domingo, abril 13, 2008

Os prós e os contras da Terceira Perimetral

Com seus 12 quilômetros de extensão, pistas largas que cruzam 20 bairros, a Terceira Perimetral foi definitivamente concluída – depois de longos e conturbados anos de obras que exigiram o sacrifício da comunidade e, sobretudo, dos comerciantes situados à sua volta. Orçada em quase 60 milhões de dólares – entre recursos municipais e financiamentos junto aos organismos internacionais – a mais moderna e rápida via expressa de Porto Alegre deu outra cara à nossa paisagem urbana.
Iniciando na Zona Norte, liga esta parte da cidade com a zona leste e, por fim, com a Zona Sul e o Extremo Sul da Capital, o que facilitou extraordinariamente o tráfego entre todas essa regiões, permitindo um rápido acesso ao Aeroporto Salgado Filho e às praias do Litoral Norte. Idealizada há vários decênios, tornou-se uma gradativa realidade a partir dos governos da Frente Popular, que priorizaram a iniciativa. Seu término aconteceu agora, no governo de José Fogaça, com a conclusão do viaduto Celso Furtado – de passagem de nível – no bairro Teresópolis, onde, aliás, acaba oficialmente. Com a duplicação da avenida Juca Batista, ganhou ainda mais importância no sistema viário de Porto Alegre.
IMPORTÃNCIA - “A Terceira Perimetral é um eixo viário, um sistema de propulsão do tráfego de Porto Alegre”, explica o secretário municipal de Obras e Viação, SMOV, Maurício Dziedriki.
“O intuito da obra é resolver o problema de deslocamento entre as regiões norte e sul e tem grande importância no crescimento da cidade, com estímulo aos estabelecimentos comerciais, é um projeto extremamente dinâmico”.
Dinâmico é, de fato. Por sua característica de via expressa, apresenta poucos pontos de interceptação e de parada – ou seja, prioriza-se a velocidade e os motoristas, algo bem diferente do que eram, por exemplo, a avenida Senador Tarso Dutra, a avenida Salvador França, a Coronel Aparício Borges e a avenida Teresópolis. Em decorrência desse fator, muitos comerciantes terão de se adaptar às novas características, o que nem sempre é fácil. Mesmo enfatizando o lado positivo da obra – entre os quais se inclui a valorização dos imóveis às suas margens – muitos deles queixam-se de que estão, até este momento, arcando com alguns prejuízos originados pelo trânsito rápido, pela falta de locais de estacionamento e pelo recuo forçado de seus territórios.
Um dos que se julgam prejudicados é um dos proprietários do Supermercado Tres, Valcir Tres, instalado em Teresópolis há 30 anos. Embora não esteja às margens da perimetral, e sim um pouco adiante, na sua continuação, o comerciante diz ter observado uma queda no movimento de clientes. “Na realidade, paro o comércio a Terceira Perimetral foi muito ruim. Perdemos o estacionamento, que no meu caso já era pequeno, e ainda por cima não nos indenizaram”, conta ela. “Eu senti uma queda no movimento. Para o comércio, nenhuma via expressa é boa, ninguém para seu carro e, em consequência, acabamos ficando só com a clientela tradicional, a mais fiel, que mora muitas vezes aqui perto”.
O Três é um típico supermercado de bairro cujo diferencial é o preço menor que oferece aos fregueses, fruto, diz Valcir, de custos menores que o arcado pelas grandes redes. Além deste ponto, na avenida, o Tres está presente em mais três outros locais da Zona Sul (são cerca de 40 funcionários, no total) – sendo um outro em Teresópolis. Mesmo assim, Valcir reconhece que a Perimetral “foi uma obra boa para o trânsito”.
Também em Teresópolis (avenida Teresópolis, 3111), Iara Ribeiro, proprietária da loja Iara Cabeleireiros, lembra os transtornos de mais de dois anos de construção, com a presença das máquinas, dos operários, do barulho e da poeira. Foi o período mais crítico, para ela.
“Muitas vezes faltava água aqui para nós, e um salão de beleza sem água não existe. Tivemos que negociar com o pessoal das empreiteiras, apelar para a colaboração deles que, felizmente, existiu.” “Mas valeu a pena”, argumenta. “Ficou bem mais bonito, não posso reclamar, estou nesse ponto há quase 30 anos, peguei isto aqui quando era uma faixa estreita. No meu caso, o movimento continua igual, não tive prejuízos, até porque os meus clientes moram no bairro, em sua maioria.”
Opinião reforçada por Margarete Woyda Seixas, dona da Voida, Moda Grande, uma poja de moda situado junto ao Supermercado Nacional, também em Teresópolis. “Não senti nenhum prejuízo”, afirma ela, que tem outra loja na avenida Wenceslau Escobar, na Tristeza, também ampliada.
“Lá sim, foi ruim, as obras de duplicação causaram muitos transtornos e teve muita gente que fechou seus negócios”. Quem também mostra neutralidade é Jocemar, funcionário da Academia Power Center (avenida Teresópolis, 3621), presente há mais de 20 anos no bairro. “No nosso caso não teve nenhuma mudança, até porque temos estacionamento próprio”, afirma ele.
Ter estacionamento parece ser o nó central da questão – algo extremamente necessário e problemático. Como aumentou extraordinariamente a quantidade de carros em Porto Alegre, assim como o trânsito se torna a cada ano mais complicado, o estabelecimento comercial que não dispor de tal espaço para ofertar a seus clientes simplesmente deixa de existir para os compradores motorizados.
Como a obra de ampliação comeu alguns metros quadrados de muitos empreendedores, eles perderam uma boa gama de fregueses para seus concorrentes que dispõem desse serviço. É o caso da Cervofarma, uma drogaria localizada na avenida Aparício Borges, 539. Há mais de 20 anos no mesmo local, a farmácia sentiu uma leve queda em seu movimento. “O movimento deu uma diminuída por causa do estacionamento que ficou menor. O pessoal hoje corre o risco de ser multado. Antes dava para parar quatro ou cinco carros aqui, agora não dá mais, até porque estamos na esquina com a Oscar Pereira”, informa Alexandre, um dos atendentes.
Outra farmácia – esta mais recente – que sentiu os reflexos da via expressa é a SOS Farmácia, na Aparício, 1463, esquina com a rua São Miguel. Segundo Vinícius, um dos funcionários, a obra é boa e necessária. Contudo, a par das visíveis vantagens, ele se mostra relutante com a “tranqueira no horário de pico”, além de lamentar a falta de estacionamento. “Antes tinha mais circulação, mais facilidade”.
VEICULOS – Sonia Braga dos Santos, dona da Ipanema Veículos (Aparício Borges, 1187, a uma quadra e meia da Oscar Pereira) – compra e venda de veículos novos e usados - considera o excesso de velocidade um dos principais problemas da Terceira Perimetral e pede a instalação de “alguns pardais”. Ela também acha negativo o fato de se ter feito a calçada do passeio público muito estreita, o que, no seu caso, impede um melhor acesso ao pátio onde estão os veículos à venda.
“Eu não tenho onde meter o meu carro, quando chego, a não ser em cima da calçada, e até já fui multada pelos azuizinhos por isso”. Sonia acha que alguns clientes foram perdidos em função desses dois fatores. “Eu acho que a gente perdeu clientes pelo fato da faixa ser muito rápida, o pessoal olha e passa, acaba indo para outro local”. Assim como muitos outros comerciantes, ela tem clientes fiéis, o que é sempre algo positivo nesse caso, e, mesmo lamentando os transtornos – principalmente no período das obras – considera a Terceira Perimetral algo positivo:
“É um referencial para os clientes, um argumento de vendas que se pode colocar no cartão. Eu tenho muitos clientes do interior e sempre digo a eles que estou na Terceira Perimetral, com fácil acesso. Além disso é uma avenida bem iluminada, antigamente a gente tinha uma simples estradinha aqui”. Conforme tem observado, muitos clientes que haviam indo embora em função dos transtornos da construção agora estão voltando – e com ânimo redobrado.
BOTÃNICO - Mais adiante, em direção à Zona Norte, no bairro Jardim Botânico, a Terceira Perimetral trouxe um surto de progresso. O comerciante Paulo Silveira, dono de um pequeno armazém e bar na esquina com a Valparaíso, lembra dos tempos em que a avenida Salvador França era uma faixa estreita e poeirenta – agora é uma larga e movimentada avenida.
“No meu caso, e acho que no de todos na volta, foi muito bom. Valorizou os imóveis, inclusive o meu, trouxe novos negócios, além de mais segurança e iluminação pública. Hoje a gente pode dizer que faz parte do mapa de Porto Alegre. Pra mim, tá tudo ótimo, nem quero falar do passado, que era uma estagnação só”.
De fato, os aspectos positivos dessa importantíssima obra viária superam amplamente quaisquer possíveis e passageiras desvantagens – aos poucos os empresários vão se adaptando às suas característicos e diminuindo seus leves lamentos, muito embora, em alguns casos pontuais, os prejuízos realmente existam.
“Quem acha ruim a Terceira Perimetral tem que ser internado no Hospital Espírita”, afirma, com veemência, Pedro Pandolfo, proprietário da Pedrocar (Praça Guia Lopes, 87) e líder comunitário. “Quem diz que é ruim é porque nunca acompanhou o processo. Para nós foi ótimo, valorizou os imóveis o bairro, além de ter sido uma discussão democrática na qual a comunidade foi ouvida e deu sugestões. É claro que tem gente que quer um retorno a cada quadra, o que chega a ser uma piada”, opina ele. Ex-presidente e ex-vice-presidente da da Associação Comunitária do Bairro Teresópolis, presente no bairro desde 1969, Pedro lembra as compensações que a comunidade teve com a via expressa. “Ganhamos um centro cultural, um posto de bombeiro e de policiamento, então não podemos falar em prejuízos”.

Imóveis se valorizaram

A valorizacão dos imóveis em sua área de influência foi um dos efeitos mais marcantes da Terceira Perimetral. Segundo Jairo José Dorneles, corretor que atua no Cristal, “o mercado melhorou, as pessoas procuram comprar imóveis com localização adequada para as suas necessidades, perto de faculdades, por exemplo”.
No caso da Terceira Perimetral, diz Jairo, não chegou a haver um acréscimo nos preços dos imóveis, porém a utilização da Perimetral como argumento de vendas não pode ser desprezada.
“É claro que eu uso isso como argumento de vendas. As pessoas, hoje, estão buscando facilidade de deslocamento e proximidade com faculdades, por exemplo, e a Perimetral leva as pessoas à PUC”, lembra ele.
Trabalhando há 35 anos no Cristal, Jairo vê a Zona Sul, hoje, crescendo a partir da avenida Juca Batista, principalmente. “O Cristal não tem mais como crescer, a tendência é crescer a partir da Juca em direção à Restinga, é ali que está o progresso”. Segundo ele, “se o camarada tem filhos na Faculdade, a gente explora esses argumentos, assim como a facilidade para se chegar ao aeroporto”. A Perimetral, no seu entender, trouxe facilidades de deslocamentos, entre tantas vantagens porém a Zona Sul, na sua visão, ainda tem muito a crescer, especialmente caso saia do papel o tão falado shopping no bairro Cristal, junto á área do Hipódromo.
“As informações que eu tenho é que esse shopping vai realmente sair, vai ser construído pela Interplan, uma empresa paulista, e talvez esteja em construção já no próximo ano. A Zona Sul está crescendo mais para o sul. O Cristal, por exemplo, não tem mais como crescer, e nem Ipanema, para citar outro exemplo. O que está mais se desenvolvendo hoje é a Juca Batista, em direção à Restinga”, opina ele.
Outra corretora que viu vantagens na conclusão da Perimetral é Ana Paula Matos, funcionária da imobiliária A3. Vantagens que não chegam a ser mensuráveis no momento, afirma ela, porém utilizáveis no convencimento do cliente.
“O acesso à Zona Norte, a facilidade de se chegar à PUC, às faculdades, tudo isso funciona como um excelente argumento de vendas”, reconhece. “”É claro que os preços não foram alterados, os valores, mas as pessoas valorizam as vias rápidas, as facilidades de deslocamentos, e a Zona Sul, por ser uma parte mais sossegada da cidade, tem atraído muita gente”.

Hospital São Lucas é centro de excelência

Muita gente não se recorda, mas o Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica, PUCRS, é irmão do Condomínio Habitacional Felizardo Furtado. Pelo menos na data de inauguração e na pessoa inauguradora – o então presidente da República Ernesto Geisel.
Foi ele quem cortou a fita inaugural do primeiro hospital da Congregação dos Irmãos Maristas em todo o mundo (hospital que muita gente, erroneamente, pensa não estar localizado no Jardim Botânico). O dia era 29 de outubro de 1976, uma sexta-feira, e o São Lucas surgiria ao mundo como “Hospital Universitário da PUCRS” - um hospital geral, destinado a pacientes adultos e crianças e também um local de estágio para os mais de 800 alunos de vários cursos da PUC. As obras haviam iniciado em 1972 e, em 1973, estavam concluídos os laboratórios, colocados à disposição para o ensino médico, com os estudantes do curso de Medicina atendendo sob orientação dos professores da Faculdade. Em 1982, por razões jurídicas – e também por ter mudados seus objetivos iniciais – passou a ter a denominação atual.
200 MILHÕES DE CRUZEIROS - A construção só foi possível graças a subvenções estaduais (seis hectares foram doados pelo Governo do Estado), subvenções federais e financiamentos externos, além dos recursos da própria PUC. O São Lucas foi o trigésimo nono hospital de Porto Alegre e aproveitou a primeira turma do curso de Medicina da Universidade, formada em 1975. O custo total da obra foi de 200 milhões de cruzeiros – o que valeria isso hoje?
Na época da inauguração tinha 40 mil metros quadrados de área construída, capacidade para 600 leitos, 27 ambulatórios, além de laboratórios, salas de raio X, etc. Um completo equipamento para atendimento geriátrico veio do Japão e, em breve, passaria a contar com setor de Medicina Nuclear e Praxiterapia. O Centro Cirúrgico contava com 12 salas. O início do funcionamento, entretanto, não seria imediato.
Naquele 29 de outubro, depois do Presidente ter inaugurado o Condomínio Felizardo Furtado, sua comitiva deslocou-se até a avenida Ipiranga, onde foi recebida pelo Irmão José Otão, Reitor da PUC, pelo Cardeal D. Vicente Scherer e por um grupo de professores. Geisel – que tinha a seu lado o governador Sinval Guazzelli – descerrou a placa comemorativa e D. Vicente deu a benção.
Atualmente circulam pelo São Lucas cerca de 18 mil pessoas, todo dia, muitas delas vindas de outros Estados. A área construída, neste momento, é de 55 mil metros quadrados, sendo 49 mil de hospital e seus serviços e 6 mil do Centro Clínico. Cerca de 2.300 funcionários trabalham no local, sendo 170 médicos residentes e um corpo clínico de outros 550 médicos. O estacionamento é suficiente para 1.500 veículos. Internamente, são 549 leitos para pacientes internados, sendo 440 de internação convencional e 78 de UTIs – adultos, coronariana, pediátrica e neonatal – além de 22 leitos de observação para pacientes de urgência. O ambulatórios está projetado para 110 consultórios e atualmente passa por modificações.
CENTRO DE REFERENCIA - O Centro Clínico foi inaugurado em 1988, e abriga 160 conjuntos, 64 especialidades médicas e é destinado preferencialmente aos professores da Faculdade de Medicina. Mantido pela UBEA – União Brasileira de Educação e Assistência, uma entidade civil da congregação dos Irmãos Maristas em Porto Alegre – o São Lucas tem nove pavimentos, sendo o último com apartamentos de internação particular e de luxo. Atende também pelo Sistema Único de Saúde, SUS, e seu objetivo oficial é “ser reconhecido, no Brasil, até o ano 2010, como um hospital padrão de referência em gestão, assistência, ensino e pesquisa em saúde”.
O nome homenageia São Lucas, apóstolo, médico e padroeiro dos médicos.
TELEFONES: 3320.3000 (geral). 3320.5000 (centro clínico).


Mais de 2 mil funcionários trabalham no São Lucas, um hospital escola da PUC que se tornou centro de excelência médica em várias áreas.

Professora Nidia lembra dos anos 50

Dona Nídia Ricciardi de Castilhos foi professora e diretora (sete anos) da escola Otávio de Souza, época em que também residia no bairro. Mais de meio século depois, ela lembra do Jardim Botânico (mora hoje na Barão) como uma ilha de tranquilidade e do Otávio de Souza como um colégio de pais interessados e alunos comportados, muitos dos quais a encontram na rua nos dias de hoje: “Eles ainda me cumprimentam e perguntam como estou”, diz.
Natural do Alegrete, na Fronteira, 77 anos de idade, ela começou a dar aulas no antigo Otávio de Souza no distante ano de 1954 – ou seja, 52 anos atrás. Nessa época, recém casada, morava na rua Surupá, “em uma casa de alvenaria, alugada da família Scherer, que tinha muitas casas aqui.” O Otávio só ia até a quinta-série, era ao lado da ESEF e todos, segundo ela, “eram todos do Botânico e todos muito bonzinhos”.
A vida era simples, então, todos se conheciam e aos domingos muitas famílias faziam piqueniques no recém-inaugurado Jardim Botânico. A avenida Salvador França – que ia somente até a rua Felizardo – já era uma avenida movimentada, garante, “muito larga, de terra batida, com muitos ônibus passando”. A Vila dos Bancários já existia, a maioria das residência do bairro eram de madeira e o armazém do Antonio Mocelin, no final da linha do ônibus, era o centro de tudo, uma espécie de supermercado da época. “Depois veio o seu Alécio, na esquina com a Barão do Amazonas. “Lembro que havia um açougue na esquina da Valparaíso com a Salvador França e um mercado do outro lado, de uns alemães”, recorda. “O prédio que está na esquina da Salvador com a Surupá também já existia, acho que foi o primeiro prédio daqui. Esses dias eu voltei na rua Surupá, não reconheci e perguntei a uma pessoa que rua era aquela. Sabe o que ela respondeu: é a rua em que a senhora morou!... Sei que está diferente, muito bonita”.
Para matar as saudades desse tempo, dona Nídia e as antigas professoras e amigas do colégio Otávio de Souza reúnem-se uma vez por mês. “Tomamos chá e falamos daquela época”, conta ela.

Condomínio Felizardo Furtado foi inaugurado pelo Presidente da República

Sexta-feira, 29 de outubro de 1976. Os jornais do dia traziam notícias sobre a onde de assassinatos e violência política na Argentina, onde, depois do golpe militar do início do ano, subia para 1.135 o números de mortes, no confronto entre a ditadura e a guerrilha de esquerda. Nos Estados Unidos, o candidato Jimmy Carter, do Partido Democrata, perdia votos para o republicano Gerald Ford, indicavam as pesquisas da campanha eleitoral americana que teria lugar no mesmo ano.
Enquanto isso, no Brasil, tal como hoje, milhões de pessoas acompanhavam a novela “O Casarão”, transmitida pela rede Globo.
Quem estivesse a fim de ver um filme no cinema, tinha à disposição, nas proximidades, os cines Ritz e Açores e, mais adiante, no Partenon, o Miramar e o Regente.
Aliás, naquele dia de outubro de 1976, às 19 horas, a mesma emissora – através da TV Gaúcha – transmitia a novela das 18 horas, “Escrava Isaura”, seguida, uma hora mais tarde, por “Estúpido Cupido”. Pela manhã, passa a “Vila Sésamo”. Na área esportiva, o Internacional, campeão brasileiro do ano anterior (e que seria bi nesse ano), preparava-se para jogar no domingo contra o Coritiba, em Curitiba, enquanto o Grêmio de Telê Santana deveria enfrentar o Fluminense no estádio Olímpico. No plano econômico, um dólar valia 11,75 cruzeiros na compra e 11,83 na venda.
Iniciava-se um esperado feriadão, já que a segunda-feira, 2 de novembro, seria a data de Finados. Em Porto Alegre acontecia a Vigésima Segunda Feira do Livro, evento que merecia amplo destaques nas páginas do principal jornal do Rio Grande do Sul, o Correio do Povo.
Abaixo, o condomínio visto de dentro, e a moradora que leva seu cachorrinho a passear na calçada que margeia o conjunto, um hábito cada dia mais comum em tempos de solidão.



Condomínio da CORSAN, um dos mais antigos

Mais antigo do que o conjunto Felizardo Furtado, o Condomínio Conjunto Habitacional dos Servidores da CORSAN foi inaugurado em maio de 1974. São três prédios, totalizando 319 apartamentos de um e dois dormitórios, além de um salão de festas, uma churrasqueira, uma quadra de esportes, uma pracinha e uma construção destinada ao setor administrativo.
Entre a Itaboraí e a Felizardo, vizinhando com a Praça Nações Unidas, com oito andares cada, as três construções chamam a atenção de quem passa.Boa parte dos atuais moradores – cerca de 1200 pessoas - estão aqui desde os primeiros anos, como é o caso da síndica-geral (não existem síndicos por prédios), Inajara Silveira. “Vim para cá em julho de 1974. Lembro que foi feita uma coooperativa dos funcionários da Corsan, que começaram a pagar as prestações dois anos antes, quando do lançamento. Eu comprei o meu de um deles”, recorda ela. “Eles vendiam na planta”. A construtora responsável era a Gus Livonius, a mesma que fez o condomínio da Felizardo e que hoje, ao que tudo indica, não está mais operando no mercado. Quanto aos terrenos, pertenciam então ao senhor Pedro Pieretti – tradicional família do bairro.
ESTUDANTES – Em estilo antigo, cercado, sólido, com janelas de madeira, pintadas de verde, o Condomínio é formado, basicamente, por proprietários dos imóveis – cerca de 60 ou 70% dos moradores. Estes, em sua maioria, são pessoas de certa idade, “gente que chegou e foi envelhecendo aqui”, informa Inajara, moradora do Jardim Botânico há 40 anos. Ele recorda que por essa época, metade dos anos setenta, onde hoje está o Supermercado Gecepel havia o Supermercado Dalmás. Na volta, dos comerciantes, lembra do seu Alécio, do seu Camilo, do seu filho Zeca, da Padaria da Esquina com a Barão, da Farmácia Ideal, da Léa”.
Habitação tipicamente de classe média, o Condomínio tem alterado o seu perfil nos últimos anos, revela Inajara Silveira. “Noto que temos muitos estudantes, muitos deles vindos do interior, que alugam os apartamentos entre três ou quatro. Há também gente do interior que compra para os filhos”. Mesmo assim, não há maiores problemas de violência ou confusão entre os moradores, grande parte dos quais se conhece e se cumprimenta. Algumas câmeras de vigilância estão instaladas em pontos estratégicos (mas não nos elevadores) e foi contratada uma empresa especializada nisso – a Dielo.
Outra antiga moradora é dona Vírginia Odiva dos Santos, secretária da administração que está aqui desde os anos oitenta. Segundo ela, a procura pelos apartamentos do conjunto é muito superior à oferta, tanto que, hoje, praticamente não resta nenhum que não esteja ocupado. “Com a chegada do Bourbon, valorizou muito”. A valorização só não é maior pelo fato de só existirem 85 boxes de estacionamento de veículos, o que obriga muitos moradores a deixarem seus carros em estacionamentos pagos situados nas imediações.



Emanuel Domingues surgiu em 1971, destinado ao funcionalismo

São três andares, 218 apartamentos (máximo de 16 por andar) de dois, três e quatro dormitórios e seis lojas que estão fechadas. Localizado entre a avenida Ipiranga, a rua Alcebíades Caetano da Silva e a Chile, o Conjunto Residencial Emanuel Domingues foi inaugurado em 1971.
Destinado inicialmente a funcionários públicos, era um projeto do Instituto de Pensionistas do Estado, IPE, que financiava os imóveis pelo esticado prazo de 15 ou 20 anos. Aos poucos, como é natural, passou a ser habitado por um público variado, mas sempre de classe média e, em sua maioria, idosos – no caso dos proprietários. “Já os que alugal são geralmente jovens”, informa Clari Tende, síndica geral e moradora do condomínio há 19 anos.
Anterior ao Felizardo Furtado e ao da Corsan, o Emanuel Domingues não conta com elevadores e nem um sistema permanente de vigilância – que acontece somente à noite, aos finais de semana e nos feriados. Os furtos e roubos, porém, não chegam ainda a ser um problema, apesar da localização junto à avenida, garante a síndica.
A infra-estrutura do Residencial é bastante simples: algumas churrasqueiras e uma pequena pracinha para as crianças. Não existem elevadores. Estacionamento existe, mas não em quantidade suficiente.
Erguido em uma época em que o bairro era ainda uma espécie de vila formada por muitas casas de madeiras, terrenos baldios e antigos e pequenos prédios de alvenaria, o Emanuel Domingues (homenagem a um antigo morador do Jardim Botânico, dizem alguns) foi projetado originalmente para ir até a rua Valparaíso (por onde, em 1971, passava o Riacho Ipiranga), o que não aconteceu devido às invasões do local.
Em 1971, quando o condomínio foi construído, o bairro Jardim Botânico ainda contava com muitos terrenos baldios e áreas baixas que alagavam nos períodos de chuva.

Ruas homenageiam figuras históricas

De um modo geral, as ruas do Jardim Botânico homenageiam vultos, datas e figuras históricas, em especial na área militar e religiosa, como a Barão do Amazonas, a Roque Gonzalez. Mas há outras, como a Felizardo, a Felizardo Furtado e a Guilherme Alves, que dizem respeito à história da cidade.

RUA BARÃO DO AMAZONAS – Na realidade bem poderia se chamar “Almirante Barroso”, pois o Barão é nada menos do que o Almirante Francisco Manoel Barroso, o herói da Guerra do Paraguai. Comandando a corveta “Amazonas”, durante a Batalha do Riachuelo, o Barão ordenou ao timoneiro que a fizesse colidir de proa contra os navios inimigos, selando a sorte da guerra em favor do Brasil.
A Barão tem mais de três quilômetros de extensão e atravessa Petrópolis, Jardim Botânico, Partenon e o bairro Santo Antonio, iniciando na avenida Protásio Alves e terminando na Paulino Azurenha. Até a década de 1930 era conhecida tanto como Barão do Amazonas como “rua Esmeralda”. Uma lei municipal de 6 de julho de 1936 oficializou o atual nome. Nas décadas seguintes, com o desenvolvimento de Petrópolis, seguiu até a Protásio Alves e, em sentido oposto, subiu o morro, superou a sua crista e desceu no rumo da Glória, até encontrar a Paulino Azurenha.

Ao lado da Caixa Econômica Federal (no interior do shopping Bourbon), o banco Itaú é uma das duas agências bancárias do bairro. Nesta foto, o prédio do banco, na avenida Barão do Amazonas, o movimentado e valorizado "centrinho" do Botânico.

RUA DOUTOR SALVADOR FRANÇA – Salvador França Martins, nascido e falecido em Porto Alegre, foi um grande proprietário de terras na cidade no século XIX e XX. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo. Casou-se com Dona Inocência Prates de Castilhos, irmã do político republicano Júlio de Castilhos.

RUA DONA INOCENCIA – Homenagem à esposa do doutor Salvador França.
RUA FELIZARDO – Joaquim José Felizardo (1839-1899) foi um grande comerciante e partidário do abolicionismo. Muito antes da lei que libertou os escravo, eles já havia dado liberdade a todos os seus. Foi proprietário de terras no Caminho do Meio, alturas do hoje bairro Santa Cecília, naquela época conhecida por Chácara Felizardo, além de vereador de Porto Alegre.
RUA FREITAS CABRAL – João Francisco de Freitas Cabral, educador e político, nasceu em Viamão e morreu em Porto Alegre, em 1890. Foi marinheiro dos 18 aos 21 anos e depois tornou-se professor. Também elegeu-se deputado provincial. A rua, antigamente, se chamava rua Carlos Barbosa.
RUA FERREIRA VIANA – Divisa de Petrópolis com o Botânico. Homenageia Antonio Ferreira Viana, pelotense de nascimento, nascido em 1832 e falecido em 1905, no Rio de Janeiro. Formado em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi deputado, senador e conselheiro do Império, além de ministro da Justiça de D. Pedro II. Espírito brilhante, grande orador, escritor de estilo primoroso, magoou o Imperador com um de seus pronunciamentos, porém nunca deixou de ser adepto do império. Antes de receber tal nome a rua chamava-se Simão Rosa.

RUA ROQUE GONZALES – Roque Gonzalez foi declarado santo pelo Papa João Paulo II, quando da sua visita ao Paraguai, em 1988. Da ordem dos Jesuítas, é considerado, junto com Afonso Rodrigues, um dos primeiros evangelizadores do Rio Grande do Sul e um dos primeiros mártires da nossa terra, já que os dois foram assassinados pelos índios guaranis no dia 15 de novembro de 1628, onde hoje é a localidade de Caiboaté. Roque, que tinha então 52 anos de idade, morreu com uma pancada de machado de pedra na cabeça e seu corpo foi depois queimado pelos índios que não concordavam com sua missão evangelizadora. Gonzales era filho de uma rica e importante família de Assunción, Paraguai, de onde veio. Junto com Afonso e um outro missionário chamado João del Castilhos, fundou várias missões – ou “reduções” no Paraguai, Argentina e Brasil, além de ter oficiado a primeira missa em terras do Rio Grande do Sul.
RUA AFONSO RODRIGUES – Afonso Rodrigues, também jesuíta, foi morto junto com Roque Gonzales e também foi declarado santo pelo Papa João Paulo II. Natural da Espanha, seu corpo foi queimado pelos guaranis.

RUA GUILHERME ALVES – É uma via que corta tanto o Jardim Botânico quanto o Partenon, iniciando na Ferreira Viana, passando pela Ipiranga e acabando na rua Mário de Artagão, no Partenon. Na planta municipal de 1916 aparece com o nome de “rua Progresso”. Em 1936 passou a ter o nome atual. Guilherme Alves, nascido em 1878 e falecido em 1930, foi o primeiro construtor dos grandes armazéns da zona do cais do porto, armazéns estes que mais tarde passariam a partencer à Cia. Costeira de Navegação. O nome da rua, porém, tem mais a ver com o fato de ter sido ele um dos primeiros construtores residenciais do bairro Partenon. Segundo se sabe, o progresso da rua foi lento mas firme. Na planta municipal de 1928, era apenas um logradouro do Partenon, sem ainda ter passado do arroio Dilúvio. Na planta de 1949 já aparece nos limites do Jardim Botânico.
RUA 18 DE SETEMBRO – É aquela pequena rua ao lado do shopping Bourbon. A data marca a rendição do Paraguai ao Brasil, na Guerra do Paraguai. Nesse dia, em 1865, em Uruguaiana, as forças paraguaias, cercadas pelos exércitos brasileiros, decidiram capitular.
Na história, o dia 18 de novembro também registra fatos marcantes: foi nesse dia, em 1950, que entrou no ar a TV Tupi, de São Paulo, de propriedade de Assis Chateaubriand, a primeira emissora de televisão do Brasil.
Em 1946, também nesse dia, é promulgada a Constituição Brasileira, a primeira depois da ditadura Vargas e que só seria alterada em 1988. Em 1969, é sancionada a Lei de Segurança Nacional do governo militar, prevendo inclusive pena de morte, prisão perpétua e banimento do país. Em 1984 o brasileiro Amir Klink completou a travessia do oceano Atlântico em um simples caíque, a primeira de suas muitas proezas. A data registra ainda a morte de Jimi Hendrix (1970), o nascimento da atriz Greta Garbo (1905), a fundação da CIA – Central Inteligency Agency, em 1947, a fundação do jornal New York Times(1851), além da Independência do Chile (1818).
Salvador França foi casado com Dona Inocência - os dois são, hoje, nomes de ruas do Botânico. Nas outras fotos, a avenida Ipiranga, vista da passarela que conduz à PUC, onde antigamente era o "banheiro dos padres" e onde se pescava e se tomava banho. Imundo e quase sem vida, o riacho é frequentemente dragado para a retirada de milhares de toneladas de detritos.

Bourbon mudou o perfil do bairro

Ele foi, e é, o mais importante estabelecimento comercial do Botânico, o empreendimento que modificou as características e valorizou toda a região à sua volta. Visto da Ipiranga, torna-se ainda mais grandioso – e quem não se lembra dos vários anos da sua construção, em um terreno que faz parte da história do JB, com dois campinhos de futebol varzeano? Pois ali (avenida Ipiranga, 5200), em 16 de novembro de 1998, implantou-se o Borbon Ipiranga, empreendimento do grupo Zaffari, empresa que fatura mais de 1,5 bilhão de reais por ano, emprega cerca de 8 mil pessoas e é a quarta maior receita do setor no Brasil e a única entre as quatro grandes redes de supermercados com capital cem por cento nacional.
Fazer compras ou simplesmente passear no shopping Ipiranga é um programa quase obrigatório para todos os moradores do Jardim Botânico e dos seus arredores. Pudera: de porte médio, para shopping, acolhedor, com 70 mil metros quadrados de área construída, 52 pontos comerciais, vários quiosques de serviços, uma praça de alimentação com 700 lugares, o local conta ainda com um hipermercado aberto das 8 horas da manhã até à meia-noite e que também funciona aos domingos.
Aqui é possível se assistir aos mais recentes lançamentos cinematográficos, para todas as idades, em algum dos oito cinemas da marca Cinemark, inclusive em horários matinais, a preços reduzidos. Também no verão se encontra um bom chope, uma comida portuguesa (Restaurante Calamares), café e música ao vivo, além de concertos comunitários e cantores e instrumentistas de qualidade que tocam de quartas aos sábados, na praça de alimentação, não só música popular brasileira, como pop, rock, baladas, bossa nova.
No interior do Ipiranga estão vários caixas eletrônicos, uma agência da Caixa Econômica Federal, uma casa de jogos e uma banca de revistas extremamente sortida, com centenas de títulos em todas as áreas. Há, ainda, mais de uma dezena de telefones públicos, banheiros em perfeito estado de limpeza e fraldários. Externamento, no subsolo, o estacionamento abriga centenas de veículos.
GIGANTE – O grupo Zaffari é totalmente gaúcho, o único entre os quatro grandes com capital totalmente nacional e gestão familiar (apesar de muito assediado por grupos estrangeiros).
Os hipermercados Zaffari são voltados para um público classe A e B, que buscam variedades de produtos, atendimento especial e conforto na hora das compras. Costuma-se dizer que o Zaffari não briga por preços pois disputa um segmento mais abastado. No ano de 2004 a rede faturou 1,3 bilhão de reais, com receita por metro quadrado de 11,2 mil reais – maior que o líder mundial norte-americano Wal-Mart. A empresa, no entanto, não costuma revelar os valores dos seus investimentos.
Além de, recentemente, ter comprado o estádio do Força e Luz, no vizinho bairro de Santa Cecília (negócio de 9,5 milhões de reais), está investindo pesadamente em São Paulo, mo bairro de Perdizes, área nobre da cidade. A inauguração está prevista para o próximo ano.
Serão 175 mil metros quadrados (quase três vezes maior do que o Ipiranga) de área construída, com cerca de 200 lojas e 10 cinemas. A idéia é competir com o grupo Pão de Açúcar e suas lojas especiais – o investimento total não foi revelado. No Rio Grande do Sul, o Zaffari compete com o grupo Sonae (marcas Nacional, Big e Maxxi), que agora pertence a Wal-Mart.
Nada mau para uma empresa que iniciou em 1935, quando o fundador Francisco José Zaffari e sua esposa Santini de Carli montaram uma pequena loja de comércio na Vila Sete de Setembro, no interior de Erechim. Anos mais tarde a empresa expandiu-se para Herval Grande. Nos anos cinquenta os negócios iam tão bem que a família inaugurou as primeiras filiais nas localidades vizinhas e, em 1960, chegou a Porto Alegre, abrindo um atacado. O Zaffari atua, desde os anos 80, na industrialização e comercialização de alimentos e é dono, hoje, das marcas Café Haiti e biscoitos Plic-Plac.
ZAFFARI BOURBON IPIRANGA – Tel.: 3315.5111

Na inauguração, Arthur Moreira Lima tocou o Hino Nacional
A inauguração do Bourbon foi uma solenidade e tanto: naquele dia 16 de novembro de 1998 mais de 2 mil pessoas se acotovelaram na esquina da Ipiranga com Guilherme Alves para assistir aos festejos e aos discursos. Primeiramente o consagrado pianista carioca Arthur Moreira Lima executou o hino nacional brasileiro. A orquestra e o coral da PUC também se apresentaram para o público e para uma comitiva de autoridades que incluía o prefeito em exercício de Porto Alegre, José Fortunatti. A matriarca da família Zaffari, dona Santina, viúva do fundador Francisco José, fez o corte da fita inaugural, tendo ao seu lado o diretor-superientende da Cia Zaffari, Marcelo Zaffari.
Disse Marcelo: “Este shopping é uma flor com pétalas de concreto e vidro que se abre no bairro Jardim Botânico para tornar Porto Alegre ainda mais bela e agradável”.
PRÉDIO INTELIGENTE – Concebido pelos mais modernos padrões arquitetônicos, tendo em vista a satisfação e o bem estar dos clientes e visitantes, o Bourbon ocupou 1350 empregados diretos na sua construção. O terreno tem 39 mil metros quadrados (dos quais o hipermercado ocupa 10,8).
Um sistema de última geração controla toda a infra-estrutura do prédio: climatização, segurança das portas, rede hidráulica e até a refrigeração automática dos alimentos. A energia elétrica é garantida por três subestações que atendem de forma independente os cinemas, o shopping e o hipermercado. O Borbon faz parte dos chamados “prédio inteligentes”, tanto que, em caso de queda da energia elétrica, ela é automativamente ativada por um sistema automático que garante energia contínua por mais 24 horas, bem como a regulagem da temperatura do ar condicionado central.
A obra, que revolucionou a vida do Jardim Botânico, trouxe inúmeros benefícios para a comunidade. A ponte sobre o Dilúvio, na Guilherme, por exemplo, foi construída naquela ocasião, em uma parceria entre a empresa e a Prefeitura. Também foram asfaltadas as ruas em volta do complexo, foi aberta a 18 de Setembro para o tráfego e se investiu em iluminação pública e em obras do esgoto cloacal na Guilherme Alves, na 18 de Setembro e na avenida Ipiranga.
Por outro lado, a Associação dos moradores acompanhou de perto todo o processo de instalação. Em reunião com representantes da Cia Zaffari, a AMAJB (conforme a então secretária Laura Ferreira) cadastrou cerca de 500 moradores do bairro e imediações que desejassem trabalhar ali, sujeitos posteriormente ao processo de triagem e seleção.
O Bourbon foi inaugurado em 1998, com um concerto do pianista Arthur Moreira Lima.


Um oásias verde defronte ao asfalto

Entrar e permanecer lá é uma terapia: árvores e plantas por todos os lados, um laguinho onde se avistam grandes carpas e tartarugas nadando e mergulhando, sem nenhum receio de serem incomodadas. A quietude natural desse espaço verde só é quebrada pelo som dos passarinhos ou quando tartarugas saem do seu banho de sol e jogam-se novamente na água. Em volta, ouve-se o vento sacudir a copa das árvores e zunir entre as taquaras e os bambus. De vez em quando a voz de crianças, de casais de namorados, de colegiais em excursão.
Instituição que deu nome ao bairro, um dos cinco mais importantes do País, o Jardim Botânico é o refúgio perfeito para quem busca uma ilha de tranquilidade em meio à agitação urbana. Localizado junto à Terceira Perimetral, a história desse local confunde-se com a da comunidade à sua volta. Com 41 hectares de área total, perdeu muito da sua extensão original, que já foi de mais de 8O hectares. Parte de suas terras foi repassada à ESEF, outro tanto à PUC e ao Círculo Militar. Mesmo assim, abriga a mais completa coleção da fauna nativa do Rio Grande do Sul – e é esta, justamente, a filosofia da instituição.
“A idéia é representar o máximo possível a flora nativa do Estado”, informa Elisabete Martins da Silva, que dirige o setor de Comunicação Social e trabalha aqui há 30 anos. “Quando iniciei, era um descampado, não tinha quase nada”, recorda ela. “Mas o Jardim Botânico teve um salto de qualidade muito grande nos últimos anos”.
CAIXINHA DE SURPRESAS – No local funciona, além do Jardim, a administração central da Fundação Zoobotânica (que engloba o Zoológico de Sapucaia) e o Museu de Ciências Naturais. “O pessoal não sabe o que é isto aqui, nós somos uma caixinha de surpresa”, afirma Elisabete.
Poucas pessoas sabem, mas, além de local de visitação e lazer, há importantes trabalhos de pesquisa, de educação ambiental e até um serpentário (aberto à visitação pública) com mais de 400 cobras e serpentes, cujos venenos são extraídos e enviados para institutos fisioterápicos a fim de se produzir soros e medicamentos, trabalho executado pelo Núcleo Regional de Ofiologia de Porto Alegre, NOPA. A maior parte desses ofídios é capturada por pesquisadores, embora muitas pessoas disponham-se espontaneamente a trazer exemplares e doá-los à instituição.
São 11 mil metros quadrados de área construída e uma história com muitos altos e baixos. O prédio central, por exemplo, foi construído para servir como instalações da Televisão Educativa do Estado, a TVE, Canal 7 – que, aliás, nunca chegou a funcionar no Botânico. “Fizemos adaptações na estrutura, na qual estamos hoje”, diz a jornalista.
TRISTE MEMÓRIA - Idéias equivocadas por parte dos administradores públicos estaduais quase destruíram a concepção original do Jardim Botânico. Inaugurado em 10 de setembro de 1958, o período que vai de 1964 a 1974, especialmente, é de triste memória para os funcionários da casa. Esta ficou quase sem investimentos, desprestigiada, a área original foi repartida e pensou-se até em construir aqui um grande Centro de Convenções, come estacionamento para mais de mil veículos, o que seria o caos.
A partir de 1974, com a administração do professor Albano Backes, a situação melhorou, organizou-se novas coleções, retomou-se as expedições em busca de novas plantas e houve a definição – que vigora hoje – de se focar os trabalhos na flora nativa. Nos final dos anos 80 implantou-se um núcleo de educação e, em 1997, foram construídas as instalações para o Banco de Sementes e novas casas de vegetação, além de novos prédios, da compra de equipamentos modernos e contratação de mais funcionários (hoje são cerca de 100). Outra importante atividade são os estudos para licenciamento de empreendimentos de geração de energia eólica (ventos) no Estado, uma fonte de energia limpa em crescente valorização.
Em 2003, através de lei estadual, o Jardim Botânico foi declarado Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul. O presidente da Fundação Zoobotânica é Carlos Rubem Schreiner. Ney Gastal é o diretor do Museu de Ciências Naturais e João Carlos Correa Jardim o diretor do Parque Zoológico.

ÁREAS TEMÁTICAS
Passear pelo Botânico é conhecer a flora nativa do Estado, embora existam espécies de muitas partes do mundo. A criação de “áreas temáticas” foi muito importante para a sistematização dos trabalhos. Hoje existem muitas delas, como a de plantas perfumadas, a de plantas medicinas, a das ameaçadas de extinção, etc. Biológos – e muitos fazem estágio aqui – partem para o interior, à cata de novas espécies, as chamadas “expedições”. Também merece destaque o trabalho com fósseis nativos.
Não só a flora como a fauna recebe atenção dos pesquisadores. “Nós temos o registro de 105 aves nossas e, inclusive, vamos fazer uma publicação destinada a elas”, conta Elisabete. Os biólogos e outros pesquisadores igualmente desenvolvem um trabalho de educação ambiental, proferindo palestras em colégios, para estudantes de todas as idades.
Outra coisa que pouca gente sabe é que o Museu tem um setor destinado à comercialização de mudas da flora nativa para qualquer pessoa interessada. Há também um anfiteatro, destinado a shows, concertos e apresentações musicais que já chegou a reunir 10 mil pessoas alguns anos atrás, conquanto hoje não esteja sendo muito usado.
Aberto ao público de terça a domingo, integrado à comunidade, tanto o Jardim Botânico quanto o Museu de Ciências Naturais (chamado Museu Padre Balduíno Rambo, em homenagem a um dos fundadores e primeiro diretor da Fundação Zoobotânica) recebe milhares de visitantes a cada mês. Mesmo assim, a segurança não chega a ser um problema (até porque é uma área policiada e cercada) e não se registram invasões de seus limites. A Vila Juliano Moreira, localizada nos seus fundos, com dois hectares, já foi desapropriada pelo Governo do Estado e deverá ser regularizada e entregue aos seus moradores atuais de forma legal. A idéia é urbanizá-la.
COLONIA AGRICOLA - Falar em Juliano Moreira é falar no passado do local, quando aqui funcionava a Colônia Agrícola do Hospital Psiquiátrico São Pedro, conhecida como “Casa de Passagem Juliano Moreira”. Destinada a pacientes com problemas mentais (que muitas vezes fugiam e vagavam pelas ruas do bairro), junto a ela foram construídas residências para os funcionários que trabalhavam no local. Com a desativação da estrutura maior, as casas foram passando dos pais para os filhos, originando a pequena vila em direção à avenida Cristiano Fischer.
JARDIM BOTÃNICO – Av. Salvador França, 1427. Tel.:3320.2024 – Email: jbotanico@fzb.rs.gov.br – Serpentário aberto de terça a domingo, das 10 às 16 horas.

O Jardim Botânico abriu ao público há exatamente 50 anos. Na foto, o Museu de Ciências Naturais, uma "caixinha de surpresas".

As Origens do Jardim Botânico

Oficialmente, o Jardim Botânico nasceu no ano de 1959, pela lei número 2022, de autoria do vereador e historiador Ary Veiga Sanhudo. Nesse ano foram oficializados inúmeros outros bairros de Porto Alegre.
A história do Jardim Botânico corre paralela à da avenida Ipiranga e da canalização do riacho Dilúvio, obras que levaram décadas. No passado, toda essa região ribeirinha ao rio, desde a Agronomia até o Beira-Rio, era conhecida como o “Vale do Sabão”, uma área baixa e alagadiça. As constantes inundações do arroio eram um sério problema.
Em seu livro “Crônicas da Minha Cidade”, que parece ter sido escrito na década de 50, o historiador Ary Veiga Sanhudo é profético quando ao futuro promissor da região - “a zona mais próspera da cidade”. Escreveu ele, meio século atrás:
“O bairro São Luiz, como aliás foi por muito tempo conhecido, não apresenta verdadeiramente qualquer notabilidade maior do que as ajardinadas terras do nosso futuro horto botânico. É um lugar de condições modestas e pela circunstância de se achar encravado entre o Riacho e o cerro de Petrópolis, viveu sempre jugulado à sua embaraçante situação de bairro sem uma via própria de acesso com maior desenvoltura. A sua radial, todavia, é a perimetral rua Barão do Amazonas. (...) No entanto, não nos cabe dúvida que, no dia em que as formidáveis laterais do Arroio Dilúvio – avenida Ipiranga – estiverem completamente urbanizadas, propiciando o extraordinário tráfego desse imenso Vale do Sabão, desde a Agronomia até a Beira-Rio, todo este bairro, como os demais quarteirões ribeirinhos, tomarão outro aspecto e constituirão a zona mais próspera da cidade”.
QUERO-QUERO – Há menos de vinte anos, o Correio do Povo (23 de maio de 1987), em matéria da jornalista Magda Wagner, traçava um perfil do JB: “É um bairro tranquilo, de ruas largas, que mais parece uma cidade do interior (...) Em frente ao maior conjunto habitacional do bairro, na rua Felizardo Furtado, nos deparamos com uma inesperada plantação de agrião, reforçando a idéia de que o Jardim Botânico é, no mínimo, um bairro diferente. Os quero-queros, ave típica dos descampados, proliferam no bairro, alimentados pelas folhas de agrião.”
Antes de ser Vila São Luiz, o JB chamava-se Vila Russa, o que é explicado pela presença de imigrantes russos que chegaram aqui no início do século passado, instalando-se na parte alta, do outro lado da hoje avenida Doutor Salvador França.
O Jardim Botânico vive um surto de progresso que está alterando radicalmente o seu perfil, como se vê nestas fotos: grandes edifícios, como as torres que estão sendo construídas na rua Felizardo Furtado, trarão novos e diferentes moradores para cá. A abertura da Terceira Perimetral, uma das avenidas mais movimentadas da Capital, não foi, contudo, suficiente para espantar o cavalo que pasta em um de seus canteiros centrais. Na terceira foto, a sede do CTG 35, o marco pioneiro do tradicionalismo no Estado, localizado ao lado do Bourbon.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Sem a música, Sinatra seria um gângster


Quinta-feira, 14 de maio de 1998, um hospital de Los Angeles, Califórnia. Nessa noite aquele que já foi considerado "A Voz" - um dos melhores cantores populares do século 20 - deu o seu último suspiro: morria assim, aos 82 anos, de ataque cardíaco, Francis Albert Sinatra, o filho de uma família pobre que, como disseram alguns, nem deveria ter nascido, tantas as dificuldades na hora do parto. Sua mãe, uma imigrante italiana (era de Gênova), e seu pai, um bombeiro, eram católicos, moravam na pequena cidade de Hoboken, em Nova Jersey, e nada indicava que o filho único de um casal tão modesto desse ao mundo, naquele dia 12 de dezembro de 1915, um dos mais bem sucedidos artistas que o mundo já viu.
O seu nascimento foi, realmente, complicado, tanto que quase morreu estrangulado durante o parto, teve um tímpano furado e algumas cicatrizes no rosto e, segundo ele dizia, "até na alma". A família era pobre, pelos padrões norte-americanos, e ele cresceu fraco, raquítico pode-se dizer, além de dono de uma estranha timidez e de um comportamento solitário que não lhe ajudava na hora de fazer amizades com outros gratos.
Aos 16 anos fugiu da escola para me meter em cinemas e casas de música, isso no começo dos anos 30. Anos mais tarde, diria - talvez com certo histrionismo, talvez com boa dose de verdade: "Se não fosse a música, eu teria me tornado um gângster".

Na verdade, os gângsters sempre o fascinaram e ele teve muitos como amigos - o FBI tentou provar suas ligações criminosas mas nunca conseguiu nada que pudesse levá-lo às barras dos tribunais. A Máfia, aliás, teria sido responsável pelo seu ressurgimento, no tempo em que ficou quase no ostracismo, esquecido pelo grande público e enfrentando uma série de problemas pessoas, entre eles o alcoolismo: como os mafiosos eram donos das principais casas de espetáculo dos EUA, abriam a ele as portas e o adotaram como um dos seus protegidos, colocando-o novamente na ribalta. Contrariando as teses dos anti-tabagistas, Sinatra - que fumava um cigarro atrás do outro ("só não fumo quando estou no chuveiro") durou longos 82 anos de uma vida agitada e, talvez, bem vivida. Sincero, disse que "papo de tragédia da fama não existe. A tragédia da fama é quando ninguém aparece e você está cantando para a faxineira num botequim vazio que não recebe um cliente pagante desde o dia de São Nunca".

sexta-feira, setembro 22, 2006

Disfarçado de hippie, pai de Sharon Tate encontrou Charles Manson, o psicopata


Foi pior e muito, muito mais assustador do que as principais cenas de "O Bebê de Rosemary", filme de Roman Polanski que fez (e faz) um tremendo sucesso no final dos anos sessenta. Assassinada a facadas, pendurada no teto, a atriz e mulher do diretor Polanski foi uma das cinco vítimas de um psicopata chamado Charles Manson (foto) e de sua "família" - na realidade uma seita satânica formada por jovens desajustados, "hippies" do mal, todos na faixa dos vinte e poucos anos, e que viam em Manson o seu profeta e guru, obedecendo-o cegamente.
Na noite de 8 para 9 de agosto de 1969, na cidade de Los Angeles, Califórnia, um grupo de cinco discípulos de CM penetrou na mansão de Polanski (que estava viajando) e Tate, no elegante bairro de Bel Air, e consumou um dos mais chocantes e rumorosos crimes dos anos sessenta. Vestidos com roupas pretas e capuzes, os assassinos (dois rapazes e três moças) cortaram os fios de eletricidade e do telefone e deram início à matança. À exceção de um, que estava armado com um revólver calibre .22, os demais portavam facas. Sharon, 26 anos, teria implorado pela vida de seu filho, pois estava nos dias finais da gravidez de um bebê que se chamaria Paul. Suas súplicas, no entanto, foram inúteis. Os assassinos penduram o corpo da atriz em uma viga no teto, ao lado do de um outro amigo seu, e depois escreveram à sangue, na porta da casa, a palavra "pigs" (porcos).
O crime - chocante, por si mesmo - atraiu a atenção da imprensa internacional por envolver uma jovem, bela e promissora atriz e seu marido, Polanski, que recentemente havia lançado o estrondoso sucesso "O Bebê de Rosemary", com Mia Farrow - a história de uma seita satânica que se apossa de um bebê, considerado o filho do Diabo.
Ouvido por uma emissora de TV, o escritor Truman Capote - também recente sucesso com o seu romance de não-ficção "A Sangue Frio" - era da opinião de que havia um só assassino, provavelmente um maníaco sexual.
Na verdade, errou feio, embora a polícia, nos primeiros meses, também não conseguisse chegar a resultados palpáveis.
Nesse meio tempo, o pai de Sharon visitava acampamentos hippies, fingindo-se de um deles. Nesse mundo à parte, corria à boca pequena a história do crime; todos sabiam que aquilo fora praticado pela seita de Manson, que vivia em um rancho localizado em um vale próximo a Goler Canyon, arredores de Los Angels. Foi dessa comunidade satânica de mais de 20 pessoas - a "família" - que saíram os assassinos àquela noite.
Manson, nascido em 11 de novembro de 1934, o líder da seita, tinha uma biografia apropriada para um psicopata: sua mãe foi abandonada pelo pai aos 16 anos de idade, quando estava grávida. Criado por uma avó materna, a princípio, depois por um casal de tios que não o suportava, acabou em reformatórios do Governo. Místico, racista, tinha poder absoluto sobre a seita. Condenado à morte um ano depois, teve sua pena permutada por prisão perpétua. Morreu recentemente, aos oitenta e picos de idade.

sábado, setembro 16, 2006

Dominique, nique, nique, e o pacto de morte


Dominique, nique, nique... Dificilmente alguém não conhece esse refrão de uma música do mesmo nome, um dos maiores sucessos das paradas musicais de todo o mundo no ano de 1963 e gravado por dezenas de outros cantores, em variados idiomas, inclusive em português. Fez tanto sucesso que deixou até mesmo Elvis Presley comendo poeira.
Pois a autora de Dominique, ao contrário do que se possa pensar, não ficou rica e não teve uma vida glamourosa. Pelo contrário: Jeannine Deckers, uma freira dominicana do interior da Bélgica, suicidou-se em 29 de março de 1985, quando tinha apenas 52 anos de idade. Ela ingeriu um coquetel de bebidas alcóolicas e barbitúricos. Com ela estava sua companheira, Annie Pescher, uma enfermeira de 41 anos. As duas haviam feito um pacto de morte, finalmente concretizado em um pequeno apartamento da cidade de Wavre, nas proximidades de Bruxelas.
Jeannine já não era mais freira havia tempo - na verdade deixou o convento no ano de 1966, tentando seguir na carreira artística e emplacar novos sucessos. Só que isso não aconteceu e a vida da "Irmã Sorriso" encheu-se de complicações de toda ordem. O Fisco belga resolveu cobrar a sua parte na arrecadação de "Dominique", só que a autora e cantora - que fizera voto de pobreza - já havia doado tudo à sua congregação religiosa. Esta, por sua vez, alegou que a doação já havia sido gasta em obras assistenciais e que não havia recibo a provar o valor doado.
Naturalmente, a corda estourou do lado mais fraco - processada, Jeannine teve todos os seus poucos bens penhorados. O Fisco também passou a confiscar tudo o que ela ganhasse, deixando apenas o mínimo necessário para a sua sobrevivência.
Sobrevivência que ela garantia com aulas de violão e exposições de pintura.
A ex-freira tentou ainda fundar uma instituição de caridade, de apoio a pessoas deficientes, mas não conseguiu verbas para viabilizar o projeto. Profundamente deprimida, ela passou a falar em suicídio, fato consumado na noite de 29 de março de 1985. Triste fim para a autora de uma música tão ingênua e cândida.

sábado, setembro 09, 2006

Piloto se suicida no ar e mata 103 passageiros

É algo raríssimo, tão raro que é de se duvidar que aconteça. Mas acontece. Um piloto com problemas mentais, disposto a por fim à vida, mergulha o avião de passageiros em direção ao solo e mata todo mundo. Quem imaginou um pesadelo desses? Pois foi, ao que tudo indica, o que aconteceu em dezembro de 1997, na Indonésia.
Era o vôo 185 da SilkAir, uma companhia aérea de Cingapura. O avião Boeing 737-300 havia partido de Jacarta e, quando estava a 10.300 metros de altura, subitamente embicou e, em um movimento de 180 graus, mergulhou em direção às águas de um rio. O piloto, Tsu Way Ming, não se comunicou com a torre de controle, não pediu ajuda e naquele momento estava com a aeronave nivelada em altitude e velocidade de cruzeiro - considerada a etapa mais segura do vôo.
O que intrigou os peritos, além da manobra brusca, foi o fato de um dos gravadores de bordo ter parado em pleno vôo, o que só acontece se alguém desligá-lo deliberadamente - afinal, o gravador comanda todos os circuitos eletrônicos do aparelho.
Quanto ao piloto, apurou-se que atravessava um período de dificuldades financeiras e familiares e já havia sofrido três punições por errros de procedimento no comando. Ele era casado e tinha três filhos. O diretor-geral da companhia aérea, em pronunciamento público, declarou: "Com base nas informações que temos até agora, penso que essa( suicídio) possa ser uma possibilidade". Embora remota, a possibilidade de um piloto suicidar-se no ar, levando consigo todos os passageiros de um avião, deve ser levada em conta. Em 1982, um piloto da Japan Airlines derrubou o DC-8 que pilotava na baía de Tóquio, matando 24 das 164 pessoas a bordo. Ele, o piloto, sobreviveu e confessou o ato, tendo sido internado em uma clínica psiquiátrica.
Uma convenção internacional determina que todos os pilotos de avião sejam submetidos regularmente a exames de saúde de extremo rigor, incluindo aí uma avaliação psicológica, o que nem sempre quer dizer muita coisa.
Ver outros sites em português a respeito de acidentes aéreos:
www.dpnet.com.br
www.pe-az.com.br
www.snea.com.br
www.acidentes.org

terça-feira, setembro 05, 2006

Orwell, quem diria, era um dedo-duro!



Ele escreveu um livro que é considerado um libelo contra o totalitarismo, a obra que previa o "Big Brother" dos nossos dias, só que em um mundo dominado pela tirania. Pois é, o inglês George Orwell (na verdade, um pseudônimo), o autor de "1984", "A Revolução dos Bichos", entre outros, quem diria, foi um dos colaboradores do serviço secreto inglês no período da Guerra Fria, fornecendo a eles uma lista com nomes de supostos "simpatizantes do comunismo". Curiosamente, ele, durante muito tempo, foi considerado um intelectual de esquerda que se desiludiu com a Rússia - a mãe de todas as revoluções - quando conheceu de perto a experiência de Stalin.
A tal "lista de Orwell", com 130 nomes, teria sido elaborada em 1949, quando o macartismo dominava os EUA e a Inglaterra, fiel aliada, não ficava muito atrás. Orwell, que sofria de tuberculose (morreu disso), teria sido procurado por uma funcionária do Departamento de Pesquisa de Informações por quem o escritor era apaixonado e que, como ele, tinha sido simpatizante do stalinismo, desiludindo-se enormemente em seguida. Ela era cunhada de um amigo de Orwell, Arthur Koestler, outro ex-comunista.
A idéia era de que George escrevesse uma série de artigos anti-soviéticos, o que ele recusou - propondo-se em troca a elaborar a tal lista. Nela, incluiu os nomes de Bernard Shaw e, é claro, de Charles Chaplin. Um ano depois de elaborar a lista - que foi publicada em 1998, na edição das obras completas do escritor - George Orwell morreu. Sua obra, porém, continua atual ao denunciar as tiranias e os totalitarismos, como em a Revolução dos Bichos.
Ver mais nos seguintes endereços:
http://biblioteca.folha.com.b/
http://educaterra.terra.com.br/
http://pt.wikipedia.org/
http://unesp.br/
http://www.pedroeustaquio.com.br/

quinta-feira, agosto 31, 2006

Caso Simpson: inocente "pero no mucho"...


Um caso de racismo - só que às avessas, desta vez beneficiando uma pessoa negra.
Assim, em linhas gerais, pode ser entendida a absolvição do ex-astro de futebol americano O.J.Simpson, 48 anos, na década de 70, uma espécie de Pelé do esporte mais popular dos EUA. Simpson - ou Orenthal James Simpson - jogou muitos anos no Buffalo Bills.
O julgamento teve seu desenlace em 3 outubro de 1995, em Los Angeles, um ano depois da brutal morte de Nicole Brown Simpson (na foto, com ele), ex-mulher de O.J., e do amigo dela, Ronald Goldman, fato acontecido em 12 de junho de 1994. O julgamento - na verdade um grande show - durou 372 dias até o veredito final e consumiu nove milhões de dólares do contribuinte norte-americano. Simpson teria gasto de quatro a sete milhões com a sua equipe de advogados e de especialistas - só um perito em testes sanguíneos cobrou 100 mil dólares para dar seu testemunho no tribunal. Calcula-se que 60 milhões de pessoas, somente nos EUA, acompanharam o julgamento pela televisão, incluindo aí o então presidente Bill Clinton. O resultado deixou muita gente estupefata, pois os jurados deram um veredito que contrariava todas as evidências. Tal resultado, no entanto, pode ter evitado a eclosão de novos distúrbios raciais na segunda maior cidade americana, um barril de pólvora sempre prestes a explodir.
A absolvição de Simpson foi comemorada pelos negros dos Estados Unidos, que viam na acusação contra o astro do beisebol mais uma atitude racista da polícia de Los Angeles. E foi a polícia que, em última análise, pôs tudo a perder - talvez até, por suas falhas, colocando em liberdade um assassino frio e calculista. A acusação alegou que Simpson matou sua ex-mulher por causa de um ciúme doentio - ele imaginava que ela estava tendo um caso com um dos seus amigos.
O crime aconteceu na noite de 12 de junho de 1994, no jardim da casa de Nicole, uma ex-garçonete que dele se divorciou em 1992. Ela morava em um dos bairros mais chiques de Los Angeles - cidade marcada por profundas divisões raciais (brancos, negros e latinos) e por uma incontrolável guerra de gangues na periferia. O assassino atacou as duas vítimas entre 22h15 e 23 horas, com uma arma que nunca foi encontrada - um instrumento contundente que deixou uma poça de sangue no local, constatando-se que as vítimas lutaram muito contra o agressor. Não houve testemunhas e todas as provas eram circunstanciais. Ron Goldman, o amigo de Nicole, aparentemente deu um tremendo azar, pois foi a casa desta apenas para devolver os óculos esquecidos pela mãe de Nicole no restaurante onde ele trabalhava, e acabou encontrando a morte. O..J. Simpson foi preso cinco dias depois pela polícia e formalmente acusado pelo crime.
Contra ele pesaram muitas evidências, especialmente suas reações imediatas após o fato: deixou uma carta na qual falava em suicídio e fugiu em um jipe, onde, no seu interior, havia uma barba postiça e o passaporte. Também os exames de DNA (que, em 1994, já era empregado como prova nos EUA) comprovaram a existência do sangue das vítimas na casa de Simpson. Além disso ele não conseguiu explicar direito onde estava no horário do crime - alegou que jogava golfe em casa. Pior: uma luva sua foi encontrada no quintal da sua própria casa, com o sangue das vítimas. Comportalmente, outro fato que chamou a atenção foram as manifestações obsessivas de ciúme e as repetidas surras que Simpson aplicava na sua mulher, sempre ameaçando-a de morte. Mesmo sendo negro - mas nem de longe militante da causa - ultimamente o astro do beisebol só namorava loiras, como Nicole.
A seu favor contou o fato de alguns dos policiais que atenderam a ocorrência serem notoriamente racistas, sendo suspeitos de haver plantado as provas. Segundo se apurou depois, os policiais não coletaram o sangue devidamente, carregando o material durante horas (abaixo de um calor fortíssimo) antes de deixá-lo no laboratório. Um deles, Mark Fuhrman, era abertamente racista e neonazista - embora nunca ousasse reconhecer isso. A defesa apresentou uma fita em que o policial fala com desprezo dos negros e, a certa altura, diz que "quando se trata de um crioulo, primeiro você prende e depois faz as regras." Como o jurí, de doze pessoas, era formado majoritariamente por negros - entre eles havia apenas dois brancos e um hispânico - o fator racial foi decisivo.
O chamado "Caso Simpson" dividiu os Estados Unidos: logo após o julgamente uma pesquisa constatou que para 75% da população branca Simpson era o culpado, enquanto 78% dos negros acreditavam que ele era inocente. No total, 56% dos norte-americanos discordaram da absolvição, entre apenas 33% que concordaram.
Provavelmente culpado, O.J.Simpson não tem do que reclamar: declarado inocente, ele ficou com a guarda dos dois filhos que teve com Nicole e ainda faturou muito dinheiro, vendendo entrevistas, reportagens e depoimentos sobre o caso. De qualquer forma, o caso Simpson chamou a atenção para as divisões raciais da sociedade americana, especialmente a de Los Angeles, cuja polícia é das mais violentas, racistas e corruptas dos Estados Unidos.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Joelmir Beting, um ex-bóia fria do canavial.


Olhando hoje, quem imaginaria que o conceituado comentarista de economia, o homem de voz pausada, de rosto claro e "primeiro-mundista", o medalhão que fala sobre dinheiro com a naturalidade de quem sempre teve esse produto em fartura, quem imaginaria que ele, dos sete aos dezesseis anos, fosse um bóia-fria - aquele sujeito desvalido que corta cana nas lavouras do interior de São Paulo, ganhando uma mixaria por isso?
Pois é, Joelmir Beting - autodidata por formação, um dos mais bem pagos jornalistas do País, hoje fazendo seus comentários na Rede Bandeirantes de Televisão (depois de tantos anos na Globo, demitido por fazer a propaganda de um banco, sem autorização da emissora), 69 anos - foi coroinha e bóia-fria nas lavouras de cana-de-açúcar da região de Tambaú, interior de SP? Aos 16 para 17 anos, Joelmir mudou-se para a Capital paulista, iniciando, a duras penas, a sua escalada para o sucesso - ou coisa que o valha.
Outra informação que pouca gente sabe: no dia 5 de março de 1961, no estádio do Maracanã, em um jogo entre Santos e Fluminense, quando era comentarista esportivo, foi dele a idéia de mandar fazer uma placa em comemoração ao antológico gol de Pelé - aquele que resultou na famosa "placa de ouro": o Santos vencia a partida por 1 a 0 quando Pelé recebeu a bola no meio do campo e arrancou em direção à meta adversária, passando por dois, driblando mais três e chutando na saída do goleiro Castilho. Joelmir, que estava no estádio, impressionou-se com o lance e sugeriu ao jornal O Esporte, no qual trabalhava, que fizesse uma placa de bronze para registrar a beleza da jogada. O hoje famoso comentarista de economia pagou as despesas com dinheiro do seu próprio bolso pois o jornal encolheu-se na hora de saldar as despesas. "Nunca fiz um gol de placa, mas fiz a placa do gol", diria mais tarde o comentarista.
A propósito: católico fervoroso, discípulo do Padre Donizetti, o pai de Joelmir morreu quando ele tinha apenas sete anos de idade. Sebastião Beting caiu da carroceria de um caminhão que o levava para trabalhar na lavoura de cana e não restistiu aos ferimentos.
Palmeirense da gema, de olho no mundo real à sua volta, Joelmir Beting é, há muitos anos, respeitado pelo mundo empresarial e político não somente pela linguagem pedagógica que emprega nos seus comentários (ao contrário de tantos outros, que fazem questão do hermetismo) como pelos acertos realmente comprovados nas suas análises. Ou, como disse um político admirador seu, ele é daqueles que "só consegue explicar aquilo que entendeu". Justificando o seu estilo, cheio de metáforas e analogias, Beting, certa vez, disse o seguinte: "Para se fazer entender você precisa repetir uma mesma idéia até cansar. Por mais óbvia que ela seja".

terça-feira, agosto 29, 2006

Isadora Duncan e a superstição dos pássaros


A "dançarina dos pés descalços", a "filha das flores", "a Divina". No início do século XX a Europa e o Mundo (à exceção dos EUA) renderam-se ao talento, à graça e à ousadia de Isadora Duncan, a iconoclasta da dança que rejeitou o balé rígido da época (achava que ele distorcia a forma humana), a primeira a "dançar a música e não ao som da música." Em certo sentido, foi uma das precursoras do movimento hippie, muito antes que este sonhasse em existir.
Dona de uma beleza exuberante, com cabelos vermelhos flamejantes e olhos cor de violeta, Isadora Duncan na realidade se chamava Dora Angela Duncan, a mais nova de uma família de quatro irmãos, nascida na cidade de San Francisco, na Califórnia, EUA, em 26 de maio de 1877. Logo após seu nascimento, seu pai abandonou a família e a mãe de Isadora obrigou-se a manter os filhos dando aulas de piano e tricotando luvas e mantas, que vendia de porta em porta. Aos 10 anos, "Dorita" abandonou a escola e passou a dar aulas de dança. Aos 15, era uma formosa mulher, de pernas longas e reconhecida beleza.
No final do século XIX seu talento já estava consagrado. Dona de um estilo único, ela saltitava pelos palcos usando apenas pedaços de gaze enrolados no corpo. Assim, seminua, encantava platéias e escandalizava muita gente - principalmente senhoras. Certa feita mais de 40 mulheres da sociedade retiraram-se da sala onde ela estava se apresentando, em protesto contra a sua "imoralidade". Nos Estados Unidos, sua terra, nunca foi aceita e nunca fez sucesso - isso era uma das suas maiores frustrações.
A estas alturas, porém, Londres, Paris e Berlim já estavam fascinados por ela. Isadora Duncan tornava-se um mito e seus rumorosos casos de amor davam o que falar, entre eles o com Paris Singer, herdeiro das máquinas de costuras Singer, com quem teve um filho. Cobrando preços altíssimos, a menina pobre então tinha o mundo a seus pés - era a "Divina Isadora". Mesmo assim, ou talvez por isso, não esquecia do seu passado e compadecia-se dos sofredores, tendo adotado 20 crianças pobres na Alemanha, onde fundou uma escola. "Quero dar-lhes uma vida melhor, a fim de que mais tarde possam semear alegria e beleza como um clarão sobre este mundo triste", justificou ela.
Em 1916 Isadora Duncan esteve no Brasil, dançando no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Tinha já quase quarenta anos e havia, três anos antes, vivido uma terrível tragédia pessoal. Foi no dia 19 de abril de 1913, quando seus dois filhos, um de sete e outro de apenas dois anos, viajavam de carro para Versalhes, juntamente com a governanta da família. Em uma curva perto do rio Sena o motor parou e, sem puxar o freio, o motorista saiu para verificar o problema. Nesse instante o carro pulou para e frente e mergulhou nas águas, que ali tinham uma profundidade de 12 metros. Somente uma hora e meia depois o veículo foi localizado.
Em 1922 Isadora casou-se com o poeta russo Sergei Esenin, 17 anos mais novo que ela. O relacionamento foi conturbado: Esenin, bêbado, espancava, roubava e até tentou matá-la. Por fim, suicidou-se em um quarto de hotel.
Extremamente supersticiosa, a dançarina acreditava que os melros, pássaros pretos, eram mensageiros da morte. Ela afirmava ter visto três deles perto do quarto dos seus filhos, pouco antes da morte deles. No dia 14 de setembro de 1927 - aos 50 anos de idade - Isadora, já pobre e quase esquecida - saiu a passear em um Bugatti, com um amigo e namorado, nos arredores da cidade de Nice, na Costa Azul francesa. Antes, ligou o gramofone - o que tocou foi o sucesso "Bye, bye, Blackbird" (Adeus, adeus, Melro). Ao entrar no carro, usando um longo xale vermelho enrolado no pescoço, disse aos amigos: "- Até à vista! Parto para a glória!." Foram suas últimas palavras. A ponta do xale enroscou-se nos raios da roda traseira e ela teve o pescoço partido, morrendo instantaneamente. Na vitrola ainda tocava a música dos melros.

domingo, agosto 27, 2006

Edifício Andorinha, há 20 anos, um incêndio que poderia ter sido evitado



Fevereiro é, tradicionalmente, um mês propício a grandes incêndios, seja na área urbana, seja na rural, o que é explicável pela altas temperaturas do verão. Em 17 de fevereiro de 1986 - portanto, há 20 anos - a cidade do Rio de Janeiro viveu momentos de pânico e terror com a tragédia do edifício Andorinha, a qual matou oficialmente 21 pessoas, deixando mais 38 feridas - não se sabe quantas destas vieram a falecer depois. Foi o maior incêndio, em vítimas, da história conhecida do Rio de Janeiro. As cenas do edifício Andorinha, transmitidas ao vivo pela televisão, chocaram o País. Felizmente, depois dele foram poucos os sinistros dessa natureza que aconteceram no Brasil, e nenhum com tal intensidade e extensão.
Eram 13h30 minutos de uma segunda-feira quando o ar-condicionado instalado no escritório da multinacional General Eletric, no nono andar, sofreu uma sobrecarga de energia. A tomada explodiu e o fogo avançou rapidamente pelo carpete, atingindo uma potrona, logo queimando as cortinas. Dez horas depois, restavam os escombros calcinados do prédio, localizado no centro do Rio (cruzamento da Avenida Almirante Barroso com a rua Graça Aranha) e onde circulavam diariamente não menos do que 1700 pessoas.
E restava uma outra grande certeza: a de que não somente os prédios não foram construídos adequadamente para prevenir tais catástrofes como o Corpo de Bombeiros da Cidade Maravilhosa (e de quase todas as cidades brasileiras, diga-se) revelou-se pessimamente equipado. Faltou água nas mangueiras, não havia pressão nos hidrantes, os soldados do fogo dispunham de apenas doze máscaras de proteção contra a fumaça e não contavam com nenhum colchão de ar para amortecer o salto dos desesperados. Além disso, uma das suas seis escadas Magirus estragou logo no início da operação e as demais mostraram-se incapazes de chegar mais alto do que o décimo andar (quem estava nos andares abaixo deste pode se salvar sem maiores problemas, descendo pelas escadas). Foram tantas as deficiências que os Bombeiros receberam sonoras vaias da população aglomerada que assistia à cena.
Internamente, as coisas não correram melhores: a porta que conduzia ao terraço, ao final de uma escadaria, havia sido fechado a cadeado pelo síndico do edifício. As dez pessoas que chegaram ao terraço e que foram salvas graças a um helicóptero chegaram lá esgueirando-se por uma basculante. Duas pessoas, queimadas e em desespero - um homem e uma mulher - jogaram-se do alto para a morte instantânea no chão da rua. Críticas merecidas sobraram para todo o mundo, inclusive para o então governador Leonel Brizola - ele acusou a "multinacional" GE e até a "ditadura" como culpadas pelo ocorrido.
"Nem sei se valeu a pena me salvar, pois as cenas que vi jamais da minha mente", afirmou a recepcionista Isaura Calerin Iavecchia, de 32 anos. Diante das chamas de três metros de altura, ela havia ameaçado se jogar de uma das janelas do décimo andar mas finalmente, depois de mais de uma hora de desespero, conseguiu agarrar-se a uma escada Magirus.
Depois da tragédia do Andorinha, muito se falou, algumas coisas foram melhoradas e muitas outras continuam exatamente como estavam - à espera de um novo acontecido. Uma certeza ficou: se a prevenção tivesse sido feita conforme mandam as regras nada daquilo teria ocorrido e duas dezenas de vidas, no mínimo, teriam sido salvas.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Monstro de Loch Ness, a farsa que durou 60 anos



Foi uma brincadeira de cinco amigos, que certamente se divertiram muito. Quando o último deles estava para falecer, finalmente veio à tona uma das mais duradouras e fascinantes fraudes do século XX - a do "monstro do Lago Ness", ou "Nessie", uma criatura que teria sido avistada várias vezes ao longo dos últimos 1500 anos, nas Highlands. Pouco antes de morrer, Christian Spurling, o construtor do "monstro", revelou em detalhes como se construiu uma história fraudulenta que rendeu milhares e milhares de artigos, reportagens e até alguns filmes discutíveis. E que também rendeu muito dinheiro à indústria do turismo local.
O ancestral relato (na verdade, é da mitologia celta) de que, sob as águas profundas (em alguns pontos passa dos 220 metros) do Lago Ness, na Escócia, existiria um monstro nunca visto, provavelmente uma criatura pré-histórica, havia motivado o diário inglês Daily Mail, de Londres, a contratar o cineasta e "caçador de excentricidades" Duke Wetherell. Sua missão: encontrar evidências que provassem a existência de tal bicho. Em 1933, Duke seguiu para lá e concluiu que a "criatura aquática" realmente existia, com base em algumas pegadas que havia encontrado e fotografado. O jornal inglês estampou tais fotos como um furo sensacional, um furo mundial, o que desmoronou em poucos dias, quando se descobriu que aquilo provavelmente fosse as pegadas de um outro bicho ou simplesmente uma armação do "caçador".
Desmoralizado, Duke resolveu se vingar de seus antigos patrões: pediu a seu enteado Chistian Spurling, um especialista em bonecos, que fizesse para ele uma espécie de dinossauro aquático, ou uma serpente marinha. "Daremos a eles o que eles tanto querem", teria dito Wetherel.
Com o "monstro" já feito, ( material plástico, um boneco acoplado a uma bóia semi-submersa) este foi até o Lago, em companhia de seu filho Ian e lá fizeram a famosa foto que iria correr o mundo. Ao contrário do que muita gente pensava, a foto não era uma farsa - era apenas a foto verdadeira de um boneco criado. Aliás, por mais que os especialistas - fotógrafos, laboratoristas etc - tenham tentando encontrar evidências de fraude no retrato em branco-e-preto, nunca conseguiram provar que isso tivesse acontecido.
Com vistas a dar credibilidade à sua "espantosa" descoberta, Wetherell combinou com o ginecologista londrino, Robert Wilson (que estaria de visita ao local), para que este último assumisse a autoria do retrato, datado de abril de 1934. Wilson era considerado um homem acima de quaisquer suspeitas.
Talvez com dores de consciência, ou porque o houvessem pressionado, Spurling acabou confessando tudo em março de 1994, no leito de morte. Ele era o último sobrevivente do grupo de cinco fraudadores (Duke, Wilson, Spurling, David Martin, Alastair Boyd) - na verdade um bando de brincalhões que mostraram a que ponto chega a credulidade humana. Ponto a favor deles: conseguiram manter um segredo por tantas décadas e certamente deram boas risadas. Típico humor britânico.

terça-feira, agosto 22, 2006

Paulo Francis, assassinado pela Petrobrás?


Quem não lembra dele, com aquele óculos fundo de garrafa, a fala afetada, dizendo poucas e boas, não raro mentindo e não raro acertando na mosca? Um dos jornalistas mais cultos e mais lidos do Brasil (escrevia inicialmente na Folha de São Paulo, passando depois para o Estado, que distribuía sua coluna para dezenas de outros jornais brasileiros), considerado arrogante e direitista por muitas, lúcido por outros, Paulo Francis tinha um humor ranzinza - e talvez seja este humor que esteja fazendo falta hoje, nove anos depois da sua morte, em 4 de fevereiro de 1997, em Nova Iorque, aos 66 anos.
Francis - nascido Franz Paulo Trannin Heilborn, em uma família de classe média alta do Rio de Janeiro - nunca fez curso superior, foi trotskista na juventude, dos 14 aos 27 anos leu em média seis horas por dia, participou dos áureos tempos do Pasquim, foi preso pela ditadura militar, ofendeu todo mundo (inclusive Roberto Marinho, que comparou a um emissário de merda, o "robertoduto". Depois foi trabalhar para as Organizações Globo: Marinho não guardou mágoas do episódio) e, por essas e outras, morreu de infarto em seu apartamento na cidade que ele considerava a Capital do Mundo. Também parecia não gostar de negros e nordestinos - certa vez chamou o Nordeste "desta região desgraçada do País." (desgraçado não no sentido de pena, observe-se) Quanto aos seus comentários culturais, era igualmente ácido - simplesmente desprezava o moderno cinema nacional e considerava quase todos os intelectuais como subservientes ao poder. Na esfera política, tornou-se célebre a denominação que deu ao senador Eduardo Suplicy (e sua irritante fleuma) - "Mogadon", o nome de um remédio.
Paulo Francis vivia então (1997) um dos mais complicados períodos da sua vida: estava sendo processado pelo presidente da Petrobrás (do governo FHC), Joel Rennó, e mais outros seis diretores da estatal. Eles pediam nada menos do que 100 milhões de dólares por ressarcimento moral, uma vez que o jornalista havia dito, durante sua participação no programa Manhattan Connection, da Globosat, que`"os diretores da Petrobrás põem dinheiro na Suiça", "roubam em subfaturamento e superfaturamento", "é a maior quadrilha que já existiu no Brasil". Pior: disse isso tudo sem nenhuma prova consistente e certamente iria perder o processo e ter que pagar uma bolada grossa para essa gente. Aliás, já estava gastando os tubos com advogados - ele, o jornalista mais bem pago do Brasil, ainda assim não tinha como fazer frente às despesas com honorários (ele próprio calculos que o processo se arrastaria por uns cinco anos e lhe custaria, só com os advogados, no mínimo 200 mil dólares). Segundo Francis, o objetivo da ação era aruiná-lo financeiramente. Transtornado, passou a ingerir calmantes em doses maciças e a sentir dores nos ombros, o que julgou um sintoma da sua bursite e não de problemas cardíacos, os quais até seu médico desconhecia.
É de se imaginar que, se estivesse vivo hoje, o que ele não diria do governo petista, de Lula e companhia. Para esses, felizmente, ele morreu antes.
Uma palhinha de Paulo Francis:
"A morte deve ser como a anestesia geral"
"Bebi muitos anos. Para ficar bêbado. Não vejo outra razão. O bebedor social é coisa de pequeno-burguês"
"Fidel Castro é essencialmente um conservador feudal, um feitor de fazenda, a quem a idéia de inovações, de modernidade, horroriza"
"A melhor propaganda anticomunista é deixar os comunistas falarem"
"Acho que a tendência do intelectual é ser de direita. Ele é, por definição, um elitista"
"É preciso meter as mãos na cabeça raspada do Vicentinho língua-presa. Eu lhe daria uma chicotada para ver se reage docilmente como escravo."
"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. Crítica não é raiva. E crítica, às vezes, é estúpida."
"Nenhum filme brasileiro dá certo porque todos os cineastas tentam demagogicamente se colocar na posição de humildes. É falso, visceralmente. Sempre que vejo algum favelado em filme brasileiro tenho vontade de sair gritando: é um santo! É um santo!"
"O negro africano não tinha língua escrita, como notaram os exploradores da África do século XIX; logo não pode, pela ordem natural das coisas, possuir uma cultura como a entendemos."
"Quero que fique registrado que eu favoreceria o fechamento do Congresso ou qualquer outra dessas instituições reacionárias que impedem o progresso do País."

domingo, agosto 20, 2006

Rejeitada, a moça decepou o pênis do namorado

Aconteceu em Vitória do Espírito Santo e virou notícia na imprensa. A data: 4 de novembro de 1996. Nessa noite, no Motel Status, J.G.G.S., de 17 anos - descrita na imprensa como uma "loira belíssima de 1,70 metro e pouco mais de 50 quilos" - cortou o pênis do comerciante João Carlos Matos de Faria, de 27 anos. Motivo: ele já não queria mais nada com ela. Desprezada, a moça entrou em desespero, telefonando insistentemente para o comerciante e até ameaçando se matar caso a situação continuasse como estava. Finalmente, o rapaz concordou com uma última noite de amor, que aconteceu no melhor motel da capital capixaba, onde o casal chegou por volta das 22h30min, uma segunda-feira. "Se você não vai mais ficar comigo, também não fica com mais ninguém", teria dito a menor antes de decepar o pênis de João Carlos, fato que aconteceu às 5 horas da manhã.
Segundo a versão dos dois, por volta das 4h30min da manhã - depois de terem feito sexo a madrugada toda - João Carlos acordou a menina, já que pretendia ir embora. Nesse momento, enquanto ele se vestia, a menor começou a beijá-lo nas partes íntimas - sexo oral que acabou em um golpe de faca, seccionando o membro. Ferido, horrorizado e ensanguentado, o comerciante pegou o telefone e ligou para a portaria do motel. "Socorro, a mulher está louco, ela cortou meu pau", gritou ele.
João Carlos era um rapaz de 1,85 metro, 95 quilos, filho de uma família abastada, tendo estudado nos melhores colégios. Natural de São Paulo, residia em Vitória havia menos de três anos. Lá, a família mantinha uma loja no shopping e uma distribuidora de comidas e bebidas.
João Carlos, porém, teve sorte: ele apanou seu pênis e, levado para São Paulo em um vôo de urgência, submetido a uma operação no Hospital Nove de Julho, teve seu membro reimplantado. O pênis foi colocado em um saco plástico, com pedras de gelo tiradas do frigobar, e levada para o hospital. A operação, conduzida pelo urologista Nelson Garcia Forjaz Júnior e pelo ciurgião vascular Aldo Ferronato, foi considerada um sucesso (quatro horas de duração), embora dificilmente João Carlos volte a ter uma vida sexual normal.