. À esquerda, no alto, a imagem de um novo e grande edifício que surge, na rua Chile, algo cada vez mais comum. Parado, o caminhão de mudanças aguarda o frete. Bairro em franco desenvolvimento, o Botânico conta, hoje, com cerca de 15 mil habitantes. Tem um shopping center, duas agências bancárias, uma agência de Correios, oito cinemas, três supermercados (um que permanece aberto até às 24 horas), um CTG, pizzarias, churrascarias, pubs, quatro lans house, faculdades, áreas de lazer, bibliotecas, um Jardim Botânico (naturalmente...), botecos de primeira à ultima categoria, um grande hospital, uma escola pública até o segundo grau, pontos de táxi, diversas linhas de ônibus que levam qualquer um até a rodoviária e cruzam a cidade de sul a norte, duas linhas de lotação, quadras de esporte, academias de ginástica, academia de kung-fu, uma conceituada escola de dança, um centro comunitário, nenhuma associação de moradores, gente simpática e antipática, muita natureza, cachorros e passarinhos, um posto da Brigada Militar, vários de combustível, um motel de primeira, e até uma clínica para fazer exame de DNA... Ah, e está a dez minutos de carro do centrão de Porto Alegre e bem pertinho da PUC.
* Para ver as fotos ampliadas, clique em cima delas.

Um dos primeiros prédios do Botânico

Pouca gente sabe, mas ele tem história.



Nesta madrugada de terça-feira o Jardim Botânico teve até geada - nada de estranhar para um dos bairros mais frios de Porto Alegre. Durante a madrugada, a temperatura chegou a 1 grau e a noite foi de muitas cobertas e acolchoados.
Mas a manhã é de sol e de previsão de chuva para quinta-feira - aí sim, vai piorar. Por enquanto, vamos aguentando um inverno - que nem chegou, oficialmente - que promete ser semelhante ao do ano passado.
Sem reclamações, no entanto: esse é o Rio Grande que nós conhecemos desde meninos, e que nem mesmo o aquecimento global esquentou.
Resgatando a história do bairro: nesta foto, um dos primeiros prédios construídos no Jardim Botânico, provavelmente no início dos anos quarenta, habitado até hoje, na esquina da Salvador França com a Surupá. Sinal dos tempos: está todo pichado.
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A vida sofrida de Neuza Goulart Brizola: exílio, depressão, companheirismo e alcoolismo








Ela foi a grande companheira de Leonel Brizola (falecido) - e, em toda a sua vida, habituou-se a conviver com o poder. Isso, porém, não a impediu de ter uma existência sofrida, cheia de altos e baixos, e de, por uns tempos, tornar-se alcoólatra.
Neuza Goulart Brizola, mulher do ex-governador gaúcho e fluminense - o amado e odiado homem que garantiu a Legalidade e a posse de Jango, seu irmão - faleceu em 7 de abril de 1993, uma quarta-feira, aos 71 anos de idade, na clínica Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro, onde morava. O laudo atestou infecção generalizada e sérios problemas respiratórios. Foi enterrada em São Borja, assim como Jango, assim como Getúlio Vargas (que foi seu pardinho de casamento), assim como Leonel, também falecido (sem ter nunca ter realizado o seu sonho de se presidente).
Elegante, discreta, bonita, Neuza conheceu Leonel em uma convenção do Partido Trabalhista Brasileiro, em São Borja, onde nasceu, ainda nos anos quarenta. Conta-se que trocou um outro pretendente rico por um jovem engenheiro em início de carreira política. Quando casaram-se, ela tinha 28 anos - e nunca se arrependeu da opção: a união dela com o temperamental Brizola parece ter sido amorosa, senão apaixonada. O marido chamava-a de "queridinha", era seu confidente e amigo. Foram apaixonados por toda a vida e tiveram três filhos - João Vicente, João Otávio e a problemática Neusinha - hoje bem mais calma.
Não era para menos: ao lado do líder trabalhista, Neuza suportou muitos anos de exílio (15 longos anos) e perseguições políticas em terras estranhas, sem jamais esmorecer. Antes, quando Brizola era governador do Rio Grande do Sul, chegou a doar uma de suas sete fazendas - que herdou dos pais - para a reforma agrária que seu marido promoveu no Estado, e vendeu outras quatro para garantir o sustento da família, no período da Ditadura, quando viveram no Uruguai e depois em Portugal e nos Estados Unidos. Vendeu mais uma, quando voltaram ao Brasil, em 1979, para comprar o apartamento na avenida Atlântica, em Copacabana - o QG de Brizola, e onde morou até a sua morte.
DEPRESSÃO - Os primeiros seis anos de exílio foram duros. No frio Uruguai, viveram em um apartamento sem calefação ou ar condicionado. Depois a família mudou-se para uma fazenda, a 250 km de Montevidéo - lá não havia energia elétrica ou telefone. Mulher prendada, pela primeira vez obrigou-se a cozinhar. Disse mais tarde, sobre isso: "Só quem passou pelo exílio sabe como é triste ser brasileiro fora de sua pátria".
Em 1983, no Brasil, tratou-se durante 75 dias, nos Estados Unidos, de uma crise de depressão, algo cada vez mais comum - sequer chegou a asistir à posse do marido no Palácio Laranjeiras. Mais tarde internou-se em uma clínica para recuperação de alcoólatras, na Espanha.
Em 7 de janeiro de 1993, em Nova York, foi internada às pressas em um hospital, com uma úlcera perfurada. Permaneceu dois meses na UTI, sedada. Carinhoso, Brizola a visitava duas vezes por dia e passava longas horas à beira da cama, afagando seus cabelos. Alguns dias antes da sua morte, sem poder falar, trocava bilhetes com o marido.
Talvez por tudo isso, Neuza abusava dos calmantes e antidepressivos, bebia muito e fumava. Em 1986, ela e Leonel combinaram de parar de fumar - o que ele conseguiu, ela não. A esse tempo já havia se submetido a uma operação para a retirada de um tumor em um dos seios. Sofreu também com as brigas entre seu marido e o irmão Jango - reconciliados enfim em 1976, pouco antes do presidente deposto morrer.
Seu maior sonho, no entanto, nunca aconteceu: voltar e envelhecer junto ao marido, na sua São Borja, de preferência bem longe da política.

Segunda-feira, Junho 16, 2008

O velho Miramar: ao menos, restou o prédio


Nos velhos tempos - anos 50, 60 e 70 - quando não se sonhava com shoppings centers (e muito menos com as 8 salas do Cinemark do Bourbon), o Cine Miramar era uma das opções de lazer dos moradores do Jardim Botânico. Muita gente que está hoje na casa dos cinquenta ou sessenta anos, lembra bem dele - das películas em "tecnicolor", dos seriados que passavam antes do filme, do Canal 100... Cinema popular, um dia - como aconteceu com outros milhares no Brasil todo - fechou as portas e ficou na saudade. Felizmente, o velho prédio (na avenida Coronel Aparício Borges, 2730, no Partenon, quase defronte à igreja de São Jorge)) ainda não foi demolido - lá funciona hoje uma agência do banco HSBC e uma filial das Lojas Colombo.
* Para conhecer mais a história do bairro, clique à esquerda, nas postagens de Abril e Maio.

O galã que escondia a doença que o matou


Quem viveu os anos setenta e oitenta lembra bem dele - um galã com cara de garoto, o queridinho das adolescentes: Lauro Corona.

Em julho de 1989, quando o Brasil ainda não havia realizado a sua primeira eleição direta para Presidente da República depois do final da ditadura, e Sarney ainda estava no Palácio do Planalto, Lauro Corona morreu, aos 32 anos de idade, em uma clínica no Rio de Janeiro, vítima de infecção respiratória, septicemia, infecção oportunista, miocardite, insuficiência renal aguda e hemorragia digestiva alta. Ou seja, sabe-se hoje, morreu de Aids, muito embora tanto ele quanto a sua família insistissem em negar a existência da doença - algo que nem chegava a ser estranho para quem não assumia a sua homossexualidade.

A morte de Corona foi muito comentada, em uma época em que a Aids ainda era algo quase maldito e, pior, matava muito rapidamente - o ator faleceu apenas seis meses depois de apresentar os primeiros sintomas do mal. Foi enterrado em uma urna, na presença apenas de parentes e amigos mais próximos - a imprensa, odiada por sua família por tudo que havia comentado a respeito, foi barrada por guarda-costas. Ninguém, nem os demais atores globais, comentou ou emitiu qualquer opinião a respeito.

3 MIL VÍTIMAS EM 89 - A Aids chegou ao Brasil em 1980 e, em 1989, pouco mais de 3.500 pessoas haviam morrido infectadas. A epidemia, algo novo, assustador, era veloz, devastadora e galopante - naquele ano de 89, 32% dos brasileiros que se descobriram contaminados no mesmo ano já haviam falecido. Hoje, cuidando-se bem, pode-se viver uma vida inteira com o vírus.

Ator global, que pouco fez teatro, cara de garoto, praticante de esportes (natação, surfe, ginástica, remo), na época da geração dourada e praiana do Rio de Janeiro, com apenas 1,63 m de altura, Lauro Corona consagrou-se como o Beto, da novela Dancin' Days, do ano de 1978, um grande sucesso na época em que as discotecas explodiam como modismo em todo o mundo. Ao seu lado estava a grande amiga Glória Pires - amiga, confidente e vizinha.

Corona ganhou muitos elogios por sua interpretação. Mais tarde, depois de várias novelas, fez o papel de um gigolô, em Memórias de um Gigolô, ao lado de Bruna Lombardi, Ney Latorraca e Elke Maravilha. Também fez o português Manoel Victor, em Vida Nova - por isso chegou a ser apelidado de "o galã da novela das seis". No cinema, fez Bete Balanço e O Sonho Não Acabou, além de ter gravado dois discos. Grande amigo de Cazuza (ou algo mais) - morreu antes do colega, que àquela época já estava com a doença, e reconhecia isso abertamente.

Na vida pessoal, era discreto - gostava de receber amigos, ler revistas em quadrinhos e ver videocassete (eram os tempos, lembram?)- e, mesmo visto na companhia de mulheres, não se conhecia nenhum romance seu com colegas. A exemplo do que acontece hoje com galãs do seu tipo, apresentava inúmeros bailes de debutantes e recebia cartas apaixonadas das fãs. Em 1981, no entanto, foi processado por uso de cocaína - seu nome apareceu na lista de um traficante preso pela Polícia. Foi inocentado.

Pouco antes da sua morte, o ator estava muito magro e, na entrega do prêmio Sharp de música, no mês de abril, trazia uma expressão perturbada no rosto e um olhar vago. A esse tempo, mantinha-se isolado e recusava-se a tratar a doença - alegava que sofria de estafa pelo excesso de trabalho e até de alergia às tintas utilizadas nos cenários da novelas. Nos anos 80, o AZT era, praticamente, a única droga um pouco eficaz para deter ou amenizar os sintomas do mal. Corona nunca a utilizou - ou talvez só nos momentos finais. Segundo alguns amigos, como Ney Latorraca, ele parecia querer se convencer que não tinha mesmo AIDS. Já havia se afastado então de sua última novela, com o sugestivo título de Vida Nova.

Os anos oitenta - especialmente no final - foram trágicos no que se refere à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Rocky Hudson,Betinho, Cazuza, o escritor Herbert Daniel, o artista plástico Jorge Guinle Filho (filho do playboy, milionário e mulherengo Jorge Guinle) , entre outros, desenvolveram a doença, que "secava" e matava rapidamente. O pior, porém, era o estigma e o preconceito da sociedade - muitos se recusavam até mesmo a dar a mão a um aidético, temendo o contágio.
* Para ler mais histórias como esta, clique em postagens "2006", à esquerda.

Domingo, Junho 15, 2008





O poeta que morreu de desgosto

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond e Andrade
Já se vão 20 anos - quase 21 - que Carlos Drummond de Andrade morreu. Para muitos, o maior poeta brasileiro de todos os tempos, Drummond - pouca gente lembra - faleceu 12 dias depois da morte da sua filha, Maria Julieta. E, conta-se, morreu de desgosto, de falta de vontade de viver, aos 84 anos de idade, às 8h45 minutos do dia 17 de agosto de 1987, uma segunda-feira, no Rio de Janeiro, onde morava havia muito tempo. Sepultado sem orações ou discursos - como pediu, já que era ateu (ou agnóstico, como queiram), Drummond estava internado no hospital, vítima de dores no peito. Cardíaco, já havia sofrido infartos anteriores. Foi sepultado no cemitério São João Batista, na presença de quase mil pessoas - entre eles o presidente em exercício, Ulysses Guimarães - Sarney estava no exterior.

Sua única filha - de quem era não só pai, como o maior amigo ("eles se entendiam só pelo olhar", disse um amigo) - não havia resistido a um câncer generalizado. No enterrro, o poeta confidenciou a um amigo: "Não tenho mais futuro, acabou tudo para mim". Doze dias depois, ele se deixou levar. Coisas que acontecem.

LIXO COMO PRESENTE - Homem fechado, reservado, arredio, tímido, meticuloso como todo bom mineiro, Drummond - nascido em Itabira, em 31 de outubro de 1902, em uma família de fazendeiros - publicou 30 livros de poesia (mais os de crônicas), dos quais foram vendidos mais de 500 mil exemplares. Mas não gostava de teorizar sobre poesia (coisa muito comum entre outros poetas) e preferia que o chamassem de jornalista. Expulso do colégio, em Belo Horizonte, aos 19 anos - por "insubordinação mental" - formou-se em Farmácia ("porque era o curso mais curto"), profissão a qual jamais exerceu. Foi, sim, professor de Geografia e Português, jornalista e funcionário público - por sinal muito exigente. Aos 23 anos casou-se com Maria Dolores - e com ela viveu até o final da vida.

COMUNISTA - Carlos Drummond trabalhou no Ministério da Educação durante a ditadura Vargas, a convite do seu amigo Gustavo Capanema, mas - lá pelos anos quarenta, em especial durante a Segunda Grande Guerra - alinhou-se ao Partido Comunista Brasileiro, o velho PCB, na luta contra o fascismo. Chegou, a convite de Luis Carlos Prestes, a dirigir o jornal do partido - o Tribuna Popular - mas, por incompatibilidade, demitiu-se três meses depois de assumir, por não suportar a ortodoxia comunista e stalinista. Mais tarde, explicou: "O que eu escrevia não saía, e o que saía eu não entendia nada".

Nos anos quarenta, durante a Guerra, compôs poemas bem esquerdistas, até de louvor ao staninismo - num deles saúda a resistência de Stalingrado (hoje com outro nome) aos invasores nazistas. Em 1964, já bem decepcionado com a política, com a esquerda e a politicagem, apoiou o Golpe Militar - dois meses depois já estava novamente decepcionado e enojado com aquilo tudo.

Muito abalado com a morte da filha (teve um filho antes, que morreu poucos meses depois do nascimento), ainda mantinha seus hábitos impecáveis e ordeiros, como o de acordar às 7 horas da manhã e dormir tarde, e o de arrumar as cestas de lixo com tal minúcia que "pareciam presentes de Natal", ou "embrulho de presente". Telefonava seguidamente aos amigos, para saber como estavam e dava lá seus palpites e conselhos.

Cético, bom mineiro, Drummon teve outro grande mérito: já reconhecido com o maior poeta brasileiro - aquele que fazia poesia simples, sem firulas, quase na linguagem do povo - recusou-se a se candidatar à Academia Brasileira de Letras (Moacir Scliar também disse isso nos anos 70, depois quis ser "imortal" e hoje participa dos glamourosos chás da "Casa de Machado de Assis").
E como hoje é domingo, é um bom dia para ler Drummond, na cama, entre as cobertas.

"E agora, José?


a festa acabou,


a luz apagou,


o povo sumiu,


a noite esfriou,


e agora, José?


e agora, você?


você que é sem nome,


que zomba dos outros,


você que faz versos,


que ama, protesta?


e agora, José?"

Salvador França às 6 da tarde

Domingo ventoso e frio, de um céu azul gremista, sem nenhuma nuvem, frente fria que chegou para - dizem os meteorologistas - ficar por mais uma semana. E ainda não estamos no inverno. Bom para comer bergamotas, almoçar na churrascaria do 35 CTG ou na Bambino, visitar o Jardim Botânico e, mais tarde, assistir música ao vivo (das 17 às 20 horas) no Bourbon Shopping. E tem também a Domingueira do CTG 35.
Ontem, no final da tarde e início da noite, a temperatura mostrava-se mais amena. Na avenida Salvador França ( hoje parte da Terceira Perimetral), esquina com a avenida Ipiranga, o movimento de veículos mostrava a cara de uma Porto Alegre que, nos últimos anos, viu aumentar enormemente a sua frota. Veja no vídeo (clique na seta para rodar) um minuto de movimento nesta avenida de ligação entre a Zona Sul e a Zona Norte e que, não faz muito tempo, era uma simples faixa de asfalto cercada de casinhas de madeira.
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Sábado, Junho 14, 2008

Festa Junina no Ararigbóia

Neste sábado de tarde aconteceu a tradicional Festa Junina no Parque Ararigbóia, evento promovido pela Associação Comunitária do Parque Ararigbóia, em colaboração com a Secretaria Municipal de Esportes, Recreação e Lazer. Centenas de pessoas passaram pelo local, que teve música e modinhas típicas, além de danças, pescarias, pinhão, pipocas e brincadeiras para as crianças.
O tempo, que iniciou nublado e frio, abriu à tarde, com um sol gostoso e uma temperatura bem mais amena.
Para ver rodar um minuto dessa festa clique na seta, embaixo, à esquerda, ou no centro do vídeo, dependendo do seu micro.
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Aos 21 anos, o drama de Ana Paula Arósio e um maluco chamado Charles Manson




No dia 3 de novembro de 1996 a modelo e atriz Ana Paula Arósio, então com 21 anos, viveu um drama: por ciúmes, seu namorado se matou com um tiro na cabeça, a poucos metros dela. Bem antes, em 8 de agosto de 1969, Charles Manson - que agora lançou um CD com músicas suas feitas na prisão, onde cumpre perpétua - matou a atriz Sharon Tate, mulher do diretor Roman Polanski, aquele de "O Bebê de Rosemary". Manson era um maluco de pedra, um fanático religioso. E mais: Albert Einstein, tido como um modelo para quase tudo, tinha lá suas falhas: teve inúmeras amantes, humilhava a mulher e deu uma filha para adoção. O outro, um rapaz, morreu louco em um sanatório na Suiça.


Leia isso tudo nas postagens de "2006" do Conselheiro X.

Coca-Cola, em seu início no Brasil


1943: o Brasil tinha pouco mais de 40 milhões de habitantes e Porto Alegre somava apenas 300 mil. O presidente do Brasil era Getúlio Vargas, a Segunda Guerra Mundial estava no seu auge - e, pela primeira vez, os Aliados impunham sérias derrotas às forças do Eixo.
O Jardim Botânico, coitadinho, ainda era chamado de Vila Russa, em razão das famílias de imigrantes eslavos que se estabeleceram aqui - e tinha muitas casas de madeira, muitas chácaras de agrião e de flores e ruas de terra batida que inundavam nos períodos de chuva.
Apenas um ano antes a Coca-Cola chegara com força ao Brasil, passando a anunciar pesadamente na mídia (não se empregava tal termo então), em especial na revista Seleções de Readers Digest, aquela de propaganda norte-americana, anti-comunista e que, hoje, está longe de ser o que foi nos anos cinquenta, sessenta e setenta, época em que chegava aos mais distantes rincões do País.

A Coca-Cola, até pouco tempo, era a marca mais valiosa do planeta. Hoje está em quarto lugar - o primeiríssimo é do Google, o que mostra uma radical mudança dos tempos.

Na reprodução acima, um anúncio da Coca publicado em uma das revistas Seleções do ano de 1943.
Clique na imagem para vê-la melhor, ampliada.

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Do Baú: eles, em 1972


Há 36 anos atrás, quando o colorido mal tinha surgido na tevê brasileira (e um aparelho a cores custava quase o preço de um bom carro usado) eles eram assim. Nesta foto - extraída da revista Manchete de dezembro de 1972, aparecem - bonitinhos e bem mais novinhos: "a atual Rainha da televisão", Regina Duarte (a "namoradinha do Brasil"), ao lado de José Augusto Branco, Vanderlei Cardoso e Miéle. A matéria se intitulava "Tevê, o Gosto Efêmero da Glória" e, a certas alturas, dizia: "O artista da tevê é como o jogador de futebol: tem a sua fase". Vanderlei Cardoso, por exemplo, viu seu sucesso ir pelo ralo, entrou em depressão, tentou o suicídio - e hoje, convertido, canta músicas evangélicas. Arquivo do Conselheiro X.

Parque Ararigbóia tem 700 alunos e atrai pessoas dos mais diferentes bairros de Porto Alegre

Na foto, a professora Loreti e o professor Luis Eduardo.
Embora não seja, territorialmente, parte do Jardim Botânico (oficialmente, é Petrópolis), o Parque Ararigbóia (homenagem ao um cacique que aliou-se aos portugueses para combater a invasão francesa no Rio de Janeiro) é, junto com a Escola Superior de Educação Física (ESEF), o maior centro de atividades esportivas e comunitárias do nosso bairro.

Aberto à comunidade, com um belo e bem conservado ginásio de esportes (inaugurado em setembro de 1995) e que abriga uma quadra poliesportiva, secretaria e uma sala de musculação, o local é frequentado por mais de 700 alunos, matriculados em diferentes modalidades - alongamento, biodança, dança, ginástica, ginástica olímpica, voleibol, yoga, musculação e bocha. O local também é palco de eventos comunitários - neste sábado acontece ali a tradicional festa junina, a partir das 15 horas.
Administrado pela Secretaria de Esportes da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, em parceria com a Associação Comunitária do Parque Ararigbóia, funciona das 7h50min (início da primeira aula) às 20h30min, de segundas às sextas-feiras. No entanto, o movimento diário vai até às 23 horas, na quadra que pode ser alugada por hora - nos finais de semana é muito disputada.

A coordenadora - ou, como ela prefere, a responsável - é a professora Loreti Rucatti, que está ali há oito anos. "Estamos abertos à comunidade, não só do bairro como de outros. Até gente de Viamão vem ter aulas conosco", informa ela.

O público é o mais variado, com predominância de adultos e de pessoas da terceira idade. "A procura é muito grande, e atualmente temos pouquíssimas vagas", acrescenta.

Isso é explicado também pelo valor irrisório que se paga pela inscrição e freqüência - apenas 20 reais por todo um semestre, com atividades duas vezes por semana. "As categorias infantis não pagam taxa alguma", informa a professora responsável.

Mesmo assim, não custa tentar: as inscrições são feitas todo dia 5 de cada mês (se cair em um final de semana, é transferido para o primeiro dia útil). Já a quadra esportiva, para quem gosta de futebol, vôlei ou basquete, custa 30 reais a hora - o agendamento deve ser feito na secretaria, em horário normal.

SETE PROFESSORES - A estrutura administrativa do Parque Ararigbóia - que todo mundo lembra mais por seu famoso e tradicional campo de futebol varzeano (conta com iluminação noturna) - é simples e enxuta: há um funcionário para serviços gerais, sete professores de educação física e mais quatro estagiários, da mesma área. A área construída do Parque gira em torno de 7 mil metros quadrados e, segundo a diretora - o que é confirmado pelo professor Luis Eduardo, de plantão na secretaria - não há maiores problemas de segurança. "Não tenho notícias de que tenham arrombado carros aqui na volta, ultimamente", afirma Loreti.

No próximo mês de julho - como faz todos os anos - o Ararigbóia entrará em recesso por cerca de 15 dias. Nesse período, porém, a quadra esportiva continuará em funcionamento.

SERVIÇO:
Parque Ararigbóia- rua Felizardo Furtado, esquina com a Saicã, limite entre Petrópólis e Jardim Botânico, próximo ao Condomínio Felizardo Furtado.

Telefone.: 3338-3304

Horário de funcionamento: das 8h às 22h30min - a quadra esportiva vai até mais tarde. De segundas às sextas-feiras. Aos sábados e domingos, somente funciona a quadra esportiva, a bocha e, claro, o tradicional campo varzeano.
TAXA DE INSCRIÇÃO PARA AS ATIVIDADES - R$ 20,00 por semestre
Atividades sistemáticas para 2008:
Alongamento - acima de 60 anos/misto - quartas e sextas - 9 horas
Alongamento - acima de 50 anos/misto - quartas e sextas - 10h15min
Alongamento - acima de 50 anos - quartas e sextas - 10 hs
Biodança - acima de 18 anos/misto - segundas - 14 horas
Dança - acima de 18 anos/misto - terças e quintas - 18 horas
Jogos adaptados - acima de 50 anos/misto - sextas - 15h30min
Ginástica - de 35 a 60 anos/misto - quartas e sextas - 7h45min
Ginástica - de 35 a 60 anos/feminino - terças e quintas - 14h15min
Ginástica - de 18 anos a 55/feminino - segundas e sextas - 19h30min
Voleibol - acima de 50 anos/feminino - terças e quintas - 15h30min
Voleibol - de 35 a 50 anos/feminino - terças e quintas - 17 hs
Yoga - acima de 18 anos/misto - quartas e sextas - 7h45min
Yoga - acima de 18 anos/misto - quartas e sextas - 8h45min
Yoga - acima de 18 anos/misto - quartas e sextas - 14h30min
Yoga - acima de 18 anos/misto - quartas e sextas - 16 hs
Musculação - acima de 40 anos/misto - quartas e sextas - 8h30min - 11h30min
Musculação - acima de 40 anos/misto - segundas e quartas - 14h30min - 17h30min
Musculação - acima de 40 anos/misto - terças e quintas - 8h30min/11h30min
Musculação - acima de 40 anos/misto - terças e quintas - 14h30min/17h30min
Musculação - acima de 40 anos/misto - terças e quintas - 17h30min/19h30min
Musculação - acima de 40 anos/misto - segundas e sextas - 17h30min/19h30min
Bocha - Livre - terças e quintas - 8h30min
Bocha - Livre - terças e quintas - 10 horas
Escolinhas Esportivas:
Futebol de salão - Pré-Mirim/masculino (96/97/98) - terças e quintas - 8h30min
Futebol de salão - Pré-Mirim/masculino (96/97/98) - terças e quintas - 14 horas
Ginástica Olímpica - Mirim/misto (96 a 2001) - terças e quintas - 8h30min
Voleibol- Mirim/misto (95/96/97) - segundas e quartas - 13h45min
Voleibol - Infantil/misto (93/94) - segundas e quartas - 15h30min
Voleibol - Infanto/masculino (90/91/92) - segundas e quartas - 17 horas

Em 1961, a propaganda era assim


Publicidade do aspirador de pó da Walita, extraída da revista O Cruzeiro, de maio de 1961. Como se pode ver - especialmente pelos trajes - os tempos mudaram, e muito. Em tempo: o presidente do Brasil era Jânio Quadros e o dos EUA, John Kennedy. Yuri Gagarin recém tinha subido ao "cosmos". E o Internacional se sagraria campeão gaúcho daquele ano. Arquivo do Conselheiro X. Clique na imagem para vê-la ampliada.

Quinta-feira, Junho 12, 2008

As estatísticas do Jardim Botânico

Na foto, a avenida Ipiranga, em momento especial

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, o Jardim Botânico contava (Censo do ano 2000), 11.494 habitantes, o que representava 0,84% da população do município. Destes, a maioria eram mulheres: 5.163 contra 6.331 homens, dos quais, no geral, 1,61% eram analfabetos.
Considerando a pequena área do bairro (2,03 kms quadrados, ou 0,43% da área de Porto Alegre), a densidade demográfica chegava a 5.662,07 habitantes por quilômetro quadrado. O JB integra a Região 16 do Orçamento Participativo.
Seis anos atrás tínhamos aqui 4.171 domicílios, com um rendimento médio dos responsáveis de 12,32 salários mínimos mensais – menor do que Petrópolis e superior ao do Partenon.
CIDADE RADIOCÊNTRICA – O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental, datado de 1999, divide o território de Porto Alegre em nove macrozonas. O Jardim Botânico faz parte da Macrozona 1, a chamada “Cidade Radiocêntrica”, englobando o território compreendido pelo centro histórico até a Terceira Perimetral.
Esta é considerada a zona mais bem estruturada do município, uma região mista, residencial, comercial, de prestação de serviços e até de pequenas indústrias, com proteção ao patrimônio cultural. Ou seja, pode-se fazer muitas coisas por aqui, mas sempre dentro de regras que não alterem o perfil do bairro, a chamada “miscigenação”, ou “mistura de atividades”.
A Cidade Radiocêntrica inicia junto ao Laçador e segue pelas avenidas D. Pedro II, Carlos Gomes, Senador Tarso Dutra, avenida Salvador França, Aparício Borges, seguindo por Teresópolis, avenida Campos Velho (faixa preta) e Icaraí.
Oficialmente, a Prefeitura Municipal estimula, nesta área, uma grande variedade de usos dos terrenos e atividades, como hospitais, shopping centers, universidades, parques, centros culturais, sempre com o objetivo de que a população local tenha como atender as suas necessidades sem fazer grandes deslocamentos. É o que a Secretaria de Planejamento chama de “Corredores de centralidade”. Já a região entre a Protásio Alves e o Porto Seco, por exemplo, é chamada de “Corredor da Produção”. Lá são estimuladas as atividades produtivas juntamente com as residenciais.
UMA DAS QUE MAIS CRESCEM – O Plano Diretor, que deverá ser modificado e adaptado em não muito tempo, permite que se construa, em certas partes do Botânico, edifícios com até 18 andares (altura de 52 metros máximos). É o caso das margens da Salvador França e de alguns trecho de esquina da Ipiranga. Porém, para se fazer uma construção desse porte é preciso dispor de um espaço amplo – ou quatro lotes de 11 metros.
Conforme o arquiteto Hermes Puricelli, da Secretaria do Planejamento Urbano, o Jardim Botânico “é uma das zonas que mais está crescendo na cidade, embora ainda não tenha explodido. É uma zona em crescente valorização e daqui a algum tempo vai ser difícil, por exemplo, sobreviveram as velhas casas de madeira que sempre existiram no Botânico. O setor imobiliário está de olho nesta região da cidade”.

São João no Araribóia

Não esqueçam de participar e levar seus filhos: neste sábado, a partir das 15 horas, tem festa junina de São João no Parque Ararigbóia, na rua Felizardo Furtado.

Chegamos aos Mil acessos!

Hoje, 12 de junho, Dia dos Namorados, chegamos à marca de 1.000 acessos - mais exatamente, 1002, até esta manhã. Muito obrigado pela preferência - e continuem nos acessando e, se possível, nos incluindo em seus Favoritos. Teremos novidades a cada dia, mesclando notícias e pessoas do bairro com curiosidades de interesse geral.

Quando surgiu o celular...


Para vocês, que têm vinte e poucos anos, essa época parece inimaginável - alto pré-histórico, talvez. Mas, dezessete anos atrás, telefone celular era uma grande novidade, e poucos tinham acesso a ele. Hoje são mais de 100 milhões de aparelhos - e até carroceiros o usam com a maior naturalidade. Garimpando os arquivos, o Conselheiro X. descobriu um exemplar da revista Veja de 8 de maio de 1991. O título era "O Mundo no Bolso", e noticiava a grande novidade que, pasmem, já tinha 3 mil usuários no Rio de Janeiro! - a telefonia celular, ou os "telefones portáteis". O sistema era caro e complicado, como se pode imaginar.
Vamos transcrever algumas partes dessa matéria "jurássica":

"A platéia não entendeu nada. Durante uma sessão do filme Três Solteirões e uma Pequena Dama, em cartaz no Cine Rio Sul, no shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, o toque abafado de um telefone ecoou numa das poltronas do cinema. Um dos espectadores, uma loira elegante, tirou um telefone da bolsa, atendeu a chamada e teve uma conversa rápida com um interlocutor. Era a socialite Aparecida Marinho, 38 anos, ex-mulher de Roberto Irineu Marinho, um dos herdeiros do império da Rede Globo. Aparecida levou ao cinema um telefone celular - um aparelho portátil que se comunica através de ondas de rádio - para conversar com sua filha, Maria Antonia, 13 anos, que não pode ir à matinê com a mãe. "Esse telefone é um estouro. Nunca perco o contato com os meus filhos, e, quando fico presa no trânsito, ganho tempo fazendo ligações", diz Aparecida.
"Os telefones celulares desembarcaram no Rio de Janeiro no final do ano passado e caíram no gosto de 3 000 assinantes na cidade - entre os quais empresários, políticos e colunáveis, que agora fazem ligações de dentro de carros, barcos, aviões, restaurantes ou à beira-mar. Facilitam bastante a vida de seus usuários - mas também fazem sucesso como símbolo de status da estação. (...)
"A vantagem mais óbvia dos telefones móveis - que chegaram aos Estados Unidos há sete anos e contam hoje com 5,3 milhões de assinantes - e que eles acabam com um castigo a que o usuário era submetido, o de ficar preso à mesa de trabalho ou em casa, para dar ou receber um telefonema. Agora, basta levar o telefone celular no bolso. "Ganhei liberdade", explica o executivo Richard Klien, vice-presidente da empresa de navegação Transroll, que comprou um telefone celular. Na semana passada, ele precisou fazer uma viagem a Brasília - e fechou um negócio milionário em pleno ar.

(...) "A grande desvantagem do sistema de telefonia celular no Rio de Janeiro são os preços salgados. Os assinantes têm que pagar uma série de taxas para entrar no sistema. De depósito para a Telerj, é preciso pagar 1167 131 cruzeiros. Depois de dois anos essa caução pode ser devolvida se o usuário desistir da linha. Para comprar um modelo de telefone celular, os preços variam de 250 000 cruzeiros a 600 000 cruzeiros por aparelho. O minuto de uma ligação comum custa menos de 6 cruzeiros. Apesar dos preços salgados, mais de vinte pessoas se tornam usuárias do sistema a cada dia."
(...)"O telefone móvel é um símbolo de modernidade que vem dar um grande charme ao Rio, diz o presidente da Telerj, Eduardo Cunha."

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Sujo, porém belo


Flagrante, na esquina das ruas Valparaíso com a Chile: dois cães, de tamanhos e cores bem diferentes, aproveitam o gostoso sol que fez esta manhã.
E na outra, a beleza do riacho que hoje é um esgoto a céu aberto: o arroio Dilúvio, em cena colhida no pontilhão à altura da rua Veríssimo Rosa.

Terça-feira, Junho 10, 2008

No chão é melhor...


Depois da fortíssima ventania desta madrugada de terça-feira, com ventos que chegaram a 90 km por hora, a manhã, na avenida Ipiranga, era só serenidade. Nesta foto, nas imediações da esquina com a Barão do Amazonas, dois passarinhos preferiram caminhar em vez de voar. Ao fundo, o arroio Dilúvio que, mesmo com a chuvarada dos últimos dias, não chegou a encher inteiramente.

Condomínio do IPE surgiu em 1971

São três andares, 218 apartamentos (máximo de 16 por andar) de dois, três e quatro dormitórios e seis lojas que estão fechadas. Localizado entre a avenida Ipiranga, a rua Alcebíades Caetano da Silva e a Chile, o Conjunto Residencial Emanuel Domingues foi inaugurado em 1971. Destinado inicialmente a funcionários públicos, era um projeto do Instituto de Pensionistas do Estado, IPE, que financiava os imóveis pelo esticado prazo de 15 ou 20 anos. Aos poucos, como é natural, passou a ser habitado por um público variado, mas sempre de classe média e, em sua maioria, idosos – no caso dos proprietários. “Já os que alugam são geralmente jovens”, informa Clari Tende, ex-síndica geral e moradora do condomínio há 19 anos.
Anterior ao Felizardo Furtado e ao da Corsan, o Emanuel Domingues não conta com elevadores e nem um sistema permanente de vigilância – que acontece somente à noite, aos finais de semana e nos feriados. Os furtos e roubos, porém, não chegam ainda a ser um problema, apesar da localização junto à avenida, garante a síndica.
A infra-estrutura do Residencial é bastante simples: algumas churrasqueiras e uma pequena pracinha para as crianças. Não existem elevadores. Estacionamento existe, mas não em quantidade suficiente.
Erguido em uma época em que o bairro era ainda uma espécie de vila formada por muitas casas de madeiras, terrenos baldios e antigos e pequenos prédios de alvenaria, o Emanuel Domingues (homenagem a um antigo morador do Jardim Botânico, dizem alguns) foi projetado originalmente para ir até a rua Valparaíso (por onde, em 1971, passava o Riacho Ipiranga), o que não aconteceu devido às invasões do local.

Segunda-feira, Junho 09, 2008

Anos Vinte


Publicidade, extraída da Revista da Semana, do ano de 1927. A Bayer já estava presente no Brasil, e seu produto mais vendido era "Cafiaspirina".

Domingo, Junho 08, 2008

Gisele Bünchen aos 14 aninhos...




Há treze, quase quatorze anos, Gisele Bünchen - hoje a top model número 1 do mundo e que tem uma fortuna estimada em mais de 200 milhões de dólares - era uma garotinha sonhadora que saía do Rio Grande do Sul com uma frustração: em um concurso de modelos, ficara em segundo lugar. Em outro, na Espanha, ficou em quarto lugar - e assinou seu primeiro contrato profissional internacional, no valor de 50 mil dólares...


Em matéria que parecia antever o futuro, a revista Veja, em sua edição de 28 de setembro de 1994 - fez uma pequena matéria com a menina, chamada de "estudante gaúcha", em sua coluna Gente.


Observe o que diz a revista, com o título "Na Trilha de Cindy Crawford": "Quando embarcou para a Espanha, no início do mês, a estudante gaúcha Gisele Bundchen (grafia errada!), 14 anos, queria vingança - e conseguiu. Dias antes, teve de se conformar com o segundo lugar na fase nacional do concurso de modelos Look of the Year. Na finalíssima em Ibiza, entretanto, a vice-campeã brasileira deu o troco: não só beliscou o quarto lugar do concurso, disputado por 72 modelos de quarenta países, como assinou um contrato com a Elite Internacional no valor de 50 mil dólares. "Ainda não me dei conta de que tudo isso é real", comenta, no melhor estilo miss. Não só é real como já aconteceu antes: há dez anos Cindy Crawford também saltou do mesmo quarto lugar para o estrelato definitivo."

As saudades da professora Nídia

Quadra esportiva da escola


Dona Nídia Ricciardi de Castilhos foi professora e diretora (sete anos) da escola Otávio de Souza, época em que também residia no bairro. Mais de meio século depois, ela lembra do Jardim Botânico (mora hoje na Barão) como uma ilha de tranquilidade e do Otávio de Souza como um colégio de pais interessados e alunos comportados, muitos dos quais a encontram na rua nos dias de hoje: “Eles ainda me cumprimentam e perguntam como estou”, diz.
Natural do Alegrete, na Fronteira, 77 anos de idade, ela começou a dar aulas no antigo Otávio de Souza no distante ano de 1954 – ou seja, 52 anos atrás. Nessa época, recém casada, morava na rua Surupá, “em uma casa de alvenaria, alugada da família Scherer, que tinha muitas casas aqui.” O Otávio só ia até a quinta-série, era ao lado da ESEF e todos, segundo ela, “eram todos do Botânico e todos muito bonzinhos”.
A vida era simples, então, todos se conheciam e aos domingos muitas famílias faziam piqueniques no recém-inaugurado Jardim Botânico. A avenida Salvador França – que ia somente até a rua Felizardo – já era uma avenida movimentada, garante, “muito larga, de terra batida, com muitos ônibus passando”. A Vila dos Bancários já existia, a maioria das residências do bairro eram de madeira e o armazém do Antonio Mocelin, no final da linha do ônibus, era o centro de tudo, uma espécie de supermercado da época.
“Depois veio o seu Alécio, na esquina com a Barão do Amazonas. “Lembro que havia um açougue na esquina da Valparaíso com a Salvador França e um mercado do outro lado, de uns alemães”, recorda. “O prédio que está na esquina da Salvador com a Surupá também já existia, acho que foi o primeiro prédio daqui. Esses dias eu voltei na rua Surupá, não reconheci e perguntei a uma pessoa que rua era aquela. Sabe o que ela respondeu: é a rua em que a senhora morou!... Sei que está diferente, muito bonita”.
Para matar as saudades desse tempo, dona Nídia e as antigas professoras e amigas do colégio Otávio de Souza reúnem-se uma vez por mês. “Tomamos chá e falamos daquela época”, conta ela.

Sábado, Junho 07, 2008

Ponte poética


Imagem colhida hoje, sábado, do pontilhão sobre o arroio Dilúvio, atravessando a avenida Ipiranga, e que vai dar na rua Veríssimo Rosa, via que atravessa o Jardim Botânico e se prolonga até o bairro Partenon.
Apesar do belo sol, pela manhã, o dia acabou nublado e chuvoso, exatamente como previam os boletins meteorológicos.

Ruas Roque Gonzalez e Afonso Rodrigues: a homenagem aos primeiros mártires do RGS










Veja aqui o porquê da sua rua se chamar assim (continuação):

RUA 8 DE JULHO - (a rua do fim da linha da lotação Santana e que segue do Shopping Bourbon até a Salvador França).
Não se sabe exatamente o porquê de tal nome (nem mesmo a Câmara Municipal consegue informar). De qualquer modo, o dia 8 de julho é o dia do padeiro, o dia de São Nunca (quando podem acontecer coisas impossíveis) e também o Dia da Ciência.
A data marca o nascimento da atriz Angélica Houston (foto ao alto), em 1951, e do ator Procópio Ferreira, em 1898.

RUA ROQUE GONZALEZ ( a do colégio Otávio de Souza) - Gonzalez foi declarado santo pelo Papa João Paulo II, em 1988, durante sua visita ao Paraguai. Roque, e seu companheiro Afonso Rodrigues e João de Castilhos. também declarados santos, (gravura) foram mortos pelos índios guaranis em 15 de novembro de 1628. Roque tinha então 52 anos. Jesuítas, os três catequisaram os índios e fundaram várias reduções no Paraguai, Argentina e Brasil, mas acabaram atraindo a ira dos nativos.
Segundo se sabe, Roque era filho de uma família importante de Assunção, e seus companheiros Afonso Rodrigues (outro nome de rua do Jardim Botânico) e João de Castilho vieram da Espanha. Roque, conta-se, morreu com uma pancada de machado de pedra na cabeça. Os corpos dele e de Afonso foram queimados pelos índios. Até hoje são considerados os primeiros evangelizadores do Rio Grande do Sul.

Fundação Estadual de Saúde tem mais de 400 funcionários no seu campus da Ipiranga




Difícil imaginar que aqui trabalhem 420 funcionários, em dois turnos de trabalho, produzindo medicamentos para toda a rede pública de saúde do Estado – analgésicos, anti-hipertensivos, diuréticos e até morfina. Medicamentos estes direcionados ao Sistema Único de Saúde, SUS, das prefeituras municipais e da Secretaria Estadual da Saúde, comercializados sempre a preços mais baratos do que os cobrados pelos laboratórios comerciais.
Localizado na avenida Ipiranga, entre o Bourbon e a Terceira Perimetral, no Jardim Botânico, o complexo da Fundação Estadual de Pesquisa e Produção em Saúde, FEPPS, é um campus não só de fabricação e de pesquisa nessa área como presta serviços ao cidadão comum que, por exemplo, precisa realizar exames para detectar doenças como a tuberculose, o mal de Chagas, dengue ou HIV, entre outros, todos mediante prévia requisição das autoridades médicas. Também está apto a fazer exames de paterminade
Instalado no Botânico há muitos anos, com prédios sendo ampliados e reformados, o campus do FEPPS abriga o Laboratório Farmacêutico e o Laboratório Central do Estado, bem como o Centro de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da área da saúde. Apenas três outros setores da Fundação – o Hemocentro, o Sanatório Partenon e o Informção Tecnológica – é que não se localizam aqui. O orçamento da FEPPS deste ano é de 15 milhões de reais (não contando a folha de pagamento), com um total de cerca de 600 funcionários trabalhando em todos esses locais.
TUBERCULOSE – O grupo de pesquisadores e cientistas que trabalha na avenida Ipiranga compreende cerca de 35 profissionais com formação superior (a maioria com doutorado). Eles são o que melhor há nessa área, tendo desenvolvido, por exemplo, um kit para diagnóstico da tuberculose considerado inovador e completo até por colegas de grandes centros como Rio e São Paulo. “Na área de biologia molecular somos líderes nacionais, e felizmente não temos problemas de defasagem tecnológica. Também estamos completamente informatizados”, informa Alberto Nicolella, pesquisador e médico veterinário que trabalha há 12 anos na Fundação.
Os medicamentos produzidos pelo Lafergs – Laboratório Farmacêutico do Rio Grande do Sul - saem daqui com a marca Lafergs estampada no invólucro e são distribuídos, potencialmente, para todos os municípios gaúchos através da Divisão de Assistência Farmacêutica

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Do Baú: o "cafona" que agora é filme


Ele está bem vivo e agora até virou filme, pelas mãos da mulher de Ciro Gomes, a Patrícia Pilar. Célebre por suas canções bregas - a mais conhecida é "Paixão de um Homem" - Waldik Soriano vendeu babilônias de disco no início dos anos 70, quando até chegou a participar de filmes.

Esta foto foi reproduzida da revista Manchete (que, infelizmente, não existe mais, e era uma boa revista apesar de todo mundo falar mal dela) de dezembro de 1972. Waldik tinha então 39 aninhos. Vejam a figuraça, hoje um "brega-cult". Só faltou o chapéu. O título da matéria era "Waldik Soriano, um cafona no cinema". E hoje?

No tempo dos "cabungueiros", da Chácara das Camélias e da primeira "montadora de veículos"

Mauro Ustra Silva, 59 anos, estofador e chapeador, dono de uma pequena oficina na rua Guilherme Alves, veio para o Jardim Botânico com apenas um ano de idade e viveu quase toda a sua vida aqui.
Um dos moradores da "velha guarda", ele lembra do bairro quando tinha um ar quase rural, com muito verde, muito chão de terra batida, moradores que se conheciam e se cumprimentavam e inúmeras casinhas de madeira habitadas por humildes funcionários públicos e chacareiros, em sua maioria. "Naquela tempo, lá pelo início dos anos sessenta, isso aqui era mais conhecido como a Vila dos Bravos, por causa de uma família muito conhecida e esquentada", recorda. Boa parte deles ainda reside por aqui.
A realidade daqueles tempos era bem diferente da de hoje, logicamente. O bairro, batizado oficialmente de Jardim Botânico (1959), ainda era chamado de Vila São Luiz e não havia asfaltamento em nenhuma rua - nem mesmo na Barão do Amazonas ou na Salvador França, onde hoje passa a Terceira Perimetral. "A Salvador era uma estrada que chão. Quando chovia, virava um barral e muitos automóveis atolavam ali", afirma. Já a Barão do Amazonas - hoje a principal via do JB - contava com um pequeno comércio, com destaque para o armazém do Caboclo, o mais bem sortido. Também existia o armazém da dona Versa, na rua Valparaíso, em uma casa de alvenaria que ainda existe e ainda é ponto comercial. Outros estabelecimentos daquele tempo: o bar e armazém do seu Antonio Mocelin, onde hoje está o centro comercial da rua Felizardo. "Também lembro do bar e armazém do seu Fraga, que era gremista fanático. As crianças, quando o Grêmio perdia, costumavam pintar a fachada de vermelho, deixando o velho enfurecido. Mas quando o Grêmio ganhava ele ficava que era um doce".
Outra informação interessante: a fábrica de carroças do seu Lúcio, uma pequena e artesanal indústria que fabricava não somente carroças como ou demais utensílios para os carroceiros, que então eram numerosos no bairro. Ela estava localizada na Guilherme Alves, nas proximidades da atual paróquia São Luiz, que então não existia, e "foi a montadora de veículos do nosso bairro". Mais distante, também na Guilherme, no alto, havia o Torrão Gaúcho, uma fábrica de rapaduras na qual Mauro chegou a trabalhar quando criança. "O dono era o seu Guimarães".
CHACARA DAS CAMÉLIAS - Por essa época o bairro se notabilizava por ser um grande produtor de agrião e também de flores, plantados em pequenas chácaras e transportados para o Mercado Público em carroças e charretes.
No ramo de flores, um dos mais famosos exibia um nome poético: era a Chácara das Camélias, localizada no alto da rua Guilherme Alves. "Eles plantavam flores, que serviam para fazer coroas de defuntos", esclarece Mauro. A rua Guilherme Alves, naquele tempo, não estava aberta e contava unicamente com uma estreita ligação com a avenida Protásio Alves, uma picada por onde não transitavam carros e sim carroças. Onde hoje está o Condomínio Residencial Felizardo Furtado havia uma chácara de agrião - também vendido no Mercado Público. "Outra chácara ficava perto, onde hoje estão sendo construídos os dois grandes edifícios da Rossi. E perto da praça Nações Unidas tinha a chácara da família Pieretti".
O lazer, naquela época, era pouco e simples: reuniões dançantes, quermesses, jogos de futebol, bailes. Mauro recorda do clube Universal - que não mais existe - e seus dois campinhos de terra, situados onde hoje está o shopping Bourbon. Outro time era o Esporte Recretivo Americano, presidido por seu Murilo. Porém já existia o campo do Ararigbóia, palco de torneios memoráveis que, não raro, acabavam em pancadaria.
Nesse tempo o bairro não tinha a mínima infra-estrutura, incluindo aí o esgoto. "O recolhimento do esgoto era feito pelos cabungueiros, ou cubeiros, que passavam e recolhiam os cubos com os dejetos". Por sua vez, os alagamentos eram constantes e, à noite, a iluminação pública deixava muito a desejar. "Mas não havia assaltos naquela época, até porque o pessoal respeitavam a polícia", afirma Mauro Ustra.
"Mas o que eu tenho mais saudades mesmo é dos banhos e pescarias no arroio Dilúvio, que era limpinho e onde a gente costumava pescar bagres, tão limpo que dava para ver o fundo. Perto da PUC havia o "Banheiro dos padres", a nossa praia. O riacho, naquele tempo, não era canalizado e a Ipiranga nem estava pronta.", rememora o estofador.
* Para saber mais sobre o bairro - a história da ESEF, da Fundação Zoobotânica, do DEPPS, do Bourbon etc - clique em postagens do mês de "Abril". Para ler sobre crimes, tragédias, calamidades e histórias de pessoas célebres clique em "2006".

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Os significados dos nomes das nossas ruas


O Jardim Botânico tem ruas com nomes sonoros e expressivos - Chile, Buenos Aires, Valparaíso, Itaboraí, Barão do Amazonas etc. Veja abaixo o significado de algumas delas, onde muitos de vocês residem ou trabalham.
A rua 18 de Novembro, aquela ao lado do Bourbon e onde está a churrascaria do 35 CTG, bem que poderia, por exemplo, homenagear Jimi Hendrix, o músico genial, falecido nesse dia, em 1970. Mas homenageia mesmo é a rendição dos inimigos na Guerra do Paraguai.

BARÃO DO AMAZONAS – Rua que atravessa os bairros Petrópolis e Partenon. Começa na Protásio e acaba na Paulino Azurenha, com mais de 3 km de extensão. Na Planta Municipal de 1916, convergiam para a atual Bento Gonçalves duas pequenas vias, que eram então novas e de pequena extensão: a própria Barão, vinda dos lados do Arroio Dilúvio, e a avenida Esmeralda, que subia até a meia encosta do morro de Santo Antonio.
Até a década de 30 essa duplicidade de nomes continuou. Com a unificação, pela lei de 6.7.1936, mudou-se a denominação de avenida Esmeralda para Barão do Amazonas. Com o desenvolvimento de Petrópolis, esta rua prolongou-se até a Protásio Alves e, no sentido oposto, do Partenon, subiu o morro e superou a crista, descendo no rumo da Glória, até se encontrar com a Paulino Azurenha.
O nome é uma homenagem ao Almirante Francisco Manoel Barroso, o Barão do Amazonas.

GUILHERME ALVES - Atravessa os bairros Jardim Botânico e Partenon. Começa na Ferreira Viana, passa pela Ipiranga e acaba na rua Mario de Artagão, Partenon. Aparece na planta de 1916 com o nome de rua Progresso. Pela lei número 2, de 6.7.1936, ganhou a denominação atual.
Guilherme Alves, para quem não sabe (e poucos sabem), foi o primeiro construtor dos grandes e modernos trapiches na rua 7 de Setembro, no centro de Porto Alegre, aqueles mesmos armazéns que mais tarde passaram a ser propriedade da Cia Costeira. Graças à sua iniciativa, foram construídas várias edificações residenciais no Partenon, precisamente na atual rua Guilherme Alves, que ele organizou e construiu.
O progresso da rua foi vindo aos poucos. Na planta de 1928, era apenas um logradouro do Partenon, sem ter ainda ultrapassado o Arroio. Na planta de 1949 já se achava plenamente instalada no Jardim Botânico.

FELIZARDO - Jorge Godofredo Felizardo nasceu em 9.11.1901, em Porto Alegre, e faleceu em primeiro de fevereiro de 1966. Foi engenheiro agrônomo, professor catedrático de Zoologia da Faculdade de Agronomia da URGS e do curso de História Natural da Faculdade de Filosofia da PUC, além de allto funcionário da Secretaria de Agricultura. Foi ainda genealogista e membro do Instituto Histórico e Geográfico do RS.

18 DE SETEMBRO – A data marca a rendição do Paraguai, na Guerra do Paraguai, quando forças paraguaias, cercadas pelo exército brasileiro, em Uruguaiana, se rendem sem condições. Dezenove anos depois, para comemorar o fato, foram libertados todos os escravos existentes na cidade. Conforme os registros da História, no dia 18 de Setembro aconteceu também, em diferentes anos, os seguintes feitos: o brasileiro Amyr Klink completa, em 1984, a travessia do oceano Atlântico em um caíque, sua primeira de muitas proezas; o governo militar senciona a Lei de Segurança Nacional, em 1969, prevendo inclusive pena de morte, prisão perpétua e banimento; em 1946, a teceira constituinte brasileira promulga a Constituição Brasileira.
É também o Dia dos Símbolos Nacionais, Dia do Perdão.
Santos do dia: José de Copertino, Metódio de Olimpo, Ricarda.
Curiosidades: em 18 de setembro de 1950 entrou no ar a TV Tupi, de São Paulo, dando início à Era da TV no Brasil. Só havia tevê então em quatro países: EUA, Inglaterra, Holanda e França.
Em 18 de novembro morre Jimi Hendrix, em 1970. Nasce Greta Garbo, em 1905. É também o dia da fundação da Central Inteligency Agency, CIA, em 1947, e da fundação do jornal New York Times, em 1851. O Chile comemora sua Independência neste dia, no ano de 1818.

Quarta-feira, Junho 04, 2008

Condomínio da CORSAN surgiu em 1974


Mais antigo do que o conjunto Felizardo Furtado, o Condomínio Conjunto Habitacional dos Servidores da CORSAN foi inaugurado em maio de 1974. São três prédios, totalizando 319 apartamentos de um e dois dormitórios, além de um salão de festas, uma churrasqueira, uma quadra de esportes, uma pracinha e uma construção destinada ao setor administrativo.

Entre as ruas Itaboraí e a Felizardo, vizinhando com a Praça Nações Unidas, com oito andares cada, as três construções chamam a atenção de quem passa. Boa parte dos atuais moradores – cerca de 1200 pessoas - estão aqui desde os primeiros anos, como é o caso da síndica-geral (não existem síndicos por prédios), Inajara Silveira.

“Vim para cá em julho de 1974. Lembro que foi feita uma cooperativa dos funcionários da Corsan, que começaram a pagar as prestações dois anos antes, quando do lançamento. Eu comprei o meu de um deles”, recorda ela. “Eles vendiam na planta”. A construtora responsável era a Gus Livonius, a mesma que fez o condomínio da Felizardo e que hoje, ao que tudo indica, não está mais operando no mercado. Quanto aos terrenos, pertenciam então ao senhor Pedro Pieretti – tradicional família do bairro.
ESTUDANTES – Em estilo antigo, cercado, sólido, com janelas de madeira, pintadas de verde, o Condomínio é formado, basicamente, por proprietários dos imóveis – cerca de 60 ou 70% dos moradores. Estes, em sua maioria, são pessoas de certa idade, “gente que chegou e foi envelhecendo aqui”, informa Inajara, moradora do Jardim Botânico há 40 anos. Ela recorda que por essa época, metade dos anos setenta, onde hoje está o Supermercado Gecepel havia o Supermercado Dalmás. Na volta, dos comerciantes, lembra do seu Alécio, do seu Camilo, do seu filho Zeca, da Padaria da Esquina com a Barão, da Farmácia Ideal, da Léa”.
Habitação tipicamente de classe média, o Condomínio tem alterado o seu perfil nos últimos anos, revela Inajara Silveira.

“Noto que temos muitos estudantes, muitos deles vindos do interior, que alugam os apartamentos entre três ou quatro. Há também gente do interior que compra para os filhos”. Mesmo assim, não há maiores problemas de violência ou confusão entre os moradores, grande parte dos quais se conhece e se cumprimenta. Algumas câmeras de vigilância estão instaladas em pontos estratégicos (mas não nos elevadores) e foi contratada uma empresa especializada nisso – a Dielo.
Outra antiga moradora é dona Vírginia Odiva dos Santos, secretária da administração que está aqui desde os anos oitenta. Segundo ela, a procura pelos apartamentos do conjunto é muito superior à oferta, tanto que, hoje, praticamente não resta nenhum que não esteja ocupado. “Com a chegada do Bourbon, valorizou muito”. A valorização só não é maior pelo fato de só existirem 85 boxes de estacionamento de veículos, o que obriga muitos moradores a deixarem seus carros em estacionamentos pagos situados nas imediações.

Terça-feira, Junho 03, 2008

Avenida Ipiranga, com a Barão: trânsito

Cena da Avenida Ipiranga com a Barão do Amazonas, sobre a ponte do Arroio Dilúvio, ligação entre o Botânico e o Partenon, hoje, terça-feira, às 17h10min.
O tempo fechado, com uma intermitente garoa fina, e a anunciada chegada de um "ciclone extra-tropical" para as próximas horas, deu uma cara enfarruscada ao dia, de muita pouca luz. Mesmo assim, uma nesga de sol acrescentou um toque poético ao fétido riacho.
Neste vídeo, porém, o que se nota é o grande número de veículos (e nem era hora do rush) e o movimento de uma esquina que, não faz muito, não era isso tudo em matéria de trânsito e nem em comércio. Mas o aumento no número de automóveis em Porto Alegre - fenômeno notado especialmente no último ano - tem transformado o Jardim Botânico em uma importante via de passagem da cidade. E os empresários já sabem disso, a ver-se pelos novos empreendimentos que surgem a cada semana.
video

Gripe Espanhola, 1918, o vírus contagioso que matou milhares de pessoas em Porto Alegre

Capa de uma revista de 1918.
Mais abaixo, fotos do cotidiano da população em um tempo em que as doenças epidêmicas matavam milhões de pessoas em todo o mundo e a saúde pública brasileira e gaúcha era simplesmente o caos.
Leia esta pesquisa inédita publicada pelo Conselheiro X., com base nos jornais da época. Mais matérias sobre calamidades, crimes e tragédias célebres você encontra clicando em postagens de "2006": a história da Apolo 13, o caso Paulinho Paikan, a Talidomida, desastres aéreos e a vida de pessoas como Frank Sinatra e Isadora Duncan
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Outubro de 1918
Chegou a “Hespanhola”

Pesquisa e texto de Vitor Minas

Nunca se viu nada igual: a rua da Praia vazia, as casas comerciais fechadas, os bares e os cafés desertos, os bondes elétricos paralisados, os colégios sem alunos ou professores e a entrega de correspondência suspensa. O desabastecimento atingia toda a cidade – faltavam remédios, leite, lenha, gasolina e gêneros alimentícios e tudo encarecia do dia para a noite. Cortejos fúnebres se encontravam nas esquinas; nos cemitérios detentos condenados substituíam os coveiros que morriam em serviço. Mesmo assim, os caixões disponíveis eram insuficientes para tantos óbitos e centenas de pessoas eram sumariamente enterradas em valas coletivas, enquanto dezenas de corpos amontoavam-se à espera de sepultamento. A cada edição os jornais publicavam a relação oficial dos mortos. Havia cenas de histeria pública, os casos de suicídio aumentavam e ninguém se sentia seguro em parte alguma. Quem podia abandonava a cidade em busca de ares mais saudáveis. Nas calçadas os raros transeuntes seguiam a passos apressados. Dos sinos da igreja matriz partiam dobres tristes anunciando novas vítimas da “influenza espanhola”, a maior pandemia da história da Humanidade, com um bilhão de infectados, a metade da população da época, e cerca de 20 milhões de mortos. Somente no Brasil foram mais de 300 mil óbitos, dos quais18 mil no Rio de Janeiro.
A Grande Guerra Mundial iniciada quatro anos antes estava para terminar. Faminto e debilitado, o Velho Continente transformara-se em um território propício a toda espécie de doenças. Na América, no Brasil arcaico e rural da Velha República, grassavam a tuberculose, a varíola, a varicela, o tifo, a escarlatina, a malária, a sífilis, a lepra. Em Porto Alegre, de cada 1.000 bebês mais de 300 morriam antes de completar 2 anos.
LEITE FALSIFICADO - A capital gaúcha , com 170 mil habitantes, era então um amontoado de casas velhas e vielas estreitas e escuras. A água municipal não recebia qualquer tratamento e, nos dias de chuva, as torneiras despejavam uma desagradável mistura da cor do barro, embora a maioria da população se valesse do serviços dos aguadeiros - ou “pipeiros”. A rede de esgoto servia tão somente os bairros nobres – Independência, Duque de Caxias, parte do Menino Deus - o recolhimento de lixo não seguia nenhuma diretriz rigorosa e as fétidas “casinhas” externas desempenhavam o papel de vasos sanitários. Comerciantes inescrupulosos vendiam alimentos falsificados ou deteriorados: carne velha, pão feito de fava e milho, pimenta do reino misturada a pó de sapato, leite aguado e manteiga rançosa. Não bastasse, vivia-se uma aguda crise econômica, com carestia, endividamento, inflação, greves operárias em São Paulo e insatisfação generalizada.
A “influenza” chegaria ao País em meados de setembro a bordo dos navios que vinham da Europa. Das capitais litorâneas ou portuárias – Belém, São Luís, Fortaleza, Recife, Salvador, Rio - rapidamente estendeu-se para os quatro cantos do território nacional. Chegou a pontos remotos da “hinterland” brasileira, não poupando cidades, vilas, de sul a norte, matando e dizimando tribos inteiras da região amazônica. Com quase 1 milhão de habitantes, clima insalubre e alta densidade demográfica, a Capital da República transformou-se em um vasto hospital. Centenas de pessoas morreram diariamente entre outubro e novembro e 70% da população caiu de cama, acometida da estranha moléstia cuja origem, afinal, ninguém precisava. Em São Paulo foram 350 mil infectados – 65% da população – e 5100 mortos oficialmente contabilizados. Da virulenta peste sabia-se apenas que era diferente de tudo o que até então se vira e que provavelmente se originasse da Espanha, convencionando-se então chamá-la de “gripe” ou “influenza hespanhola”, embora nenhuma nação - muito menos a própria Espanha (que a cognominou “febre russa”), assumisse a paternidade. Na Rússia foi denominada de “febre siberiana”, na Sibéria de “febre chinesa” e na França de “catarro hespanhol”. Fez 5 milhões de vítimas fatais na Índia e 450 mil nos Estados Unidos. Espalhando-se rapidamente pelos quatro cantos do Mundo, matou os primeiros brasileiros na costa da África, em setembro de 1917. Do efetivo de 2 mil militares da Divisão naval – dois navios de patrulha e uma missão médica - que, tardiamente, iriam participar da Grande Guerra(o conflito acabou um dia depois da chegada ao front), 90% foram atingidos pela doença e mais de cem morreram nas proximidades de Dakar, no Senegal.
Por mar a moléstia aportou na costa brasileira e logo fez morada nas principais cidades litorâneas. No início de outubro a Capital Federal sucumbiria à doença.
Em seu livro de memórias “Chão de Ferro”, o médico e escritor Pedro Nava descreve o que foram aqueles dias na cidade do Rio de Janeiro.
“Além da fome, da falta de remédio, de médicos, de tudo, as folhas noticiavam o número nunca visto de doentes e cifras pavorosas de obituário. As funerárias não davam vazão – havia falta de caixões. Até de madeira para fabricá-las(...) Era muito defunto para os poucos coveiros do trivial – assim mesmo desfalcados pela doença. Foram contratados amadores a preços vantajosos. Depois vieram os detentos. (...) Era de ver as ruas vazias cortadas de raro em raro pelos rabecões e caminhões de cadáveres(...) Um ou outro passante andando como se estivesse fugindo e trazendo no rosto a expressão das figuras do quadro de Eduard Munch: Angst. Isso mesmo, angústia: faces de terror, crispações de pânico, vultos de luto correndo, pirando, dando o fora e, no fundo, um céu vangogue sangue ocre.”
ELA CHEGOU A BORDO DOS NAVIOS - Oficialmente a espanhola chegou ao Rio Grande do Sul no dia 9 de outubro, uma quarta-feira, a bordo do navio Itajubá, vindo do Rio de Janeiro: 38 de seus tripulantes apresentavam os sintomas da febre. Ao atracar em Rio Grande, seu comandante comunicou o fato às autoridades portuárias, descrevendo, sucintamente, uma febre de “caráter benigno”. Por sua vez as autoridades sanitárias gaúchas limitaram-se a examinar os tripulantes, para isolá-los em seguida. O navio foi desinfetado e – como de praxe - o fato comunicado ao Palácio Piratini.
Três dias depois o navio Itaquera – que, devido à doença, havia sido impedido de atracar em portos do Paraná e Santa Catarina – chegou a Rio Grande, transferindo-se seus 32 doentes para o lazareto da cidade. Cumpridas as formalidades sanitárias, o vapor prosseguiu viagem pela Lagoa dos Patos, chegando a Porto Alegre a 14 de outubro. Dois dias depois, com outros 7 doentes confirmados, atracava no cais da Capital o navio de cabotagem Mercedes, do Lloyd Brasileiro, procedente de Rio Grande. Não havia nenhum médico a bordo e somente 48 depois da chegada seus tripulantes seriam postos em isolamento. No dia 17 finalmente atracou na Capital o Itajubá, trazendo consigo os tripulantes que haviam sido submetidos a uma curta quarentena em Rio Grande.
No dia 18, por fim, surgiram notícias de alguns casos da estranha gripe, com três registros em pontos diferentes; um funcionário da higiene Pública e mais dois homens pediram espontaneamente para serem isolados. Uma moça também compareceu à Diretoria de Higiene do Estado apresentando os mesmos sintomas dos demais: calafrios em todo o corpo; prostração intensa; febre que chegava a 40 graus; dores musculares, dores de cabeça e na barriga, nos olhos, nos ombros, nas costas, nos rins e nas pernas; catarro abundante e muita tosse, além de sensibilidade extrema à luz, náuseas, vômitos, calor no rosto, vertigens e lágrimas. A tais sintomas acrescentava-se uma profunda depressão psíquica e, muitas vezes, sensíveis alterações cardíacas ou respiratórias que levavam à morte.
Nos dias 20 e 21 seriam notificados mais 12 casos suspeitos, todos, ressaltavam as autoridades gaúchas, “benignos”. Outros quatro caixeiros viajantes recém chegados à cidade também apresentavam os mesmos sintomas. No dia 23 somavam 21 pessoas recolhidas ao isolamento. Em outra porta de entrada do Estado, na mesma data, comunicava-se o fato extraordinário às autoridades da Capital: à exceção de um telegrafista, todos os funcionário da estação de trens de Marcelino Ramos, na divisa com Santa Catarina, haviam caído vítimas da “influenza”. Em poucos dias, no Hospital da Brigada, na Capital, baixaram, vítimas da febre, mais de 30 praças. Outros 130 soldados foram colocados em isolamento compulsório. Depois de percorrer mundo, a gripe espanhola era também gaúcha.
A “IMUNDICIE” DA SANTA CASA- Em 1918 o intendente José Montaury, do Partido Republicano Riograndense, comandava a municipalidade. Espécie de títere do presidente do Estado, o caudilho Antonio Augusto Borges de Medeiros, Montaury, um fluminense nascido em Niterói, assumiu o cargo em 1897 e exerceu-o por longos 27 anos, período no qual não faltaram os mais variados surtos epidêmicos. A última fora a de varicela, em 1916.
Ainda que uma das mais populosas cidades brasileiras a Capital do Rio Grande do Sul resumia-se então ao centro e alguns bairros de difícil acesso. Os carros de praça “motorizados” competiam com outros movidos a parelhas de cavalos e aos bondes elétricos. Via-se as comédias mudas de Carlitos e no final da tarde fazia-se o “footing” na rua da Praia, com homens de chapéu e bengala e mulheres de grandes e pesados vestidos. A Confeitaria Rocco, na Riachuelo, o Café Colombo, na Andradas, o Chalé da Praça XV, a Livraria do Globo, os cine-teatros Guarani – o mais “luxuoso” – e o popular Apolo, o Petit Casino, o Clube do Comércio, o Germania, o Caixeiral, o Clube dos Caçadores(na verdade, um cabaré) e o Hipódromo do Moinhos de Vento incluíam-se entre os pontos de referência da sociedade mundana da época – industriais, comerciantes, funcionários públicos, advogados, jornalistas, poetas, boêmios e desocupados em melhor situação financeira. Os principais jornais - Correio do Povo, A Federação, A Gazeta do Povo e O Independente, recebiam, via cabo submarino, os acontecimentos do restante do mundo que os leitores liam com dias de atraso. As revistas Kodak e “Máscara” – de entretenimento, cultura e variedades - douravam a vida social e cultural da capital e das principais cidades gaúchas: Pelotas, Rio Grande, Bagé, Santa Maria. Havia futebol – ou “matchs” - aos domingos e pescarias e esportes náuticos no rio Guaíba, cujas águas, limpas e calmas, espraiavam-se até a Cidade Baixa. As noites eram previsivelmente calmas e escuras – a iluminação elétrica ainda convivia com os velhos lampiões dos postes. Comandadas pelo doutor Mário Totta, as famílias mais chiques veraneavam no “arrabalde” da Tristeza e a praia da Pedra Redonda, um dos cartões postais da cidade, servia de cenário para concorridas festas e saraus onde não faltavam intelectuais e escritores como Augusto Meyer, Olyntho Sanmartin, Teodomiro Tostes e afetados poetas parnasianos. No centro, à noite, pontificavam os discretos “rendez-vous” e cabarés mais caros com as necessárias mulheres francesas e polacas. Quase tanto quanto a tuberculose – a penicilina surgiria somente dali a 10 anos - a sífilis impunha cuidados e cobrava seu preço aos moços desprevenidos. A cidade dispunha de seis precários hospitais e quatro médicos voltados ao atendimento público em igual número de postos de saúde. Por seu lado, o Departamento de Higiene, com 56 funcionários em todo o Estado e duas ambulâncias e seis carroças na Capital, pouco tinha a oferecer. Os médicos mais renomados – Sarmento Leite, Mário Totta, Jacinto Gomes, Ivo Corseuil, Landell de Moura e Protásio Alves, hoje nomes de ruas e avenidas – dividiam-se entre a clínica estabelecida e o atendimento familiar a domicílio. Os portoalegrenses abastados, contudo, tratavam-se em casa, evitando a promiscuidade, a sordidez, as infecções e a imundície dos quartos da Santa Casa, “um atentado à higiene”, na descrição do doutor Mário Totta. Fiel ao imaginário da época e às noções da medicina do início do século, as mães fortificavam e depuravam seus filhos com Emulsão de Scott e óleo de rícino, reputação milagrosa e restauradora dividida com os “banhos de mar” (naquele ano inaugurava-se o “luxuoso” balneário do Cassino), e os bons ares da serra e do litoral, embora todo o cuidado fosse pouco para evitar-se os mortíferos “golpes de ar”.
Na última semana de outubro esta simplória Porto Alegre transformou-se subitamente em uma cidade enferma. Nem mesmo os esforços irritantes e patéticos do Governo positivista de Borges de Medeiros, para o qual não havia motivos de alarma ou pânico, já que a gripe, a princípio, não mostrava-se tão virulentamente fatal, evitaram que a população se apercebesse claramente da extensão da epidemia: chegara à cidade a peste que viera da Europa.
De súbito, hordas de populares aglomeraram-se às portas das farmácias, disputando toda espécie de medicamentos indicados para a prevenção da doença, em especial o quinino, que havia se mostrado eficaz em outras ocasiões. Os estoques do produto, de purgantes, de óleo de rícino e mesmo as sortidas de limão e pencas de cebola vendido nas feiras e armazéns sumiram do mercado ou encareceram de forma exorbitante. Os balconistas das farmácias – aqueles que mantinham-se de pé - não descansavam um só instante. Hospitais como a Santa Casa de Misericórdia – abrigando um terço dos doentes do Estado – recebiam levas de novos pacientes, acomodados à maneira possível. À falta de leitos improvisavam-se toscas enfermarias e o Governo – finalmente reconhecendo a situação mas fugindo à sua real extensão e gravidade – passou a organizar hospitais improvisados e equipes de emergência para percorrer as residências e levar assistência médica à população pobre. Recomendava-se, a princípio, cama, higiene e repouso, além de limpar a boca e as fossas nasais várias vezes ao dia com uma lavagem de água e sabão, sem esquecer dos proverbiais gargarejos com água oxigenada ou boricada. Os portoalegrenses, no entanto, apelavam para tudo que estivesse ou não estivesse à mão – chá de eucalipto, cachaça com mel e limão, aspirina, suco de cebola, vinho, caldo de galinha, purgantes, infusões, preces, benzimentos, promessas, talismãs. O uso abusivo do quinino não raro causava intoxicações, com prejuízos irreparáveis à audição e à visão. Charlatões, curandeiros e vivaldinos encontravam terreno fértil para a venda dos mais bizarros produtos ou receitas: pílulas, chocolates, filtros de água e até cigarros que “preveniam ou afastavam o mal”.
A partir de 21 de outubro haviam sido registrados os primeiros óbitos. Os jornais da Capital, habitualmente voltado à cobertura da Grande Guerra e aos acontecimentos políticos no Rio de Janeiro, abriram suas páginas para a evolução da “peste”. No início de novembro informava-se que a Escolha de Engenharia, o colégio Sevigné, o colégio Militar, Ginásio Anchieta e outros estabelecimentos de ensino da cidade haviam decidido suspender as aulas e adiar os exames finais. Sem movimento de público, o comércio e as repartições fechavam suas portas e os teatros e os cinemas comunicavam a suspensão dos espetáculos. Na tradicional Confeitaria Rocco a maioria dos empregados caíra doente.
CIDADE TINHA "ASPECTO FÚNEBRE" - Na Livraria do Globo 62 funcionários contraíram a influenza e o Correio do Povo passou diariamente a oferecer vagas de entregador em substituição àqueles que iam sendo atingidos pela epidemia. O “turbilhão’ da rua da Praia deu lugar a calçadas vazias. Sem carteiros, os Correios suspenderam as entregas e a Companhia telefônica, desfalcada de 285 funcionários, pediu à população que só fizesse uso do telefone em caso de extrema urgência. Os guardas desapareceram das esquinas, os horários dos bondes foram suspensos ou adiados, a Assembléia Legislativa cancelou as suas sessões ordinárias. A Companhia Força e Luz ficou sem foguistas. Todos se recolhiam mais cedo, evitando contatos. “A cidade tem durante o dia um aspecto doloroso e à noite este aumenta, tornando-se fúnebre. Raro é o transeunte que anda. Os cafés, os bares, tudo escuro, dando à Capital a forma de uma cidade morta e sem vida”, escreveu o jornal O Independente em seu número de primeiro de novembro. Temendo o contágio ou já atingidos pela doença, até os costumeiros leiteiros que vinham da periferia deixaram de vender o produto às portas das residências.
À aproximação do feriado de Finados, as autoridades alertavam as pessoas para que não fossem aos cemitérios, a fim de evitar aglomerações e o possível contágio. Inicialmente pensou-se que o vírus pudesse ser transmitido pela água, ou até mesmo pelo ar. “O pavor coletivo, o alarma social, se está tornando mais grave do que a própria epidemia. Alguns suicídios o demonstram”, escrevia o jornal A Federação, vinculado ao governo de Borges de Medeiros. O Dr. Mário Totta advertia: “Em todas as epidemias são justamente os que mais medo têm são os que mais depressa são levados de lufada”. Os padres oficiavam missas, pedindo a Deus o afastamento da “peste”, os clubes decidiram suspender as partidas de futebol e nas páginas dos jornais surgiam anúncios de remédios miraculosos contra a doença. Já as autoridades municipais e estaduais insistiam em pedir calma à população, ao mesmo tempo em que apregoavam que a situação estava sob controle e que a epidemia já mostrava sinais de refluxo. “Povo! Não devemos entregar-nos à morte, sem nada fazer pela vida: devemos esforçar-nos para combater o mal”, concitava o boletim da União Metalúrgica distribuído à população.
Em sua edição de 5 de novembro a revista Máscara insistia na tese de que o pior já passara e que dentro em breve a cidade voltaria à normalidade.

“E esqueçamos...
“Conforme previmos em nosso número passado, a epidemia entrou em declínio em princípios desta semana. As notas fornecidas pela Diretoria de Higiene da imprensa foram sempre as mais animadoras, o que faz supor a estas horas que os casos novos da gripe sejam raros. E agora, que tudo promete voltar à normalidade, agora que a nossa cidade lembra um hospital, tal é o número de convalescentes que se arrastam pelas calçadas, com as faces cavadas e pálidas, os olhos fundos e abatidos, agora que um frisson de vitória abafa a nossa alma, mesmo os que fremem em corpos combalidos, e nosso dever afastar o mais possível da recordação popular esses tristíssimos dias de angústia e sobreexcitação nervosa a fim de que possamos beber novamente a grandes haustos a vida que o “anjo da paz ‘ promete dulcificar.(...)”


A realidade, contudo, revelava-se bem diferente, e a própria imprensa tornaria a adotar tons sombrios. A 9 de novembro o Correio do povo noticia: “Das 18 horas de ante hontem às 18 horas de hontem foram registrados nesta Capital 32 óbitos de pessoas que faleceram em consequência da “influenza hespanhola”. Na lista dos falecidos “em domicílio” constavam pessoas de todas as idades e moradores das principais ruas da cidade: Juvenal Faria Dias, de 29 anos, residente à rua General Auto, 35; Sabina Antonia da Silva, 50 anos, moradora do número 123 da rua José de Alencar; Angela Teixeira Nunes, da rua Ramiro Barcelos, 133, "menina Catharina, filha de Ariosto Menezes, rua Lima e Silva, 147-B; Jorge Anto, residente no Hotel Lagache; Rubens Santos, de 32 anos, morador da rua Aquidaban, 9; “menino Alziro”, filho de Frederico Castro, com endereço à rua Santa Luíza, 66; Antonio Monteiro, morador da rua Moinhos de Vento, 70; Antonieta Rabello Gorfmann, residente à rua Fernandes Vieira, 36; Bibiana Rodrigues, 20 anos, “mixta, solteira, residente à rua Santana, 7”. Na edição do dia 11 a lista incluía, dentre os óbitos em domicílio, os seguintes nomes: Carlos Albuquerque, 52 anos, residente à rua Andrade Neves, 6; Carlos Haesbaeri, 39 anos, morador da rua Garibaldi, 32; Dante Matteoli, 17 anos, rua Castro Alves, 156; Mathilde de Michaelsen Wolff, 43 anos, da rua General Vitorino, 13. Na mesma data nominava-se a ocorrência de novos casos da doença: “Ontem enfermaram sete pessoas da família do major Edmundo Arnt; a exma. Esposa do Dr. Joaquim Gaffrée; o Dr. Gaspar Saldanha, sua senhora e três filhos; sete pessoas da família do major Labieno Jobim; “o nosso colega Lourival Cunha, da Kodak”(revista); as senhoritas Aracy, Júlia, Odette e Nayr Bacellar, filhas do capitão Bacellar Júnior”. Uma pequena nota, vinda de Buenos Aires, onde também grassava a gripe, informava de uma campanha de combate às moscas – “veículo de imundícies de toda espécie e transmissora de várias moléstias”- desencadeada pelas autoridades portenhas junto à população.
A GRIPE ATRÁS DAS GRADES - Dos mais de 600 detentos da casa de Correção metade estava enferma, informava o Dr. Ivo Corseuil, médico da diretoria de Higiene. Nas residências, a gripe não poupava vítimas mais ilustres: o Dr. Jacinto Gomes, diretor da enfermaria de Gripados da Santa Casa de Misericórdia, contraíra a gripe e teve que ser substituído. No dia 10 de novembro o Correio do Povo, em sua coluna de necrologia, destacava o sepultamento de algumas figuras da sociedade portoalegrense:

“Com grande acompanhamento, realizou-se ontem o enterro do doutor Álvaro Nunes Furtado, clínico residente, nesta capital, e que, como noticiamos, faleceu vitimado pela influenza hespanhola”

“Faleceu ontem, nesta capital, vitimado pela influenza hespanhola, o jovem Antenor Maciel Júnior, filho do tenente Antenor Maciel.
“O infortunado jovem que, com bastante brilho, fazia o curso do Colégio Militar, deixa profunda saudade entre o grande número de seus colegas, no seio dos quais se fazia estimar.
“Ele era natural de Uruguaiana, onde também contava com um grande círculo de relações.
“O enterro, realizado ontem mesmo às 16 horas, esteve bastante concorrido, vendo-se sobre o caixão mortuário grande número de coroas”.

Dia 13, uma quarta-feira, a Empresa de navegação Cahy comunicava a suspensão de todas as viagens ao longo do rio “visto a maior parte dos seu empregados estarem enfermos”. No mesmo dia um anúncio de rodapé, na capa do Correio do Povo, oferecia um novo e rápido serviço de impressão: “Nas oficinas desta folha apromptam-se com presteza convites para enterro”. Vários funcionários da casa – incluindo jornalistas – estavam enfermos.
Da distante Europa vinham notícias mais alentadoras, publicadas pelo mesmo diário, e que repercutiam em todo o Estado, especialmente na região colonial italiana: fora assinado o armistício no dia 11 e a Grande Guerra que matara mais de 10 milhões de pessoas chegara ao seu final. A Itália estava entre os países vencedores.

“Garibaldi, 12 – Esta vila está em festa com a notícia da assinatura do armistício com a Alemanha. Sobem ao ar girândolas de foguetes. Os sinos repicam. Bandas de música percorrem as ruas. Quase todas as casas estão embandeiradas. Reina grande alegria.”

Os jornais noticiavam a derrota da Alemanha, a fuga do kaiser Guilherme II e, no Rio Grande do Sul, a influenza espanhola que, em vez de declinar, seguia em crescendo. Cortejos fúnebres de pessoas a pé, segurando os caixões aos ombros, cruzavam-se a caminho dos cemitérios, os coveiros trabalhavam sem interrupção, nas casas e cortiços improvisavam-se rápidos velórios. Prostrados e reclusos em seus barracos, os moradores mais pobres viravam-se como podiam em tais circunstâncias. Famílias inteiras adoeciam e os poucos em condições de caminhar percorriam quilômetros a pé para disputar os donativos distribuídos às portas de algumas instituições filantrópicas – igreja católica, maçonaria, centros espíritas. À peste somava-se agora a falta de alimentos e a especulação desenfreada dos preços praticada por comerciantes e aproveitadores. “Está tudo pela hora da morte”, constatou o jornal Gazeta do Povo em 11 de novembro. Leite e aves sumiram do mercado, a canja de galinha passou a custar os olhos da cara, a lenha para os fogões dobrou de preço e até os aluguéis dispararam. Os diários locais imploravam por entregadores, os médicos não dispunham de gasolina suficiente para abastecer seus carros e visitar os doentes mais distantes e as farmácias vendiam quinino e óleo de rícino como se fossem especiarias. A cadeia produtiva fora interrompida pela epidemia e a cidade, paralisada, não encontrava forças para reagir. O que havia em remédios e alimentos não bastava para uma época , sob todos os aspectos, absolutamente anormal.
AUTORIDADES CENSURARAM A IMPRENSA - A censura à imprensa imposta pelas autoridades estaduais(incomodadas pelas críticas à ineficiência e morosidade das medidas de combate à epidemia) a partir de primeiro de novembro não calava o pavor coletivo e – em evidente efeito contrário - só fazia aumentar os boatos a respeito da mortandade. O Correio do Povo que, assim como os demais veículos, recebera a ordem de não publicar a lista diária das vítimas da gripe, após informar da determinação aos seus leitores optara, em protesto, por deixar colunas em branco. Particularmente visado pela censura borgista, o jornal insistia em apontar as ineficiências e morosidades no combate à epidemia e as falhas no socorro à população mais pobre, que, a par da doença, sofria com a fome e da desassistência. Famílias inteiras estavam acamadas, sobrevivendo do pouco que ainda possuíam em casa. Os que encontravam forças de sair às ruas apelavam para os donativos – feijão, café, açúcar, banha – distribuídos pela Maçonaria, pela Federação Operária do Rio Grande do Sul ou por alguns comerciantes mais generosos ou em melhor situação financeira. O clima geral era de pânico.
“O boato no Coração da Cidade
“(...) Eu vi com estes olhos cinco mortos na rua dos Andradas, disseram-me que os coveiros cavam noite e dia as sepulturas; “Fulano(que está vivo e um poucochinho doente) acaba de morrer...” e outras e outras afirmações que só a polícia correcional podia evitar.
“Desta forma andam pelas ruas, ilesos, os ‘boateiros”, explorando a situação enferma da cidade, acendendo perigo onde não existem(...)”( Máscara, 23 de novembro)


A partir da segunda metade de novembro, descrente das autoridades, a população falava em centenas ou mesmo milhares de mortos diários. A epidemia fugia a qualquer controle e a relação dos óbitos fornecida pela Secretaria de Higiene voltou às páginas dos diários. Ignora-se contudo os falecimentos sem assistência médica, numerosos nos bairros pobres.
Se até ali, de modo geral, a imprensa oficialista insistia no progressivo recuo da epidemia, atribuindo todas as culpas aos espíritos alarmistas e boateiros de plantão, a partir de quinta-feira, 14, tornou-se impossível mascarar a realidade visível, que, se não era tão terrível – afinal, não morria-se aos milhares - tampouco conferia com a versão das autoridades: entre as 18 horas de terça e as 18 horas de quarta-feira 34 pessoas haviam morrido em decorrência da influenza. Outras 24 faleceram sem assistência médica no mesmo período, totalizando 58 óbitos. No Domingo, 17, o Correio do Povo listaria mais 62 mortos nas últimas 24 horas, e, na terça, outros 49 óbitos entre o final da tarde de Sábado e o final da tarde de Domingo – o jornal não circulava às segundas.
Notícias enviadas pelos correspondentes do interior apontavam nos estragos que a espanhola estava causando em Passo Fundo, Santa Maria, Rio Grande, Pelotas, Arroio Grande, Tapes, São Gabriel, Encruzilhada, Carlos Barbosa, Rio Pardo, Taquari, Cruz Alta, Ijuí. Em Quaraí lamentava-se o suicídio do comandante do Sétimo Regimento de Cavalaria, que desferiu um tiro de revólver contra a própria cabeça. O major, informou o correspondente, “se achava doente, atacado de forte neurastenia, tendo ficado muito impressionado com o número de soldados enfermos na unidade que comandava, e ainda pela falta de recursos”. Cacequi, noticiava o jornal, “está transformado num vasto hospital. Há ali um número superior a 150 doentes, não havendo sequer uma pequena farmácia de campanha”. Em cada local a intensidade do surto epidêmico variava de acordo com as condições sanitárias, a densidade populacional e o clima, muito embora praticamente nenhum município do Estado tenha escapado ao flagelo. Confundido inicialmente com o tifo, o vírus mutante da influenza gerava infecções bacterianas e punha em evidência moléstias latentes em cada organismo, afetando em especial os cardíacos, os asmáticos e os fracos de pulmão. A moléstia ia e vinha, com melhoras e recaídas. Para curá-la recomendava-se tão somente o repouso, a assepsia, quinino, purgantes e bons ares.
DE REPENTE ELA FOI EMBORA - Quase tão repentinamente como havia chegado, sem aviso, sem lógica ou explicação, a epidemia rapidamente declinou no final do mês de novembro. No dia 21, Quinta-feira, os diários da Capital já falavam em seu progressivo recuo. A reabertura de muitas lojas no centro, a crescente afluência de transeuntes às calçadas antes desertas, a volta dos rangidos dos bondes e dos apitos dos guardas de trânsito refletiam as estatísticas do Departamento de Higiene – números reais, desta vez: os casos novos eram cada vez mais raros e a mortandade estava em queda livre. O Club Monte Carlos, o Brazil Club e o Clube dos Caçadores voltaram a funcionar. O teatro Apolo apresentava, aqueles dias, em matiné, episódios de a “Garra de Ferro”, em oito atos e, à noite, “uma grandiosa obra americana em sete belíssimos atos: New York.”. Na terça-feira, 26, reabriram suas portas o cine-teatro Coliseu e o Petit Casino. O Hipódromo do Moinhos de Vento também anunciava o retorno das atividades. Na Sexta-feira os jornais noticiaram apenas 8 óbitos e a 3 de dezembro as autoridades informaram não ter conhecimento de novos casos de influenza espanhola. Na mesma data um pequeno anúncio publicado na capa do Correio do Povo atestava o final da tempestade.
“Leitaria
“Previno a minha distinta freguesia que reabri minha leitaria pelo nome Barroza Número 4. O motivo de estar fechada foi meu empregado estar doente”.
Em poucos dias reabriram-se as repartições públicas, os principais colégios chamaram de volta alunos, funcionários e professores, os cafés do centro festejavam a volta da velha clientela e a rua da Praia foi novamente tomada por moças e rapazes ao final do dia. No dia 29 apenas 8 óbitos foram registrados nas últimas 24 horas e, finalmente, a 3 de dezembro, a Diretoria de Higiene afirmou não ter conhecimento de nenhum novo caso da doença - as mortes registradas diziam respeito aos já infectados. Notícias alvissareiras vinham do interior do Estado e, a exemplo do que faziam antes da peste, os jornais direcionavam novamente suas atenções aos informes vindos da Europa, à fuga do Kaiser e a redefinição das fronteiras nacionais no Velho Continente. Os correspondentes do Correio do Povo já expressavam tons de otimismo.
Durante 57 longos dias, sitiada pela doença, a capital gaúcha convivera com a morte de uma maneira jamais observada em sua História. As qualidades dos homens e mulheres, postas à prova, diferenciaram grupos, revelaram aproveitadores e heróis, contrastando à prática real cotidiana as propaladas boas intenções de muitos. Desse jogo de luz e sombra emergiram algumas verdades. “A hespanhola, de súbito, fez-nos ir até essas pobres vítimas da fome e da indigência, quando não no-los trouxe até as nossas portas”, reconheceu a elegante revista Máscara( “Os Nossos Pobres”, 23.11.1918), ao comentar a procissão sombria de homens e mulheres fracos e famintos que vinham dos subúrbios da cidade “com as faces covadas e pálidas, os olhos fundos, se arrastando pelas calçadas”. Foram eles – cidadãos anônimos, desempregados, operários, comerciários, biscateiros, moradores dos bairros São João, Navegantes, Colônia Africana, no Quarto Distrito - as principais vítimas da influenza espanhola.
No tocante ao total de óbitos, a historiadora Janete Silveira Abrão – autora da(infelizmente pouco conhecida) dissertação de Mestrado do curso de pós-graduação em História do Brasil do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica, “Banalização da Morte na Cidade Calada: a Hespanhola em Porto Alegre, 1918(Edipucrs, 1995), tese universitária transformada em livro – observa: “Todavia é impossível precisar as taxas de morbidade e de mortalidade ocorridas, visto que muitos casos não foram notificados pelas autoridades sanitárias”. Oficialmente foram 1316 óbitos em Porto Alegres causados pela influenza, dos quais 1209 na cidade e o restante na zona rural. Ainda segundo as estatísticas oficiais, até 31 de dezembro de 1918 a gripe matara 3971 pessoas em todo o Estado. Somente em Rio Grande morreram 343, em Pelotas 321, em Bagé 191, em Cruz Alta 132 e em Itaqui, 40.
Algo parece certo: são números “chutados” e nunca se soube e jamais se saberá efetivamente o número exato, ou mesmo aproximado, das vítimas causadas pela gripe espanhola de 1918. Dois mil? Quatro mil? Cinco mil? Se as estatísticas oficiais falam em cerca de 70 mil infectados - “talvez abaixo da realidade”, nas palavras de Protásio Alves - e pouco mais de 1300 mortos em todo o município de Porto Alegre podemos, sem temor ao exagero, somar a isso um número impreciso de óbitos não contabilizados que aconteceram longe das vistas das autoridades sanitárias, em casebres, cortiços ou em esquecidas casinhas da zona rural, sem contar os enterros clandestinos – comuns a uma época em que os recém nascidos tornavam-se adultos sem portar qualquer documento. Alia-se a isso o fato de que somente aqueles aos quais os médicos reconheciam a morte em função da epidemia eram inclusos nas listas dos vitimados pela peste, excluindo-se destas quem falecia - de acordo com o ponto de vista médico - de outras causas: doenças cardíacas ou tuberculose, para citarmos dois exemplos que no entanto poderiam ter sua origem no vírus da própria gripe.
Segundo a historiadora, um simples cotejar dos dados oficiais do período demonstra números subestimados: o Livro de Óbitos da Santa Casa de Misericórdia registrou, de 21 de outubro de 1918 a 11 de janeiro de 1919 2420 mortes e o Departamento de Higiene do Rio Grande do Sul contabilizou naquele ano 30.219 falecimentos no Estado. Nos últimos três meses de 1918, aconteceram 12.811 óbitos, dos quais 5840 na Capital. Ainda segundo o Governo, 42% das mortes decorreram de moléstias transmissíveis.
Porém, passado o furacão, no início do verão de 1918/19, poucos queriam voltar os olhos às dores passadas. Epidemias vinham e iam, estar vivo e era o que contava e tentava-se a todo custo recuperar a alegria e o tempo perdidos. A gripe, todavia, ainda não morrera em definitivo. Depois de abandonar Porto Alegre e outras cidades às quais chegara de forma quase simultânea, dirigiu-se em seguida às localidades da Serra e lá fez mais uma nova legião de vítimas. Dela, contudo, já se falara muito, e a ordem era esquecer.
Dava-se início ao período de festas de final de ano. Alinhados no clube do Jocotó e centrados na figura do doutor Mário Totta – médico e bom vivant - com alívio redobrado, homens e mulheres da sociedade portoalegrense reencontrava-se agora nos elegantes saraus do arrabalde da Tristeza. Ali, à beira do Guaíba, embalados por orquestras típicas especialmente contratadas, em meio a barulhentas batalhas de confetes, poucos lembravam da epidemia que, sozinha e silenciosa, em menos de dois meses fizera mais vítimas do que todos os combates da Grande Guerra e causara a todos um prejuízo econômico dificilmente mensurável. Em “Solo de Clarineta”- primeiro volume de suas memórias(1974), Érico Veríssimo recorda:
“Em 1918 a influenza espanhola atirou na cama mais da metade da população de Cruz Alta, matando algumas dezenas de pessoas. Não se dignou, porém, contaminar-me. Lembro-me da tristeza de nossas ruas quase desertas durante o tempo que durou a epidemia, e dos dias de calor daquele dramático novembro bochornoso. Era como se os próprios dias, as pedras, a cidade inteira estivessem amolentados pela febre. A escola achava-se em recesso e eu podia passar dias inteiros a ler romances.(...) Foi durante a influenza em 1918 que li pela primeira vez Eça de Queirós(Os Maias), Dostoiévski(Recordações da Casa dos Mortos e Crime e Castigo).(...) Passada a epidemia a cidade entrou em lânguida e trêmula convalescença.”

Tardiamente, quando tudo parecia encerrado, em janeiro de 1919, a “influenza hespanhola” faria a sua vítima mais ilustre em terras brasileiras: o presidente eleito Rodrigues Alves, que já havia exercido este mandato de 1902 a 1906, período em que incumbiu Osvaldo Cruz de sanear o Rio de Janeiro e livrá-lo da febre amarela, morreu justamente deste mal que vacina nenhuma conseguiu evitar e que em poucos meses matou mais do que todos os combates da Primeira Grande Guerra. A Influenza Espanhola foi a última grande epidemia globalizada com altíssimo poder de contágio e mortandade da História mundial. Para a capital do Rio Grande do Sul teve, ao menos, um efeito benéfico – a partir daí passou-se a dar atenção à qualidade da água servida à população, com a construção de uma grande hidráulica ainda no governo de José Montaury.

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Historiador previu o progresso do bairro

Oficialmente, o Jardim Botânico nasceu no ano de 1959, pela lei número 2022, de autoria do vereador e historiador Ary Veiga Sanhudo. Nesse ano foram oficializados inúmeros outros bairros de Porto Alegre.
A história do Jardim Botânico corre paralela à da avenida Ipiranga e da canalização do riacho Dilúvio, obras que levaram décadas. No passado, toda essa região ribeirinha ao rio, desde a Agronomia até o Beira-Rio, era conhecida como o “Vale do Sabão”, uma área baixa e alagadiça. As constantes inundações do arroio eram um sério problema.
Em seu livro “Crônicas da Minha Cidade”, que parece ter sido escrito na década de 50, o historiador Ary Veiga Sanhudo é profético quando ao futuro promissor da região - “a zona mais próspera da cidade”. Escreveu ele, meio século atrás:
“O bairro São Luiz, como aliás foi por muito tempo conhecido, não apresenta verdadeiramente qualquer notabilidade maior do que as ajardinadas terras do nosso futuro horto botânico. É um lugar de condições modestas e pela circunstância de se achar encravado entre o Riacho e o cerro de Petrópolis, viveu sempre jugulado à sua embaraçante situação de bairro sem uma via própria de acesso com maior desenvoltura. A sua radial, todavia, é a perimetral rua Barão do Amazonas. (...) No entanto, não nos cabe dúvida que, no dia em que as formidáveis laterais do Arroio Dilúvio – avenida Ipiranga – estiverem completamente urbanizadas, propiciando o extraordinário tráfego desse imenso Vale do Sabão, desde a Agronomia até a Beira-Rio, todo este bairro, como os demais quarteirões ribeirinhos, tomarão outro aspecto e constituirão a zona mais próspera da cidade”.
QUERO-QUERO – Há menos de vinte anos, o Correio do Povo (23 de maio de 1987), em matéria da jornalista Magda Wagner, traçava um perfil do JB: “É um bairro tranquilo, de ruas largas, que mais parece uma cidade do interior (...) Em frente ao maior conjunto habitacional do bairro, na rua Felizardo Furtado, nos deparamos com uma inesperada plantação de agrião, reforçando a idéia de que o Jardim Botânico é, no mínimo, um bairro diferente. Os quero-queros, ave típica dos descampados, proliferam no bairro, alimentados pelas folhas de agrião.”
Antes de ser Vila São Luiz, o JB chamava-se Vila Russa, o que é explicado pela presença de imigrantes russos que chegaram aqui no início do século passado, instalando-se na parte alta, do outro lado da hoje avenida Doutor Salvador França.

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Domingo, Junho 01, 2008

Os novos tempos da rua Itaboraí

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Havia décadas os moradores do Jardim Botânico reivindicavam a abertura da rua Itaboraí, via que corta o bairro no sentido oeste a leste, ligando a parte baixa à parte alta. No dia 13 de março do ano passado, graças à construtora Rossi - que está levantando ali o imponente condomínio Allure - a Itaboraí foi, finalmente e rapidamente, aberta e asfaltada. Aquela sinuosa, perigosa e escura picada que passava defronte ao bar do seu Rui Cintra (e do supermercado Gecepel, da Guilherme Alves) hoje é uma via com grande trânsito de pedestres e de veículos. É a iniciativa privada fazendo o que o Poder Público não foi capaz de fazer em tantos anos.