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segunda-feira, setembro 30, 2013

Segundo americano, brasileiros têm horror ao trabalho manual e adoram uma boquinha no serviço público do Governo

Continuo publicando trechos do livro Vida no Brasil, do norte-americano Thomas Ewbank, que visitou o Rio de Janeiro em 1846, na época do império. O livro é delicioso e talvez o mais completo em observações aguçadas sobre a nossa terra e a nossa gente no século XIX, mas vale até hoje, já que o caráter nacional, de um modo geral, pouco se modificou desde então. Exceto, é claro, nas regiões de imigração européis, mas aí é outro departamento.
Mais tarde, de volta aos EUA, Thomas se tornou uma importante personalidade, exercendo influentes cargos públicos. Quando visitou o Brasil, onde morava um irmão seu, tinha 54 anos. O livro foi editado aqui somente em 1973, pela editora Itatiaia, de São Paulo. 
Vamos lá: trabalho e escravidão. Ou melhor, escravidão dos negros e o horror ao trabalho (que não seja o serviço público governamental) dos nativos, na visao de Ewbank. Escrito em forma de diário, Vida no Brasil é um volume grosso e ainda nem acabei de lê-lo. No dia 21 de março, depois de quase cinquenta dias no Rio, o viajante anotou o seguinte:
 
"A tendência inevitável da escravidão por toda parte é tornar o trabalho desonroso, resultado superlativamente mau, pois inverte a ordem natural e destrói a harmonia da civilização. No Brasil predomina a escravidão negra e os brasileiros recuam com algo semelhante ao horror diante dos serviços manuais. Com o mesmo espírito que as classes privilegiadas de outras terras, dizem que não nasceram para trabalhar mas para dirigir. Interrogando-se um jovem nacional de família respeitável e em má situação financeira sobre porque não aprende uma profissão e não ganha sua vida de maneira independente, há dez probabilidades contra uma de ele perguntar, tremendo de indignação, se o interlocutor está querendo insultá-lo! "Trabalhar! Trabalhar" - gritou um deles. "Para isso temos os negros". Sim, centenas de famílias têm um ou dois escravos, vivendo do que os mesmos ganham.
"O dr. C. diz que um jovem prefere morrer de fome a se abraçar a uma profissão manual. Conta que há alguns anos aconselhou uma pobre viúva, que tinha dois filhos rapazes, um de catorze e outro de dezesseis, a encaminhá-los em ofícios. A viúva ergueu-se, deixou a sala e nunca mais falou com ele, embora tivesse fornecido seus serviços profissionais gratuitamente à família durante oito anos. Recentemente, foi abordado por um funcionário do Departamento de Polícia, que se deu a conhecer como o filho mais velho da viúva e revelou que possuía um cargo satisfatório, no qual ganhava trezentos mil réis por ano - 150 dólares. Ser empregado pelo governo, na Polícia, é honroso, mas descer abaixo de empregos do governo, mesmo para ser negociante, é degradante. Como exemplo do sentimento geral, serve o seguinte cujas personagens são conhecidos meus. Um cavalheiro de 18 anos foi convencido a honrar uma casa importadora com seus serviços de escritório. Um pacote, que não era maior do que uma carta dupla, foi-lhe entregue certo dia por um dos sócios da firma, com um pedido para que o levasse a outra firma, situada nas vizinhança. O jovem olhou para o pacote, em seguida para o negociante, tomou o pacote entre o indicador e o polegar, fitou novamente ambos, meditoupor um momento, saiu lentamente e, a alguns metros da porta da casa, chamou um negro, que carregou o pacote e o acompanhou até seu destino!
(...) "Ensinados dessa forma a fugir dos caminhos honrosos da independência, pode-se perguntar: como vivem? Vivem do poder público, sempre que podem."


Hoje Monica Bellucci faz 49 anos, Chacrinha completaria 93 e Daniel Filho faz 76.

domingo, setembro 29, 2013

Transmitida por Orson Welles, a "invasão dos marcianos" causou pânico naquele dia de 1938

Além de ator e cineasta genial, Orson Welles protagonizou um dos mais conhecidos episódios de pânico coletivo já registrados nos Estados Unidos. Foi em 1938, 30 de outubro, data que, nos EUA, é uma espécie de primeiro de abril brasileiro - o dia dos bobos, das brincadeiras e dos trotes.
No caso, levava-se ao ar a adaptação do famoso livro de H. G. Wells, The War of the Worlds, "A Guerra dos Mundos", publicado no ano de 1989 e um dos clássicos dos primórdios da ficção científica, narrando a invasão da Terra por seres alienígenas - marcianos, no caso. Na época acreditava-se na existência de uma civilização marciana e nos famosos "canais" do planeta vermelho.
Nesse dia, por volta das 8 horas da noite, a emissora Columbia Broadcasting System, CBS, de Nova Iorque, passou a transmitir ao vivo a adaptação do romance encenada no The Mercury Theatre. Super-realista, muito bem feita, a peça - uma adptação de Howard Koch - foi tida como um fato verdadeiro, embora vários avisos, antecedendo o programa e mesmo ao longo deste, avisassem que aquilo era apenas ficção. Não adiantou: mal o "Theatre Mercy" iniciou a sua introdução padronizada, tocando músicas de dança, muito ouvidas em hotéis e salões de baile, a música cessou e entrou a voz de um locutor: "Senhoras e senhores, interrompemos a nossa programação de dança para um boletim especial da Intercontinental Rádios News. Aos 20 minutos para as 8 horas, o professor Farrel, do Observatório do Monte Jennings, em Chicago, comunicou haver observado uma série de explosões de gás incandescente a intervalos regulares no planeta Marte. O espectroscópio indica que o gás é hidrogênio e se dirige para a Terra com fantástica velocidade (...)"
Minutos depois, a música seria interrompida novamente para outros boletins, dando conta de que o Governo norte-americano havia solicitado aos observatórios que viagiassem Marte, uma vez que um astrônomo canadense havia confirmado as explosões iniciais e que um abalo, "quase da intensidade de um terremoto" havia ocorrido perto de Princeton. Em breve as informações se tornaram mais alarmantes: "Informa-se que um enorme objeto flamejante, possivelmente um meteorito, caiu numa fazenda nas vizinhanças do Grovers Mill, Nova Jersey. O rastro de luz no céu foi visto num raio de centenas de quilômetros, e o impacto foi ouvido em Elisabeth, muito ao norte".
O pânico começou a se instalar entre ou ouvintes, que julgavam tratar-se de autênticos boletins jornalísticos, tanto que várias pessoas pegaram seus automóveis e saíram a procurar o local da queda, incluindo aí o próprio diretor do Departamento de Geologia da Universidade de Princeton. O próximo informe era ainda mais alarmante: "O flamejante objeto que caiu do céu não era meteorito, mas um enorme cilindro de 30 metros de diâmetro, semi-enterrado numa cratera. O professor assegura que o cilindro é, positivamente, extraterrestre".
Quando isso foi levado ao ar, os telefones da polícia e dos jornais de inúmeras cidades começaram a estrilar histéricamente, com multidões apavoradas perguntando se aquela história era verdadeira - só o Times recebeu 875 chamadas. O mesmo aconteceu com o escritório da Associated Press de Kansas City. As ligações vinham de diferentes cantos do país - Los Angeles, Salt Lake City, do Texas. Algumas pessoas asseguravam ter visto as chamas e um velhinho, vestindo apenas pijama, correr para a casa do vizinho, dizendo "não querer morrer sozinho." Em bando, congestionando todas as vias de saída da cidade, os nova-iorquinos amontoavam-se em seus carros para fugir da "invasão marciana". Alguns homens se ofereceram para lutar e "expulsar" o invasor e uma mulher tentou o suicídio ingerindo veneno - só não conseguiu pois o marido conseguiu tomar-lhe os comprimidos das mãos. Em algumas localidades do Alabama o povo se reuniu para rezar e centenas de médicos e enfermeiros se apresentavam para prestar serviços. Pessoas com crises nervosas, muitas delas em estado de choque, baixavam os hospitais - somente na localidade de Newark foram 15.
Nessas alturas o monstro marciano já tinha mostrado a sua cara e já fazia estragos incríveis. Conforme o programa "a batalha que teve lugar esta noite terminou com a nossa derrota (era a voz de um capital do Exército) (...) Sete mil homens esmagados pelos pés de metal do monstro ou reduzidos a cinzas pelo raio quente. (...) O monstro domina a parte central de Nova Jersey (...) As estrada para o norte, para o sul e para o oeste estão congestionadas pelo tráfego humano".
O invasor marciano era mesmo de aparência apavorante - uma espécie de serpente cinzenta, se arrastando sobre tantáculos, a boca em forma de V, "com as salivas pingando dos lábios sem borda, que parecem tremer e pulsar."
Orson Welles, apesar de já conhecido em seu País, ganhou notoriedade mundial com o episódio da "invasão dos marcianos". Ele contava apenas 28 anos de idade e ainda não havia feito o seu célebre filme - Cidadão Kane, de 1941. De qualquer forma a "invasão alienígena" de 1938 mostrou a que ponto as pessoas são influenciáveis e, de certa forma, como isso é contagioso.

Hoje Anita Ekberg faz 82 anos e Cid Moreira 86.

A lentidão mental dos brasileiros

"Esta uniformidade do calor tropical pode ser propícia à saúde e permitir a vida até elevada idade, mas creio que também provoca certa lentidão intelectual. Existe uma relação evidente entre a meteorologia e o cérebro; os espíritos enérgicos medram melhor onde se alternam o calor e o frio, as calmarias e as tempestades. Sinto uma crescente tendência à ociosidade, tanto mental quanto física, e posso compreender facilmente por que as pessoas que visitam os trópicos se cansem da verdura invariável e anseiam pela neve e o gelo, assim como pela renovadora influência da primavera setentrional."
 
Por acaso retirei da biblioteca municipal um livro chamado Vida no Brasil, do norte-americano Thomas Ewbank, que esteve no Brasil em 1846, durante o Império, quando tinha 54 anos. Quer dizer, esteve no Rio de Janeiro e anos depois, de volta à sua terra, escreveu e publicou suas impressões sobre a terrinha. O livro é, de fato, muito bom e fruto de observações inteligentes de um homem que não manifestava preconceito com o Brasil, país onde vivia um irmão seu, casado com uma brasileira, mas também não se furtava a observar as coisas sem medo de tocar nas feridas, inclusive as coisas ruins não percebidas pelos tupiniquins  (e que, vendo bem, são formadoras do caráter nacional e ainda subsistem em diferentes e várias formas, ainda que difusas). Por exemplo, a crueldade com os escravos da parte de senhores cruéis, a indolência tropical das classes superiores, a má vontade, ou mesmo ojeriza, para com os trabalhos braçais, os costumes, a paisagem, as festas religiosas e as superstições religiosas envolvendo os santos. Ainda não acabei de ler a obra, que não deve ser lida de corrido e sim saltando algumas descrições muito técnicas e  específicas sobre coisas brasileiras.
Em certo trecho do livro Thomas se surpreende com o hábito brasileiro de se retirar o chapéu na presença de pessoas importantes ou ao se entrar em uma casa de família, algo que ele considera uma coisa meio oriental e que o divertia. Depois disso comecei a notar que, realmente, nos filmes americanos ninguém tira chapéu em respeito a ninguém - se entra com ele em qualquer local, em casas, bares etc.
Apesar de ser uma obra de pimeira, muito bem escrita, só foi publicada no Brasil em 1973, mais de cem anos depois de ter saído na terra do Tio Sam. Só aí dá para perceber um pouco do nosso caráter e da nossa lentidão intelectual... Na página 66 da edição da editora Itatiaia, de São Paulo, encontrei o trecho acima, que assino embaixo.  Resolvi transcrever, por lentidão intelecutal... (V.M.)

sábado, setembro 28, 2013

Duke, hoje, em O Tempo, de Minas Gerais (Charge Online)
Hoje Brigitte Bardot completa 79, Tim Maia faria 71 e a atriz Patrícia França festeja 42.




sexta-feira, setembro 27, 2013

Caso Simpson: racismo às avessas?


Um caso de racismo - só que às avessas, desta vez beneficiando uma pessoa negra.
Assim, em linhas gerais, pode ser entendida a absolvição do ex-astro de futebol americano O.J.Simpson, 48 anos, na década de 70, uma espécie de Pelé do esporte mais popular dos EUA. Simpson - ou Orenthal James Simpson - jogou muitos anos no Buffalo Bills.O julgamento teve seu desenlace em 3 outubro de 1995, em Los Angeles, um ano depois da brutal morte de Nicole Brown Simpson (na foto, com ele), ex-mulher de O.J., e do amigo dela, Ronald Goldman, fato acontecido em 12 de junho de 1994.

O julgamento - na verdade um grande show - durou 372 dias até o veredito final e consumiu nove milhões de dólares do contribuinte norte-americano. Simpson teria gasto de quatro a sete milhões com a sua equipe de advogados e de especialistas - só um perito em testes sanguíneos cobrou 100 mil dólares para dar seu testemunho no tribunal. Calcula-se que 60 milhões de pessoas, somente nos EUA, acompanharam o julgamento pela televisão, incluindo aí o então presidente Bill Clinton. O resultado deixou muita gente estupefata, pois os jurados deram um veredito que contrariava todas as evidências. Tal resultado, no entanto, pode ter evitado a eclosão de novos distúrbios raciais na segunda maior cidade americana, um barril de pólvora sempre prestes a explodir.
A absolvição de Simpson foi comemorada pelos negros dos Estados Unidos, que viam na acusação contra o astro do beisebol mais uma atitude racista da polícia de Los Angeles. E foi a polícia que, em última análise, pôs tudo a perder - talvez até, por suas falhas, colocando em liberdade um assassino frio e calculista. A acusação alegou que Simpson matou sua ex-mulher por causa de um ciúme doentio - ele imaginava que ela estava tendo um caso com um dos seus amigos.O crime aconteceu na noite de 12 de junho de 1994, no jardim da casa de Nicole, uma ex-garçonete que dele se divorciou em 1992.
Ela morava em um dos bairros mais chiques de Los Angeles - cidade marcada por profundas divisões raciais (brancos, negros e latinos) e por uma incontrolável guerra de gangues na periferia. O assassino atacou as duas vítimas entre 22h15 e 23 horas, com uma arma que nunca foi encontrada - um instrumento contundente que deixou uma poça de sangue no local, constatando-se que as vítimas lutaram muito contra o agressor. Não houve testemunhas e todas as provas eram circunstanciais. Ron Goldman, o amigo de Nicole, aparentemente deu um tremendo azar, pois foi a casa desta apenas para devolver os óculos esquecidos pela mãe de Nicole no restaurante onde ele trabalhava, e acabou encontrando a morte. O..J. Simpson foi preso cinco dias depois pela polícia e formalmente acusado pelo crime.
Contra ele pesaram muitas evidências, especialmente suas reações imediatas após o fato: deixou uma carta na qual falava em suicídio e fugiu em um jipe, onde, no seu interior, havia uma barba postiça e o passaporte. Também os exames de DNA (que, em 1994, já era empregado como prova nos EUA) comprovaram a existência do sangue das vítimas na casa de Simpson. Além disso ele não conseguiu explicar direito onde estava no horário do crime - alegou que jogava golfe em casa. Pior: uma luva sua foi encontrada no quintal da sua própria casa, com o sangue das vítimas. Comportalmente, outro fato que chamou a atenção foram as manifestações obsessivas de ciúme e as repetidas surras que Simpson aplicava na sua mulher, sempre ameaçando-a de morte. Mesmo sendo negro - mas nem de longe militante da causa - ultimamente o astro do beisebol só namorava loiras, como Nicole.A seu favor contou o fato de alguns dos policiais que atenderam a ocorrência serem notoriamente racistas, sendo suspeitos de haver plantado as provas. Segundo se apurou depois, os policiais não coletaram o sangue devidamente, carregando o material durante horas (abaixo de um calor fortíssimo) antes de deixá-lo no laboratório. Um deles, Mark Fuhrman, era abertamente racista e neonazista - embora nunca ousasse reconhecer isso. A defesa apresentou uma fita em que o policial fala com desprezo dos negros e, a certa altura, diz que "quando se trata de um crioulo, primeiro você prende e depois faz as regras." Como o jurí, de doze pessoas, era formado majoritariamente por negros - entre eles havia apenas dois brancos e um hispânico - o fator racial foi decisivo.

O chamado "Caso Simpson" dividiu os Estados Unidos: logo após o julgamente uma pesquisa constatou que para 75% da população branca Simpson era o culpado, enquanto 78% dos negros acreditavam que ele era inocente. No total, 56% dos norte-americanos discordaram da absolvição, entre apenas 33% que concordaram.Provavelmente culpado, O.J.Simpson não tem do que reclamar: declarado inocente, ele ficou com a guarda dos dois filhos que teve com Nicole e ainda faturou muito dinheiro, vendendo entrevistas, reportagens e depoimentos sobre o caso. De qualquer forma, o caso Simpson chamou a atenção para as divisões raciais da sociedade americana, especialmente a de Los Angeles, cuja polícia é das mais violentas, racistas e corruptas dos Estados Unidos. (Texto e Pesquisa: V.M.)

Balém Bolshoi tem exibição proibida no Brasil

No início de 1976, quando Ernesto Geisel era o general-presidente do Brasil, Armando Falcão o seu ministro da Justiça e Leonid Breznev o homem todo poderoso da União Soviética, uma das mais importantes companhias de dançado mundo, o Balé Bolshoi, foi vítima da censura - em um dos episódios mais ridículos e constrangedores até mesmo para aquele governo ditatorial. Um programa a ser exibido pela TV Globo depois do Fantástico foi "vetado" pelas autoridades de Brasília simplesmente por ser russo - portanto, comunista.
A transmissão do programa do Bolshoi foi proibida de última hora, sem nenhuma explicação oficial sequer minimamente razoável. Aliás, nem houve proibição oficial e sim um telefonema entre Falcão e Roberto Marinho.  Mais tarde um ministro alegou que a exibição do programa com o Boshoi daria margem "a proselitismo ideológicos, ainda que indiretos." Que época, hein...

quinta-feira, setembro 26, 2013

1972: a primeira mulher a dirigir

Nem faz tanto tempo assim, mas já virou história: em março de 1972 pela primeira vez uma mulher era contratada para dirigir um ônibus de linha no Brasil. Foi em São Paulo e a moça - uma pioneira - se transformou em notícia nacional, como se percebe nesta nota do Correio do Povo de Porto Alegre, que recolhi da coleção do Arquivo Histórico do município. E ainda tem gente que é saudosista...

Monstro do Loch Ness foi uma brincadeira de cinco amigos que queriam se divertir


Foi uma brincadeira de cinco amigos, que certamente se divertiram muito. Quando o último deles estava para falecer, finalmente veio à tona uma das mais duradouras e fascinantes fraudes do século XX - a do "monstro do Lago Ness", ou "Nessie", uma criatura que teria sido avistada várias vezes ao longo dos últimos 1500 anos, nas Highlands. Pouco antes de morrer, Christian Spurling, o construtor do "monstro", revelou em detalhes como se construiu uma história fraudulenta que rendeu milhares e milhares de artigos, reportagens e até alguns filmes discutíveis. E que também rendeu muito dinheiro à indústria do turismo local.
O ancestral relato (na verdade, é da mitologia celta) de que, sob as águas profundas (em alguns pontos passa dos 220 metros) do Lago Ness, na Escócia, existiria um monstro nunca visto, provavelmente uma criatura pré-histórica, havia motivado o diário inglês Daily Mail, de Londres, a contratar o cineasta e "caçador de excentricidades" Duke Wetherell. Sua missão: encontrar evidências que provassem a existência de tal bicho. Em 1933, Duke seguiu para lá e concluiu que a "criatura aquática" realmente existia, com base em algumas pegadas que havia encontrado e fotografado. O jornal inglês estampou tais fotos como um furo sensacional, um furo mundial, o que desmoronou em poucos dias, quando se descobriu que aquilo provavelmente fosse as pegadas de um outro bicho ou simplesmente uma armação do "caçador".
Desmoralizado, Duke resolveu se vingar de seus antigos patrões: pediu a seu enteado Chistian Spurling, um especialista em bonecos, que fizesse para ele uma espécie de dinossauro aquático, ou uma serpente marinha. "Daremos a eles o que eles tanto querem", teria dito Wetherel.Com o "monstro" já feito, ( material plástico, um boneco acoplado a uma bóia semi-submersa) este foi até o Lago, em companhia de seu filho Ian e lá fizeram a famosa foto que iria correr o mundo.
Ao contrário do que muita gente pensava, a foto não era uma farsa - era apenas a foto verdadeira de um boneco criado. Aliás, por mais que os especialistas - fotógrafos, laboratoristas etc - tenham tentando encontrar evidências de fraude no retrato em branco-e-preto, nunca conseguiram provar que isso tivesse acontecido.
Com vistas a dar credibilidade à sua "espantosa" descoberta, Wetherell combinou com o ginecologista londrino, Robert Wilson (que estaria de visita ao local), para que este último assumisse a autoria do retrato, datado de abril de 1934. Wilson era considerado um homem acima de quaisquer suspeitas.Talvez com dores de consciência, ou porque o houvessem pressionado, Spurling acabou confessando tudo em março de 1994, no leito de morte. Ele era o último sobrevivente do grupo de cinco fraudadores (Duke, Wilson, Spurling, David Martin, Alastair Boyd) - na verdade um bando de brincalhões que mostraram a que ponto chega a credulidade humana. Ponto a favor deles: conseguiram manter um segredo por tantas décadas e certamente deram boas risadas. Típico humor britânico. (Pesquisa: V.M)
Hoje Luis Fernando Veríssimo faz 77 anos, Olivia Newton-John completa 65 e Gas Costa 68.



O show que não aconteceu

Em julho daquele ano de 1976 os Doces Bárbaros - Caetano, Gil, Gal e Betânia - deveriam se apresentar no Gigantinho, mas o show programado e anunciado não aconteceu devido a um, digamos, contratempo: Gil foi preso um pouco antes, em Florianópolis, por porte de maconha, ao lado de um outro integrante da banda. Achei este anúncio abaixo  em um exemplar do Correio do Povo, coleção do Arquivo Histórico de Porto Alegre.
   A propósito dos Doces Bárbaros, lembro da história de um locutor de uma rádio de Pelotas, meio casca grossa: em vez de dizer Doces Bárbaros ele disse: "e nós ouvimos, com os Doze Bárbaros..."

terça-feira, setembro 24, 2013

Alagoas, último estado brasileiro a ter televisão

Alagoas foi o último Estado brasileiro a inaugurar a sua primeira estação de televisão, em 1975, como vemos nesta notícia do Correio do Povo, de Porto Alegre. Coleção do Arquivo Histórico de Porto Alegre.

domingo, setembro 22, 2013

A tragédia do Constellation: 28 de julho de 1950, 51 mortos e o Rio Grande de luto


No dia 28 de julho de 1950, uma sexta-feira chuvosa em Porto Alegre e região, um “pavoroso acidente” aéreo, como noticiaram os jornais, enlutaria a Capital gaúcha: a queda do Constellation da Panair do Brasil matou 51 pessoas, quase todas pertencentes à “nata da sociedade” porto-alegrense. Morreram nomes como Maisonave, Berta, Blessmann, Rothfuchs, Dietrich, Fernandes, Frota. Morreram industriais, comerciantes do “alto comércio”, senhoras que freqüentavam colunas sociais, importantes funcionários públicos, políticos – alguns dos quais são hoje nome de ruas e avenidas.
A tragédia do Constellation – o mais luxuoso avião de carreira de então – consternou uma cidade de cerca de 400 mil habitantes cujo aeroporto de São João não passava de um simples campo de pouso que recebia, entre embarques e desembarques, 16 mil pessoas ao mês, com um movimento de menos de mil aeronaves. Mesmo assim era o terceiro aeroporto mais importante do país. O acidente da Panair mostrou a precariedade de suas instalações e tornou flagrante a necessidade de um novo “aeródromo”.
Foi a maior tragédia aérea daquela primeira metade do século XX no Brasil. Para nos situarmos no tempo: 1950 foi um ano agitado na política nacional, o ano das eleições que reconduziram Getúlio Vargas ao Catete, na então Capital Federal, a “Cidade Maravilhosa”, o Rio de Janeiro, onde o general Eurico Gaspar Dutra ainda governava. A campanha eleitoral estava iniciando naquele mês de julho e somente em agosto Gegê faria o seu primeiro comício em Porto Alegre, vindo da Fazendo do Itu, o seu retiro depois que fora apeado do poder. O governador gaúcho era Walter Jobim, cujas obras de eletrificação se tornaram vitais para a modernização do Estado. O prefeito, Ildo Meneghetti, mais tarde se tornaria governador. Em São Leopoldo, Mário Sperb comandava a municipalidade. Já o noticiário internacional descrevia o início da Guerra da Coréia, com o avanço dos coreanos do norte sobre o sul, derrotando as forças norte-americanas que apoiavam o regime sulista. A Guerra Fria estava no seu auge, e temia-se até mesmo um confronto nuclear com a Rússia.
Em julho, porém, o futebol era o principal assunto – a primeira Copa do Mundo depois do final da Segunda grande Guerra aconteceu no Brasil e, em junho, havia sido inaugurado o maior estádio do mundo, o Maracanã, palco de uma outra tragédia – a derrota do Brasil para o Uruguai e o choro de toda uma nação. Para o Rio rumaram milhares de pessoas, a fim de assistir os jogos e curtir as delícias de uma cidade ainda encantadora, com suas belas praias e agitada vida noturna. Bem mais modesta, Porto Alegre ainda tinha “footings” na rua da Praia, automóveis Buick e Studebaker e muitos cinemas no centro e nos bairros. Naquele dia, por exemplo, as páginas do Correio do Povo anunciavam para segunda-feira a estréia das películas “Traidor”, com Robert Taylor e Elisabeth Taylor, no cine Carlos Gomes, e “Beijou-me um bandido”, em “technicolor”, com Ricardo Montalban, Ann Miller e Cid Charisse, este no Imperial, a “mais luxuosa casa de espetáculos”, na rua da Praia.
Em uma época em que não havia estradas pavimentadas, e a BR-101 não existia nem mesmo em sonho, viajava-se de navios – uma viagem longa, que demorava dias. Ou então de avião, de preferência na Panair do Brasil, a maior e melhor companhia aérea de então. Viajar para o interior do Estado também não era uma tarefa fácil. Os ônibus percorriam estradas carroçáveis, atolavam com freqüência e demoravam dolorosas horas para chegar aos seus destinos. A empresa leal anunciava sua viagem de Guaporé a Porto Alegre com “saídas às segundas e quintas-feiras, às 10h15min”, “viagens em modernos ônibus tipo Gostosão”.
SEXTA-FEIRA CHUVOSA – Na sexta-feira, 28 de julho de 1950, chovia insistentemente em Porto Alegre e região, um tempo ruim que era agravado pelo nevoeiro em determinadas regiões. No Rio de Janeiro, o Constellation de prefixo PP-PCG da Panair deveria partir às 9h30min com destino à Capital gaúcha, uma viagem de de tres horas e meia até o chamado aeroporto da Air France, em Gravataí, oúnico em condições de receber aeronaves desse porte.
No início da manhã, no entanto, os passageiros foram comunicados que o embarque só aconteceria pela tarde, não explicando exatamente os motivos. No comando da aeronave estava o comandante Eduardo Martins de Oliveira, o célebre Edu, uma conhecida figura da sociedade carioca que integrava o não menos célebre Clube dos Cafajestes criado por Carlinhos Niemayer. O Clube se notabilizava por suas extravagâncias boêmias, pela vida “dissoluta” e pelas bebedeiras homéricas em que seus membros pregavam peças memoráveis uns nos outros – e em qualquer outra pessoa também.
O comandante Edu pilotava uma aeronave que fez história na aviação mundial. O Constellation, movido a hélice, com quatro motores, foi fabricado pela empresa Lockheed da Califórnia, tanto para fins civis como militares. Aeronave presidencial do presidente Eisenhower, foi o primeiro avião pressurizado de grande uso, distinguindo-se também pelo conforto, o que fez com que fosse adquirido por companhias como a Pan American, a Air France, a Lufthansa, a Varig, a Real, entre outras. Externamente tinha a forma graciosa de um golfinho.
Quanto à Panair do Brasil, notabilizou-se como uma das empresas pioneiras na aviação comercial brasileira, a qual dominou durante décadas. Pertencente à companhia Pan American, aos poucos foi sendo vendida a empresários brasileiros. Deixou saudades, até o seu término, em 1965, inspirando inclusive uma música cantada por Elis Regina: “A primeira Coca-Cola, me lembro muito bem, foi nas asas da Panair”. A canção é de Milton Nascimento e Fernando Brandt.
No dia anterior e na manhã daquela sexta-feira, 28, uma das passageiras do Constellation, a menina Nora Helena Fernandes, de 14 anos, aluna do colégio Bom Conselho – que retornava com toda a sua família das férias no Rio – escreveu em seu diário: “Dia 27 – Foi o dia mais formidável do mundo. Fiz passeios, apreciei pela última vez a maravilhosa viagem que fiz a esta encantadora cidade, e aprontei as malas para voltar ao Rio Grande e rever minhas amiguinhas. Estou louca de saudade.”
“Dia 28 – Hoje é a viagem de volta. A saída estava marcada para as 8 horas da manhã, levantamo-nos às 6h30min, porém às 7 horas fomos avisados de que o avião só sairia às 13 horas. O vovô fez tudo o que pôde para conseguir passagem no Constellation, mas mesmo apesar da “boa vontade” dos serventes da Panair nada foi possível fazer, de sorte que ele teve que ficar no OK.”
“Às 13 horas recebemos novamente aviso de que o avião só sairá às 14 horas.”
Mais tarde, escreveu ainda em seu diário, já dentro do avião: “Agora são 18h15min. Já...”
Mais não se pode ler, estava queimado: o diário de Nora Helena foi encontrado entre os destroços fumegantes da aeronave.
MORRO DO CHAPÉU – Pelo que se sabe, o Constellation – que partiu do Rio às 15h20min – aproximou-se de Porto Alegre às 18h15min, quando a noite de inverno já envolvia a cidade.
Chovia torrencialmente naquele momento – e isso significava sérios problemas de visibilidade. Por duas vezes o piloto tentou aterrissar no aeroporto de Gravataí, da Air France, que não contava sequer com radar, o que impedia visualizar as aeronaves.Mas era assim em todo o Brasil naquela época heróica da aviação.
Ao que tudo indica, houve problemas no rádio – talvez a bordo, talvez na torre. O comandante Edu, por duas vezes, tentou comunicar-se com a torre do aeroporto, e não obteve resposta. Em seguida, entrou em contato com a estação da Panair, alertando que os controladores de vôo não contestavam as suas mensagens. A Panair, por sua vez, interpelou a torre, a qual informou que era o PP-PCG que não a ouvia, o que explica a insistência do piloto em aterrissar em Porto Alegre e não – como seria recomendável – dar a meia-volta e retornar ao Rio de Janeiro ou procurar novo aeroporto. “Essa, ao que parece, a origem da tragédia, que a chuva, o teto baixo, a pouca visibilidade, transformaram em destruição e morte”, escreveu mais tarde o jornal Correio do Povo.
Por duas vezes o comandante Edu tentou em vão aterrissar, aproximando-se da pista única e em seguida arremeteu. Provavelmente, na tentativa de voltar para o Rio de Janeiro, voando a baixa altitude, na altura de São Leopoldo, o avião chocou-se contra o Morro do Chapéu, a pouco mais de 10 quilômetros da cidade, no sétimo distrito de São Leopoldo, Sapucaia, que ainda não era município (emancipou-se de SL somente em 1961). A explosão jogou pedaços da aeronave a quilômetros de distância e pedaços de corpos foram achados a cerca de 2 mil metros, totalmente calcinados. Hoje mais conhecido como Morro Sapucaia, o Morro do Chapéu é, atualmente, local de esportes radicais e detem a condição de ponto culminante do município, com 295 metros de altitude.
Uma testemunha, o agricultor João Raimundo da Silva, que residia nas imediações, testemunhou o acontecido. Ele estava em sua casa, tomando chimarrão, junto com a esposa – que, por sua vez, preparava o jantar – e ouviu o ruído de um avião que passava a baixa altitude. Ao correr até a porta, observou que a aeronave, após uma manobra, colidiu e explodiu contra o Morro do Chapéu, justamente onde existe uma abertura entre duas grandes pedras. O agricultor anotou o horário – eram precisamente 19h25 min.
A CIDADE ANGUSTIADA – Junto com mais dois vizinhos, João Raimundo seguiu imediatamente em direção ao local, ao qual chegaram depois de mais de uma hora de caminhada. Lá encontraram, junto aos destroços fumegantes, três corpos das vítimas. Em seguida chegaram outras pessoas, além das primeiras equipes de resgate, acompanhadas de repórteres e fotógrafos dos jornais da Capital.
Nessas alturas os boatos de que um grande avião havia caído nas proximidades de Esteio ou de São Leopoldo já havia alarmado Porto Alegre. O escritório da Panair do Brasil, na rua da Praia, encheu-se de pessoas angustiadas – familiares, amigos e conhecidos dos passageiros do Constellation, ansiosos por notícias. Em São Leopoldo – onde a agitação era ainda maior, com grupos se formando nas esquinas e bares para saber e comentar o assunto.
As turmas de resgate – militares, policiais, médicos, enfermeiros, voluntários, curiosos, repórteres – que seguiram para o local da tragédia seguiam por caminhos íngremes, escuros, tortuosos e escorregadios, abaixo de uma chuva inclemente. Eles foram guiados pelo agricultor Emilio Cassel, um dos proprietários daquelas terras e conhecedor da área. A caravana – com muitos jipes militares – levou mais de uma hora para alcançar o Morro do Chapéu, onde enormes labaredas ainda se alteavam contra o céu escuro. No topo do morro foram encontrados quatro corpos – duas mulheres, um homem e uma criança. Junto ao corpo da moça – que não apresentava tantas queimaduras – estava um exemplar do livro “Corrente”, do escritor austríaco Stefan Zweig, conforme anotou o repórter do Correio do Povo. A forte cerração atrapalhava a visibilidade, o que só foi possível solucionar com os poderosos geradores de eletricidade e refletores trazidos pelos militares do Décimo Nono Regimento de Infantaria de São Leopoldo. Os praças imediatamente fizeram um cordão de isolamento. No comando da operação estava o coronel Olimpio Mourão Filho – que, em 1964, saindo de Juiz de Fora com suas tropas rumo ao Rio de Janeiro, deflagraria o Movimento militar que depôs o presidente João Goulart. Também estava presente – orientando o resgate – o major Jefferson Cardim de Alancar Osório, comandante do primeiro Batalhão do Sexto Regimento de Obuses 105. Os repórteres, em não menores dificuldades, tiveram que abandonar seus veículos e fazer cerca de cinco quilômetros a pé, passando por chácaras e peraus, para alcançar o morro.
O acesso era feito pela estrada que ligava a Fazenda São Borja a Esteio. Ao chegarem ao local, encontraram enormes labaredas e muita fumaça.
VOANDO BAIXO - Mais tarde, a perícia – a precária perícia da época – apuraria que o acidente poderia ter sido evitado se o piloto tivesse elevado a aeronave cerca de cinco ou seis metros, o que faria com que conseguisse passar sobre o morro, sem nada acontecer. A conclusão baseou-se, sobretudo, no fato do piloto Edu ter sido encontrado em bem melhores condições do que os dos demais passageiros e tripulantes (mesmo assim, foi identificado por um irmão, que reconheceu uma marca de bala que o atingira na perna, anos antes). Por sua vez, os motores também estavam pouco avariados. Combinadas, as duas evidências indicavam que o comandante do avião avistou o morro não muitos metros à sua frente e tentou, em vão, desviá-lo. O avião provavelmente estava a cerca de 400 quilômetros horários naquele momento, o suficiente para causar a explosão que iluminou a noite chuvosa, o “clarão sinistro”.
Quanto à opinião de alguns moradores, que observaram o avião passar, momentos antes da tragédia – esta foi renegada por um técnico em aviação, morador de São Leopoldo, entrevistado pelo Correio do Povo, ele próprio testemunha ocular da passagem do Constellation. Tais pessoas afirmaram ter visto línguas de fogo saindo da aeronave, segundo antes da queda e da explosão, o que indicaria fogo a bordo. O técnico – não identificado pelo jornal – garantiu que os motores funcionavam normalmente. Segundo ele, a impressão de que o avião estivesse pegando fogo devia-se ao fato de que, à noite, são visíveis as línguas de fogo expelidas pelos tubos de descarga.
A tragédia do Constellation da Panair, naturalmente, consternou o Brasil e foi notícia no mundo inteiro. No dia seguinte, sábado, 29, o Correio do Povo – o maior jornal do Sul de então – saiu com a seguinte manchete em sua contracapa (a primeira página, tradicionalmente, era dedicada a assuntos internacionais e notícias políticas); “A Maior Tragédia Aérea do Brasil”. Abaixo, escreveu: “Coube ao Rio Grande do Sul o triste privilégio de registrar o maior e mais trágico desastre da história da aviação brasileira”, informando em seguida que “a tragédia está consternando a cidade e o Estado”.
A provinciana Porto Alegre, onde todos – pelo menos do mesmo círculo social – se conheciam, centrou todas as suas atenções no acontecido, assunto de todas as rodas de conversa e aglomerações nas ruas, cafés e bares. Comparada a ela, a recente tragédia com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, é café pequeno. No Constellation da Panair viajava a nata da sociedade local, nomes conhecidos do mundo dos negócios, da política, figurões da sociedade, famílias cujos nomes freqüentavam as colunas sociais.
O número de vítimas também era impressionante, para a época – mais de 50. Nos dias seguintes o Rio Grande do Sul estaria de luto, e as páginas do jornais s encheram de fúnebres convites para enterros. O governador Walter Jobim decretou luto oficial de três dias no Estado e o arcebispo de Porto Alegre, D. Vicente Scherer, afirmou: “Vive o Rio Grande do Sul horas cruéis, e de um extremo a outro de suas fronteiras ouvem-se exclamações de dor e pesar”. Na segunda-feira, na Catedral Metropolitana, totalmente lotada, ele celebrou uma missa em homenagem aos mortos. Escreveu o Correio do Povo: “O grande templo encheu-se de tudo o que é mais representativo da sociedade local, em seus vários ramos de atividades, vendo-se ainda altas autoridades civis, militares e eclesiásticas, bem como representantes de entidades”.
A NATA DA SOCIEDADE - Não era para menos. Entre as 51 vítimas fatais, estavam nomes como o coronel Guarany Frota, sua esposa Maria Antonieta e sua filha Rosa Yara, de 18 anos. Também José Carlos Berta, a esposa Júlia Blessman Berta e o filho josé luiz, de 12 anos. Outras vítimas: Tucídides Lopes e a esposa Teodora. Valdomiro Graeff, Balduíno D’Arrigo e Ceci D’Arrigo, José Maia Filho, Brasiliano de Moraes, João Rocha Fernandes, a esposa e mais três filhas; Carmen Rothfuchs, Lígia Dornelles Franciosi, Coracy Prates da Veiga e Alice Veiga; Ilze Krause Dietrich e as filhas Yara, de 9 anos, e Yone, de cinco. Mais: Otávio José da Silveira, Pedro Gay e Maria Gay, Vitória Fabret, Shirlei Tavares, Paulo Vitório Nocchi, Edmundo Pereira Paiva, Valentina Pereira Paiva, Sílvia Giaconni, Irmã Valiera, francisco Bruni, Sadi Maisonave, Maurício Zaducliver, Luiza e Ieda Zaducliver, Manoel maltz, Adílio Pessoa da Cunha, Janir Aita, Ralph Montley. Morreram ainda, além do comandante Edu martins de Oliveira, o co-piloto Domenico Guirlanda Sávio e os mecânicos Álvaro Tavares de Araújo e Alfredo Fernandes Soares, além do comissário De Rose Viote Pinheiro, a aeromoça Maria Helena Murrai Rivas e o rádio-operador Paulo Figueiredo Ramos.
O caso mais trágico era o da família Rocha Fernandes, que pereceu totalmente no acidente: o Dr. João Rocha Fernandes, químico do Departamento Estadual de Saúde, 47 anos, a esposa Carmen, 40, esta filha de Emílio Rothfuchs, diretor-presidente da empresa H. Theo Moeller, além das filhas Carmen Sílvia, 18, primeiro-anista de Química Industrial, sua irmã Nora Helena, 14 anos, e Iliana Amázia, 13, ambas alunas do colégio Bom Conselho. Já a família Dietrich perdeu Ilze Dietrich, 34 anos, e as filhas Iara e Ione.
Aos poucos surgiam as histórias pessoais que emocionavam os leitores dos jornais.
Uma das vítimas mais ilustres, o engenheiro José Maia Filho, um sergipano que já se considerava gaúcho, era chefe do distrito gaúcha do Departamento Nacional de Obras de Saneamento e responsável pela conclusão das barragens do Salto e Capingui. Também trabalhou no cais de Navegantes e fez a drenagem dos banhados do Taim, entre outras obras, o que incluía o prosseguimento dos trabalhos contras as enchentes que então assolavam Porto Alegre. Ele fora ao Rio de Janeiro a fim de assistir a abertura da concorrência pública para a construção da Barragem do Salto Grande, no rio Jacuí, “obras destinada a assinalar uma época no desenvolvimento econômico e social do Estado” (C.Povo). Maia Filho deixou esposa e três filhos pequenos, e seu féretro teve a presença do governador Jobim e do prefeito Meneguetti.
Já Thucydides Lopes, de tradicional família porto-alegrense, chefiava o Departamento de Portos, Rios e Canais, DEPREC, na cidade de Rio Grande, onde residia. . Ao lado da esposa, Teodora, havia seguido ao Rio de Janeiro a bordo do navio Itaiti, com passagem de ida e volta, pois sua esposa tinha horror a voar, temendo que, quando o fizesse, viesse a morrer. Com muito custo, ele conseguiu demove-la da idéia de voltar de navio, enaltecendo a segurança do Constellation. Edmundo Pereira Paiva, por sua vez, foi, por um tempo, subgerente do jornal Diário de Notícias, e sua mulher, Vicentina, exercia o professorado no Colégio Americano. Coracy Veiga, delegado regional do Instituto de Aposentadoria e Pensões de Transporte e Cargas, IAPETEC, descendia de uma tradicional família de Viamão, onde já fora vereador. De igual forma, Brasiliano Índio do Rio Grande de Moraes era delegado regional do IAPI, Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários. Manoel Maltz distinguia-se por ser um comerciante de sucesso, com várias casas no ramo de armarinhos situadas no centro de Porto Alegre. Já Francisco Godoy fazia parte da alta diretoria da empresa Moinhos Rio-Grandenses. Maurício Zaducliver, muito ligado aos esportes – que morreu com a mulher e uma filha – fora presidente do Sport Clube Cruzeiro até o ano anterior.
LIÇÕES DA TRAGÉDIA - José Carlos Berta – que pereceu ao lado da esposa Júlia e do filho José Luis – pertencia ao “alto comércio”, integrava a Associação Comercial de Porto Alegre, e era genro do diretor da Faculdade de Medicina, Guerra Blessmann. Não menos importante, Sady Maisonave, estava na Capital Federal a negócios. Ele havia sido síndico da Bolsa de Fundos Públicos e militava no Rotary Club. Valdomiro Graeff, médico, era irmão do deputado Victor Graeff, de Carazinho.
Outra vítima conhecida, o coronel Guarani Frota, exercia a função de professor da Escola Preparatória de Cadetes. Com ele morreram a esposa Maria Antonieta e a filha Rosa, de 13 anos.
Quatro das vítimas do acidente procediam de Caxias do Sul: Balduíno D’Arrigo e sua esposa Ceci, mais as professoras Irmã Valiera e Silvia Jaconi. Balduíno, Promotor de Justiça, havia sido presidente do Clube Juventude.
A tragédia do Constellation suscitou sérias críticas à precariedade da infra-estrutura que assistia a aviação brasileira. A necessidade de um novo aeroporto civil para Porto Alegre foi seriamente debatida – o São João era considerado, além de precário, ultrapassado. Mesmo assim era o terceiro aeroporto do País em movimento e importância.
“O estado lastimável das pistas do São João, insuficiente para aviões de grande porte, semeado de profundos buracos, que as chuvas empoçam e ampliam, constitui ameaça constante à integridade das aeronaves, o que vale dizer perigo de vida para passageiros e pessoal de bordo”, escreveu o Correio do Povo, uma semana depois. “Já não é nenhum segredo, por outro lado, que o aeroporto de Gravataí ainda não dispõe dos meios técnicos adequados, indispensáveis a uma base civil internacional, em que são freqüentes os vôos noturnos”. Para se ter uma idéia, o aeroporto não contava sequer com um radar.
A queda do Constellation da Panir, com mais de meia centena de vítimas, ainda hoje é lembrada pela sociedade de Porto Alegre. Em 2007, o escritor gravataiense Abrão Aspis lançou o livro “Acidente no Morro do Chapéu”, relatando a tragédia.
Tragédia que aconteceu no dia 28 de julho de 1950, uma sexta-feira. Menos de 48 horas depois, o Rio grande do Sul teria um novo choque: a queda do avião Loddestar que conduzia o ex-ministro da Aeronáutica, o então senador Salgado Filho. As bruxas estavam soltas. Mas isso é uma outra história. VITOR MINAS

sexta-feira, setembro 20, 2013

Hoje Sophia Loren faz 79 anos.

Televisão prende os maridos, diz notícia

A televisão, em 1951, só tinha um ano de vida, porém já existiam 16 mil aparelhos no Rio de Janeiro -  a TV brasileira havia sido fundada um ano antes em São Paulo por Assis Chateubriand e só existiam canais nas duas cidades. Nesta notícia curiosa, do Diário de Notícias de Porto Alegre (que só teria o seu canal no fim da década), a TV, tal como hoje, já tinha a função de manter em casa os "rueiros".

terça-feira, setembro 17, 2013

Era assim em 1955

Correio do Povo, Porto Alegre,. coleção do Arquivo Histórico de Porto Alçegre
Hoje Marina Lima faz 58 anos.

Como surgiu a fama de cidade gay de Pelotas, a antiga "degoladora de bois"

No final dos anos noventa, quando, pela segunda vez, trabalhei como jornalista no Diário Popular, de Pelotas (época do inesquecível doutor Clayr Rochefort), tive tempo suficiente para, sem pressa, ir entrevistando pessoas sobre a fama nacional da cidade, então ainda uma espécie de tabu do qual não se falava muito. Entrevistei muita gente pensando em publicar a matéria em uma grande revista, mas acabei desistindo e a reportagem saiu mesmo em um jornalzinho artesanal que eu e alguns amigos fizemos no prosaico e nada charmoso município de Viamão, publicação quinzenal que, para variar, não durou muito tempo, o “Olé!” Cheguei a ir a Pelotas em 1999 e distribuí uma centena de exemplares por lá, tanto que até um deles apareceu, ampassã, anos depois, no programa Fantástico, da Rede Globo, em matéria de um tal Maurício Kubrusly, enfocando justamente o mesmo tema.
Esses dias, arrumando a casa em Porto Alegre, encontrei alguns exemplares de tal jornal, que eu até julgava perdido e não dava maior importância. Reli o texto e, para minha surpresa, gostei do que eu próprio escrevi, o que me fez transcrevê-lo e publicá-lo agora em versão eletrônica, neste meu humílimo bloguezinho que existe desde 2006, uma das poucas coisas que não interrompi em minha vida.
Resolvi não alterar nada no texto, nem mesmo a idade dos entrevistados, certamente agora, mais de quinze anos depois, bem mais velhos. Alguns até faleceram, como dom Carlos Reverbel. (Vitor Minas)





Ao alto, visão aérea da Pelotas atual. Abaixo, a cidade nos anos sessenta. E a praia do Laranjal, no tempo do glamour. Abaixo, o tradicional mercado público, no centro. Fotos Internet.

Pelotas, mais de 300 mil habitantes, terceiro maior cidade gaúcha, centro econômico, educacional e cultural da Zona Sul rio-grandense, porto fluvial, clima temperado, porta de entrada das frentes frias que chegam ao território brasileiro. Distâncias: 271 quilômetros de Porto Alegre, 634 de Montevidéu, 200 de Bagé, 59 de Rio Grande e 266 do Chuí. Capital do doce e da conserva, maior produtor de pêssego industrial do Brasil, economia baseada no cultivo e beneficiamento de arroz, na atividade pecuária e na prestação de serviços. Dois grandes frigoríficos exportadores. Princesa do Sul, Atenas Rio-grandense, terra, entre outros, de João Simões Lopes Neto, Gilda Marinho, Antonio Caringi, Glória Menezes. Terra onde Hipólito José da Costa, o pai da imprensa brasileira, viveu sua adolescência.
Topografia plana, com solos baixos e arenosos. Sensação olfativa: o cheiro de bolor que paira nas ruas e invade os velhos casarões portugueses, manchando-os com uma nódoa de uma umidade que penetra os ossos e dificulta a secagem das roupas. Pouca cerração, mas muitos mosquitos. Céu nublado boa parte do ano e dias intensamente luminosos no outono.
Particularidade: principal centro econômico do sul do País por várias décadas do século 19, quando foi imensamente rica, culta e esnobe às custas de milhões de bois sacrificados ao abate durante o chamado Ciclo do Charque.
Fama nacional: cidade gay.
VINGANÇA DE ESPARTA – “Isso é coisa inventada pelos riograndinos e pelos porto-alegrenses”, explicam os pelotenses mais sisudos, parcela cada vez menos expressiva da população, em processo de natural abrandamento. Cristalizada e irreversível, a fama deixou de ser tabu e vem sendo pacientemente driblada com o artifício do humor. Civilizado polo educacional, com diversas escolas técnicas e duas universidades, a cidade descobriu o valor da chula filosofia popular – já que o estupro é inevitável, relaxe e goze.
Rio Grande, porto exportador, polo da indústria naval, mais de 200 mil habitantes, vizinha com Pelotas e como vizinhos dificilmente se amam, persistem as diferenças entre a Princesa do Sul, fidalga e rica durante quase um século, e a Noiva do Mar, terra de peixeiros e marisqueiros, no entender de muitos pelotenses. Para alguns riograndinos, Pelotas deveria se mirar no espelho e ver que o fausto e a distinção são águas passadas. Para os pelotenses, Rio Grande não passa de um balneário à beira mar plantado.
Os dois povos –  riograndinos e porto-alegrenses – teriam culpa em cartório: por mero despeito, difamaram a bela e rica Atenas gaúcha, estigmatizando o seu nome perante os demais brasileiros.
Culpas à parte, não há como negar que o assunto mexe com os nativos e gera duas reações distintas, uma para desagravo público e outra para consumo doméstico. Aos visitantes faz-se a defesa da honra ultrajada. Internamente, porém, a “bichice” é moeda corrente. Os pelotenses divertem-se comentando “fulano é, sicrano também, beltrano é suspeito”. O ex-deputado e por duas vezes prefeito de Pelotas, Irajá Rodrigues, conhece bem a questão. A cada vez que viajava a Brasília não escapava de ser alvo de comentários maldosos.
- A fama existe, é claro. Em Brasília tinha gente que me perguntava se o carro oficial do prefeito era cor de rosa, essas coisas. Mas eu sempre expliquei que não tem nada a ver, a fama foi algo inventado no passo, em razão do choque cultural.
Na eleição presidencial de 1989, Irajá – único prefeito peemedebista gaúcho a apoiar o senador e candidato Orestes Quércia – teve noticiada a calorosa recepção oferecida ao ilustre colega campineiro através de uma notinha mordaz publicada na coluna Informe JB, do Jornal do Brasil: “´É o eixo Pelotas-Campinas.”
O jornalista Carlos Reverbel, falecido aos 82 anos, era um dos que defendiam a tese do choque cultural. Radicado em Porto Alegre, autor da biografia do escritor pelotense João Simões Lopes Neto, Reverbel conhecia bem a cidade, na qual passou temporadas nos anos quarenta e cinquenta.
- Isso, no fundo, era ciumeira. Pelotas era o centro econômico mais importante do Rio Grande do Sul por causa da carne, havia uma vida muito ativa, inclusive intelectual. E os locais inferiorizados inventaram essas coisas em detrimento de um centro mais evoluído e civilizado. Uma espécie de vinganga – argumentava ele. O humorista Luis Fernando Veríssimo é filho de uma pelotense. Mafalda, esposa de Érico, nasceu na cidade. Veríssimo concorda com Reverbel: é pura história.
- Essa fama é um folclore que se criou, talvez na época em que Pelotas era uma cidade muito rica. E o pessoal confundiu educação com homossexualidade. Mas eu acho até que dá para explorar esse filão em termos de humor, é uma coisa que ficou convencionada e ninguém mais se ofende.
É e não é. Paladino da moral pelotense, Libório, o Gaúcho de Pelotas, se ofende – e como! Personagem criado pelo cartunista André Macedo, nascido e criado em Pelotas, Libório frequenta as páginas do Diário Popular, o mais importante jornal da região, fundados em 1890. Traumatizado com a fama da terra, Libório recusa-se a parar de costas em filas de banco e beira um ataque de nervos quando alguém indaga a sua procedência. Publicado em tiras diárias, o rude pelotense fez tanto sucesso que seu criador passou a imprimir camisetas estampadas com a personagem e os dizeres: “Sou de Pelotas sim, por quê?”
André ri – a criatura não tem nada a ver com o criador. “O Libório surgiu em um fanzine que eu e um colega jornalista lançamos na cidade há alguns anos. De início recebi algumas reclamações de pessoas que achavam que não se deveria mexer com o assunto. Bobagem. Pelotas tem mesmo essa fama, como Campinas também tem, e não dá para dar murro em faca ou tapar o sol com a peneira, como o Libório, que, aliás, já abandonou esta postura. O gozado é que ele fez muito sucesso em Bagé, tanto que um jornal de lá me encomendou as tirar e passou a publicá-las regularmente.”
BICHACAP X CORNOCAP – Sábado, dez da noite. Ainda é cedo – a noite pelotense nunca inicia antes da uma da manhã e só vai esquentar mesmo lá pelas três. Às oito da manhã ainda se vê grupos de pessoas bebendo e conversando pelos bares do centro ou do Laranjal, bairro e balneário às margens da Lagoa dos Patos, a maior do Brasil,o chamado Mar de Dentro.
São águas poluídas, impróprias para o banho ao longo de quase toda a orla. O Laranjal é o “point”pelotense dos finais de semana e meses de verão. A 15 km do centro, urbanizado por belas casas de veraneio, divide com a Avenida Bento Gonçalves, na cidade, as preferências noturnas. Se no inverno a avenida reina soberana, no verão é tudo com o Laranjal.
No bar da Beti, reduto eclético, o Brasil é o assunto dominante agora. Não o Brasil País e sim o Grêmio Esportivo Brasil, agremiação fundada no início do século e o primeiro campeão estadual gaúcho de futebol, em 1919 (os demais times pelotenses, Pelotas e Farroupilha, também foram campeões estaduais nas décadas de 20 e 30), quando aplicou 5 a 1 no Grêmio Porto-alegrense no próprio campo do adversário. O time chegou a disputar a série A do campeonato brasileiro, em 1985, obtendo um surpreendente terceiro lugar. O campeão foi o Coritiba, mas os “xavantes” – o símbolo do clube é um aguerrido índio xavante – orgulham-se até hoje de ter eliminado, na semifinal, o Flamengo de Zico e companhia, em dramática vitória no estádio Bento Freitas, a Baixada, repleto de quase 20 mil torcedores fanáticos.
Futebol é uma das paixões dos pelotenses, divididos entre o Brasil, o Flamengo local (a camiseta também é rubro-negra), com dois terços da torcida local, e o Pelotas, o“áureo-cerúleo”, tachado de clube da elite, pó-de-arroz, um Fluminense dos pampas. Na cidade quem não é xavante ou áureo-cerúleo é farrapo – torcedor do Farroupilha, clube fundado por militares. Aliás, de um modo geral torcer pelos times da capital fere os brios dos pelotenses mais bairristas e chega a ser uma ofensa para os xavantes, a mais fanática torcida do interior do Estado, em sua maioria formada pela população negra e pobre das periferias (dentre as grandes cidades gaúchas Pelotas é uma com maior população negra). Os xavantes orgulham-se de levar a campo a segundo maior bandeira desfraldada em estádios brasileiros – mede 70 metros e só perde para a corintiana dos Gaviões da Fiel.
Arqui-inimigos, os dois clubes locais aproximam-se em um ponto: a falta de dinheiro. “Se nós tivéssemos um patrocinador forte, como tem o Juventude de Caxias, que nem torcida tem, já estaríamos há tempos disputando o Brasileirão”, garante Roberto, um rapaz de vinte e poucos anos que bebe cerveja no Bar da Beti em meio a uma roda de amigos xavantes.
Roberto tem uma mania tipicamente pelotense – agarrar o braço ou tocar na perna do seu interlocutor para exigir atenção. O contato físico entre os homens – o abraço, o afago, o alto de segurar os pulsos – faz parte do modo de ser masculino. Quem vem de fora estranha um pouco tal atitude e sente até certo desconforto com isso. Contudo, logo compreende que não significa nada de mais.
Em Pelotas desde 1957, quando chegou de Porto Alegre, a colunista social Marina Oliveira, do Diário Popular, aos poucos observou aqui atitudes que diferenciam a cidade do restante do Estado: “Há uma abertura, um carinho maior entre os homens. Não sei bem explicar, mas talvez haja uma maior espontaneidade de homem para homem, uma coisa que não acontece, por exemplo, em Bagé. A sociedade local se caracteriza por certo requinte, tanto na mesa quanto no vestir, no falar e no se portar. Mas ainda é uma sociedade muito fechada, as famílias mais tradicionais empobreceram sem perder a pose.”
Fechada, de fato, ela é, e não somente a tradicional. Expansivo nas ruas e bares, o pelotense não é de dar endereço de casa ou abri-la a recém-chegados. Nem mesmo a numerosa população estudantil que aflui todos os anos – gente de outros municípios e outros estados – foi capaz de alterar tal comportamento. Amizades superficiais são fáceis, e fica-se por aí.
Falo a respeito disso com Roberto, que concorda depois de alguma hesitação. Bebemos outra cerveja, tempo suficiente para conhecer mais uma piada local: Pelotas está planejando construir um estádio com 50 mil assentos e capacidade para 100 mil pagantes. Os ingressos “No Colo” já estão todos vendidos... Outra de futebol, desta vez verdadeira: década de setenta, jogo entre o Internacional e o Brasil, na Baixada. A torcida visitante abre uma imensa faixa onde se lê: “A torcida colorada saúda a Bichacap”. O troco veio na partida seguinte, em Porto Alegre: “A torcida xavante saúda a Cornocap”. Ainda hoje, quando um porto-alegrense pergunta se há mesmo tantos assim, os pelotenses têm uma resposta na ponta da língua: “Tinham muitos sim, mas agora estamos trocando dois bichas de Pelotas por um corno de Porto Alegre.”
SEPARATISMO PELOTENSE - Chega-se ao município pela BR 116, a mais extensa rodovia nacional e que inicia em Jaguarão, fronteira entre o Brasil e o Uruguai. O intercãmbio com a “banda oriental” é intenso e muitos vão tentar a sorte em Montevidéu, outros seguem a passeio. Os uruguaios, da mesma forma, chegam, abrem negócios, aclimatam-se sem maiores dificuldades, casam e se instalam na cidade, alguns para sempre. No verão os pelotenses mais abonados mudam-se para Punta Del Este – é um símbolo de status ter casa ou apartamento no chique balneário para onde, naturalmente, também migra a crônica social.
Economia agropastoril, a Zona Sul gaúcha é formada por terras baixas e férteis e duas grandes lagoas, a dos Patos, de águas salinizadas, e a Mirim, menor, com águas doces e nenhuma comunicação com o oceano. Ligando as duas, está o canal São Gonçalo, com 76 quilômetros de extensão. É água, muita água. Os plantadores de arroz irrigado agradecem tanta abundância de recursos hídricos, embora vivam reclamando do governo federal e de sua política de preços mínimos, da importação desleal do produto asiático e dos juros altos que pagam pelo custeio agrícola. O certo é que ganharam muito dinheiro durante décadas, compraram belas casas em Punta e propriedades no Brasil, mas pouco investiram no próprio município.
Érico Ribeiro, o número um dos orizicultores gaúchos, foge à regra. Apontado como o maior plantador individual de arroz do mundo, esse senhor baixote e calvo é quase um mito na cidade – o mais rico, o mais poderoso, evita porém badalações sociais e prefere acompanhar de perto seus inúmeros e diversificados negócios, hoje em parte transferidos para o Uruguai, onde o crédito é fácil e os juros mais baixos. Chegou a faturar mais de 200 milhões de dólares por ano antes de divorciar-se e ter seu patrimônio cindido. Influente politicamente, concorreu a prefeito em uma das últimas eleições mas acabou perdendo na reta final.
Política, economia e futebol são pratos diários nas rodas de conversação local. E, sobretudo, lamenta-se muito: o esvaziamento político que tirou forças da Zona Sul em favor da metade norte, industrializada e europeizada, a estagnação de uma economia que sempre se orgulhou da sua pujança, uma prefeitura tão endividada que jamais paga os salários dos servidores em dia, os meninos de rua, a violência, o abandono dos parques e praças, a falta de empregos, o lixo nas calçadas, o fechamento das grandes empresas locais, o tratamento dispensado pelo governo do estado.
Radical, o ex-prefeito Irajá Rodrigues lidera uma campanha para separar a metade sul da metade norte do Rio Grande do Sul. A sul formaria o Estado do Piratini, investindo aqui o dinheiro que, reclamam os pelotenses, estaria sendo desviado para a metade norte, onde a renda per capita é três vezes maior. Irajá promove periódicas manifestações secessionistas reunindo meia dúzia de gatos pingados mas garante ter ás mãos uma lista com mais de 40 mil assinaturas apoiando a proposta separatista. Piada, dizem os pelotenses, mas interessados no projeto de reconversão econômica da metade sul gaúcha lançado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, mas cujos recursos ninguém sabe, ninguém viu – só no papel.
De fato, o clima de desânimo e pessimismo aguçou-se nos últimos anos. Simpósios, seminários, discussões e mais discussões – conhecidas as causas do atraso, o que fazer para superá-las? Lançado pelo Centro das Indústrias do município, uma campanha de auto-valorização de Pelotas tenta neutralizar o derrotismo reinando através de mensagens de fé e otimismo propagadas pela mídia local. “Isso aqui está condenado”, exageram alguns cidadãos amargurados que não esquecem de traçar paralelos entre Pelotas e Caxias do Sul. Esta última progrediu imensamente, superou a Princesa do Sul em tudo, inclusive em habitantes, e tornou-se um poderoso parque fabril, produzindo de alfinetes a tratores. Pelotas, ao contrário, enriqueceu com a carne de boi em um período em que boa parte dos seus habitantes vivia à tripa-forra. Ganharam muito dinheiro, sim, e gastaram quase tudo em festas, jogatinas, viagens, palacetes, roupas caras. Investir na modernização das indústrias poucos o fizeram. Assim, quando o capital inicial secou os pelotenses se depararam com o deserto econômico e passaram a viver da saudade.
PIRATARIA CULTURAL – Adão Monquelat, figura conhecida nos meios culturais da cidade e dono de uma livraria a poucas quadras da Universidade católica, pensa que ainda há muitos mistérios a devassar na Atenas Rio-grandense. Para ele “o pelotense sempre teve mentalidade de gigolô de vaca, a burguesia daqui não soube a hora da modernização.” Como todo pelotense da gema, Adão divide-se entre o orgulho e o lamento depreciativo. Orgulho de um passado que, bem ou mal, ainda sobrevive em alguns aspectos. Lamento pelo que chama de “bolor”: a acomodação geral, a falta de perspectivas e ações reais.
“No século 19 os cidadãos daqui iam muito à Europa, especialmente Paris, sabem antecipadamente das coisas. Para se ter uma ideia do que era esta cidade, o mercado editorial gaúcho da época estava todo aqui. Pelotas foi a primeira cidade do Brasil a editar Gibran Khalil. Foi em 1922, pela Tipografia Guarany. Aliás, um dado curioso: praticava-se aqui a mais aberta pirataria cultural e editorial, editava-se em pelotas os maiores autores nacionais e mundiais sem pagar um tostão de direitos autorais. Zola, Álvares de Azevedo e Machado de Assis, que provavelmente nunca tenham sabido disso. Um inglês, em visita ao Brasil, chegou a acusar o município disso, dizendo que só perdíamos para os belgas em matéria de pirataria cultural. Como a constituição do Estado foi inspirada em ideias positivistas que consideram todo o conhecimento como conhecimento comum à Humanidade, a desculpa era fácil.
Algumas dessas obras-piratas estão expostas na livraria de Monquelat. São edições de capa dura, em formato pequeno, e levam a chancela da Livraria e editoral Americana, que não mais existe. Deve-se ao livreiro Adão Monchelat a descoberta – ou redescoberta – do primeiro romance editado em terras gaúchas, A Divina Pastora (1847), de Caldre Fião.
O marco inaugural da literatura rio-grandense era uma espécie de Santo Graal quando Adão, em uma de suas viagens a Montevidéu, encontrou um único exemplar no mercado das pulgas, em 1991. Para o livreiro, foi como descobrir uma pepita de ouro: adquirido pela rede Brasil Sul de Comunicações, RBS, por uma quantia que Adão não revela, dorme agora em uma redoma de vidro da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre. Mas quando a pergunta envereda de cultura para costumes e se pergunta sobre Pelotas e sua fama, Adão coça a barba e torna-se sério: “Acho que não confere. Na década de sessenta, quando fui morar em Porto Alegre, o pessoal já nos gozava muito a esse respeito. Uns até perguntavam se era verdade que em Pelotas até os garis usavam gravata. Eu acho que a fama veio justamento do modo de ser e de vestir dos pelotenses.” Amigo de Monquelat, o psiquiatra José Wolfango Montes Vannucci, 47 anos, há dez na cidade, já publicou oito romances, entre eles Jonas e a Baleia Cor-de-Rosa, um dos vencedores do concurso Casa de Las Américas do governo de Cuba. Natural de Santa Cruz de La Sierra, Vannucci é psiquiatra por formação e escritor por vocação. Casado com uma pelotense, sente-se perfeitamente adaptado à cidade onde, conforme diz, há mais psiquiatras do que em toda a Bolívia.
“Pelotas é uma cidade com personalidade, uma cidade em que o habitante é mais voltado para o passado e se torna com isso mais reflexivo. É uma cidade nostálgica que acha que suas glórias estão no passado, conservadora. Não é feita por imigrantes como tantas outras do Rio Grande do Sul. O cidadão daqui acha que tem uma essência, que não precisaria fazê-la, não é uma terra em que se tenha estimulado o espírito lutador, desbravador. Aqui se tem mais valores artísticos do mundo, e quando falo em pelotenses me refiro às classes média e alta, que são as que contam. As pessoas aqui não valem só pelo dinheiro e sim por outras coisas, sem tem uma vida intelectual que se faz nos cafés, nas livrarias. Pela própria nostalgia, pelo clima, as pessoas olham mais para dentro de si do que em outros locais.”
Cidade gay? O escritor conhece bem a fama. “Eu vou a meu país e digo que moro em Pelotas e as pessoas já começam a rir, até no Chile já se conhece a fama. Mas eu não acho que Pelotas tenha um número de homossexuais superior à média. Penso que o que contribuiu para isso foi o carnaval. Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando cheguei à cidade foi o grande número de rapazes que se vestem de mulher durante a folia. Inicialmente isso dá a impressão de haver homossexualidade, mas eu passei a entender a questão como um ritual dionisíaco em que as pessoas assumem, digamos assim, alguns aspectos mais escuros de sua personalidade. Mas também reparei que, durante o ano, esses mesmo rapazes tinham conduta hetero.”
Sobre o homem pelotense, Vannucci sustenta uma opinião bem pessoal: “O homem pelotense não é machista, isto eu noto. Mas eu vejo tanto bissexual enrustido... Por ser uma cidade em que o papel social é tão importante, isso faz com que as coisas se disfarcem mais.
Piada: um viajante chega a Pelotas e observa que muitos locais apresentam uma estranha sinalização: Passagem Só Para Pederastas. Surpreso, aborda um transeunte e pede explicações sobre aquilo. “De fato, está errado”, concorda o sujeito. “O correto seria Passagem Só Para Pedestres, mas não vai ser por causa de uma meia dúzia que nós vamos mudar todas essas placas, né?”
CAPITAL DA ARISTOCRACIA – É a segundo cidade mais úmida do mundo, só perdendo para Londres. A comparação aristocrática agrada os pelotenses, que lembram da época dos barões do Charque, quando importou-se da Europa três grandes e artísticas caixas dágua, além de chafarizes, objetos de arte, móveis, livros e até material de construção para os palacetes, dos quais, em sua maioria, só restou a fachada ou a fotografia.
Dessa cidade disse o Conde D`Eu, o marido francês da Princesa Isabel, em 1865: “Depois de ter percorrido por duas vezes em toda a sua extensão a Província do Rio Grande do Sul, depois de ter estado em suas pretensas vilas cidades, Pelotas aparece aos olhos cansados do viajante como uma bela e próspera cidade. As suas ruas largas e bem alinhadas, as carruagens que as percorrem (fenômeno único na província), sobretudo os seus edifícios, quase todos de mais de um andar, com suas elegantes fachadas, dão ideia de uma população opulenta. De fato, é Pelotas a cidade predileta do que eu chamarei a aristocracia rio-grandense, se é que se pode empregar o termo aristocracia falando-se de um país do novo continente, aqui é que o estancieiro, o gaúcho cansado de criar bois e matar cavalos no interior da campanha vem gozar as onças e os patacões que ajunto em seu mister.”
A Pelotas que o Conde visitou, acompanhando a comitiva do Imperador Pedro II, contava com estabelecimentos comerciais que “fariam honra ao Rio de Janeiro”, no dizer do alemão Karl Von Koseritz (“Imagens do Brasil”), que visitaria a cidade cinco anos depois. O escritor, político e ex-mercenário alemão observou nas ruas “um ar de contentamento e prosperidade que penetra a gente”.
Vários outros estrangeiros e visitantes teceriam comentários enaltecedores a respeito do surpreendente grau de progresso e civilidade encontrado neste ponto da remota região sul: palacetes em estilo próprio, mesclando arquiteto neo-renascentista com detalhes em barroco, muitos dos quais valeriam mais de 100 mil libras esterlinas, mulheres bonitas, homens finamente trajados, sem contar os monumentais jazigos onde repousavam os defuntos mais ilustres, os tais “barões do charque”, assim agraciados pelo Imperador como agradecimento à fidelidade de uma elite conservadora e imperial (na Revolução Farroupilha a cidade manteve-se fiel ao império brasileiro). Tudo isso graças ao contingente de europeus que, por influência do seu dinheiro e da sua cultura, contribuíram “para que aqui houvesse mais civilização e mais gosto pela vida social do que em outras regiões”, na visão do mesmo Koseritz. Quanto às mulheres, “tocam piano, falam francês, dançam bem e permitem até o galanteio de um cavalheiro”. E conclui:“São senhora que não cem em elegância e boas maneiras às mais graciosas parisienses.”
Em 1831 esta sociedade opulenta mandaria construir o teatro sete de Abril, o quarto mais antigo em atividade no Brasil. Nas décadas seguintes o município se consolidaria como o principal centro econômico da região sul brasileira. Localização privilegiada, às margens de vias navegáveis, proximidade do mar e das repúblicas do Prata, numeroso rebanho bovino, boas pastagens, chuvas bem distribuídas – tudo contribuía e facilitava.
Tantas vias navegáveis já eram, por sinal, familiares aos índios que habitavam primeiramente a região. A palavra “pelotas” (bola, em espanhol) designaria uma tosca embarcação por eles utilizada para a travessia de rios e canais, espécie de caiaque feito de couro de boi estirado sobre varas.
DEGOLADORA DE BOIS – Em meados do século 19 um viajante inglês surpreendeu-se ao contar mais de oitenta embarcações de médio e grande porte atracadas às margens do canal São Gonçalo, à espera de carregamento de charque, alimento utilizado por tropeiros, famílias pobres, escravos e soldados em campanha. Quando eclodiu a Guerra do Paraguai (1864-70), a burguesia local locupletou-se ainda mais com o conflito – a soldadesca que combatia Solano Lopes nos charcos paraguaios e nas fronteiras gaúchas precisava de alimentos não perecíveis, e Pelotas estava ali, para fornecê-los.
Uma cidade então com mais escravos do que homens livres, e muito mais bois que gente. No auge do chamado ciclo do charque abatia-se anualmente mais de 500 mil cabeças de gado nas cerca de trinta charqueadas do município. No início do século 20 o escritor João Simões Lopes Neto – o maior nome do regionalismo literário gaúcho –estimava em 17 milhões os bovinos já sacrificados em Pelotas. A possível beleza do espetáculo das boiadas chegando, tangidas por tropeiros vindos de todos os recantos do Estado e mesmo do Uruguai, onde também costumava-se roubar muitas reses, logo se desfaria em “uma pintura tão peregrina e hórrida quanto pode caber na imaginação” – a hora do abate. Algo realmente repugnante, nas palavras do médico alemão Robert Avé-Lallemant. Em seu livro “Viagem pela Província do Rio Grande do Sul”, publicado na metade do século 19, ele chama Pelotas de “a Degoladora de Bois” e não esconde o asco pelo que vê, sente e cheira no interior dos estabelecimentos saladeris, “um repugnante atascamento no sangue e na imundície dos animais, em que quase se animaliza a alma do magarefe dos homens”. O odor de sangue, couro, vísceras, fezes, ossos e carne espalhava-se por tudo, sempre temperado por um horrível cheiro de carniça.”
Desses dois mundos complementares mas separados e até antagônicos – a cruel degoladora de bois e a refinada Atenas rio-grandense – surgiria talvez a tese do choque cultural. Dois universos, o do capital e o do trabalho. Gaúchos rudes e voluntariosos e a sociedade dândi dos salões e palacetes e suas mentes direcionadas para Paris, Londres, Lisboa e Rio de Janeiro, cidades onde estudavam muitos filhos da terra que, ao retornar, exibiam estranhas maneiras, frescuras tais como puxar a cadeira para as damas sentarem, pedir licença e arranhas expressões em francês. Tal comportamento fidalgo encontraria ressonância em uma das mais conhecidas obras da literatura brasileira. Ao escrever Quincas Borba, Machado de Assis incluiu uma moça pelotense, Sonora, “uma guasca de primeira ordem, um beijou” e que “só casa com homem da Corte.”
À época da publicação do livro (final da década de 80 do século 19) Pelotas desfrutava do seu fausto econômico e social. Em seu livro Opulência e Cultura na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul – Um Estudo Sobre a História de Pelotas (1860-90) o historiador Mário Osório Magalhães fixa as causas da desaceleração de uma economia que, a partir do final daquele século, irá perdendo terreno para Porto Alegre e as novas colônias de imigrantes italianos e alemães à sua volta: o declínio das charqueadas e o descaso do governo estadual, que simplesmente volta as costas a Pelotas, negando-lhe obras essenciais de modernização e mesmo fechando ou transferindo muitos estabelecimentos oficiais que existiam no município. É possível que date daí o sentimento isolacionista e uma certa mágoa dos habitantes da “Chicago Brasileira” (a Chicago dos abates de bois, note-se, e não a dos gângsteres) em relação à capital gaúcha.
Visconde da Graça, Barão dos Três Cerros, Barão de Santa Tecla, Barão do Girau, Barão do Butuí. Ao crepúsculo do reinado, a Degoladora de Bois já tinha os seus nobres de fato e seus conselheiros do império que, nos meses de verão, podiam ser vistos na praia do Cassino, em Rio Grande, cercados pela criadagem e passeando de fraque e polainas o seu soberbo ar imperial, indiferentes aos olhares mordazes dos peixeiros riograndinos. Mais de cem anos depois, os resquícios dessa época de ouro podem ser vistos no Museu da Baronesa, antiga residência da família Antunes Maciel, barão e baronesa dos Três Cerros. O museu abriga hoje mais de três mil peças que retratam o modo de vida e o luxo dos potentados antigos: mobiliário europeu, coleções de leques, vestidos franceses, bustos em mármore de Carrara, azulejos portugueses e retratos desbotados de senhores e senhoras circunspectos atestam uma riqueza refinada que feneceria em irremediável bolor.
Voltando à economia: discriminada pelo poder central, a Princesa do Sul seria em seguida duramente atingida pela evolução tecnológica nos meios de produção. A nível regional, a Revolução Federalista de 1893/94 transformaria o Rio Grande em um vasto teatro de guerra, com mais de 10 mil mortos e outros milhares de refugiados, inviabilizando o trânsito e o comércio do gado. Em esfera mundial, a invenção do sistema de eletricidade e refrigeração tornaria a salga um obsoleto e caro processo de conservação da carne, agora armazenada em grandes frigoríficos. A chegada da ferrovia, por sua vez, deslocou as charqueadas para outras regiões, livrando-as da obrigatoriedade do escoamento por via aquática.
Aos poucos ia silenciando o plangente apito noturno a sinalizar o início de mais uma matança de bovinos. Mesmo sem saber direito, a Chicago Brasileira vivia seus estertores, mas a Atenas Rio-grandense ainda dançava ao som das pianolas e mantinha a velha pose. Nesta sociedade onde “praticava-se o culto excessivo às belas artes” e discutia-se os clássicos franceses em alegres saraus, o escritor João Simões Lopes Neto jamais obteria o devido reconhecimento. O autor de cancioneiro Guasca, Casos de Romualdo e Lendas do Sul, de família rica e tradicional, preferiu no entanto descrever não o elegante universo urbano e sim a existência simples do homem rural. Audaz e sonhador, abriu inúmeros negócios e empresas fracassadas, nelas torrando toda a sua fortuna. Quando morreu de úlcera duodenal em 1916, com apenas 51 anos de idade, morava de favores na casa de um parente. Considerado azarento, era evitado nas ruas até pelos amigos mais próximos. Hoje é nome de um centro de cultura e de tradições gaúchas e de um bairro da cidade. Sua obra, redescoberta na década de quarenta graças aos estudos de Carlos Reverbel, Augusto Meyer, Lúcia Miguel Pereira e Aurélio Buarque de Hollanda, é sem dúvida uma das mais importantes da literatura regional brasileira em todos os tempos.
Encerrado o grande ciclo de prosperidade, ainda assim a vida mostrava-se risonha e agradável na Princesa do Sul. A combinação opulência restante e cultura atraía homens e mulheres de outros estados e países e seduzia especialmente os judeus franceses fugitivos da dominação alemã na Alsácia-Lorena, os quais antes tentavam a sorte em Buenos Aires e Montevidéu. As cortesãs francesas pontificavam nos cabarés e davam o necessário verniz a airada vida noturna desta cidade perdulária e festiva.
Piada: Chegando à divisa de Pelotas um viajante vê um homem pescando. Curioso por saber se havia ali algum peixe, aproxima-se e pergunta:“E aí, tá dando?” “Não, hoje eu estou pescando”, responde o outro.
ROLETA E BELLE EPOQUE – Como e quando surgiu a fama que estigmatiza (se é que o termo é adequado) Pelotas até hoje, a de cidade gay onde as mulheres, para arranjarem homem, precisam esburacar as ruas, como escreveu o colunista e humorista José Simão, da Folha de S. Paulo?
Aos 90 anos, magro, lúcido e elegante, José Collares mantém a voz firme e a inteligência alerta: à menção do tema seus olhos deixam escapar um lampejo de malícia. Ele pede para que sua sobrinha retire-se por alguns instantes – isso não é assunto para mulheres. Em seguida descerra as cortinas e uma luminosidade difusa escoa do cinzento céu pelotense e envolve, lá embaixo, a Praça Coronel Pedro Osório, cercada de casarões históricos.
A praça é adornada com belos e antigos chafarizes. À noite, porém, é “terra de marlboro”, com assaltos, prostituição e consumo de drogas. Mulheres de programa dividem espaço com travestis que enfrentam o rigor do clima em trajes sumários. Em fevereiro, na avenida em frente, realiza-se o desfile das escolas de samba e blocos de sujos daquele que já foi considerado o mais alegre e popular carnaval do Estado. É este cenário que José Collares compara à Belle Epóque pelotense, os anos vinte, período dos grandes cabarés, das francesas e da jogatina desenfreada. Menino rico, como ele mesmo diz, viu e viveu tudo aquilo.
“Pelotas mudou muito, não há mais aquela educação e nenhum glamour. Sei dizer que foi uma cidade muito rica e o dinheiro foi todo na roleta, grandes fortunas se acabaram da noite para o dia nas rodas de bacará. Só aqui em volta do Mercado Público havia onze casas de jogos, mais umas três ou quatro adiante. Os croupiers vinham de Buenos Aires e Montevidéu. O cassino mais famoso era o Palace, que funcionava no Clube Caixeiral com roleta à tarde e à noite. Com os croupiers vinham as mulheres, mulheres fantásticas, quase todos estrangeiras, francesas, italianas, argentinas, as nacionais eram poucas. Sem falar nas das companhias de operetas, que acabavam ficando por aqui, se tornavam amantes dos homens ricos. No resto do Estado se criticava muito este comportamento, dizia-se que isso era “coisa de pelotense.”
Pelotenses que, afirma Collares, formavam quase uma casta à parte em relação aos demais habitantes do Rio Grande do Sul. “Os pelotenses eram mesmo diferentes. Até no comer. A gente ia a Bagé e notava que o sujeito era de Pelotas só pelo modo de empunhar o garfo. De um modo geral o pessoal daqui não gostava dos bageenses e eles não se aclimatavam bem na cidade, nos consideravam “poseur”, diziam que tínhamos mania de superioridade. Nunca esqueço a vez em que fui a Bagé e, em um baile, vi um sujeito deixar cair o revólver em pleno salão. Pois ele simplesmente se agachou, apanhou a arma e a colocou no coldre como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, e seguiu dançando. Isto me horrorizou. As próprias mulheres nos diziam que até na hora do amor o pelotense era diferentes, antes de ir para a cama tirava os sapatos e as meias, tomava banho e perfumava-se, enquanto em outras cidades o sujeito às vezes nem tirava as botas e fazia de pé mesmo. Exagero, mas diz alguma coisa.”
Em 1960, quando os bons tempos já haviam passado, o censo oficial brasileiro contou 178.265 habitantes de Pelotas, então o vigésimo primeiro município mais habitado do Brasil, à frente de Manaus, Maceió, Natal, São Luís, João Pessoa e Goiânia. Em 1968 caíra para vigésimo sexto lugar, com uma população estimada em 208.672 habitantes, conforme o Anuário Estatístico do Brasil, publicação da Fundação IBGE.  Bem antes, em 1920, quando vivia a sua bonança econômica, o censo apontara 82 mil habitantes em Pelotas, somente na área urbana, e o município mantinha-se como o décimo primeiro mais populoso do Brasil e o oitavo quanto às rendas, superando muitas capitais e cidades importantes como Santos, Campinas e Juiz de Fora. A primazia pelotense incluía a radiodifusão – a primeira emissora de rádio do Rio Grande do Sul, a Rádio Sociedade Pelotense, fundada em 1925, precedeu em alguns meses a Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Também estava aqui a primeira loja maçônica do Grande Oriente do Brasil no Estado. Por sua vez, a telefonia local – moderna para os padrões da época – estava sob o controle da municipalidade e os bondes elétricos ligavam o centro aos bairros mais distantes. Antes, em 1913, o português Francisco Santos rodou na cidade aquele que é considerado o primeiro filme brasileiro de ficção, Os Óculos do Vovô. Descoberta em 1973 pelo cineasta Antonio Jesus Pfeil, da película só restaram cinco minutos, hoje conservados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Nessa terra de ócio e riqueza não faltavam prazer para a classe alta. Procedentes de Buenos Aires, muitas companhias europeias de teatro e opereta iniciavam aqui sua turnê em terras brasileiras, seguindo depois para os grandes centros. Aos espetáculos de gala no Teatro Sete de Abril – depois surgiria o cine-teatro Guarany –sucediam-se, para os homens, noitadas no “Apertadinho”, cabaré e cassino na Rua 15 de Novembro e onde brilhavam mulheres como Maria Vesuviana, italiana, e Louisette, francesa – as duas depois abririam seus próprios negócios. Como de praxe, tinham um amante oficial – que pagava as contas – e um rapaz bonito para os prazeres da cama.
Havia cabarés, roleta, coronéis, gigolôs, jogadores – e a fama de requintada cidade boêmia. A outra fama, porém, já estava em gestação. José Collares não fala em “gays”, prefere o termo “invertidos”: “Havia invertidos sim, até porque os pelotenses eram muito mais civilizados e tolerantes do que os outros. A maioria das cidades do Estado tinha essa mania de ser gaúcha, de trabalhadores, e os pelotenses estavam à parte. Mas isto de invertidos também em outras cidades que nunca ganharam a fama. Jaguarão, por exemplo, era conhecida por isso só porque dois irmãos, donos do principal hotel de lá, eram. Essa fama de Pelotas, pelo que eu me lembro, veio depois da Revolução de 30, quando as tropas do Getúlio seguiram para o Rio. Lá difamaram a cidade.”
Ele inclina a cadeira de balanço para a frente, olha em volta para conferir se não há mais ninguém e sussurra, tossindo: “Se der o senhor volte outro dia que eu vou lhe falar de um homem, um homem muito bonito, riquíssimo, que era...”
Não deu tempo: José Collares faleceu duas semanas depois.
ÓDIO DE GETULIO – A quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a depressão norte-americana e mundial que se seguiu a este fato e Getúlio Vargas na presidência do Estado gaúcho atingiram duramente o município. Com a crise econômica e a redução do consumo geral, o preço do boi e do charque entrou em queda livre. Em 1930 a venda de carne gaúcha para fora do Estado já caíra pela metade. O assoreamento do canal São Gonçalo e a modernização do porto de Rio Grande, para onde se deslocou o comércio exterior gaúcho, pioraram ainda mais as coisas, a ponto de lideranças locais, conduzidas pelo empresário Cássio Tanborindeguy, encaminharem ao intendente municipal (prefeito) um documento de alerta intitulado “Defesa de Pelotas”. Para muitos, 1930 marca o início do decadentismo pelotense. Em 1931 a mais rica e prestigiosa instituição local fecharia em definitivo as suas portas: o Banco Pelotense, então um dos cinco maiores bancos do País, com mais de 20 filiais em diferentes Estados e, em 1925, o campeão gaúcho em volume de depósitos, teve todo o seu patrimônio transferido para o recém criado Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Efeitos da crise mundial, má administração, armação política, tudo é aventado para explicar como o banco oficial do Estado de 1921 a 1928 foi riscado do mapa.
Getúlio, conta-se, fez de tudo para destruir o Pelotense, um dos tentáculos da política do seu antecessor, Borges de Medeiros. Ao suceder a este na presidência do Estado, em 1928, transferiu para o Banco da Província todas as contas do governo e, no final, recusou-se a mover uma palha em defesa da instituição. Outra versão garante que Vargas teria feito isso por motivos pessoais, já que seu cunhado, Antonio Sarmanho, suicidou-se ao ser acusado de desfalque na agência de São Borja, onde era gerente.
Mas a sociedade pelotense ainda vivia bons tempos - sem saber, em seus estertores. A quebra da Bolsa de Nova Iorque aconteceu no final de outubro de 1929, mergulhando parte do mundo em recessão econômica e instabilidade política e, talvez, jogando uma pá de cal na riqueza da Atenas Riograndense e da Degoladora de Bois.. O Carnaval de Pelotas daquele ano fatídico, porém, foi feérico, como descreve o jornalista Rubens Vidal Araújo em seu livro Os Vargas, a biografia da família do presidente publicada pela editora Globo: "Havia uma grande quantidade de dinheiro acumulada no Estado, tradicional produtor de carne, lãs e cereais, já submetidas à primeira fase de industrialização. Pelotas, com suas charqueadas e plantações de arroz, era a cidade mais rica. Naquele ano de 1929 o Carnaval de rua em Pelotas foi tão deslumbrante que empolgou os próprios pelotenses. Muito luxo, gastos espetaculares, corsos com automóveis de capota arriada repletos de mulheres esplêndidas de shorts, com as pernas nuas para o ar, ruas cheias de confetes e serpentinas".
Piada: Ao viajar a Pelotas, um cidadão é advertido, em tom de brincadeira: “olhe que aquela terrinha é fogo, quem chega lá já sente uma coceira no rabo...” Sem fazer caso, mal chega à cidade, é acometido de uma forte diarreia e obriga-se a saltar do carro e fazer suas necessidades no mato. À falta de papel, vai um ramo de urtiga: “Caramba, bem que tinham me avisado que essa terrinha é fogo mesmo!”
LIBÉLULAS PELOTENSES – Fábio de Souza Ferreira, 32 anos, chegou à cidade faz 11 anos, vindo da vizinha Camaquã. Em vez de seguir para Porto Alegre, a 130 km de distância, preferiu seguir mais para o sul e instalar-se em Pelotas. Aqui – homossexual assumido – passou a trabalhar como estilista. Ganhou amigos, sossego e dinheiro para viver confortavelmente. Quando está circulando pelo mundo gay pelotense, Fábio Ferreira passa a ser Fabíola Ferrer. Porém, não se considera travesti – homossexual sim. Assíduo em festas da sociedade local, desenha e confecciona vestidos e trajes carnavalescos para homens e mulheres que frequentam o seu atelier em um sobrado no centro.
Quem sobe as escadarias de madeira se depara com fotos emolduradas, alguns quadros e, na peça contígua à sala, uma imensa cama de casal. De bermudas, cabelos presos à nuca, Fábio –ou Fabíola – acaba de encerrar seu expediente. Senta-se, cruza as pernas com feminilidade não afetada, acende um cigarro e estuda o repórter com o olhar discreto. Está sem pintura ou maquiagem. A voz é quase de mulher. “Vamos lá, o que você quer saber?” O namorado, que abrira a porta, some de cena levando consigo um cão felpudo. Fábio está à vontade – antes, porém, quer saber se pode falar tudo, se a entrevista será mesmo publicada e se há necessidade de fotos. Exponho as duas versões – a do choque cultural em primeiro.
“Puxa, é tanta coisa que você me pergunta, que a gente teria de parar e conversar vários dias até esgotar o assunto. O que eu acho é o seguinte: não vá nessa de que os filhos das famílias antigas iam à Europa, voltavam assim e assado. Aqui há de fato mais homossexuais do que em outros locais. Muitos vêm de fora, atraídos pela fama da terra, por Pelotas ser considerada mais tolerante a este respeito. Não sei qual a explicação, mas posso dizer que aqui o homossexual é tratado com carinho e respeito, com naturalidade, ele pode frequentar qualquer ambiente sem se sentir discriminado, inclusive casas de família. A cidade toda aceita o homo, embora, claro, se façam piadinhas, o que eu acho natural, faz parte. O homem pelotense gosta de transar com homossexuais, há procura. Dá para dizer que nesta cidade a gente se complementa não só sexual como afetivamente, namorados são fáceis, a coisa rola normal. Dou um exemplo: aqui eu nunca saía de uma festa sem um namorado, já em Porto Alegre é muito difícil conseguir namorado. Muitos homens pelotenses, até casados, mantêm relações estruturadas com gays.”
Pausa para o café. Mais descontraído, Fábio levanta-se e traz dois convites em papel cor de rosa, Eles X Eles, Elas X Elas. “Apareça para conhecer mais. Estarei lá.”
A festa Gato Calabouço aconteceu dali a duas semanas. Fábio – agora Fabíola Ferrer – integrava o corpo de jurados encarregado de escolher o mais belo e atlético rapaz dentre uma dúzia que desfilavam seus músculos para uma numerosa plateia GLS. Casa cheia, paredes escuras, ambiente de caverna, garçons vestidos a caráter da cintura para cima – cobrindo o sexo apenas uma sunga reduzida. Clientela animada, mas comportada. Funcionando em uma espécie de casamata no bairro Fragata, a boate atrai não só gays e simpatizantes como grupos de mulheres que cotizam-se para aniversários ou despedidas de solteira. Há outra do gênero no centro, a Bay Bay, mais escrachada. A Calabouço funciona somente nos finais de semana e vésperas de feriados. Mesmo assim é lucrativa, informa Cleuton Alves, 24 anos, um dos sócios. “O nosso público é quase sempre o mesmo. Às vezes somem, dão um tempo, mas sempre acabam voltando e gastando bem. Têm políticos, empresários, professores universitários. Nós fazemos muitas promoções, trazemos transformistas de Porto Alegre, promovemos shows. Também damos uma canja para os michês, que não pagam ingresso.”
A festa Gato Calabouço foi, meses antes, precedida pelo Bingo Boy, cujo principal atrativo foi o sorteio de um loiro estilo Conan O Bárbaro de quase dois metros de altura, oferecido como prêmio ao vencedor, que imediatamente o levou para casa. Se quisesse, porém, poderia consumar ali mesmo: há uma peça escura nos fundos destinada ao usufruto dos mais afoitos, homens e mulheres. “No dia seguinte temos de recolher dúzias de camisinhas que ficam no chão”, diz Cleuton.
VAMOS ARRASAR COM ELES, COLEGAS! – Na noite em que o programa Você decide, da rede Globo, foi transmitido ao vivo da Praça Coronel Pedro Osório para todo o Brasil uma piada circulava pelo Café Aquário, o mais tradicional e frequentado da cidade. “Sabe como vai ser o final? Não dúvida entre as duas mulheres, o sujeito acaba ficando com a bicha.”
Gracejos domésticos, tudo bem. Da porta para fora a coisa muda de figura. Ano passado um jornal de Rio grande noticiou o despejo na praia do Cassino de cães vadios recolhidos nas ruas de Pelotas por funcionários municipais. A questão originou discussões e protestos entre a Noiva do mar e a Princesa do Sul. O que irritou mesmo os pelotenses foi a ilustração da matéria: ao desembarcar do caminhão, um cachorrinho de fitinhas amarradas à cabeça, convocava os demais: “Vamos arrasar com eles, colegas!” Irritado, o jornalista José Ricardo Castro, colunista político do Diário Popular, esbravejou: “Querem nos denegrir!” Os ânimos, felizmente, não tardaram a serenar, embora alguns pelotenses tenham se recordado do Doutor Pelotas, personagem criado pelo humorista porto-alegrense Carlos Nobre no final dos anos cinquenta e que ia ao ar pela Rádio Gaúcha. Para alguns o Doutor Pelotas consolidou a fama da terra. Criado para comentar os jogos do Esporte Clube Pelotas durante o campeonato gaúcho, o personagem emitia comentários maliciosos com voz efeminada.
A cidade, contudo, dava alguns panos para manga. Em 1968 gays de todo o Rio Grande do Sul aportaram em Pelotas para participar do feérico e inesquecível Baile da Pedra, evento realizado no dia da emancipação do município e que culminou com a escolha da Miss cocota do ano, um transformista chamado Mônica. Precursor do atual Gala Gay e do Nós em Festa, conhecidos em todo o Estado, o baile for realizado em uma oficina em obras com mesas de pedra e tornou-se o acontecimento social do ano, recebendo amplo destaque da mídia. Quem viu garante: foi um luxo só.
As reações contrárias logo surgiram entre a população local. Uma campanha “moralizadora”, deflagrada por um conhecido locutor de rádio, encontrou respaldo nos setores conservadores da sociedade e que se julgavam atingidos pela onda de libertinagem desenfreada e pela nódoa que pesava sobre o nome de Pelotas. Iniciava-se a “caça ás bichas” – quem aparentava ser era agarrado na rua e ali mesmo tinha seu cabelo raspado, deixando-se apenas uma mecha sinalizadora. A campanha, executada em pleno regime ditatorial, durou vários anos e, se não diminuiu o número de homossexuais assumidos, deu samba, a marchinha Rapa o Côco Dele, composta por um fotógrafo e um pintor de paredes e o maior sucesso carnavalesco de 1969 na cidade. “Rapa o côco desse/que ele também é/caminha rebolado e tem nojo de mulher.”
Vieram os anos setenta e nada da fala refluir. Na tarde de 4 de fevereiro de 1974, um domingo, o apresentador Silvio Santos fez referências à suposta ambiguidade sexual da população masculina pelotense. Justamente naquele dia – ou talvez por isso –uma comitiva de vereadores de Pelotas visitava o programa. Soava como injusta provocação. Faltava só o crachá, como publicou o jornal A Platéia, de Santana do Livramento, em um gracejo que passaria despercebido não fosse a ira de alguns vereadores liderados pelo peemedebista Raimundo Vieira da Cunha. Em veemente protesto em plenário, o edil repudiou “este jornal de 50 exemplares”:“Estão nos chamando de veados!” Também se fez referência a um projeto apresentado na Câmara de Rio Grande e que propunha o uso de um crachá com a letra V a ser usado por todos os vereadores gaúchos. Em Pelotas teria havido eufórico apoio à medida... Outra curiosidade que chamava a atenção da imprensa nacional e merecia seguidas matérias das grandes revistas do Rio e de São Paulo era um padre católico chamado Ozi Fogaça. Nada convencional, e estranhamente sem sofrer sanções da igreja, ele havia criado um bloco carnavalesco chamado de Bafo da Onça, onde o sacerdote desfilava usando trajes de mulher, no tradicional estilo dos blocos de "sujos". Fogaça tornou-se tão popular que se elegeu vereador pela Arena, a Aliança Renovadora Nacional, partido que dava sustentação ao regime militar de exceção.
No mesmo período o mundo gay pelotense dava nome a alguns dos seus membros através de uma escrachada imprensa cor de rosa e circulação restrita. Nos anos sessenta surgiram, por exemplo, o Ponto Clube, Maricolândia e Clube dos Inocentes, informativos em papel ofício e cuja tiragem raramente ultrapassada os 50 exemplares rodados em mimeógrafo e que eram remetidos a travestis que moravam na França, Itália e Inglaterra. “Muita gente acha graça de nós, mas nós também achamos graça de muita gente”. Com esse bordão na capa o Ponto Clube, “semanário de divulgação das libélulas pelotenses”, noticiava, opinava, denunciava e fofocava. Uma discoteca que abrira em Milão, um filme recém lançado com atores gays, a escolha da Miss Boneca do ano na cidade, e também muita fofoca: “Sara Jane já retornou de sua circulada pela Europa, onde curtiu horrores”. “Com um sorriso de orelha a orelha, Michelle Morineau está aguardando impaciente a chegada do seu príncipe de Bagé neste feriadão. Grandes badalos e quebra-louça à vista.”
O Ponto Clube desapareceria ainda nos anos setenta para ressurgir nos oitenta, agora sob a responsabilidade de Andrea Messalina, Leide Messalina, uma das locomotivas da sociedade gay pelotense. As libélulas esvoaçavam então sob a luz mortiça do Fruto Proibido e do Clube 77, onde tais jornais eram distribuídos gratuitamente. Rebatizado de Ponto Gay Clube, o informativo dava asas à imaginação, como se vê aqui neste texto assinado por “Luis Augusto”:
“Sob o Signo da Ilusão (fantasia sexual”
“Tudo começou lá em casa, após um uísque. Os convidados todos já tinham ido embora. Restávamos Cláudio e eu na sala. Conversávamos sobre sexo. De repente senti sua mão pousar nas minhas coxas. Era sempre assim. Cláudio tinha essa mania de falar comigo me tocando. Aquilo me vencia, mas jamais poderia dizer-lhe. Não suportei. Toquei as suas, desta feita já excitado. O moreno de coxas grossas penetrava na minha mente, aumentando ainda mais a minha ansiedade. Naquele ida eu seria seu, custasse o que custasse – e bolas para a sociedade. Cheguei ao monte divino. Senti o tamanho e pensei no estrago que iria fazer em mim. Não importava. Eu havia chegado a um limite. Não dava mais. Era apaixonado por ele. Era meu sonho pegar aquele roliço e depois me oferecer. Ele, um pouco espantado, deixava tudo. Já estava também bastante excitado com minhas suaves massagens. Então chegou a hora. Após todo o ritual de nudez, encostei meu ânus no seu pênis e comecei a penetrá-lo em mim. Gemendo e gritando, sentava em cima – a princípio vagarosamente e depois com violência– um paraíso de gozo jamais imaginado. Quando dei por mim, porém, percebi o quanto havia sonhado. O Prestobarba estava todo enfiado em meu ânus e o Cláudio não era mais que um pôster da revista Rose”.
Em outubro de 1976 um grupo de jornalistas resolveu encarar de frente a fama da cidade. Ayrton Centeno, Luiz Ricardo Lanzetta e Róbson Barenho colocaram nas bancas o semanário Triz, “o nanico de Pelotas”. Bem redigido, equilibrado em sua linha editorial e com boa apresentação gráfica, trazia a seguinte manchete de capa:“Frescura?” E, como título interno: “São 250 mil habitantes e uma fama nacional”. Em cinco páginas, com muitos depoimentos, isentando-se de emitir juízos ou conceitos e sem resvalar para o folclórico fácil, esmiuçava o tema, sem esquecer de traçar paralelos. “No extremo da rodovia, a nossa irmãzinha: Campinas”. A rodovia, no caso, era a famosa Transviadônica.
Triz durou um único número.
GAIOLA DAS LOUCAS – “Sabe como o pelotense tira a camisinha? Dá um passo pra frente”. Paulo não é pelotense, é bageense, mas mora na cidade faz mais de dez anos. Bageense tem fama de machão, exatamente o contrário de quem nasce em Pelotas. Dois pesos e uma só medida. Ele explica, brincalhão: “Acho que é melhor ser pelotense do que bageeense. O bageense tem sempre que estar fazendo pose de machão, já o pelotense, se não for bicha, já está no lucro.”
Já é mais de meia-noite, estamos em um bar da Avenida Bento Gonçalves. Como é sexta-feira, não chove ou faz frio, a madrugada promete: “Vamos lá?”
Seguimos de carro. Primeira parada: Rua Santos Dumont, esquina com a Doutor Cassiano, onde dezenas de travestis fazem ponto, à espera dos clientes. Paulo pára, sem desligar o motor, e uma loira (o) de óculos de grau com ar de professora primária aproxima-se e oferece seus serviços. “Faço tudo”, garante. Preço: 50 reais, mais o motel. “Se for pra passar a noite é mais caro.”
Na quadra seguinte a oferta é ainda maior – meia dúzia de travestis, loiras oxigenadas, morenas, perfilam-se profissionalmente. A demora da escolha irrita um mulato (a):“Escolhe rápido, querido, e leva!” Nova rodada de negociações. Nada feito. Avante.
Mais deles na Rua Barão de Santa Tecla e na Voluntários da Pátria. Paulo calcula mais de 50 travestis em atividade nas ruas, bares e boates da cidade. “Mas se você for escrever sobre isso, não esqueça de dizer que oficialmente Pelotas é a capital do Doce e da conserva, entendeu?”
O Banco Pelotense foi um dos maiores do Brasil nas primeiras décadas do século vinte, e de certa maneira simbolizava a pujança econômica da Princesa do Sul. Nesta reprodução, extraída do Correio do Povo de 1928, um anúncio da instituição que teria, depois disso, poucos anos de vida.