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domingo, dezembro 21, 2008



Conselheiro X.

* A derrota de Evander Holyfield, ontem, na Áustria, foi mais uma dessas sacanagens do boxe profissional. Evander lutou 12 rouds, foi superior, mostrou - claro - mais técnica que o gigante de 2,13 cm. Assisti a luta e, assim como quase todos os espectadores presentes no estádio, me irritei com a decisão injusta. Não é preciso entender muito de boxe para ver que o americano foi garfeado. No final ele até que se controlou, mostrando apenas moderadamente sua revolta e frutração. Bom, boxe profissional envolve muito dinheiro, e Holyfield era o azarão na bolsa de apostas.


* O programa Era uma Vez em Porto Alegre, que vai ao ar às 8h15min dos domingos, na Rádio Gaúcha, é bem feito e tem emoção na voz de Zé Adão Barbosa. Mas peca pelos erros crassos de informação. No último que ouvi, sobre a passagem do dirigível Zepelin por Porto Alegre, em 1934, cita-se a "explosão" do Hindenburg (que virou livros e filmes) como o fim da era dos dirigíveis. Ora, todo mundo sabe que o Hindenburg incendiou-se ao descer, em Nova Jersey. Explodir é uma coisa, incendiar é outra. É só fazer uma consulta histórica para evitar essas gafes.


* Lembram-se da época em que se falava em "cooptado" para se refirir a alguém que era aliciado ou que cedia às tentações do outro lado, geralmente na política? Como a imprensa vive de modismos - e, no geral, é burra e despreparada - agora todo mundo, desde o mais simples reporterzinho de rua até figurões da mídia, optaram por banir a palavra "muito" dos noticiários. Agora tudo é "bastante". Bastaria uma consulta ao dicionário para se ver que bastante quer dizer o suficiente, o que basta. Pois ouço, e com frequência, repórteres e comentaristas dizer até "bastante ruim" para designar algo que vai de mal a pior. Ora, bastante ruim é o mesmo que dizer "suficientemente ruim". E os tais manuais de redação - que hoje não estão tão em vogo como há alguns anos - silenciam a esse respeito e não botam um freio ao disparate.


* O quadro do repórter inexperiente do CQC, na Bandeirantes, foi uma grande sacada e realmente faz rir. O entrevistado pensa que está na frente de um reporterzinho iniciante, que sequer sabe fazer pergunta, erra nas informações que passa sobre o entrevistado e se retorce de nervosismo flagrante e constrangedor. Isso criar uma situação inusitado e realmente divertida. Foi assim como Agnaldo Timóteo, que o entrevistador chamava de "Agnaldo Rayol" repetidas vezes. A irritação do Timóteo (aquele que, ao ser eleito deputado pelo PDT, ligou para a mamãe e que adora se locupletar com qualquer boquinha) foi pra lá de engraçada.


* A Band - com aquele amadorismo que a caracteriza - resolveu agora lançar um pastiche da antiga Escolinha do professor Raimundo, do Chico Anysio na Globo. O professor é o Sidnei Magal, o cigano de Sandra Rosa Madalena, sujeito até simpático que foi totalmente fabricado pela indústria fonográfica no final dos anos setenta. Aproveitou a fama, claro, e nem é culpa dele. Bom, mantiveram os mesmos personagens, com novos atores. Só que estes não dão conta do recado e o programa é terrivelmente fraco. A Band tem dessas: falta uma linha de orientação, e tudo é feito meio nas coxas, geralmente sem continuidade. A propósito: alguém conhece alguma pessoa - uma única sequer - que assista as novelas da Bandeirantes?


* Chico Anysio andou por Porto Alegre, onde trata seus problemas de saúde na Santa Casa, pelo que me disseram. Está velho, decadente e, mesmo tentando demonstrar bom humor, mostra-se ressentido com a Globo, que não lhe põe mais no ar. Ele foi realmente engraçado, tempos atrás. Para mim era mais humorista do que o Jô Soares. Fosse ele eu parava de reclamar, entendia que meu ciclo havia passado e me retirava para um sítio, criar cabritos. Ator que vive demonstrando ressentimento e mágoa com a emissora que o contrata acaba enchendo o saco. Ele, é claro, tem admiradores - e merece - mas tem que cair na real.


* O Brasil descobriu bilhões de barris de petróleo (a milhares de metros) que dormem no fundo do nosso mar. Alguém lembrou daquele técnico norte-americano que disse, lá pelos anos cinquenta ou início dos sessenta, que o Brasil não tinha petróleo. O sujeito foi tachado de representante do imperialismo, de estar a serviço da CIA e das multinacionais - uma espécie de gringo que atentava contra os interesses brasileiros. Só que não é bem assim: o gringo disse que o Brasil tinha pouquíssima reservas de petróleo em solo continental, e que a esperança maior estava realmente no mar. Mas ficou a versão histórica: o gringo era mesmo um imperialista que nos mentiu deliberadamente.


* Esses dias me lembrei do Plínio Marcos, uma figuraça. Em 1979 eu atendia o Centro Acadêmico da FAMECOS e nós o convidamos para dar uma palestra para os estudantes de Jornalismo, essa categoria ingênua que reverencia os figurões da mídia (depois descobrem as canalhices deles, mas só bem depois). Fomos buscá-lo no aeroporto. Plínio fazia um tipo, compunha um personagem. Já tinha nome e, apesar de se dizer sempre duro, faturava mais do que eu e vocês. O que me chamou a atenção, de cara, nele, foi que não tinha um dos dentes da parte inferior da boca. Depois entendi que aquilo fazia parte do personagem - ele queria ser um cara desdentado, como os marginais do povão que retratava em suas peças. Dava charme, inclusive - pasmem - com as mulheres. Vá entender. Comprei um livro dele, por sinal muito ruim. Marcos se orgulhava de escrever mal, de sopetão. Anos depois encontrei-o em São Paulo, na frente de um cinema, vendendo seus livros como um camelô vende CDs na rua da Praia. Gostava disso. Se dizia injustiçado mas não viveu mal. Se der, um dia vou assistir á encenação de qualquer peça sua, de preferência Dois Perdidos em Uma Noite Suja, para ver se era realmente bom. Talvez fosse mesmo.


* Paulo Henrique Amorim, aquele da pronúncia afetada, escreveu uma biografia do seu patrão, o Bispo Edir Macedo. E Pedro Bial - que as menininhas adoram, o "Pedro Miau" - escreveu outra, do então patrão, Roberto Marinho. Boa forma de garantir o emprego vitalícia e, de quebra, pegar algum financiamento das leis de incentivo à cultura. Mente pro tio, mente.


* Descobriram "agora" que as leis de incentivo à cultura são uma grossa picaretagem. Que novidade tão novidadeira! Toda a "classe cultural" sempre soube disso e todos silenciaram. Houve muita festança e grossa roubalheiro com o dinheiro captado. E quanto pior o projeto - e mais famoso o autor - mais sucesso tinha o "projeto de valor cultural". E nessa ninguém, ou poucos, são santos. O Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, o IEL, por exemplo, republicou livros do Moacyr Scliar, sem dúvida um bom escritor. O que eu não entendo é como um Instituto que deveria fomentar a literatura e abrir portas para novos autores tenha optado por financiar um autor consagrado, que poderia publicar em qualquer grande editora brasileira. Enquanto isso os pequenos, talentosos e desconhecidos gramam anos e anos para conseguir alguma coisa, e geralmente nem conseguem.


* Scliar é "imortal", membro da Academia Brasileira de Letras. Coincidentemente, revirando arquivos de jornais de 1976, encontrei uma matéria em que ele dizia que jamais, jamais, entraria para a Academia ou se candidaria a ela. Deveriam ter sido os "arroubos da juventude" (como disse o Collor). Hoje, entre chás e torradas, ele deve ter opinião bem diferente a respeito.


* E o Millor Fernandes, hein? Com 84 anos, está aí, dando show, como se fosse um garoto. Nessa idade muita gente já era ou se amansou totalmente.


* Falam tanto que a água irá se tornar um tesouro no futuro e que guerrar surgirão pela posse de fontes de água. Pedem que ela seja considerada um patrimônio, etc. Sinceramente, não entendo isso, e meu raciocínio - talvez burro - é o seguinte: três quartas partes do Planeta são formadas por oceanos imensos, setenta por cento da Terra é água salgada. Como a gente sabe, existem usinas de decantação e de transformação da água salgada em água potável. Países do Oriente Médio - Kuwait, Israel, Arábia Saudita - fazem uso de tal tecnologia há muito tempo. Então, qual o problema? Fala-se em custos altos, mas isso - quando o bicho pegar - não deve ser impecilho. Nossas capitais e cidades litorâneas poderiam muito bem ser abastecidas pela água do mar, devidamente tratada - Floripa, Rio, Vitória, Salvador, Recife, Recife, etc. Vivem aí a maioria da população brasileira. E não vi nenhum jornalista nem técnico fazendo qualquer indagação ou falando a respeito.

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