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quinta-feira, junho 26, 2014

Já não se mata passarinhos

No passado todo mundo, ou quase todo mundo, matava passarinhos. Especialmente no interior, não se podia ver nenhum pássaro dando sopa no galho de uma árvore, em um poste, em um telhado de casa, que o garoto, com seu estilingue ou quem sabe espingardinha de pressão não mirasse no bicho emplumado, para abatê-lo, assim como os brancos norte-americanos do Velho Oeste faziam com os bisões de dentro dos trens. 
Matava-se mais por uma questão de honra e machismo, pode-se dizer. Deixar um passarinho lá em cima era quase uma afronta ao nosso precoce e ridículo machismo. Eu mesmo matei muitos, não tanto como meu irmão, mas matei. Sentia pena, muitas vezes ao pegar o bicho quente, com o coração ainda batendo, nos seus estertores finais, sem ter álibi para o meu crime. No entanto era quase uma regra de conduta entre os meninos que passarinho era um alvo e que matá-los era quase nosso dever, parte da afirmação masculina.
Hoje tudo mudou - a consciência ecológica, a evolução social e civilizatória as próprias leis que punem coisas desse tipo, fizeram com que matar passarinho se tornasse uma espécie de escândalo, de crime contra os seres vivos, de atentado à natureza. Pior, pode dar até detenção e, mais pior ainda, virar notícia na imprensa: Fulano foi pego matando um passarinho.
Moro em um condomínio que tem muitas árvores e vegetação, em um bairro onde há muitos pássaros, de todo o tipo e cor - coisa que não sei distinguir, assim como não sei distinguir espécies de árvores. Pois notei, de uns anos para cá, uma radical e alentadora mudança nos hábitos desses pequenos animais canoros causada pelo sossego e harmonia que hoje convivem face à raça humana: eles não têm mais medo dos homens e nem dos meninos, sentem-se tranquilos, como sempre deveriam estar. 
Antigamente os pássaros eram temerosos e arredios ao homem - quando viam algum, tratavam de voar rumo a um local mais distante e seguro. Sentindo-se alvos da maldade humana, mantinham-se acuados e com aversão aos humanos. Voavam sempre, preservando a própria vida.
Agora tudo mudou. Eles caminham nas calçadas e muros, nos terrenos baldios, nos postes e nos parapeitos com absoluta paz e tranquilidade. Passam à nossa frente, no chão, e nem se dão ao trabalho de atravessar de lado. Esses dias mesmo, no gramado aqui em frente, tive de desviar de um sabiá-laranjeira (acho que era um pelo desenho que depois vi na Internet) que seguia pela calçada, atrás de algum alimento. Ele não deu a mínima pela minha presença e apenas arredou um pouco de lado. Creio que, se quisesse pegá-lo, eu o faria sem maiores problemas. 
Aí pensei na minha infância, lá no mato, e como eu era cruel e idiota matando passarinhos. Na verdade deve ser por isso que tenho tantas culpas a expiar - fui um inimigo da Natureza e um serial-killer de pássaros. Mas pelo menos tenho algo a meu favor: não os prendia nas gaiolas, como se fosse o executor de uma prisão perpétua, assim como fazem esses caras que em todo o mundo aprisionam os bichos apenas para vê-los cantar. Gente boa, a maioria deles, pacata e cumpridora dos seus deveres. Mas insensíveis e cruéis como eu também fui - "passarinho na gaiola feito gente na prisão". 
Talvez um dia a evolução da sociedade também proíba essa gente de tal prática criminosa. Pelo menos tenho esperança. Liberdade aos pássaros. (Vitor Minas)

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