quarta-feira, agosto 01, 2018



Mino Carta e a histórica final Inter e Corinthians: se fosse marciano não estaria entendendo nada
Matéria da revista Veja, já sem o jornalista Mino Carta.



Em 12 de dezembro de 1976, quando o Internacional conquistou o bicampeonato brasileiro e, pela segunda vez, o respeito e a admiração de todo o Brasil ao vencer o Corinthians por 2 a 0 no Beira-Rio, o jornalista Mino Carta – então um dos mais admirados homens de imprensa do País, fundador do Jornal da Tarde, da revista Quatro Rodas, ex-editor da Veja e já então comandando a recém fundada Istoé – escreveu para a Folha de São Paulo uma crônica daquela final que ele julgava “histórica”. Mino Carta pouco entendia de futebol e não costumava se aventurar nesse campo. Mas, depois de assistir à partida entre gaúchos e paulistas, ele garantiu “Se fosse marciano, não estaria entendendo nada” – este o título do seu trabalho, que merece ser transcrito tantos anos depois. O texto é quase literário, faz referências veladas à situação política da época e compara o futebol do Inter com o moderno futebol europeu.
Assim o jornalista descreveu o que viu aquela tarde no Gigante da Beira-Rio: “O calor é tropical mas o panorama que cerca o Beira-Rio, apinhado de elevações bem penteadas, poderia ser europeu. Falta ao cenário deste jogo um toque luxuriante, uma reminiscência, ao menos, de mato desvairado, como talvez conviesse ao supremo conflito das esperanças nacionais. Alguém, leitor de bons livros e frequentador do raciocínio límpido, me dizia ainda ontem que o corintianismo, esse singular e forte sentimento que tomou conta da nação, é a forma mais eficiente de solidariedade hoje no Brasil. Diga-se que se trata de alta autoridade da política situacionista. Pois a oportunidade de pôr à prova essa solidariedade, o momento em que ela é confrontada, talvez merecesse um palco tropical. Em compensação, há muito de surrealismo no clima do estádio e nas bombas e nas bandeiras das torcidas, frenéticas quando a esperança entra em campo. Um marciano ficaria pasmo.”
E prossegue o jornalista: “Mas a torcida colorada não é a do Fluminense, nem Porto Alegre é como o Rio. O Beira-Rio é diferente do Maracanã. O estádio pulsa com os gritos dos homens que são “machos” – e pronuncie a palavra com o sotaque dos pampas. O Corinthians hoje exibe-se numa ribalta muito pouco corintiana.

Mino Carta, hoje.

“E o Corinthians começa tímido, o Inter agride a bola com fúria vermelha. Os colorados estão em todas as divididas. Aos 10 minutos o Corinthians praticamente ainda não saiu do seu campo. Parece um encontro entre o mais recente futebol europeu e o mais tradicional sul-americano. Falcão domina o centro do campo e sua passada lembra Beckenbauer. A defesa corintiana está confusa, a bola filtra nela como um peixe numa rede lacerada. Falcão está em todos os lugares, finta Vaguinho no bico da área, enfia a bola entre as pernas de Romeu e sai com os cabelos ao vento.
Em seguida Mino Carta descreve o primeiro gol do Inter:
“E quase aos 29 minutos vem, inexoravelmente, o gol do Inter. Nasce dos pés de Valdomiro que já foram infelizes no mundial de 74. Mas o seu chute é sempre potente. E uma falta de Zé Maria no onipresente Falcão, que amaciou a sua amada no peito, na boca da área, Valdomiro bate, o tiro ricocheteia na barreira, sobe a bola maligna para a cabeça de Dario e é gol. Onde estão os orixás? Estão chorando, suponho. Mas os deuses da fúria gaúcha sorriem. Voltam a sorrir oito minutos depois, quando o Corinthians perde um gol que parecia decretado. A bola passa por vários pés corintianos, mas ninguém chuta enquanto Manga já está no chão, batido. Os deuses gaúchos estão segurando estas chuteiras lerdas. A torcida corintiana de vez em quando ergue-se e agita as suas bandeiras. Mas esses instantes são cada vez mais raros, nesse primeiro tempo. Nele ficaram evidentes, para mim, duas coisas. Primeira, que Russo é um gladiador tropical, um homem cheio de fé e uma musculatura disforme, talvez porque feita de arroz e feijão. Segunda, porque Falcão não é Rivelino, Falcão é “macho”.
Agora Mino carta descreve o segundo tempo da partida: “Mas no segundo tempo a torcida corintiana e seu time sabem que agora é tudo ou nada. Será que os orixás sabem? Os deuses dos pampas sabem de certo quando desviam de leve a falta cobrada por Romeu e fazem com que a bola se choque com o travessão para que a desdita corintiana seja mais gorda. Em campo há muitas faltas, nas arquibancadas muitos gritos e gestos de raiva e tensão. E numa dessas faltas, na entrada da área corintiana, aos 12 minutos Valdomiro cobra por sobre a barreira e os deuses colorados reaparecem e em tempo abaixam, sempre de leve, a trajetória do chute, e fazem com que bata na parte inferior do travessão, e quique depois dentro do gol, poucos centímetros além da chamada linha fatal. Centímetros? Milímetros, para a desdita alvinegra continuar engordando. Os corintianos protestam, cercam o juiz, e um bolo de gente forma-se numa das extremidades da divisória do campo, e lá se discute, aos berros, aos empurrões, se a bola entrou ou não. Entrou, entrou, a sentença é irremediável, e o bolo se desfaz e o jogo recomeça com dois a zero no marcador.
“Ah, se eu fosse marciano me perguntaria se tanta energia não poderia ser canalizada para outras empreitadas, mais proveitosas do que esta, capaz de criar raivas e alegrias tão grandes, no peito de cada um e de todos, e tão inúteis. E voa uma garrafa em campo e fogos são dirigidos contra o gramado que já não brilha ao sol. No ocaso as garrafas chovem e o jogo para de novo, o campo é invadido por dirigentes, repórteres, alguns assistentes dispostos a pular o alambrado, policiais e seus cachorros. Ah, se eu fosse um marciano não estaria entendendo coisa alguma.
“O vento não agita mais as bandeiras corintianas, talvez elas estejam molhadas pelo pranto dos que vieram até o Beira-Rio e de todos aqueles milhões que neste momento estão diante do vídeo ou com os ouvidos colados em um rádio de pilha, alimentando a mesma fé rigorosamente desperdiçada. Eles talvez estejam anotando um nome, o do bandeirinha que confirmou o segundo gol colorado. Que os fados se compadeçam dele.
“O jogo recomeça mas a sorte está selada. A pressão corintiana serve apenas para mostrar a força dos deuses gaúchos e as habilidades de um velho profissional da bola, o goleiro Manga. O jogo acabou, a solidariedade desfeita se recompõe em torno daqueles que ainda saberão esperar por uma vitória. Não tenho dúvidas sobre o caráter histórico deste jogo. É mais uma derrota de uma antiga e nebulosa esperança. Mas valeria a pena ganhar.”

Lute, no Hoje em Dia. A Charge Online.


O temível Daison Pontes e seu futebol nada amistoso



Daison Pontes. O nome desse jogador está na memória dos mais antigos, aqueles que acompanhavam o futebol gaúcho nas décadas de 60 e 70. O motivo não era exatamente a sua técnica futebolística, embora todos reconhecessem que era, sim, um jogador habilidoso e excelente no trato com a bola. Só não era excelente no trato com os adversários, aos quais não media gentilezas quando se aproximavam da grande área. Pontapés, caneladas, encontrões , cotoveladase socos faziam parte do, digamos, estilo “daisoniano” de praticar futebol. Assim, ao longo do tempo, Daison Pontes se tornou um símbolo do futebol violento e detentor de um recorde no futebol brasileiro: foi expulso de campo nada menos do que 18 vezes. Chegou a jogar no Flamengo do Rio, mas foi dispensado ao final de três meses, pelas entradas violentas até mesmo nos treinos.
Daison – que era irmão mais velho de Bibiano Pontes, daquele time de ouro do Internacional, e também de João Pontes – certamente é lembrado pelo árbitro José Luís Barreto, se este estiver vivo depois de tantos anos. Era o domingo de 20 de novembro de 1974, pelo campeonato gaúcho – e o Gauchão, naqueles tempos, tinha uma certa ferocidade que alguns entendiam como virilidade, ou a tal “macheza gaúcha”. E naquele ano a vida dos árbitros não estava sendo nada fácil dentro de campo. Tudo bem que as arbitragens deixavam muito a desejar, mas o futebol é um esporte praticado com as pernas e não com os braços, ou, sobretudo, os punhos.

Daison, violento mas grande zagueiro.

Talvez Daison Pontes não entendesse bem isso durante aquele jogo, em Santa Maria, entre o Inter de Santa Maria e o Gaúcho de Passo Fundo, apitado por Barreto. O time visitante vencia por 1 a 0 quando o árbitro, irritado com as jogadas duras da zaga do Passo Fundo, advertiu seus jogadores, pedindo que maneirassem nas divididas, caso contrário teria que marcar alguns pênaltis. Nove minutos antes do Gaúcho fazer o seu gol José Luis Barreto cumpriu a promessa, marcando uma penalidade máxima a favor do Inter de Santa Maria, cobrada e desperdiçada por Tadeu.  Vendo que seu apelo de não-violência não surtira nenhum efeito e que a zaga do Gaúcho continuava a baixar o sarrafo, aos 14 minutos do segundo tempo o árbitro marcou novo pênalti a favor do time da casa, desta vez praticado por ele, o temível e famoso zagueiro das entradas duras. Daison atingiu violentamente, por trás, o santa-mariense Edson, derrubando-o no gramado.
Acontece que Daison já havia dito a seus companheiros que, caso Barreto prejudicasse seu time, iria até ele e lhe daria um soco na cara. E foi exatamente o que fez: marchou até o juiz da partida e acertou-lhe um soco no rosto, abaixo do olho esquerdo e mais alguns pontapés nas canelas. Tonto e sangrando, o árbitro ainda conseguiu sacar o cartão vermelho, expulsando o zagueiro do Gaúcho de Passo Fundo. Em meio à confusão que se seguiu, com dirigentes e brigadianos invadindo o campo, Daison escapou e não mais foi visto naquele dia: dizem que fugiu da prisão em flagrante, pegando um táxi e se mandando para a vizinha cidade de Júlio de Castilhos. Quanto a José Luís Barreto, recusou ser medicado, passou um lenço no rosto e continuou apitando. O pênalti foi cobrado e desta vez convertido. Mas o jogo – que terminaria em 1 a 1 – ainda teve o jogador Leivinha, também do Gaúcho, expulso de campo.
Ao contrário do que provavelmente ocorreria nos dias de hoje, o zagueiro brigão não foi execrado e sim cumprimentado pelo seu ato de pugilismo, conforme descreveu o correspondente da Companhia Jornalística Caldas Júnior em Passo Fundo. “O zagueiro Daison Pontes só recebeu aplausos quando apareceu, ontem pela manhã, no centro da cidade. Durante todo o dia foi cumprimentado pelo soco que deu no juiz José Luís Barreto.” O diretor de futebol do Gaúcho foi mais adiante em suas declarações à imprensa: “Infelizmente eu não estava em Santa Maria, senão o Barreto apanharia de mim também. Todo mundo está roubando do Gaúcho e alguém tem que tomar providências. Nós compreendemos a atitude de Daison pois demonstrou que é um jogador que atua com garra, sangue e amor à camiseta. Se alguém não modificar as arbitragens, muito juiz vai apanhar”. Até mesmo o comedido comentarista esportivo, Ruy Carlos Ostermann, em sua coluna no Correio do Povo, disse entender as razões de Daison: “O futebol exige a violência. Zagueiro que joga apalpando acaba se machucando, serve apenas para incentivar os maus propósitos do centro-avante. Gosto de uma frase de Moisés, do Vasco: zagueiro não pode querer o Belfort Duarte (prêmio para os jogadores mais disciplinados) É preciso impor respeito, jogar na bola e palmo e meio adiante dela. A dificuldade é pequena: quem sabe, bate e se faz respeitado”.
Em janeiro de 1976, quando da despedida de Bibiano Pontes do Inter, Ruy Carlos Ostermann citou Daison Pontes em outra crônica: “Conheci o irmão de Bibiano, o Daison, um imenso zagueiro de área prejudicado por inúmeras contradições pessoais, mas de grande personalidade. Não a personalidade comum, organizada: era a personalidade para o gesto forte, para a empolgação.”
O soco em Barreto custou caro a Daison, punido com 1 ano e meio de afastamento dos campos, dos quais seis meses acabaram perdoados. Daison Pontes morreu em 2012, aos 74 anos, vítima do mal de Alzáimer, em sua casa em Passo Fundo, onde era funcionário público aposentado. 

quinta-feira, julho 26, 2018

Adnael, em A Charge Online.


Mister Barrick, o Velho Jack, deixou saudades nos gramados gaúchos



Luís Fernando Veríssimo lembra dele apitando grenais, e o citou em uma de suas crônicas. Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor, já falecido, recordava o gol do Brasil contra o Uruguai que ele anulou pela antiga Copa Rio Branco. O certo é que sua figura faz parte da história do futebol gaúcho, brasileiro e sul-americano nos anos que se seguiram ao término da Segundo Guerra Mundial.
Seu nome: Cyril John Barrick, o “velho Jack”, que o Correio do Povo definiu como “o consagrado e fleumático árbitro britânico que tanto bem anda fazendo ao futebol gaúcho”, o “número 1 do mundo”.
Ninguém sabe exatamente – ou talvez alguém ainda saiba – como o “velho Jack” chegou ao Rio Grande do Sul naquela segunda metade dos anos quarenta, já consagrado como um juiz de primeira grandeza no futebol inglês. O que se presume é que numa Inglaterra devastada e empobrecida pela Segunda Grande Guerra ele tenha resolvido procurar trabalho em querências mais pacíficas e ensolaradas e onde o esporte bretão também era amado, o que já acontecia com colegas seus. O velho Jack, a julgar pelas fotos, já deveria contar os seus quarenta e tantos anos quando deixou a Velha Albion castigada pelos bombardeios nazistas e veio para a América do Sul ganhar uns trocados para sustentar a família que ficara na Europa.
O certo é que aqui o “velho Jack” ganhou respeito e deixou saudades por onde passou e apitou, em especial no Rio Grande do Sul, estado que foi, tudo indica, sua porta de ingresso no mundo futebolístico sul-americano. Versátil e disposto a tudo por um punhado de libras que remetia todo mês para a família, Mister Barrick apitou tanto jogos da seleção brasileira como partidas amistosas em surrados e toscos campos de futebol. Ter Mister Barrick apitando era uma espécie de certificado de qualidade. Exótico e famoso, o Velho Jack virava uma atração à parte.
Ao que parece, Mister Barrick foi inicialmente contratado pela Federação Rio-grandense de Futebol para apitar os jogos do campeonato citadino. Mas, malandramente, bem no jeitinho brasileiro, esta passou a emprestá-lo a outros centros do País. Assim o velho Jack apitou nos Eucaliptos, na Baixada, em São Januário, no Pacaembu, no Maracanã, no estádio da Timbaúva, na Chácara das Camélitas, na Colina Melancólica... Apitou jogos do Brasil contra outras seleções e apitou clássicos platinos, onde também tinha fama. A Federação gaúcha o emprestava, cobrava por isso, e nem sempre repassava o dinheiro ao fleumático e tolerante inglês.
Quantos anos ficou Mister Barrick no Brasil? Será que voltou para a sua Inglaterra ou resolveu se aclimatar nos trópicos? O mais provável é que tenha voltado: cansado da desorganização do futebol brasileiro e das promessas não cumpridas, às vezes o Velho Jack botava a boca no trombone, como em abril de 1950, alguns meses antes da Copa no Brasil. Conforme o Correio do Povo noticiou, Barrick estava insatisfeito e, pior, sentia-se explorado pelos dirigentes esportivos gaúchos:
“Por ocasião de sua recente ida a Caxias do Sul, a convite do presidente do Nacional, que é também presidente do Departamento de Futebol da Capital, o laureado apitador britânico queixou-se amargamente da maratona a que estava sendo submetido, atuando várias vezes em uma semana, por ocasião da temporada do Peñarol em nossos gramados. A um dos nossos cronistas, Mister Barrick alegou sentir dores na coxa direita, à altura dos rins, dizendo a impossibilidade em que se achava de continuar a apitar partidas fora dos termos do compromisso, ou seja, mais de três durante uma semana. Mister Barrick chegou a falar em rescisão do contrato, caso fosse obrigado a trabalhar além das suas forças. Agora o Departamento de Futebol da Capital acaba de tomar outra deliberação que está merecendo crítica nos círculos esportivos. É que os clubes uruguaios, Nacional e Peñarol, solicitaram por empréstimo a presença do Velho Jack em campos orientais para um torneio quadrangular que pretendem realizar juntamente com clubes brasileiros. Os maiorais do nosso futebol de pronto aquiesceram, condicionando-o a uma questão de data e, mais, exigiram 25 mil cruzeiros por arbitragem, devendo o apitador, por sua vez, perceber 5 mil cruzeiros em cada uma.”
“Isso quer dizer, pura e simplesmente, que o Departamento de Futebol da Capital resolveu que os clubes uruguaios venham a pagar os honorários de Mister Barrick pelos próximos quatro meses, com a visível economia de 100 mil cruzeiros para os clubes”
E assim conclui o Correio do Povo: “Ora, Mister Barrick não é nenhuma criança, e qualquer dia, quando achar que está sendo mal empregado, não terá dúvida alguma em pedir a rescisão do seu contrato a fim de continuar o seu verdadeiro apostolado esportivo em qualquer outro centro mais adiantado do que o nosso e onde não sirva unicamente de atração para rendas, ou – o que é pior – para evitar que os clubes tenham que entrar com dinheiro para suprir as modestas arrecadações auferidas com as não menos modestas exibições de seus esquadrões de profissionais..." 
É, o Velho Jack, o apitador número 1 do Mundo, deixou saudades em terras gaúchas, mas será que nós deixamos saudades nele?

quarta-feira, julho 25, 2018

O jovem Renato despejando refrigerantes nas cabeças das moças... Anos oitenta.







O Renato Portalupi de hoje é um ajuizado e ponderado senhor de mais de 50 anos, pai de uma filha e ídolo da nação gremista. Nos vestiários e nos campos é um técnico de futebol de grande competência que sabe lidar com crises e conflitos.
É, o tempo amadureceu aquele craque boa pinta que veio de Bento Gonçalves ainda jovenzinho e logo se tornou campeão da América e do Mundo pelo Grêmio Portoalegrense. Exibicionista, imaturo e vaidoso, com pinta de pleiboi, o jogador dos anos oitenta e noventa parece ter pouco a ver com o treinador de 2018.
No início de janeiro de 1983 o jovem Renato, que ainda não havia completado 21 anos, virava notícia de jornal por suas brincadeirinhas de mau gosto tendo por cenário a praia de Tramandaí, no litoral gaúcho, onde alguns atletas do tricolor passavam dias das férias. Brincadeirinhas de mau gosto que acabaram causando tumulto na madrugada quente e movimentada da Rainha das Praias. Com o título “Renato Provoca Confusão na Praia”, o Correio do Povo descrevia: “Os jogadores do Grêmio Renato, Paulo Roberto e Paulo César chamaram a atenção dos veranistas, em Tramandaí, às primeiras horas da madrugada de ontem, quando se encontravam sentados em uma mesa no bar e Restaurante Casa Branca, na calçada da avenida Emancipação. A presença deles acabou se transformando numa confusão, com ameaça de briga, envolvendo o ponteiro-direito Renato, exigindo a intervenção da Brigada Militar, sem que o fato tivesse se transformado em ocorrência policial.
“Todos alegres e brincalhões, os veranistas se divertiam com as extravagâncias de Renato. Ele apanhou uma garrafa de guaraná que duas garotas tomavam numa mesa e despejou no chão. Foi a uma outra mesa e bebeu o suco de laranja de outras duas veranistas, cuspindo o suco na cabeça de uma delas. Os veranistas riam e logo passaram à condição de torcedores provocando os jogadores e gritando “Geraldão!” Renato até se irritou com a provocação dos torcedores e deu uma de querer tirar satisfações. Os jogadores brincavam ainda com a toalha da mesa e bar e num determinado momento um copo de vidro quebrou-se quando Renato o levava à boca. Não demorou muito e logo surgiu uma correria do público quando os jogadores se afastavam, mas eles discutiam em altos brados entrei si e o lateral Paulo Roberto tentava acalmar Renato.  Os soldados da Brigada Militar chegaram e trataram de isolar os jogadores do público, conduzindo-os para a parte dos fundos do Hotel Strassburguer e fechando um portão de madeira. A confusão não ficou bem esclarecida. Mas, ao final, um policial da Brigada Militar dizia que se os jogadores quisessem brigar entre si, isso era com eles, e poderia acontecer nos fundos do hotel, mas longe do público”.    
A propósito: Geraldão era o atacante do Inter de então e um grande fazedor de gols.

Adnael, em A Charge Online.

Com o Grêmio onde o Grêmio estiver, a frase que os tricolores levavam aos estádios







Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver. Muita gente pode imaginar que tal verso, contido no hino do imortal tricolor, é de autoria de Lupicínio Rodrigues: “Até a pé nós iremos, com o Grêmio onde o Grêmio estiver” Na verdade os torcedores mais antigos – bem mais antigos – devem recordar da faixa que a torcida levava, religiosamente, a todos os jogos do Grêmio, fosse onde fosse, e que Lupi – no ano de 53, o cinquentenário do clube da Baixada, modificou um pouco da frase original “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio”.
Com o Grêmio onde estiver o Grêmio, aliás, é o título de uma grande reportagem que Cid Pinheiro Cabral fez para a Revista do Globo em dezembro de 1951: “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio: é o lema da torcida do clube gaúcho mais vezes campeão”. Acima do título, uma grande foto de Santos Vidarte mostrava os jogadores em campo sendo abraçados pela torcida. Ao lado, lia-se a legenda feita por Cid: “Esta comemoração é pela conquista de um campeonato? Não, trata-se apenas de um gol do Grêmio. Não raro a torcida tricolor, que é a torcida gaúcha de maior espírito de colaboração, rompe os cordões de isolamento, escapa ao controle da polícia e vai comemorar o feito em pleno gramado com os autores diretos da façanha.”
Cid Pinheiro Cabral, que, como todos sabem, era colorado, enchia o tricolor de elogios e o chamava de “autêntico papão de campeonatos”. Na verdade, a Revista do Globo estava publicando uma série chamada Os Grandes do Futebol, na qual contava a história dos clubes do Rio e de São Paulo e também, é claro, da dupla Grenal.
Em uma época em que tanto Grêmio como Internacional eram olhados com certo desdém pelo centro do País e não faziam parte do chamado “futebol arte” e sim da viril escola platina, o Grêmio, sobretudo, representava essa fibra gaúcha. Foi assim na famosa excursão que o tricolor realizou por vários países da América Central no final de 1949. Os gaúchos jogaram contra selecionados nacionais, como da Guatemala, Honduras e El Salvador, e não perderam nenhum dos nove jogos que disputados. Ou melhor, venceram oito e empataram um. Até os presidentes de tais países compareciam aos estádios, onde o Grêmio era tratado como um inimigo a ser caçado.
O cronista Cid lembrava desse feito, ainda tão recente: “O maior feito em serie de um clube gaúcho no exterior cumpriu-o o Grêmio, em 1949, quando passou invicto, na América Central, por nada menos de nove cotejos. Sua enorme e entusiástica legião de admiradores recebeu-o com uma das maiores e mais carinhosas manifestações de que já foi teatro a Rua da Praia de Porto Alegre”.  O jornalista lembrava o fato do Grêmio ter ganho 25 campeonatos em 48 anos de vida.
Na época da reportagem o Estádio Olímpico já estava em fase de construção, e Cid lembrava que isso – ter um grande estádio - era uma necessidade: “Há vários decênios que o clube mais vezes campeão do Brasil se acomoda num recanto, histórico e tradicional na verdade, mas incompatível com as necessidades mínimas atuais, de agremiação modelar, praticante de quase todas as modalidades de esporte terrestre, o “Fortim da Baixada”.
Naquele ano de 51 estavam iniciando as obras de terraplanagem do Olímpico Monumental, e muitas campanhas vinham sendo feitas para tornar a nova casa do Grêmio uma realidade. Quanto à torcida tricolor, o mais lido jornalista esportivo daquela época confessava sua admiração: “Quem for assistir a um jogo do Grêmio Porto-alegrense verá, como tela de fundo do cenário onde se aglomera a sua grande torcida, enorme faixa de pano onde se lê: “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio.” Esse slogan, consagrado já entre os torcedores do clube das três cores, caracteriza perfeitamente as relações entre a veterana e tradicional agremiação e seus simpatizantes”.
Como se vê, o grande Lupicínio Rodrigues, com seu senso estético e ouvido musical, apenas adaptou a velha frase para a hoje conhecida “com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

terça-feira, julho 24, 2018

Genildo em A Charge Online.

Os 50 anos do Inter, a máquina fornecedora de craques para a seleção brasileira







No dia 4 de abril de 1959 o Sport Clube Internacional festejou os seus 50 anos de fundação, data que já havia sido comemorada por seu grande rival, seis anos antes. E assim como o Grêmio, em seus festejos de cinquentenário, não vivia um bom momento futebolístico, o mesmo se deu como o “clube do povo”. O Grêmio, a partir de 1956, começou a enfileirar títulos metropolitanos e estaduais, dando fim a uma era de hegemonia dos “diabos rubros”, como alguns então chamavam o escrete do Estádio dos Eucaliptos.
Na Revista do Globo de abril de 59, o jornalista Valter Galvani – um dos nomes mais conhecidos da imprensa gaúcha, e não somente na área de esportes – recordou detalhes curiosos da fundação do Inter, lembrando que o colorado iniciou como uma “dissidência” do Grêmio e tinha até nome de Grêmio. Galvani – que é colorado – diz em seu texto sobre o cinquentenário do clube: “A nota curiosa vem da fundação. Tal como o Flamengo do Rio, que nasceu de uma dissidência do Fluminense, o Sport Clube Internacional brotou de um “Sport Clube XV de Novembro, que funcionava como uma espécie de filhote do Grêmio Portoalegrense. As cores eram branca e preta. O campo era provisório, na Redenção, local onde hoje funciona o Parque Esportivo da Escola de Cadetes. Um grupo desligou-se do tal XV de Novembro e criou o Grêmio Football Internacional. Tinha alguns meses de existência com o tal nome o clube que reunia nomes como Arquimedes Fortini, Julio Hanke, Irmãos Karl e outros quando, de São Paulo, chegaram os irmãos Poppe. Júlio Poppe, o mais velho dos dois, foi o autor da ideia. Propôs que fosse extinto o Grêmio Internacional e se reunissem os rapazes com os irmãos Poppe no Sport clube Internacional, nos mesmos moldes do idêntico Sport Clube Internacional que então existia em São Paulo, com as mesmas cores: encarnado e branco. E no dia 4 de abril de 1909 surgia oficialmente o clube. Como um pequeno regato. Ninguém suspeitaria o grande rio que ali estava em embrião.”
Prossegue Valter Galvani, agora se referindo aos primeiros grenais: “O Grenal, todos sabem, é a festa do povo por excelência em nosso meio. Sua tradição, já profundamente arraigada, divide família, amigos, irmãos, na separação das águas que obrigatoriamente se faz.” Em seguida o jornalista passa a citar Arquimedes Fortini, famoso jornalista, intelectual e historiador da primeira metade do século 20: “Tinha poucas semanas a fibra crioula mas logo quis pôr à prova o seu ardor, sob as ordens de José Poppe, enfrentando, em julho de 1909, o mais poderoso elenco da Capital, o Grêmio. Foi vencido, como é natural, mas os componentes do quadro não desanimaram com o batismo de fogo. E então trabalharam cada vez mais. Um dos irmãos Poppe dizia: - Reconheço existir uma grande diferença de nível entre o nosso clube e os demais daqui. Mas um dia ainda será um grande clube. E eram proféticas as suas palavras.”
Valter Galvani lembrava que o Inter havia sido fundado exclusivamente para o futebol mas em breve se dedicava também ao atletismo, conquistando muitas glórias: “Quatro anos depois de fundado já chegava ao título máximo do futebol da cidade. E decidido a não largar: ficou cinco anos no poder. Não foi a última vez que o Internacional exerceu a ditadura no esporte da capital gaúcha e do Rio Grande.”
E o jornalista prosseguia, falando sobre o famoso rolo compressor dos anos quarenta e que conquistou um feito inédito no futebol brasileiro: foi hexacampeão estadual, conquistando os títulos de 1940, 41, 42, 43, 44 e 45.
“Durante seis anos seguidos mantivera-se no poder. Cedeu a posição no ano seguinte ao seu rival tradicional, ficando no segundo posto, mas em 1947 e 48 já voltava ao poder. Nomes como Tesourinha, Adãozinho, Vilalba, Rui, Carlitos, Russinho, Ávila, Alfeu, Nena, jamais deixarão a memória de quantos os conheceram e viram em ação. Eram craques fabulosos do famoso e inesquecível Rolo Compressor. Mas o “Rolo” envelhecera. Era preciso renovar. Pensava-se em reconstituir o quadro.  Seria impossível. Só criando algo novo, gente nova. Foi assim que surgiu o novo quadro, com Florindo, Oreco, Paulinho, Salvador, Odorico, Luizinho, Bodinho, Airton, e tanta gente mais. A famosa “cortina de ferro”, por onde nada passava, era a linha de “halfes”: Paulinho, Salvador, Odorico. E mais quatro campeonatos sucessivos: 50, 51, 52 e 53.”
A reportagem da Revista do Globo chamava o Inter daquela época de “fornecedor da seleção”, em alusão aos craques que o colorado cedia para a seleção brasileira: “Desde os velhos tempos de Nelson Grant que o Sport Clube Internacional vem fornecendo jogadores para a seleção do Brasil. Da grande fábrica dos Eucaliptos tem saído gente capaz e que logo vai confirmar seu prestígio nas grandes batalhas internacionais. De 1940 para cá a coisa quase chegou ao exagero. Não havia seleção que não contasse com um jogador, ao menos, oriundo do reduto colorado. Começando por Tesourinha e passando por Paulinho, Salvador, Odorico, Larri, e chegando a Chinezinho, Oreco, etc.”
A reportagem concluía o seguinte sobre a grandeza do Inter nas comemorações do seu cinquentenário: “Talvez nem o próprio grupo de fundadores que, no longínquo 1909, resolveu criar um clube que reunisse a pequena “aristocracia crioula”, imaginasse que o seu pequeno sonho se projetaria tão longe. Que o seu clube viesse a se tornar com o tempo uma das maiores expressões do Rio Grande do Sul esportivo. Que viesse a se tornar o “clube do povo. Que no terreno do futebol profissional pudesse ir tão longe, tornando-se uma espécie de fornecedor oficial de craques para a seleção do Brasil”.

domingo, julho 22, 2018

Grêmio homenageia os uruguaios, campeões do mundo em 50, festejando-os no aeroporto


A identificação entre o Grêmio e o futebol uruguaio é pública, histórica e notória - e vem desde, digamos, o início dos tempos futebolísticos. Foi o Nacional de Montevidéu quem fez o jogo inaugural do Estádio Olímpico, em setembro de 1953 - alias, os "orientais" golearam os tricolores, em sua nova casa, por 4 a 1. Em 1950, quando o selecionado uruguaio veio ao Brasil, participar e ganhar a Copa do Mundo, com o célebre 2 a 1 no Maracanã, a delegação celeste fez escala no aeroporto de Gravataí - pertencente à Panair do Brasil, o único com pista cimentada no Estado - para ser homenageado por uma comitiva gremista, como já havia acontecido, um mês antes, na vinda dos bicampeões do mundo ao Brasil (espertamente, disseram então que "não tinham muitas pretensões" e que o favorito ao título era o escrete tupiniquim). Naquela ocasião eles foram recebidos, entre outros, por Saturnino Vanzeloti, presidente gremista. As reproduções acima são do Correio do Povo, aparecendo a taça Jules Rimet, exibida no aeroporto gaúcha e, vinte anos depois, conquistada em definitivo pelo Brasil. Mais tarde o maior orgulho do esporte brasileiro seria roubado e derretido. 
Tacho, no jornal NH (RS). A Charge Online.

José Luiz Datena quase saiu no braço com Diego Maradona


Em março de 2003 - portanto, 15 anos atrás - a revista Veja publicou uma matéria com José Luiz Datena, o comentarista e radialista que hoje é um dos rostos mais conhecidos da televisão brasileira. Na reportagem, Datena revela que tem como vícios tomar refrigerante toda hora (talvez, nos dias de hoje, tenha abandonado o hábito) e colecionar relógios. Outras curiosidades, é que o apresentador, então com 45 anos de idade (hoje tem 61), envolveu-se em uma quase briga física com Diego Maradona e foi preso pela polícia italiana, durante a Copa de 90, ao aparecer defronte ao Coliseu romano vestido de imperador. Reprodução da coleção do Conselheiro X.

Cardeal, sem um pulmão, quase não errava gols



Cardeal, não jogou na dupla Grenal.

Cardeal foi um dos maiores jogadores do futebol gaúcho – isso na época romântica, em que o profissionalismo mal iniciava no esporte brasileiro. Nascido em Santa Vitória do Palmar a 7 de novembro de 1912, Sezefredo Ernesto da Costa era atacante e ganhou o apelido de Cardeal pelo fato de jogar com um gorro vermelho. Cardeal – assim como o grande Lara, do Grêmio – morreu de tuberculose, em Montevidéu, em 4 de agosto de 1949, com apenas 36 anos de idade, depois de ter passado por muitos clubes, pequenos e grandes – o Nono Regimento, clube de origem militar de Pelotas, rebatizado de Farroupilha  em 1941, o Brasil de Pelotas, o São Paulo de Rio Grande, o Fluminense do Rio e Nacional de Montevidéu, entre outros.
Naqueles tempos não havia campeonato brasileiro de clubes, até pelas dificuldades de deslocamento em um Brasil primitivo e sem rápidos meios de transporte. Mas Cardeal, vice campeão brasileiro de 1936 pelo selecionado gaúcho (em uma decisão contra os paulistas em que, dizem os gaúchos, o árbitro deu uma mão ao pessoal da terra da garoa), foi convocado pelo técnico Ademar Pimenta para disputar o sul-americano de 1936, o que chamou a atenção dos uruguaios do Nacional, que o contrataram no ano seguinte. Em 1939 foi para o Fluminense, retornando para o Regimento de Pelotas menos de dois anos depois, clube pelo   qual ganhou o histórico título estadual de 1935, o ano festivo das comemorações do centenário farroupilha. A decisão foi contra o Grêmio, em Porto Alegre, e Cardeal fez dois gols na vitória de 2 a 1 contra a equipe tricolor.
Segundo a lenda, Cardeal só tinha um pulmão, já que o outro havia sido extraído quando se descobriu tuberculoso. Mesmo assim ele jogava e se impunha na grande área – era o que se chama hoje de “matador”. Parou de jogar em 1943 e faleceu em Montevidéu, com toda assistência médica que lhe ofereceu o Nacional, onde também brilhou.
A fonte básica desta pesquisa inicial é o buscador do Google. A parte abaixo é pesquisa nossa.
Em janeiro de 1976, em uma das suas crônicas dominicais na coluna Esporte Especial do Correio do Povo, Cid Pinheiro Cabral contou uma pitoresca historieta envolvendo esse craque do passado, que reproduzimos aqui na íntegra e que se chamava “Dali, Cardeal não errava...” .
Conhecido é o episódio do Carruíra, em Rio Grande, na década de 30. Atirando um pênalti contra o Botafogo, raspando a trave, mas pelo lado de fora, teve-o transformado em gol, sob a desculpa de que “Carruíra nunca errou nem errava um bola daquelas...”
Agora recebo do advogado Afif Jorge Simões Filho, de São Sepé, o relato de outro episódio envolvendo Cardeal – que aí vai como nos chegou.
“ – Há poucos dias esteve aqui em São Sepé, fazendo-nos uma visita, o distinto advogado de Bagé, Dr. Edgar Pinto, torcedor doente e alto prócer do Guarani. Contou-nos fatos interessantes do futebol bajeense, desde 1939, quando, guri, começou a frequentar os estádios da sua terra.
Esta aconteceu em Bagé, segundo relata o dr. Edgar, no início da década de 40 (1941 ou 42, por aí), quando o Farroupilha de Pelotas foi ali disputar um amistoso com o Guarani, levando como grande atração o inesquecível Cardeal já em fim de carreira, com um pulmão só e capacidade para jogar apenas um tempo, a pau e corda. Apitava a partida o ex-craque do próprio Guarani, conhecido por Gancho.
Ao terminar o primeiro tempo, ganhava o Guarani de 1 a 0. Faltando uns 30 minutos para o final, o Farroupilha apelou para o seu grande trunfo: colocou o Cardeal em campo para equilibrar (ou desiquilibrar) a partida. O Cardeal (e o sr. o viu jogar muitas vezes, certamente) dava a impressão de ser etéreo, imaterial, tal a facilidade e leveza com que passava pela zaga. Em fim de carreira, não tinha sequer força para grandes chutes, mas fazia o seu carnaval com a bola nos pés. Lá pelas tantas, pega a bola e derruba a dribles toda a defesa do Guarani, enquanto o árbitro Gancho, de apito na boca, segue atentamente o lance. Quando o Cardeal ficou na cara do goleiro, ouviu um tremendo apito e parou a jogada, pisando em cima da bola. Voltou para interpelar o Gancho, inconformado:
- Pomba, gancho, no hora em que eu ia fazer o gol, tu apitas.
- Olha, Cardeal, foi uma coisa estranha que aconteceu. Eu fiquei tão emocionado com a tua jogada que apitei sem querer. Foi um apito bobo que saiu da boca sem qualquer motivo. Mas podes ficar tranquilo: o gol não saiu... mas valeu!
E apontou o centro de campo, para nova saída. Os jogadores e a diretoria do Guarani cercaram o juiz, protestando aos gritos:
- É um absurdo! Onde é que estamos!
O Gancho argumentava:
- O gol estava quase feito, era só chutar.
Mas o pessoal do Guarani não se conformou:
- É um absurdo! O Cardeal podia chutar fora ou por cima, o goleiro podia defender...
E o Gancho, imperturbável:
- Vocês não conhecem o Cardeal... Joguei anos ao lado dele e contra ele, e gol como aquele ele nunca perdeu. Não haveria de ser hoje que iria perder...
E o jogo terminou empatado, apesar de todos os protestos do Guarani.

sábado, julho 21, 2018


7 de Novembro de 1935: morre Eurico Lara, a lenda tricolor

“Porto Alegre, ontem, quando despertava para a sua atividade diária, recebeu uma notícia contristadora: no hospital da Beneficência Portuguesa, falecera, às 7:10 horas, o grande arqueiro Eurico Lara, indiscutivelmente a maior glória desportiva do Rio Grande do Sul”.
A notícia, publicada com grande destaque na página 9 do Correio do Povo de 7 de novembro de 1935, quinta-feira, tinha um título emblemático que resumia o significado desse homem nascido em Uruguaiana e que se tornou uma lenda do futebol gaúcho: “Eurico Lara, o player mais glorioso do Rio Grande do Sul, faleceu ontem, nesta capital”.
Ontem, no caso, era uma quarta-feira do histórico ano do centenário da Revolução Farroupilha e o Lara imortal que falecia na Porto Alegre de menos de 250 mil habitantes e três emissoras de rádio, contava apenas 37 ou 38 anos de idade – na página da Wikipédia, enciclopédia digital, consta que havia nascido 24 de janeiro de 1897, enquanto os jornais, inclusive o Correio, lhe davam um ano a menos – teria nascido em 1898. Seja como for, em sua curta e gloriosa existência, Eurico Lara Fonseca, casado com dona Maria Cândida e pai da menina Odessa, de 12 anos, defendeu apenas as cores de um clube de futebol – o Grêmio Futebol Portoalegrense, agremiação na qual jogou durante 15 anos e onde era tão amado e idolatrado a ponto de Lupicínio Rodrigues, ao compor o hino tricolor em 1953, ter nele incluído os seguintes versos: “Lara, o craque imortal, soube o seu nome elevar, hoje com o mesmo ideal, nós saberemos te honrar”.
Lara chegou ao Grêmio em 1920, ainda na época romântica em que não havia futebol profissional no Brasil, indicado por olheiros tricolores impressionados com aquele “goal-keeper” do Sport Clube Uruguaiana que pegava todos os chutes e era aplaudido de pé até pelos adversários. Em 1922, já famoso por aqui, foi ao Rio defender o selecionado do Exército nacional nas comemorações esportivas pelo centenário da Independência do Brasil, e saiu-se tão bem que, ao final do torneio, recebeu um telegrama do próprio Ministro militar, cumprimentando-o por sua incrível atuação. Também quase lendários foram os mais de 20 chutes que defendeu de Friendereich, o maior craque e primeiro grande astro esportivo brasileiro. O jogo foi realizado no Parque Antartica entre os selecionados paulista e gaúcho e ao final uma multidão invadiu o gramado para cumprimentar o incrível arqueiro gaúcho capaz de tantas proezas milagrosas.
Em crônica não assinada, publicada no Correio do Povo daquele 7 de novembro de 1935, e intitulada “A Glória de Lara”, um repórter escreveu: “Lara morreu pobre, sem nada deixar além de um nome, na época precisa em que o futebol está recheando o bolso dos utilitaristas. Quando meio mundo se locupleta com os proventos da profissão, o jogador mais querido e mais glorioso dos pampas deixa apenas uma trilha limpa, percorrida à custa de muito sacrifício e de incomum espírito de abnegação e de renúncia. Ídolo brasileiro, acima de tudo, esse moço jamais perdeu a modéstia que trouxe do berço, da gloriosa Uruguaiana. Nasceu pobre para morrer entre os humildes. Vezes sem conta atuou sob influência do mal que lhe minava o corpo. Sob dores hepática, saltava como um felino dentro daquele retângulo que só ele sabia defender. E nunca teve uma imprecação, nem deixou transparecer o menor sofrimento. E ontem finalmente morreu como morrem os bons: sem um gemido, de mansinho, sem mesmo ter tempo para um último gemido. O Rio Grande do Sul, envolto em crepe, antes de chorar canta e exalta no dia de hoje a glória imortal de Eurico Lara.”
Lara tinha tuberculose havia três anos, em um tempo em que não havia penicilina ou estreptomicina e a chamada doença dos poetas e dos artistas dizimava milhões de pessoas em todo o mundo.  Sua última atuação pelo Grêmio foi mais uma página de glória: o histórico Grenal de setembro de 1935, decidindo o campeonato da cidade no ano festivo do centenário da Revolução Farroupilha, vencido heroicamente pelo Grêmio por dois a zero. Lara saiu de campo para ser hospitalizado na Beneficência Portuguesa, onde encerrou a vida como o maior mito da história do imortal tricolor – a bem da justiça, nem Renato Portalupi, ídolo da era modera, o supera na linha do tempo.



No dia 8 de novembro, ainda repercutindo a morte do mito, o Correio do Povo publicou uma foto em que Lara aparece no momento em que sofreu o último gol da sua vida – precisamente o dia 15 de setembro de 1935, data da comemoração dos 32 anos do chamado “clube da Baixada”. Em jogo contra o Força e Luz pelo campeonato da Associação Metropolitana Gaúcha de Esportes Atléticos, AMGEA, uma espécie de liga dos clubes de Porto Alegre e arredores, Lara, atrás de Luiz Luz, não consegue defender o chute de Negrito.
Eurico Lara foi campeão citadino de 1920, 21, 22, 23, 25, 26, 1930, 31, 32, 33 e 35 e campeão gaúcho dos anos de 1921, 22, 26, 1931 e 32. Ídolo das famílias e das crianças, que sonhavam um dia “ser Lara”, foi sepultado com a bandeira do Grêmio e o seu funeral em carro público praticamente parou Porto Alegre. Infelizmente, não existe qualquer registro fonográfico ou cinematográfico deste homem incrível que dizem ter sido o maior goleiro que o Rio Grande do Sul e que entrou para a história como “o goleiro dos goleiros”, simplesmente “a Lenda”.

1953, ano do futebol a portas fechadas em Porto Alegre

Reprodução da Revista do Globo, publicação que durou de 1929 a 1967, editada em Porto Alegre.


1953 foi um ano de ouro para o futebol gaúcho, brasileiro e sul-americano. Ou, como escreveu Cid Pinheiro Cabral na Revista do Globo de 17 de outubro de 53, “foi o primeiro grande ano para o futebol profissional de Porto Alegre”. Cabral, na reportagem intitulada “Futebol a Portas Fechadas”, comemorava: “Neste ano atinge o futebol profissional de Porto Alegre uma prosperidade jamais sonhada”. Em seguida, contudo, observou: “Infelizmente, a popularidade alcançada está muito além da capacidade dos nossos estádios”.
O título da matéria “Futebol a Portas Fechadas” era uma referência ao fato de que, pela primeira vez na história futebolística da capital rio-grandense, parte dos torcedores que havia comparecido aos estádios para assistir aos jogos não conseguira entrar, por absoluto esgotamento da capacidade de acomodação nos diminutos e acanhados centros esportivos de então. E prosseguia o cronista: “Antigamente, lá de vez em quando, fechavam os portões em Porto Alegre antes das 14 horas. Mas isso só acontecia nos clássicos transcendentais, como Grêmio X Internacional, realizados em estádios que mal comportavam 10 mil pessoas. Em 1953, não. Em 1953, por ocasião do centésimo trinta Grêmio X Internacional, os portões do estádio dos Eucaliptos, com 22.500 expectadores, fecharam-se na cara de uns 2 mil a mais. E pela primeira vez isso aconteceu também em outros jogos.” Cid destacava o fato de a disputa Internacional versus Nacional (o da Chácara das Camélias) ter recebido cerca de 12 mil pessoas “em um estádio longínquo e sem acomodações, e ficaram na rua 2 mil retardatários”. O fenômeno se repetiu em outra partida – Internacional versus Força e Luz, o jogo do líder invicto contra o último colocado. Também a partida entre Renner e Internacional teve lotação esgotada.
Segundo o jornalista, “chegou, portanto, a hora de Porto Alegre – a hora do futebol a portas fechadas. Por paradoxal que pareça, futebol a portas fechadas quer dizer super popularidade. E super popularidade, em linguagem profissionalista, é um estado de bem aventurança.”
O fato do Grêmio estar quase concluindo as obras do Olímpico chegava em excelente hora, festejava o cronista: “A sorte de Porto Alegre é que o estádio do Grêmio Porto-alegrense, que abrigará, concluída a primeira parte do projeto, umas 35 mil pessoas, está andando a passos de gigante. A sorte é que o Internacional, cujo estádio na situação atual, apanha no máximo 23 mil pessoas, promete para breve uma nova forçada, no sentido de concluir o seu pavilhão central, o que ampliará em 12 mil a sua capacidade.”
É importante salientar que o futebol no Rio Grande do Sul, em 1953, tinha apenas meio século anos de existência esportiva e que só haviam sido realizadas quatro copas do mundo. Em todo o mundo, aliás, pela primeira vez se descobrira que ele, à exceção de alguns países, era agora o esporte mais popular de todos, superando o boxe, o remo e até o turfe.
Logo na abertura da sua matéria, Cid Pinheiro Cabral diz: “Positivamente, a loucura do futebol chega ao auge”, lembrando que, durante a construção do Maracanã, muitos dos seus idealizadores estimavam que o hoje Maraca só lotaria dali a muitos anos, o mesmo acontecendo com o Pacaembu, este com capacidade para 80 mil pessoas. E no entanto os dois já tinham lotado seus jogos muitas vezes nos últimos anos.
O fenômeno não era brasileiro e sim sul-americano, apontava o jornalista: “Eis que agora começa o problema a afligir também os mentores do futebol uruguaio, argentino e chileno. O Estádio Municipal de Santiago, remodelado em 1945 para o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), não corresponde mais ao interesse que está despertando, no Chile, o mais popular dos esportes.”
E prosseguia em sua matéria na Revista do Globo daquele ano de 53: “A Argentina tem dois grandes estádios recentemente construídos – o do Racing e o do Huracan. Mas ainda o do River Plante conserva a primazia. É o mais amplo mas começa a tornar-se pequeno. Mas também o velho estádio Centenário, inaugurado em Montevidéu por volta de 1930 sem estar concluído, torna-se objeto de atenção dos dirigentes do futebol uruguaio. Já não comporta mais o interesse que certas temporadas internacionais começam a despertar e por isso vai ser ampliado em mais 30 mil lugares.”
Fechando sua matéria “Futebol a Portas Fechadas”, Cid Pinheiro Cabral ironizava, um tanto acidamente: “Ao depararmos com esse espetáculo – que é continental – da luta da popularidade do futebol contra a relativa exiguidade dos estádios, lembramo-nos daqueles apressados e mal inspirados profetas que, por volta de 1933-34, preconizavam o fim do futebol no Brasil por haver cometido o imperdoável pecado de profissionalizar-se. Paz à alma dos que já morreram.”

quinta-feira, julho 19, 2018

Friendenreich, o mito, esteve em Porto Alegre em outubro de 1953

Arthur Friendenreich, filho de pai alemão e mãe negra, foi o primeiro grande astro do futebol brasileiro e um dos jogadores mais habilidosos de todos os tempos - dizem aqueles que o viram jogar, especialmente no Paulistano e no São Paulo. Nascido em 18 de julho de 1892 - portanto, faria 126 anos este mês - El Tigre - Friendenreich foi um centro-avante de rara inteligência, tendo feito muitos gols entre as décadas de 10 e 30 do século passado, quando abandonou o futebol, já devido à idade e ao fato de não concordar com a profissionalização da atividade. Pertencente à época romântica do "esporte bretão", não ganhou nenhum dinheiro com o futebol, tanto que, ao se afastar dos campos, passou a trabalhar em uma fábrica de bebidas. Morreu em setembro de 1969, morando em uma casa que o São Paulo, clube, lhe havia dado. 
Em outubro de 1953, já com 51 anos de idade, Friendenreich esteve em Porto Alegre, onde assistiu a um jogo do Grêmio contra o Floriano (Novo Hamburgo) e foi alvo de uma série de homenagens. A reprodução acima é da Revista do Globo. El Tigre faleceu em 1969, aos 77 anos

quarta-feira, julho 18, 2018

Força e Luz, outro clube que desapareceu do cenário esportivo de Porto Alegre

Um dos pequenos grandes clubes da capital, o Força e Luz é outra agremiação esportiva que não mais existe. Formado, em sua origem, por funcionários da Carris - empresa pública de bondes - o Força e Luz chegou a ter o melhor estádio de Porto Alegre - localizado onde, dizem, será mais um hipermercado Bourbon, entre a Ipiranga e a Protásio Alves, nas proximidades do quartel dos Bombeiros. O "estádio" da Timbaúva - esse era o nome - sediou grandes jogos, embora fosse uma modestíssima quadra de esportes, como eram todos os centros esportivos da primeira metade do século 20 em Porto Alegre. Mas o "ferrinho" tem suas glórias e sua história, como se vê nesta matéria do Correio do Povo de 1935.

Grêmio é campeão de 1960 goleando o Pelotas por 7 a 0

Em 8 de fevereiro de 1961 o Grêmio e o Pelotas, de Pelotas, fizeram a final do campeonato gaúcho de futebol do ano de 1960, que, naquela época, era disputado por regiões, com quatro finalistas - o Grêmio, primeiro da Região Metropolitana, o 14 de Julho, de Santana do Livramento, classificado pela região da Fronteira, o Nacional, de Cruz Alta, da região da Serra, e o Pelotas, representando o Litoral. No dia 8 de fevereiro, no estádio Olímpico, o time da capital aplicou a implacável goleada de 7 a 0 no Pelotas, sagrando-se campeão do Estado. Gessy fez três gols, Juarez dois, Élton um e Cardoso também um. O tricolor formou com Henrique, Sérgio, Airton Pavilhão e Ortunho; Élton e Enio Rodrigues; Cardoso, gessy, Juarez; Milton Kuelle e Vieira. O técnico era Osvaldo Rolla. Airton, que faleceu em 3 de abril de 2012, foi considerado por Pelé o maior zagueiro que ele viu jogar em todos os tempos.

terça-feira, julho 17, 2018

A "ampliação" do "estádio" dos Eucaliptos para a Copa de 1950 no Brasil

Sessenta e quatro anos antes da Copa dos 7 a 1 no Brasil, o nosso país sediava a quarta edição do evento, a primeira depois da Segunda Grande Guerra e que contava unicamente com paises convidados - muitos deles se recusaram a vir, alegando as mais variadas razões. Tal como  hoje, o torneio internacional foi dividido entre várias capitais, incluindo Porto Alegre, que sediou jogos da Suíça Iugoslávia e México. A "sede" era o modestíssimo estádio dos Eucaliptos, do Inter, remodelado e ampliado para tais jogos,Na verdade, Porto Alegre - em que pese ser a terceira força futebolística brasileira já então - não contava com nenhum estádio digno desse nome, o que envergonhava os gaúchos e motivava a campanha pela construção de um estádio municipal, nos moldes do Pacaembu e Maracanã. Algo que pode se perceber, perfeitamente, nesta foto do Correio do Povo de abril de 50.
J. Bosco, Amazônia Jornal. A Charge Online.

Renner X Floriano: um mudou de nome, o outro foi extinto

Estão aí, no velho Correio do Povo de 1953 - ano do cinquentenário gremista - dois clubes de futebol que, nominalmente, não mais existem, embora tenham deixado saudades e muita história no esporte do Rio Grande do Sul: o Esporte Clube Novo Hamburgo, que existe sim, e muito bem, mas queentão se chamava Floriano, e o Renner, campeão gaúcho de 1954, com Ênio Andrade e companhia. O Novo Hamburgo, ex-Floriano, chegou ao seu máximo quando, em 2017, conquistou o título estadual gaúcho - também disputou o campeonato brasileiro de 1979, em única participação (aquela em que o Inter foi campeão). Já o Renner simplesmente foi extinto no final da década de 50, por decisão de seu grande patrono, o industrial A.J.Renner. Já o Nóia, apelido carinhoso, com sua cores branco e azul anil, tem mais de 100 anos de história, tendo se chamado, originalmente, Novo Hamburgo. Obrigou-se a usar o nome Floriano em decorrência da Segunda Grande Guerra, quando qualquer coisa que lembrasse os países do eixo era mal vista pelas autoridades. O Renner - talvez devido ao poderio econômico da grande empresa que ainda existe - conservou-se como Renner.
*O Esporte Clube Novo Hamburgo foi fundado em primeiro de maio de 1911, em NH, e só passou a se chamar Floriano em 1942. No final da década de 60 voltou à sua denominação original. Curiosamente, o site oficial do clube, bem pobrezinho, não registra nada disso. 

sábado, julho 14, 2018

A primeira emissora de televisão de Alagoas só foi inaugurada em 1975

O Rio Grande do Sul inaugurou a sua primeira emissora de televisão em dezembro de 1959 - foi a TV Piratini, canal 5, hoje SBT. Ao longo do tempo, os demais estados da federação passaram a contar com tais emissoras, mas Alagoas só inauguraria o seu no ano de 1975, 25 anos depois da primeira transmissão de tevê no Brasil, feita pela Tupi, de São Paulo, em setembro de 1950.
Reprodução do Correio do Povo

terça-feira, julho 10, 2018

Friendenreich, o mito, é homenageado em Porto Alegre: 1953

Arthur Friendenreich, filho de pai alemão e mãe negra, foi o primeiro grande astro do futebol brasileiro e um dos jogadores mais habilidosos de todos os tempos - dizem aqueles que o viram jogar, especialmente no Paulistano e no São Paulo. Nascido em 18 de julho de 1892 - portanto, faria 126 anos este mês - El Tigre - Friendenreich foi um centro-avante de rara inteligência, tendo feito muitos gols entre as décadas de 10 e 30 do século passado, quando abandonou o futebol, já devido à idade e ao fato de não concordar com a profissionalização da atividade. Pertencente à época romântica do "esporte bretão", não ganhou nenhum dinheiro com o futebol, tanto que, ao se afastar dos campos, passou a trabalhar em uma fábrica de bebidas. Morreu em setembro de 1969, morando em uma casa que o São Paulo, clube, lhe havia dado. 
Em outubro de 1953, já com 51 anos de idade, Friendenreich esteve em Porto Alegre, onde assistiu a um jogo do Grêmio contra o Floriano (Novo Hamburgo) e foi alvo de uma série de homenagens. A reprodução acima é da Revista do Globo. El Tigre faleceu em 1969, aos 77 anos.

domingo, julho 08, 2018

No tempo em que Walter Casagrande era jovem, rico, libertário e viciado




Walter Casagrande, hoje comentarista de futebol da Rede Globo, gordo e pai de família, teve a coragem de reconhecer, publicamente, em rádio, jornal, revista e tevê, e também no livro em que conta a trajetória da sua vida, os problemas que enfrentou com drogas e álcool no início da carreira. Nascido na capital em abril de 1963, hoje com 55 anos, Casagrande marcou época nos anos oitenta no futebol paulista  por suas belas jogadas e suas posições políticas libertárias e de esquerda - bem ao estilo da época que precedeu a redemocratização do Brasil. Com apenas 18 anos ele foi atuar no Corinthians, clube que, por sua rebeldia, o emprestou à Caldense, de Poços de Caldas, MG, reintegrando-o à equipe em 1982. Foi por essa época que surgiu a "democracia corintiana", liderada, entre outros, pelo "doutor Sócrates". Jovens e rebeldes, imaturos, ricos e famosos, eles se envolveram com muitas coisas extra-campo - no caso de Casagrande, com o uso de cocaína, como se vê nesta matéria do Correio do Povo de 1983, quando o atacante paulista contava apenas 20 aninhos. Hoje, o "Casa", como chamam, é um conhecido comentarista esportivo e renega grande parte do seu passado turbulento e autodestrutivo.