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quarta-feira, agosto 06, 2014

Nos tristes tempos em que a cínica e debochada Borregaard infernizava a vida de Porto Alegre

A atual geração não soube o que foi aquele horrível cheiro de ovo podre que se abatia sobre Porto Alegre e causava náuseas e até vômitos. Pois em agosto de 1978, ainda durante o regime militar, a fábrica de celulose Borregaard - que então já havia sido comprada pelo Montepio da Família Militar e mudara o nome para Riocell - emanava o seu "fedor pútrido" sobre a Capital gaúcha e cidades vizinhas. Desde que se instalara em Porto Alegre (foi oficialmente inaugurada em março de 1972 com um gigantesco churrasco para mais de 500 pessoas) ocasião em que foi saudada como um dos mais redentores e bem vindos investimentos estrangeiros a beneficiar a economia do Rio Grande do Sul, a indústria norueguesa, totalmente voltada à exportação e beneficiada com isenções e até financiamentos estatais, infernizou a vida dos porto-alegrenses e agrediu de tal forma não somente os ares gaúchos como o orgulho dos rio-grandenses que acabou por criar e solidificar o movimento ambiental no Estado. A Agapan - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - travou uma renhida luta contra o "monstro viking"(a sua matriz estava na Noruega) - apoiada por toda a imprensa e pela população, que considerava a Borregaard a inimiga pública número um.
Cínica e indiferente com as queixas da sociedade, a direção da empresa prometia instalar filtros para evitar a poluição que provocava não apenas nos ares como nas águas do Guaíba e no entanto nada fez. O governo militar de então, conivente com os interesses da grandes multinacional nórdica, era leniente com a empresa e deixava que fizesse o que bem entendesse. Não à toa um dos seus diretores, mais tarde, foi o general Borges Fortes, ex-comandante do terceiro Exército e do Estados Maior das Forças Armadas, em Brasília.
Até o início dos anos oitenta, quando havia mudado de nome e passara ao controle do capital nacional, a Borregaard deixou a sua marca nefasta no meio-ambiente e se tornou um símbolo da combatividade e da mobilização dos gaúchos em defesa da sua natureza e dos seus direitos. O jornal Correio do Povo, de Breno Caldas, especialmente, movia uma insistente campanha contra a fábrica instalada na cidade de Guaíba, que todos queriam que fosse embora. Reprodução do Correio do Povo e Zero Hora (abaixo), Arquivo Histórico de Porto Alegre.

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