terça-feira, agosto 09, 2016

A surpreendente história de um "mané" da ilha chamado Guga



Pesquisa e texto: Conselheiro X


1997. À exceção dos próprios tenistas profissionais, ninguém no Brasil tinha ouvido falar em Gustavo Kuerten, o Guga. Porém, em junho daquele ano um rapaz de 20 anos (nasceu em 10 de setembro de 1976), 1,91 metro de altura, 76 quilos, cabelos longos, barba rala e um estilo "grunge" de se vestir, conquistava o primeiro e mais importante dos seus muitos títulos - o de campeão do torneio de Roland Garros, na França, um dos mais importantes do mundo do "grand slam" - as competições em Winbledon, na Inglalterra, os abertos dos Estados Unidos e da Austrália e, é claro, esse, na França. Guga havia se profissionalizado havia apenas dois anos.

Não faz muito Guga despediu-se do tênis profissional, na mesma quadra que o viu vencer. Emocionou-se e até ganhou um pouco da terra e do saibro da quadra de seu técnico e "segundo pai", o gaúcho Larry Passos. A diferença é que, agora, o tenista catarinense, fanático torcedor do Avaí, tem algumas dezenas de milhões de dólares de patrimônio e um nome reconhecido no mundo todo. Ao lado de Maria Esther Bueno, tricampeã em Winbledon, Guga tornou-se o maior nome masculino do tênis brasileiro de todos os tempos. E um orgulho para a sua terra, Santa Catarina.

MULTICOLORIDO - Ao vencer o espanhol Sergi Bruguera, naquele torneio, Gustavo Kuerten - o azarão da disputa - ganhava o primeiro dos seus três títulos no "Maracanã do tênis".

Em sua edição de 11 de junho de 1997, ainda antes da final, a revista VEJA - que parecia acreditar que ele já tinha ido longe demais - escreveu: "Nunca o esporte nacional vira antes um azarão desse quilate. Guga chegou a Roland Garros há duas semanas como mais um entre as dezenas de tenistas anônimos que, todos os anos, inscrevem-se para a competição. E, para espanto da imprensa especializada internacional, e dos brasileiros, que nunca tinham ouvido falar no seu nome até segunda-feira, foi abatendo de forma implacável as celebridades que se apresentaram na sua frente. Na sexta-feira, quando venceu o belga Filip Dewulf na semifinal, já computava entre suas vítimas o russo Yegeni Kafelnikov e o austríaco Thomas Muster, respectivamente campeões do torneio em 1996 e 1995. O adversário seguinte, Bruguera, ganhou em 1993 e 1994."

E prosseguia: "Aos 20 anos, Gustavo Kuerten entrou em Roland Garros pela porta dos fundos. Antes de chegar ao torneio, ocupava apenas a 66 posição no ranking dos melhores tenistas do mundo e nunca havia vencido um torneio de primeira classe do circuito internacional. "Ainda não sei se sou uma estrela do tênis ou se continuo o mesmo", disse a VEJA um incrédulo Guga na quinta-feira enquanto brincava num flipperama ao lado do estádio."

Depois das vitórias de Roland Garros, os jornalistas internacionais passaram a chamá-lo de "surfista do saibro". Algo que também chamou a atenção, naquela ocasião, foram as roupas do tenista brasileiro. "Num esporte em que a tradição manda os atletas usar impecáveis roupas brancas, Guga apresentou-se com uniforme berrante, mais apropriado a um jogador de futebol: todo azul e amarelo, incluindo meias e sapatos. Surpresos, os organizadores do torneio procuraram os representantes do fabricante de roupas para pedir que moderassem na profusão de cores do uniforme. Não. Guga limitou-se a colocar na cabeça uma bandana com fundo branco, e manteve sua figura de surfista grunge. "Como pensaram que eu não iria longe no torneio, nem trataram do assunto diretamente comigo", conta o jogador" - escreveu VEJA em sua matéria (capa da edição de 11 de junho de 1997).

A revista dava mais detalhes do comportamento do catarinense: "Fora das quadras, mais surpresas. Enquanto a maioria dos jogadores do torneio se hospedava em hotéis caros e luxuosos de Paris, o brasileiro se escondia no modesto Mont Blanc, 70 dólares a diária. Foi nesse hotel que se hospedou quando esteve em Paris pela primeira vez, há cinco anos. Diz que foi bem tratado e não muda mais. Também costuma frequentar a mesma pizzaria, a Victoria, e se divertir no mesmo flipperama, ao lado do estádio de Roland Garros. Embora não aparente, Guga é sempre assim, metódico e disciplinado. Até hoje, quando joga nos Estados Unidos, dispensa os hotéis reservados pelos organizadores e vai para a casa de tia Vicky, uma inglesa que o recebeu quando lá esteve pela primeira vez para disputar um torneio juvenil. "Ele é uma pessoa de hábitos conservadores", diz João Carlos Diniz, promotor de eventos e amigo da família do jogador de Florianópolis."

Embora desconhecido do grande público, em 1997 Guga já era afamado no circuito do tênis brasileiro, por seu "jogo sólido", com bolas colocadas nos limites da quadra e muita velocidade. "Ele tem talento e personalidade para ficar no topo", afirmou então o americano John McEnroe, um dos maiores tenistas de todos os tempos. Como se vê, acertou: Guga ficou por mais de um ano como o tenista número 1 do mundo.

"Guga tem ainda uma arma poderosa em sua mão direita: o saque", escreveu VEJA. "Segundo o último número do Jornal do Tênis, órgão oficial da Associação do Tênis Profissional, Guga tem o décimo sétimo saque mais veloz do mundo. A bolinha arremessada por sua raquete chega a alcançar 206 km por hora. É uma velocidade tão grande que o adversário não tem tempo de reagir".

ORIGENS - De uma família de classe média, descendente de alemães, Guga tem um irmão mais velho, Rafael, formado em ciências da computação e professor de tênis - é ele quem cuida de seus negócios. O mais novo, Guilherme, já falecido, sofria de paralisia cerebral e vivia sob os cuidados de uma babá. Comerciante de esquadrias de alumínio, o pai, Aldo, havia morrido de ataque cardíaco há 11 anos. Guga disse então: "A ele costumo dedicar cada momento de minha vida". A mãe, Alice, trabalhava como assistente social na Telesc, a empresa telefônica de Santa Catarina, à época, além de dirigir a Fundação de Educação Especial, do Governo do Estado. A avó, Olga, foi a primeira patrocinadora - os primeiros torneios foram bancados pelas Indústrias Schlösser, uma tecelagem da família, em Brusque.

Hoje Fafá de Belém faz 60 anos e Melanie Griffith 59. E hoje Mário Jorge Lobo Zagallo completa 85 anos.

sábado, agosto 06, 2016

Regina Casé fazia o quê na abertura das Olimpíadas?

Assisti mais para o final a cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio. Depois, nos repetecos de tevê, vi que foi algo bonito mesmo - algo que eu tampouco esperava, considerando o fiasco que foi a abertura da Copa do Mundo no Brasil. Só não entendi - não entendi mesmo, juro - o que a Regina Casé estava fazendo no palco, ao lado de Jorge Ben (hoje Benjor) e não sei mais quem. Ué, a moça não canta, não é celebridade internacional e sequer é bonita - bem pelo contrário. Então, o que fazia lá, de fato? Alguém pode me explicar: será que colocaram a jovem senhora, sempre tão efusiva e falante, apenas para mostrar como está feia a situação econômica do Brasil ou talvez, vá lá, como uma contraposição à beleza da Gisele Bunchen? (Vitor Minas) 

quinta-feira, agosto 04, 2016

Colgate e a captura de um tenente

A Colgate é, talvez, a pasta dental mais antiga do mundo, fabricada ainda no século 19. Nesta propaganda, de janeiro de 1942, publicada na Revista do Globo, de Porto Alegre, o produto é tema de uma pequena história em quadrinhos, algo comum nas publicidades da época.
Clayton, O Povo, Ceará

Hoje Barak Obama faz 55 anos e Bruna Marquezine 21.

segunda-feira, agosto 01, 2016

Nixon recebe o rei Pelé na Casa Branca, em 1973

Em 1973 Richard Nixon ainda não estava acuado pelo escândalo Watergate, e certamente nem pensava que um dia teria de renunciar. Pelé, por sua vez, já havia abandonado a seleção brasileira, mas não o futebol - tanto que jogaria pelo clube do Cosmos, dos EUA, no ano de 1975 e 76. Personalidade mundial, considerado o "rei do futebol", Édson Arantes do nascimento, hoje com mais de 70 anos, circulava com desenvoltura no "gran monde" político, conforme se vê nesta notícia do Correio do Povo de primeiro de maio de 1973. 

sábado, julho 30, 2016

Tacho, no jornal NH, de Novo Hamburgo, RS

Paulo Francis denunciou corrupção na Petrobrás já nos anos 90


REPUBLICAÇÃO
Quem não lembra dele, com aquele óculos fundo de garrafa, a fala afetada, dizendo poucas e boas, não raro mentindo e não raro acertando na mosca?

Um dos jornalistas mais cultos e mais lidos do Brasil (escrevia inicialmente na Folha de São Paulo, passando depois para o Estado, que distribuía sua coluna para dezenas de outros jornais brasileiros), considerado arrogante e direitista por muitas, lúcido por outros, Paulo Francis tinha um humor ranzinza - e talvez seja este humor que esteja fazendo falta hoje, onze anos depois da sua morte, em 4 de fevereiro de 1997, em Nova Iorque, aos 66 anos.

Francis - nascido Franz Paulo Trannin Heilborn, em uma família de classe média alta do Rio de Janeiro - nunca fez curso superior, foi trotskista na juventude, dos 14 aos 27 anos leu em média seis horas por dia, participou dos áureos tempos do Pasquim, foi preso pela ditadura militar, ofendeu todo mundo (inclusive Roberto Marinho, que comparou a um emissário cloacal, o "robertoduto". Depois foi trabalhar para as Organizações Globo: Marinho não guardou mágoas do episódio) e, por essas e outras, morreu de infarto em seu apartamento na cidade que ele considerava a Capital do Mundo.

Também parecia não gostar de negros e nordestinos - certa vez chamou o Nordeste "desta região desgraçada do País." Quanto aos seus comentários culturais, era igualmente ácido e pretensioso - simplesmente desprezava o moderno cinema nacional e considerava quase todos os intelectuais como subservientes ao poder. Na esfera política, tornou-se célebre a denominação que deu ao senador Eduardo Suplicy (e sua fleuma) - "Mogadon", o nome de um remédio.

Paulo Francis vivia então (1997) um dos mais complicados períodos da sua vida: estava sendo processado pelo presidente da Petrobrás (do governo FHC), Joel Rennó, e mais outros seis diretores da estatal. Eles pediam nada menos do que 100 milhões de dólares por ressarcimento moral, uma vez que o jornalista havia dito, durante sua participação no programa Manhattan Connection, da Globosat, que`"os diretores da Petrobrás põem dinheiro na Suiça", "roubam em subfaturamento e superfaturamento", "é a maior quadrilha que já existiu no Brasil". Pior: disse isso tudo sem nenhuma prova consistente e certamente iria perder o processo e ter que pagar uma bolada grossa para os acusados. Aliás, já estava gastando os tubos com advogados - ele, o jornalista mais bem pago do Brasil, ainda assim não tinha como fazer frente às despesas com honorários (ele próprio calculou que o processo se arrastaria por uns cinco anos e lhe custaria, só com os advogados, no mínimo 200 mil dólares). Segundo Francis, o objetivo da ação era arruiná-lo financeiramente. Transtornado, passou a ingerir calmantes em doses maciças e a sentir dores nos ombros, o que julgou um sintoma da sua bursite e não de problemas cardíacos, os quais até seu médico desconhecia.

É de se imaginar que, se estivesse vivo hoje, o que ele não diria do governo Lula.

Uma palhinha de Paulo Francis:
"A morte deve ser como a anestesia geral"
"Bebi muitos anos. Para ficar bêbado. Não vejo outra razão. O bebedor social é coisa de pequeno-burguês" (depois parou completamente de beber)
"Fidel Castro é essencialmente um conservador feudal, um feitor de fazenda, a quem a idéia de inovações, de modernidade, horroriza"
"A melhor propaganda anticomunista é deixar os comunistas falarem"
"Acho que a tendência do intelectual é ser de direita. Ele é, por definição, um elitista"
"É preciso meter as mãos na cabeça raspada do Vicentinho língua-presa. Eu lhe daria uma chicotada para ver se reage docilmente como escravo."
"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. Crítica não é raiva. E crítica, às vezes, é estúpida."
"Nenhum filme brasileiro dá certo porque todos os cineastas tentam demagogicamente se colocar na posição de humildes. É falso, visceralmente. Sempre que vejo algum favelado em filme brasileiro tenho vontade de sair gritando: é um santo! É um santo!"
"O negro africano não tinha língua escrita, como notaram os exploradores da África do século XIX; logo não pode, pela ordem natural das coisas, possuir uma cultura como a entendemos."
"Quero que fique registrado que eu favoreceria o fechamento do Congresso ou qualquer outra dessas instituições reacionárias que impedem o progresso do País."
Foto de Henri Cartier Bresson

A gloriosa e trágica vida de Romy Schneider

Beleza madura de quem foi Sissi, a imperatriz austríaco do cinema.
IVAN CLAUDIO
Extraído da revista Istoé
Segundo o escritor Johannes Thiele, Romy escondia sob a beleza uma profunda infelicidade
A atriz austríaca Romy Schneider morreu no auge de sua carreira há 26 anos. Tinha beleza de deusa, calma de budista e ar de felicidade de quem sorri o tempo todo para os fãs. Foi assim que enfrentou publicamente, por exemplo, a morte precoce e trágica de seu filho David - ele tinha 14 anos quando morreu perpassado pelas pontas da grade do portão de sua casa em Paris. A eterna beleza, a eterna calma e o eterno sorriso eram, no entanto, pura mágica. Romy Schneider, espécie de Marilyn Monroe de cabelos negros, foi um poço sem fundo de infelicidade, e esse é o tom da sua mais nova biografia, Romy Schneider: ihre filme, ihr leben, ihr seele (Romy Schneider: seus filmes, sua vida, sua alma). O livro acaba de ser lançado em Viena e seu autor, o biógrafo Joannes Thiele, caprichou para definir a atriz em poucas palavras: "a vida de Romy daria um filme melhor e mais intenso que todos os filmes que ela fez em vida". Trata-se de um elogio e tanto, uma vez que a filmografia de Romy reúne admiráveis clássicos como Ludwig II, rei da Baviera (Luchino Visconti) e O processo (Orson Welles).
Problemas profissionais ela nunca teve. Filha de um casal de atores (o austríaco Wolf Albach Retty e a alemã Magda Schneider), Romy estreou no cinema aos 15 anos e alcançou o rápido sucesso com a trilogia de filmes sobre a imperatriz austríaca Sissi - papel que está, aliás, na raiz daquela máscara majestosa da qual ela não conseguia se libertar.
O livro de Thiele mergulha em sua personagem justamente para lhe tirar esse véu. O autor detecta na infância da atriz os primeiros sinais dos sentimentos de rejeição e abandono que a acompanhariam ao longo da vida. Os seus pais se separaram e ela sofreu bastante os efeitos dos poucos cuidados que recebia da mãe, mais voltada para a carreira de atriz. O seu pai também a abandonou e era o amor paterno que ela sempre buscou nos homens. O mais famoso de seus parceiros amorosos, o ator francês Alain Delon, deixou-lhe uma marca devastadora. Delon já era uma estrela quando Romy o conheceu nas filmagens de Christine, ela tinha 20 anos, ele, 23. Egocêntrico e narcisista, o ator viu em Romy apenas uma aventura - isso segundo o biógrafo. E assim, como um aventureiro, acabou o relacionamento da forma mais covarde possível: apenas um bilhete colado a um buquê de rosas vermelhas. Romy voltava de uma filmagem nos EUA e, ao entrar em seu apartamento, encontrou o ambiente vazio. Nas flores, a frase que a apunhalou: "Vou para o México com Nathalie." Outras perdas se acumularam com os anos, já aí marcados pelo uso de drogas e álcool. O segundo marido, o diretor de teatro Harry Meyen (pai de David), suicidou-se, e pouco depois morreu-lhe o filho. Também menos infeliz não foi o casamento com o seu secretário Daniel Biasini: ela se separou dele ao descobrir que a única coisa que o interessava era sua fortuna. No dia 29 de maio de 1982 o coração de Romy não agüentou mais. Os jornais da época frisavam que ela morrera de "coração partido".

Talidomida, o erro farmacêutico que custou a deformação humana

REPUBLICAÇÃO
Pesquisa e texto: Conselheiro X
As pessoas mais velhas e bem informadas ainda lembram bem deste nome: Talidomida. Prescrito como calmante e sonífero no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, o medicamento (na verdade Talidomida é o seu nome químico e não o de vendas) transformou-se em um sinistro sinônimo da ganância monstruosa da indústria farmacêutica. Lançada sem a devida comprovação de seus efeitos colaterais, testada apenas em ratos, produzida em dezenas de países com nomes comerciais diferentes (Contergan, Distaval, Kevadon, Softnon, Talimol etc), a substância foi sintetizada pelo laboratório Chemie Grünenthal, de Nordrhein-Westfalen, na então Alemanha Ocidental e, dentro em breve, logo após o seu lançamento comercial, em 1956, (como anti-gripal e com o nome de Grippex), transformou-se em uma mina de ouro para a indústria, a qual investiu pesadamente na sua divulgação. Na verdade, a partir de tal substância, fabricava-se inúmeras marcas comerciais que, somente em um ano, na Alemanha, venderam a assombrosa quantidade de 14 toneladas. Mais de 20 outros laboratórios, em diferentes países de todo o mundo, foram licenciados para a sua produção. No Brasil, a Talidomida chegou em março de 1958, nas marcas Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil e Slip, todas vendidas sem a exigência da receita médica. Era, então, considerado o melhor soporífero jamais inventado, passando também a ser utilizado contra a gripe, a nevralgia, a asma, a tosse e, sobretudo, como antiemético para as mulheres grávidas.
Foi justamente aí que ele fez história - uma tétrica história: receitado para muitas grávidas em início de gestação, ingerido em pílulas brancas, era um sedativo barato que provocava um sono rápido, profundo e natural, sem a característica "ressaca" da manhã seguinte. De igual forma, podia ser ingerido em doses maciças que não causaria a morte do paciente, nem mesmo se este quisesse praticar o suicídio. Ideal, e, como logo se viu, fatal, ou pior que isso, para os fetos em início de formação. Usado nos primeiros 40 dias da gestação, atuava como teratogênico - ou seja, produzia monstros, se é que, infelizmente, assim se pode falar de suas vítimas, calculadas em cerca de 10 mil em todo o mundo. As crianças nasciam muitas vezes sem dois, três ou até quatro membros, dentre tantos outros efeitos observados.
A má-formação dos membros tinha um nome científico: focomelia (do grego "phoke" - foca- e "melos" - membros), ou "membros de foca". Os braços dos recém-nascidos surgiam como tocos abaixo dos ombros, semelhantes às nadadeiras das focas. Também se observou deformação dos olhos, do esôfago e do tubo digestivo. De cada duas crianças nascidas assim, apenas uma sobrevivia. Sem entender o porquê daquilo, com problemas de consciência, algumas mães enlouqueceram e outras chegaram a praticar o suicídio. Em 1961, os casos de "focomelia" já eram tantos que se falava em uma "epidemia".
De início foi extremamente difícil descobrir-se a origem de tal fenômeno, o elo comum. Pensou-se nos alimentos, na água, até em poeira atômica. Porém, graças a duas pessoas precisou-se exatamente a Talidomida como o fator causador. Uma delas, o advogado Karl Schulte-Hillen, de 32 anos, não havia aceito a explicação "genética" como a causadora da focomelia do seu filho recém-nascido. Homem saudável e esclarecido, ele descobriu que, coincidentemente, um casal de amigos seus tivera um filho em condições idênticas. Intrigado e inconformado, Karl passou a fazer investigações por conta própria, conversando com as mães que haviam dado a luz a tais "monstros". Ao tentar chamar a atenção da comunidade médica para o que estava se passando, encontrou uma revoltante indiferença e ignorância. Foi então que surgiu em seu caminho o médico Widukind Lenz, um pediatra especializado em genética que aliou-se a Karl, encampando a causa. Lenz, por fim, achou o nexo causal.
No dia 16 de novembro de 1961, Lenz comunicou oficialmente à indústria fabricante dos efeitos nocivos dos medicamentes a base de Talidomida - Contergan, no caso da Alemanha Ocidental. Ele, pessoalmente, já conhecia 13 casos. A Chemie Grünenthal, porém, não retirou o remédio do mercado - o que de fato só ocorreu quando a história virou manchete de jornal. O Contergan era o carro-chefe das suas vendas, uma verdadeira "galinha dos ovos de ouro", rendendo milhões e milhões de marcos.
Sooou então o alarma em todo o mundo. Nesse tempo, às suas próprias custas, Schulte-Hillen contratou oito fisioterapeutas que, juntamente com ele, passaram a percorrer a Alemanha Ocidental, à procura de vítimas da Talidomida. Entre agosto de 1964 e dezembro de 1965, visitaram 1.600 das 3.000 vítimas vivas da substância. Com seu endereço publicado nos jornais, choveram cartas, narrando novos casos.
A maioria das vítimas da Talidomida estava na Alemanha e na Inglaterra. Nos Estados Unidos, graças a uma mulher, o medicamento (lá chamado de Kevadon), não chegou a causar tantos danos e sofrimentos (não mais do que 20 vítimas). A ser fabricado pela Merrel Co., uma empresa de Cincinati, Ohio (e que ainda hoje é uma das grandes do mercado farmacêutico), não chegou a ser liberado pela Secretaria de Alimentos e Remédios (FDA, sigla em inglês). Apesar das terríveis pressões da indústria, a médica responsável pela aprovação, Dra. Frances Oldham Kelsey, recusou-se a dar o parecer favorável, alegando que as provas de garantias de não havier efeitos colaterais deletérios eram insuficientes. Em agosto de 1961, quando o escândalo veio a público, ela recebeu do presidente John Kennedy a medalha por Destacados Serviços Civis, por reter a aprovação da Talidomida - medalha esta que é uma das mais altas condecorações daquele país.
NO BRASIL - A Talidomida chegou ao Brasil em março de 1958, com os nomes de Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil, Slip. Em março de 1962, o Serviço Nacional de Fiscalização de Medicina e Farmácia proibiu o uso da Talidomida em todo o país, mandou apreender os estoques e cassar as licenças de fabricação. A medida, no entanto, não surtiu lá grandes efeitos pois o medicamento continuou ainda a ser usado durante anos devido à falta de informação da população, do descontrole na distribuição e, sobretudo, graças à omissão do governo e ao poder econômico dos laboratórios. Em 27 de novembro de 1973 foi criada, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Associação Brasileira dos Pais e Amigos das Crianças Vítimas da Talidomida, entidade declarada de utilidade pública.
Nos últimos anos o interesse pela Talidomida trouxe novamente o debate à tona. Conforme alguns testes - ainda não plenamente comprovados - ela teria eficácia na luta contra a lepra, contra a tuberculose e até para aumentar a resistência de pacientes aidéticos. A questão, entretanto, ainda está em aberto.

Mário Quintana aos 36 anos

Mário Quintana, o maior poeta gaúcho, quem diria, se fosse vivo (faleceu em 1994) faria mais de 100 anos de idade. Nascido no Alegrete, trabalhou muito tempo na Editora Globo, onde foi tradutor de importantes escritores mundiais - incluindo Marcel Proust. Nesta foto, de 1940, da Revista do Globo, ele aparece em seu ambiente de trabalho, na Livraria do Globo - que não mais existe - um ponto de encontro dos intelectuais gaúchos da primeira metade  do século 20. Nesta época ele tinha apenas 36 anos. A foto, hoje, é até rara.




No dia de hoje o poeta Mário Quintana completaria 110 anos, Arnold Schwarzenegger faz 69, Paul Anka 75 e Fabricio Verdum 39.

terça-feira, junho 28, 2016

segunda-feira, junho 27, 2016

Ieda Maria Vargas quase não tem mais tempo para si própria



1963 foi um ano agitado na política brasileira. O governo de João Goulart perdia cada vez mais a sustentabilidade e um clima de radicalização política tomava conta do país. Em dezembro daquele ano - ano marcado também por uma inflação recorde - quem não poderia se queixar de nada era a porto-alegrense Ieda Maria Vargas. A moradora de Petrópolis havia ganho tudo em concursos de beleza - incluindo o Miss Brasil e o Miss Universo. Aclamada, solicitada, paparicada, ela aproveitava a sua fama para percorrer o mundo, conhecer outros países e pessoas interessantes, além de faturar, é claro.Tantos compromissos acabavam fazendo com que quase não tivesse tempo para ela própria, como anotou o cronista Antonio Carlos Ribeiro, no jornal Correio do Povo. Nas reproduções acima, a Miss Universo 1963 volta ao Rio Grande do Sul, depois de uma série de eventos internacionais.

sexta-feira, junho 24, 2016

Em 1991 a novidade do "telefone portátil" surpreendia os brasileiros

1991. Nem faz tanto tempo assim, mas naquele ano em que Fernando Collor de Mello ainda era o primeiro presidente eleito depois do ciclo militar, uma grande novidade tecnológica surgia no Brasil: o telefone celular, ou "portátil", e que já era usado por 3 mil cidadãos cariocas, como se vê nesta matéria da revista Veja. Com o título "o mundo no bolso", a publicação comentava o fenômeno e previa o seu crescimento nos próximos anos. Atualmente, quem diria, há mais telefones celulares do que habitantes no Brasil, e aquela novidade de 25 anos atrás é utilizada até por crianças. 

O futebol feminino, no distante ano de 1970

O futebol feminino é, hoje, algo tão comum que muitas vezes nos surpreendemos, ao olhar para trás, pelo fato de ter causado sensação e até rejeição em seus primórdios. Bem antes de Marta, Formiga e companhia, as jogadoras, no início dos anos setenta, enfrentavam desconfiança e não raro duvidava-se da sua feminilidade - o caso do Brasil. Mas a Alemanha - quase sempre, um passo à frente - foi um dos primeiros países a aceitar isso com normalidade, como se vê nesta notícia do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, de dezembro de 1970 - ano em que a seleção masculina brasileira foi tricampeão mundial no México. 

quinta-feira, junho 23, 2016


Hoje Gaúcho da Fronteira completa 69 anos. E no dia de hoje, em 1998, falecia Maureen O"Sullivan, a Jane do Tarzan.

quinta-feira, junho 09, 2016


Hoje Johnny Deep faz 53 anos e Natalie Portman 35.

Tony Tornado e Trio Ternura no teatro Leopoldina: 1970


Quem tem 50 anos ou mais do que isso lembra daquele negro alto e forte, com cabelo black-power, saracoteando nos palcos e cantando "BR-3" - a gente corre, e a gente morre, na BR 3... Pois isso foi em 1970, quando Antonio Viana Gomes, o Tony Tornado, tornou-se um nome nacional na música brasileira, ao vencer a fase brasileira do V Festival Internacional da Canção. Não parece, mas ele já tinha 40 anos (hoje tem 86, acreditem) e toda o swing e a atitude dos negros norte-americanos. Naquele mesmo ano, aproveitando estar na crista da onda, Tornado veio a Porto Alegre, com com o Trio Ternura - que também fez um relativo sucesso na época - e apresentou-se no Teatro Leopoldina, a grande casa de espetáculos para tal tipo de shows, localizada na Independência e que não mais existe. Tony Tornado se tornaria, depois, ator de tevê, fazendo pequenos papeis em novelas e até em filmes. Ele foi casado com a atriz Arlete Salles.

domingo, junho 05, 2016

Mocidade, não deixeis em abandono a vossa gonorreia...

Antes da invenção das sulfas, as doenças venéreas eram um sério problema de saúde pública não somente no Rio Grande do Sul e Brasil como no restante do mundo. Como a camisinha não tinha seu uso disseminado, e a instrução era pouca - assim como a higiene - muitos homens e mulheres, até de "boas famílias", sofriam com o problema. Um eclético rosário de medicamentos - a maioria ineficazes, obviamente (tipo cloroquina) - era usado para a cura do problema, bem menos sério do que a sífilis. Esta sim, causava grandes danos e também matava. Nesta publicidade publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, em junho de 1941, vemos as qualidades de um produto chamado Neisserina.

sábado, maio 21, 2016

Navegação Arnt com seus navios a vapor para Taquari: 1941

No início do século XX, Porto Alegre - tão bem servida por águas - concentrava um extraordinário serviço de navegação fluvial, via estuário do Guaíba e os outros rios tributários. Mais de vinte companhias faziam percursos aquáticos, com saídas várias vezes ao dia dos armazéns do cais do porto. As embarcações geralmente eram vapores, com refeições a bordo, cabines e até pernoite.  Entre elas estava a Navegação Arnt Ltda, com sede no município de Taquari, como se vê neste anúncio publicado no Correio do Povo no dia 20 de setembro de 1941. Afoto é do famoso vapor "Porto Alegre".  Ao lado, um anúncio da Companhia Costeira - a maior do Brasil, ao lado da Loyyd, e que fazia serviço de cabotagem pelas principais cidades costeiras do Brasil banhadas pelo Atlântico.

domingo, maio 15, 2016

Cabaré que marcou época no JB virou edifício

Esta casa é agora um moderno edifício

Eram os anos cinquenta, que muita gente chama de “anos dourados”, e seu Ruben Carlos Simionovschi vivia a sua infância, adolescência e início da juventude. O local – o bairro Jardim Botânico – nem tinha esse nome, oficialmente.“Em 1950, quando eu tinha oito anos, meu pai comprou uma casa na Guilherme Alves. Naquela época as ruas do bairro eram sem calçamento, somente com o passar dos anos elas foram recebendo melhoramentos, uma a uma – canalização do esgoto, calçamento”, relembra ele.
Aos mais de setenta anos, ainda morador do Botânico (rua Surupá), seu Ruben revive essa época com grande riqueza de detalhes. “Para nos locomovermos, tínhamos a opção de ir até a Protásio Alves, na esquina com a Barão do Amazonas, ou seguir até o final da linha do bonde, que ficava na esquina da rua Carazinho. Interessante que a linha de bonde vinha em dois sentidos, tinha trilhos nos dois lados da Protásio, junto aos postes centrais, mas somente até a Vicente da Fontoura, onde acabava a linha Boa Vista. Os bondes eram tipo “gaiolas”. Depois dali a linha era de um só lado, até o final, na esquina da Carazinho.
"Outra opção era pegar um micro-ônibus na Barão do Amazonas, esquina com a Felizardo. A opção preferida pela maioria era mesmo o bonde para o centro da cidade, já que a passagem saía mais em conta. Lembro que o micro-ônibus era cara. Por exemplo, se a passagem do bonde fosse 0,50 centavos, a do micro-ônibus era 2,00. Depois de alguns anos, a linha de ônibus, já operada pela Secretaria Municipal de Transportes, foi estendida até a esquina da rua Serafim Terra com a Felizardo”.Ele recorda que os ônibus variaram no decorrer dos anos: primeiramente movidos a gasolina, “depois uns ônibus importados, a diesel. Tivemos também ônibus “papa-filas”, cuja dianteira era um cavalinho, o ônibus vinha quase engatado nele”.
FAMOSO CABARÉ – Em uma época em que não havia televisão no Rio Grande do Sul os cinemas dominavam a cena. Ruben lembra: “Tivemos dois cinemas em Petrópolis. Um ficava nos fundos da antiga igreja de São Sebastião, na esquina das ruas Carazinho e João Abott, o Cinema Petrópolis. Já o Ritz, na Protásio, funcionou mais tempo, até ser demolido. Outra lembrança que eu tenho da Colônia Agrícola do Hospital São Pedro que ficava na área ocupada hoje pela SMAN e o Jardim Botânico. Os doentes trabalhavam no cultivo de hortaliças e alguns fugiam e ficavam perambulando pelo bairro.
No bairro, a “Vila São Luiz”, havia também muitos campos de futebol. Onde hoje é a ESEF, por exemplo, tínhamos quatro campos, muito frequentados, onde aconteciam torneios de futebol aos finais de semana. Além deste havia o campo da SMT, no final da Felizardo, esquina com a Buenos Aires. Onde hoje é a rua Pedro Pieretti existia o campo do Clube Amazonas e onde está o Bourbon eram dois campos também”.
Simionovschi recorda que na rua Cervantes, subindo a Dona Inocência, funcionava um famoso cabaré da cidade, o “Casa Branca”, cujo prédio ainda existe, “porém sem o charme de antigamente.“Sei dizer era frequentado por pessoas de algum poder aquisitivo. Lembro que a proprietária era uma senhora que tinha uma filha adolescente, como nós, uma filha muito promissora. Aquela parte alta do bairro era conhecida como Vila Russa”.
DOUTOR TÁCITO – Nos anos 50 não havia esgoto canalizado – os despejos corriam a céu aberto. A maioria das casas tinham latrinas e, algumas, fossa negra. “No início, cavei muito buraco para a nossa latrina”, revela Ruben. Quanto á água, naqueles tempos, já era tratada e canalizada, embora existissem determinados locais onde ela aflorava naturalmente do solo – os moradores mais antigos lembram das “bicas” da Praça Ararigbóia e da praça Nações Unidas.Por esse tempo o arroio Dilúvio – hoje praticamente um esgoto urbano – exibia águas claras, boas para o banho e para a pesca. Ruben presenciou as obras de canalização e o calçamento da avenida Ipiranga. Ex-aluno do colégio Otávio de Souza, lembra dele todo de madeira - “construído no governo Leonel Brizola” - feito com táboas de “macho-e-fêmea” sobre pilares de concreto. Outra recordação é a da Chácara das Camélias, de cultivo de flores, e que começava na Ferreira Viana e terminava na altura do número 200 da Guilherme Alves. “Outra chácara era onde está o Conjunto Felizardo Furtado, de hortigranjeiros, os donos eram uma família, só recordo do nome de um dos filhos, chamado Raul. Outra ficava onde hoje está sendo anunciada a construção do Condomínio Allure, na Felizardo, uma chára de agrião, principalmente, do seu Ângelo, que tem descendentes no bairro – Zé, Luiz, filhos, noras, genros, netos”.Outra pessoa da qual seu Ruben Simionovschi não esquece é do doutor Tácito Castro de Castro, um médico que atendia os pacientes em sua própria casa, na rua La Plata, defronte ao hoje Supermercado Gecepel. “Depois ele manteve o consultório em uma sala no prédio da Barão do Amazonas, em frente ao Posto Ipiranga, esquina Valparaíso. Ali, em uma das lojas, havia a Farmácia Idela, do casal Frontelmo e Léa e mais um sócio”.

Foto: o cabaré que marcou época no JB foi demolido recentemente para dar lugar a um grande edifício. Foto de Vitor Minas, em 2008.

terça-feira, maio 10, 2016

sábado, maio 07, 2016

Getúlio Vargas e Adhemar de Barros, unidos na jogatina?

As eleições de outubro de 1950 foram das mais disputadas e acirradas de toda a história brasileira - por dois motivos: eram as primeiras depois da Revolução de 30 e do Estado Novo. Com o país redemocratizado, e Getúlio Vargas - oficialmente senador da República - antes recolhido em sua fazenda do Itú, quase na fronteira com a Argentina, e agora exaustiva em campanha eleitoral para a presidência do Brasil, as forças udenistas e golpistas, lideradas, entre outros, por Carlos Lacerda, não mediam esforços para impedir que o ex-ditador voltasse ao poder, agora pelo voto popular. Mas Getúlio venceu com larga margem, contando com o fundamental apoio do líder político paulista Adhemar de Barros, que garantiu-lhe muitos votos no mais importante Estado da federação. A campanha movida contra Getúlio incluiu peças como esta acima, publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, e em muitos outros jornais nacionais, relacionando os dois com a volta dos jogos de azar no Brasil - que haviam sido proibidos, poucos anos antes, pelo então presidente, General Eurico Gaspar Dutra.