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segunda-feira, julho 31, 2006

Enchente de 1941, o Rio Grande sob as águas


Em maio de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, todo o estado do Rio Grande do Sul foi castigado por uma enchente sem precedentes.
Foi, de longe, a maior calamidade natural que castigou o altivo Estado gaúcho, então com menos de 3 milhões de habitantes. As chuvas iniciaram em abril e se estenderam por mais de três semanas, deixando 25 mil quilômetros quadrados do Estado submersos e um contigente de 80 mil flagelados somente na Capital. Dezenas de cidades ficaram isoladas, faltaram alimentos, energia e água potável e praticamente todos os meios de transporte terrestre pararam. O auge da cheia, a "quinta-feira negra", aconteceu a 8 de maio, quando o nível do Guaíba passou dos 4,70 metros no cais do porto de Porto Alegre. Os jornais - Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha da Tarde e mais uma meia dúzia de publicações menores - tiveram suas oficinas inundadas e deixaram de circular. Se andava de barco pelo centro da cidade e a avenida Farrapos transformou-se em uma pista aquática. Bancos, repartições públicas, comércio, indústria, serviços - quase tudo (pelo menos na parte inundada) deixou de funcionar e milhares de pessoas de uma cidade que contava menos de 300 mil habitantes permaneceu ilhada em suas casas ou acolhida em abrigos públicos. Depois da enchente veio um frio polar, de enregelar pinguim, seguido de fortíssimos ventos em determinadas regiões do Estado. A enchente de 1941 vive até hoje na memória popular, embora não tenha sido expressiva em número de vítimas fatais. O Governo do Estado, comandado pelo Interventor Osvaldo Cordeio de Farias, e o municipal, dirigido por José Loureiro da Silva (ambos, coincidentemente, de 39 anos de idade) mostrou grande capacidade de organização e, graças a uma série de providências corretas, evitou o pior. A população gaúcha, de igual forma, demonstrou estoicismo, sendo poucos os casos de saques e vandalismo.
A revista foi editada em 2011 e apesar do autor procurar divulgação junto aos grandes jornais, a resposta foi mínima. Zero Hora publicou material a respeito somente em 2013, na coluna Almanaque Gaúcho
Reprodução da capa da revista Águas de Maio, a Grande Enchente de 1941, de Vitor Minas. Edição do autor, 2011, 60 páginas, papel couché. Tiragem de 1.000 exemplares.
Os roubos eram praticados geralmente em canoas ou caíques, quase sempre à noite. Algumas famílias, que descuidaram de suas propriedades alagadas, tiveram o desprazer de, ao voltar, não encontrar mais nada de valioso. 
Os Estados Unidos, com sua Política da Boa Vizinhança, enviaram uma "Fortaleza Voadora" ao Rio, com medicamentos e vacinas destinados aos flagelados gaúchos. Do Rio tais produtos foram trazidos a Porto Alegre em dois aviões da Força Aérea Brasileira.
Plinio Brasil Milano, chefe do DOPS gaúcho, celebrizou-se por sua caça aos elementos simpatizantes do nazismo no Estado. Faleceu poucos anos depois, ainda jovem, de uma enfermidade grave, em Montevidéu, Uruguai. 
A Comissão de Abastecimento Público funcionou a contento durante os dias da cheia, porém o que se viu depois da calamidade de maio foi uma onda altista de preços, com industriais, comerciantes e atravessadores escondendo produtos para revendê-los a preços altíssimos no chamado Mercado Negro. Nem mesmo a ação do Estado - que havia tabelado os gêneros de primeira necessidade - conseguiu impedir tal fenômeno.

As cheias cíclicas e ao mesmo tempo imprevisíveis do Guaíba eram o maior problema de Porto Alegre havia séculos. Fala-se muito da calamidade de 1941, porém cinco anos antes, em outubro de 1936, a cheia que assolou grande parte do Estado foi de um grau de destruição não muito inferior. Somente na capital mais de 50 mil flagelados disputaram abrigos particulares e sobretudo públicos. O prefeito era Otávio Rocha e o governador Flores da Cunha. Reprodução do Correio do Povo, coleção do Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho.

A cheia de 1936 foi mais repentina e deixou mortos não somente em Porto Alegre como em minas da região carbonífera. A cidade tinha então pouco mais de 200 mil habitantes e vivenciara, em 1928, uma histórica enchente.
Em 1941 a Revista do Globo, na rua da Praia, também foi atingida pelo aumento das águas do Guaíba e sofreu prejuízos no seu estoque de papel. Porém, mal o volume líquido baixou, a publicação quinzenal da editora do Globo, criada em 1929 por sugestão de Getúlio Vargas, saiu às ruas com ampla cobertura da cheia. Na reprodução acima, detalhes de fotos de uma das páginas.
Perdendo apenas para a de 41, a enchente de 1928 foi a maior, em aumento do nível de águas do Guaíba, naquela primeira metade do século XX. O Presidente (governador) do Estado era Getúlio Vargas e o Rio Grande do Sul vivia um agitado momento político, com as eleições daquele ano e os movimentos contra a República Velha que culminariam na Revolução de 1930. A reprodução acima é do Jornal da Manhã, órgão com orientação católica mas com uma interessante e, para a época, dinâmica diagramação.  
1941: nos mais de 100 abrigos públicos espalhados pela capital, aconteciam fatos surpreendentes e via-se toda espécie de pessoas, incluindo as mais excêntricas. Mas também aconteciam namoros e até casamentos. Ou, como se vê nesta foto publicada pela Revista do Globo, também ocorriam nascimentos, como o deste menino, batizado com o nome de Osvaldo, em homenagem ao Interventor Federal, Osvaldo Cordeiro de Farias.
1941: as cheias no RGS foram notícia em todo o Brasil e parte do mundo. O Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, dedicou, durante semanas, espaço diário ao assunto.

O ano de 1941 teve o carnaval mais animado dos últimos dez anos. Com a prefeitura destinando verbas aos blocos mais expressivos, os foliões voltaram às ruas da Capital,  desfilando suas fantasias singelas e originais pela avenida Borges de Medeiros, a principal para a festa "momesca". Em um tempo em que o carnaval era algo genuinamente popular e sem os recursos financeiros de hoje em dia, os foliões improvisavam fantasias - inclusive de mulher, no caso dos blocos dos sujos - e divertiam-se como podiam, conforme vemos nestas páginas da Revista do Globo.
Em maio de 1943 - dois anos depois do flagelo de maio - o engenheiro Hildebrando de Araújo Góes proferiu palestras na Sociedade de Engenharia, em Porto Alegre, e também em Pelotas, apresentando os resultados dos estudos a respeito das causas da terrível cheia de 1941 e das medidas a serem adotadas para que tal fenômeno não se repetisse. Góes - que havia saneado a Baixada Fluminense, e era uma autoridade no assunto - considerava as inundações que aconteciam então no Rio Grande do Sul como "um dos maiores problemas hidráulicos do mundo". Ele era agora diretor do Departamento Nacional de Obras de Saneamento, DNOS, órgão encarregado de construir grandes diques e reservatórios que contivessem o avanço das águas do Guaíba, embora Araújo fosse de opinião que somente o erguimento de uma grande muralha de proteção pudesse resolver o crucial problema da Capital gaúcha. 
As enchentes do Guaíba aconteciam quase todos os anos, deixando sobressaltada a população ribeirinha e pobre, principalmente a do Quarto Distrito e da Ilhota, a favela da cidade, debruçada sobre o Riacho Dilúvio, ainda não canalizado. A Ilhota,  local onde Lupicínio Rodrigues, então com 26 anos, nasceu, era a "vila dos pobres e dos negros" e a que mais sofria com a elevação das águas. Em 1940 - portanto, um ano antes da cheia de maio - o Correio do Povo abordava novamente o assunto, assinalando que, em cerca de 15 anos, mais de 100 enchentes infernizaram a vida dos moradores da capital gaúcha.
Flagelo que se repetia periodicamente e que exigia colossais recursos financeiros para a sua solução, o problema das inundações de Porto Alegre teve avanços e recuos e, principalmente, anúncios de medidas que nunca se concretizaram em sua totalidade. Em 1944, três anos depois da grande cheia, ainda se discutia o assunto e se prometia medidas capazes de resolver a questão, como os Estados Unidos haviam feito no Vale do Tennesse.
Muitos técnicos eram céticos e até pessimistas em relação à solução do problema das cheias na região de Porto Alegre, como se vê nesta matéria publicada no Diário de Notícias, semanas depois do término da enchente.

O melhor carnaval dos últimos anos acontecia em meio à ditadura paternalista do Estado Novo de Getúlio Vargas. O Rio Grande do Sul, embora já endividado, crescia economicamente, e Porto Alegre, com seus 300 mil habitantes, ganhara na última década novos e altos edifícios. 

A maior cheia em meio século, noticiava o Diário de Notícias, propriedade de Assis Chateaubriand. Acima, a moda de verão naquele ano de 1941, quando os porto-alegrenses levavam muitas horas para chegar ao litoral, onde os hotéis geralmente não passavam de simpáticos bangalôs. A empresa Jaeger, com sede na Praça dos Bombeiros, fazia as linhas para Tramandaí, capão da Canoa e Torres. Eram ônibus pequenos, com capacidade de passageiros não maior do que as atuais lotações urbanas.

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