segunda-feira, setembro 30, 2013

Segundo americano, brasileiros têm horror ao trabalho manual e adoram uma boquinha no serviço público do Governo

Continuo publicando trechos do livro Vida no Brasil, do norte-americano Thomas Ewbank, que visitou o Rio de Janeiro em 1846, na época do império. O livro é delicioso e talvez o mais completo em observações aguçadas sobre a nossa terra e a nossa gente no século XIX, mas vale até hoje, já que o caráter nacional, de um modo geral, pouco se modificou desde então. Exceto, é claro, nas regiões de imigração européis, mas aí é outro departamento.
Mais tarde, de volta aos EUA, Thomas se tornou uma importante personalidade, exercendo influentes cargos públicos. Quando visitou o Brasil, onde morava um irmão seu, tinha 54 anos. O livro foi editado aqui somente em 1973, pela editora Itatiaia, de São Paulo. 
Vamos lá: trabalho e escravidão. Ou melhor, escravidão dos negros e o horror ao trabalho (que não seja o serviço público governamental) dos nativos, na visao de Ewbank. Escrito em forma de diário, Vida no Brasil é um volume grosso e ainda nem acabei de lê-lo. No dia 21 de março, depois de quase cinquenta dias no Rio, o viajante anotou o seguinte:
 
"A tendência inevitável da escravidão por toda parte é tornar o trabalho desonroso, resultado superlativamente mau, pois inverte a ordem natural e destrói a harmonia da civilização. No Brasil predomina a escravidão negra e os brasileiros recuam com algo semelhante ao horror diante dos serviços manuais. Com o mesmo espírito que as classes privilegiadas de outras terras, dizem que não nasceram para trabalhar mas para dirigir. Interrogando-se um jovem nacional de família respeitável e em má situação financeira sobre porque não aprende uma profissão e não ganha sua vida de maneira independente, há dez probabilidades contra uma de ele perguntar, tremendo de indignação, se o interlocutor está querendo insultá-lo! "Trabalhar! Trabalhar" - gritou um deles. "Para isso temos os negros". Sim, centenas de famílias têm um ou dois escravos, vivendo do que os mesmos ganham.
"O dr. C. diz que um jovem prefere morrer de fome a se abraçar a uma profissão manual. Conta que há alguns anos aconselhou uma pobre viúva, que tinha dois filhos rapazes, um de catorze e outro de dezesseis, a encaminhá-los em ofícios. A viúva ergueu-se, deixou a sala e nunca mais falou com ele, embora tivesse fornecido seus serviços profissionais gratuitamente à família durante oito anos. Recentemente, foi abordado por um funcionário do Departamento de Polícia, que se deu a conhecer como o filho mais velho da viúva e revelou que possuía um cargo satisfatório, no qual ganhava trezentos mil réis por ano - 150 dólares. Ser empregado pelo governo, na Polícia, é honroso, mas descer abaixo de empregos do governo, mesmo para ser negociante, é degradante. Como exemplo do sentimento geral, serve o seguinte cujas personagens são conhecidos meus. Um cavalheiro de 18 anos foi convencido a honrar uma casa importadora com seus serviços de escritório. Um pacote, que não era maior do que uma carta dupla, foi-lhe entregue certo dia por um dos sócios da firma, com um pedido para que o levasse a outra firma, situada nas vizinhança. O jovem olhou para o pacote, em seguida para o negociante, tomou o pacote entre o indicador e o polegar, fitou novamente ambos, meditoupor um momento, saiu lentamente e, a alguns metros da porta da casa, chamou um negro, que carregou o pacote e o acompanhou até seu destino!
(...) "Ensinados dessa forma a fugir dos caminhos honrosos da independência, pode-se perguntar: como vivem? Vivem do poder público, sempre que podem."

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