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terça-feira, novembro 30, 2010

Porto Alegre não tem um milhão e meio de habitantes. Foi o que constatou o IBGE, nesse último censo. Não me surpreende, parece natural. A capital gaúcha é a que menos cresce no Brasil, felizmente. Quando cheguei aqui, em 1979, verão, ela tinha um milhão e cem mil habitantes. O que cresceu mesmo foi a zona metropolitana.
Tem gente que duvida das estatísticas do IBGE. Trabalhei no IBGE, censo 2000, e eles eram bem rigorosos. Foi, aquele, um censo bem feito, acho que bem melhor do que este de 2010, que, pelo que todo mundo sabe, teve vários problemas.
Coordenei uma equipe de seis recenseadores, que no final era de somente dois ou três.
Censo é um negócio incrível, tudo acontece, inclusive com recenseadores. Os caras entram de casa em casa, vêem tudo, anotam tudo.
A minha zona era a Bela Vista, a Boa Vista, as Três Figueiras. Zonas de ricos, ou quase. Gente que não gosta de reponder a nenhuma pergunta, e muito menos de abrir a porta. Mas, há dez anos atrás, a coisa era bem mais fácil do que agora. Pelo que vi em reportagens, o medo da violência - que aumentou muito - dificultou ainda mais as coisas.
Naquela época nos diziam que todo mundo era obrigado a responder ao censo. Se quiséssemos, poderíamos até chamas a Brigada. Um exagero, mas tudo bem, ótimo. Agora parece que muita gente simplesmente ignorou o censo, fechou, bateuas portas. Novos tempos etc etc.
O IBGE é sério, eu disse. É mesmo, verdade. Mas trabalhar com o público é foda, tem suas variantes. Muita gente mente, e você tem que anotar as suas mentiras, mesmo sabendo que aquilo que ele diz é uma mentira descarada.
Por exemplo, notei, e comprovei, que o pessoal da grana diminui a renda, sempre. No ano de 2000 todos eles diziam que ganhavam 2 mil reais - mais ou menos 4 mil hoje. Claro que você sabia que o sujeito ganhava muito mais do que isso, bstava ver o apartamento ou a casa em que ele morava. Nos recebiam com um pé atrás, sempre temendo que aquilo que diziam fosse utilizado pelo imposto de renda. Bom, nos diziam, então, que nada do que o entrevistado declarasse seria utilizado por outra fonte. Acho que era verdade - hoje não sei mais.
Falei que o pessoal da grana "minimizava" a renda. Pois é, e o pessoal mais pobre - incrustados entre eles - já agia ao contrário. Com vergonha do pouco que ganhavam, aumentavam a renda.
Disso tudo concluí uma coisa: renda declarada é uma ficção, não existe, não corresponde à realidade. Quando divulgam que o brasileiro ganha isso ou aquilo, dou risada:ficção, simplesmente.
A propósito: não entendi essa de não ter uma pergunta sobre o nível de escolaridade. No censo 2000 existia essa pergunta, indispensável a meu ver.
Fui recenseado também. Apareceu lá uma menina meio andrógina que me endereçou meia dúzia de perguntas, inclusive aquela de "o senhor tem luz elétrica?" Mandei ela olhar para a lâmpada que nos alumiava.

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