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sábado, agosto 31, 2013

Pelotas: de "degoladora de bois" à "cidade gay"

    No final dos anos noventa, quando, pela segunda vez, trabalhei como jornalista no Diário Popular, de Pelotas (época do inesquecível doutor Clayr Rochefort), tive tempo suficiente para, sem pressa, ir entrevistando pessoas sobre a fama nacional da cidade, então ainda uma espécie de tabu do qual não se falava muito. Entrevistei muita gente pensando em publicar a matéria em uma grande revista, mas acabei desistindo e a reportagem saiu mesmo em um jornalzinho artesanal que eu e alguns amigos fizemos no prosaico e nada charmoso município de Viamão, publicação quinzenal que, para variar, não durou muito tempo, o “Olé!” Cheguei a ir a Pelotas em 1999 e distribuí uma centena de exemplares por lá, tanto que até um deles apareceu, ampassã, anos depois, no programa Fantástico, da Rede Globo, em matéria de um tal Maurício Kubrusly, enfocando justamente o mesmo tema.
    Esses dias, arrumando a casa em Porto Alegre, encontrei alguns exemplares de tal jornal, que eu até julgava perdido e não dava maior importância. Reli o texto e, para minha surpresa, gostei do que eu próprio escrevi, o que me fez transcrevê-lo e publicá-lo agora em versão eletrônica, neste meu humílimo bloguezinho que existe desde 2006, uma das poucas coisas que não interrompi em minha vida. 
   Resolvi não alterar nada no texto, nem mesmo a idade dos entrevistados, certamente agora, mais de quinze anos depois, bem mais velhos. Alguns até faleceram, como dom Carlos Reverbel.  (Vitor Minas)

   Pelotas, mais de 300 mil habitantes, terceiro maior cidade gaúcha, centro econômico, educacional e cultural da Zona Sul rio-grandense, porto fluvial, clima temperado, porta de entrada das frentes frias que chegam ao território brasileiro. Distâncias: 271 quilômetros de Porto Alegre, 634 de Montevidéu, 200 de Bagé, 59 de Rio Grande e 266 do Chuí. Capital do doce e da conserva, maior produtor de pêssego industrial do Brasil, economia baseada no cultivo e beneficiamento de arroz, na atividade pecuária e na prestação de serviços. Dois grandes frigoríficos exportadores. Princesa do Sul, Atenas Rio-grandense, terra de Hipólito José da Costa, João Simões Lopes Neto e Glória Menezes.
   Topografia plana, com terras baixas e arenosas. Sensação olfativa: o cheiro de bolor que paira nas ruas e invade os velhos casarões portugueses, manchando-os com uma nódoa de uma umidade que penetra os ossos e dificulta a secagem das roupas. Pouca cerração, mas muitos mosquitos. Céu nublado boa parte do ano e dias intensamente luminosos no outono.
    Particularidade: principal centro econômico do sul do País por várias décadas do século 19, quando foi imensamente rica, culta e esnobe às custas de milhões de bois sacrificados ao abate durante o chamado Ciclo do Charque.
   Fama nacional: cidade gay.
  VINGANÇA DE ESPARTA – “Isso é coisa inventada pelos riograndinos e pelos porto-alegrenses”, explicam os pelotenses mais sisudos, parcela cada vez menos expressiva da população, em processo de natural abrandamento. Cristalizada e irreversível, a fama deixou de ser tabu e vem sendo pacientemente driblada com o artifício do humor. Civilizado polo educacional, com diversas escolas técnicas e duas universidades, a cidade descobriu o valor da chula filosofia popular – já que o estupro é inevitável, relaxe e goze.
   Rio Grande, porto exportador, polo da indústria naval, mais de 200 mil habitantes, vizinha com Pelotas e como vizinhos dificilmente se amam, persistem as diferenças entre a Princesa do Sul, fidalga e rica durante quase um século, e a Noiva do Mar, terra de peixeiros e marisqueiros, no entender de muitos pelotenses. Para alguns riograndinos, Pelotas deveria se mirar no espelho e ver que o fausto e a distinção são águas passadas. Para os pelotenses, Rio Grande não passa de um balneário à beira mar plantado.
   Os dois povos – riograndinos e porto-alegrenses – teriam culpa em cartório: por mero despeito, difamaram a bela e rica Atenas gaúcha, estigmatizando o seu nome perante os demais brasileiros.
    Culpas à parte, não há como negar que o assunto mexe com os nativos e gera duas reações distintas, uma para desagravo público e outra para consumo doméstico. Aos visitantes faz-se a defesa da honra ultrajada. Internamente, porém, a “bichice” é moeda corrente. Os pelotenses divertem-se comentando “fulano é, sicrano também, beltrano é suspeito”. O ex-deputado e por duas vezes prefeito de Pelotas, Irajá Rodrigues, conhece bem a questão. A cada vez que viajava a Brasília não escapava de ser alvo de comentários maldosos.
    - A fama existe, é claro. Em Brasília tinha gente que me perguntava se o carro oficial do prefeito era cor de rosa, essas coisas. Mas eu sempre expliquei que não tem nada a ver, a fama foi algo inventado no passo, em razão do choque cultural.
 Na eleição presidencial de 1989, Irajá – único prefeito peemedebista gaúcho a apoiar o senador e candidato Orestes Quércia – teve noticiada a calorosa recepção oferecida ao ilustre colega campineiro através de uma notinha mordaz publicada na coluna Informe JB, do Jornal do Brasil: “´É o eixo Pelotas-Campinas.”
   O jornalista Carlos Reverbel, falecido aos 82 anos, era um dos que defendiam a tese do choque cultural. Radicado em Porto Alegre, autor da biografia do escritor pelotense João Simões Lopes Neto, Reverbel conhecia bem a cidade, na qual passou temporadas nos anos quarenta e cinquenta.
   - Isso, no fundo, era ciumeira. Pelotas era o centro econômico mais importante do Rio Grande do Sul por causa da carne, havia uma vida muito ativa, inclusive intelectual. E os locais inferiorizados inventaram essas coisas em detrimento de um centro mais evoluído e civilizado. Uma espécie de vinganga – argumentava ele. O humorista Luis Fernando Veríssimo é filho de uma pelotense. Mafalda, esposa de Érico, nasceu na cidade. Veríssimo concorda com Reverbel: é pura história.
    - Essa fama é um folclore que se criou, talvez na época em que Pelotas era uma cidade muito rica. E o pessoal confundiu educação com homossexualidade. Mas eu acho até que dá para explorar esse filão em termos de humor, é uma coisa que ficou convencionada e ninguém mais se ofende.
   É e não é. Paladino da moral pelotense, Libório, o Gaúcho de Pelotas, se ofende – e como! Personagem criado pelo cartunista André Macedo, 37 anos, nascido e criado em Pelotas, Libório frequenta as páginas do Diário Popular, o mais importante jornal da região, fundados em 1890. Traumatizado com a fama da terra, Libório recusa-se a parar de costas em filas de banco e beira um ataque de nervos quando alguém indaga a sua procedência.  Publicado em tiras diárias, o rude pelotense fez tanto sucesso que seu criador passou a imprimir camisetas estampadas com a personagem e os dizeres: “Sou de Pelotas sim, por quê?”
   André ri – a criatura não tem nada a ver com o criador. “O Libório surgiu em um fanzine que eu e um colega jornalista lançamos na cidade há alguns anos. De início recebi algumas reclamações de pessoas que achavam que não se deveria mexer com o assunto. Bobagem. Pelotas tem mesmo essa fama, como Campinas também tem, e não dá para dar murro em faca ou tapar o sol com a peneira, como o Libório, que, aliás, já abandonou esta postura. O gozado é que ele fez muito sucesso em Bagé, tanto que um jornal de lá me encomendou as tirar e passou a publicá-las regularmente.”
BICHACAP X CORNOCAP – Sábado, dez da noite. Ainda é cedo – a noite pelotense nunca inicia antes da uma da manhã e só vai esquentar mesmo lá pelas três.  Às oito da manhã ainda se vê grupos de pessoas bebendo e conversando pelos bares do centro ou do Laranjal, bairro e balneário às margens da Lagoa dos Patos, a maior do Brasil,o chamado Mar de Dentro.
   São águas poluídas, impróprias para o banho ao longo de quase toda a orla. O Laranjal é o “point” pelotense dos finais de semana e meses de verão. A 15 km do centro, urbanizado por belas casas de veraneio, divide com a Avenida Bento Gonçalves, na cidade, as preferências noturnas. No inverno a avenida reina soberana, no verão é tudo com o Laranjal.
   No bar da Beti, reduto eclético, o Brasil é o assunto dominante agora. Não o Brasil País e sim o Grêmio Esportivo Brasil, agremiação fundada no início do século e o primeiro campeão estadual gaúcho de futebol, em 1919, quando aplicou 5 a 1 no Grêmio Porto-alegrense no próprio campo do adversário. O time chegou a disputar a série A do campeonato brasileiro, em 1985, obtendo um surpreendente terceiro lugar. O campeão foi o Coritiba, mas os “xavantes” – o símbolo do clube é um aguerrido índio xavante – orgulham-se até hoje de ter eliminado, na semifinal, o Flamengo de Zico e companhia, em dramática vitória no estádio Bento Freitas, a Baixada, repleto de quase 20 mil torcedores fanáticos.
    Futebol é uma das paixões dos pelotenses, divididos entre o Brasil, o Flamengo local (a camiseta também é rubro-negra), com dois terços da torcida local, e o Pelotas, o “áureo-cerúleo”, tachado de clube da elite, pó-de-arroz, um Fluminense dos pampas. Na cidade quem não é xavante ou áureo-cerúleo é farrapo – torcedor do Farroupilha, clube fundado por militares. Aliás, de um modo geral torcer pelos times da capital fere os brios dos pelotenses mais bairristas e chega a ser uma ofensa para os xavantes, a mais fanática torcida do interior do Estado, em sua maioria formada pela população negra e pobre das periferias (dentre as grandes cidades gaúchas Pelotas é uma com maior população negra). Os xavantes orgulham-se de levar a campo a segundo maior bandeira desfraldada em estádios brasileiros – mede 70 metros e só perde para a corintiana dos Gaviões da Fiel.
    Arqui-inimigos, os dois clubes locais aproximam-se em um ponto: a falta de dinheiro. “Se nós tivéssemos um patrocinador forte, como tem o Juventude de Caxias, que nem torcida tem, já estaríamos há tempos disputando o Brasileirão”, garante Roberto, um rapaz de vinte e poucos anos que bebe cerveja no Bar da Beti em meio a uma roda de amigos xavantes.
    Roberto tem uma mania tipicamente pelotense – agarrar o braço ou tocar na perna do seu interlocutor para exigir atenção. O contato físico entre os homens – o abraço, o afago, o alto de segurar os pulsos – faz parte do modo de ser masculino. Quem vem de fora estranha um pouco tal atitude e sente até certo desconforto com isso. Contudo, logo compreende que não significa nada de mais.
    Em Pelotas desde 1957, quando chegou de Porto Alegre, a colunista social Marina Oliveira, do Diário Popular, aos poucos observou aqui atitudes que diferenciam a cidade do restante do Estado: “Há uma abertura, um carinho maior entre os homens. Não sei bem explicar, mas talvez haja uma maior espontaneidade de homem para homem, uma coisa que não acontece, por exemplo, em Bagé. A sociedade local se caracteriza por certo requinte, tanto na mesa quanto no vestir, no falar e no se portar. Mas ainda é uma sociedade muito fechada, as famílias mais tradicionais empobreceram sem perder a pose.”
    Fechada, de fato, ela é, e não somente a tradicional. Expansivo nas ruas e bares, o pelotense não é de dar endereço de casa ou abri-la a recém-chegados. Nem mesmo a numerosa população estudantil que aflui todos os anos – gente de outros municípios e outros estados – foi capaz de alterar tal comportamento. Amizades superficiais são fáceis, e fica-se por aí.
    Falo a respeito disso com Roberto, que concorda depois de alguma hesitação. Bebemos outra cerveja, tempo suficiente para conhecer mais uma piada local: Pelotas está planejando construir um estádio com 50 mil assentos e capacidade para 100 mil pagantes. Os ingressos “No Colo” já estão todos vendidos... Outra de futebol, desta vez verdadeira: década de setenta, jogo entre o Internacional e o Brasil, na Baixada. A torcida visitante abre uma imensa faixa onde se lê: “A torcida colorada saúda a Bichacap”. O troco veio na partida seguinte, em Porto Alegre: “A torcida xavante saúda a Cornocap”. Ainda hoje, quando um porto-alegrense pergunta se há mesmo tantos assim, os pelotenses têm uma resposta na ponta da língua: “Tinham muitos sim, mas agora estamos trocando dois bichas de Pelotas por um corno de Porto Alegre.”
SEPARATISMO PELOTENSE - Chega-se ao município pela BR 116, a mais extensa rodovia nacional e que inicia em Jaguarão, fronteira entre o Brasil e o Uruguai. O intercãmbio com a “banda oriental” é intenso e muitos vão tentar a sorte em Montevidéu, outros seguem a passeio. Os uruguaios, da mesma forma, chegam, abrem negócios, aclimatam-se sem maiores dificuldades, casam e se instalam na cidade, alguns para sempre. No verão os pelotenses mais abonados mudam-se para Punta Del Este – é um símbolo de status ter casa ou apartamento no chique balneário para onde, naturalmente, também migra a crônica social.
    Economia agropastoril, a Zona Sul gaúcha é formada por terras baixas e férteis e duas grandes lagoas, a dos Patos, de águas salinizadas, e a Mirim, menor, com águas doces e nenhuma comunicação com o oceano. É água, muita água. Os plantadores de arroz irrigado agradecem tanta abundância de recursos hídricos, embora vivam reclamando do governo federal e de sua política de preços mínimos, da importação desleal do produto asiático e dos juros altos que pagam pelo custeio agrícola. O certo é que ganharam muito dinheiro durante décadas, compraram belas casas em Punta e propriedades no Brasil, mas pouco investiram no próprio município.
   Érico Ribeiro, o número um dos orizicultores gaúchos, foge à regra. Apontado como o maior plantador individual de arroz do mundo, esse senhor baixote e calvo é quase um mito na cidade – o mais rico, o mais poderoso, evita porém badalações sociais e prefere acompanhar de perto seus inúmeros e diversificados negócios, hoje em parte transferidos para o Uruguai, onde o crédito é fácil e os juros mais baixos. Chegou a faturar mais de 200 milhões de dólares por ano antes de divorciar-se e ter seu patrimônio cindido. Influente politicamente, concorreu a prefeito em uma das últimas eleições mas acabou perdendo na reta final.
    Política, economia e futebol são pratos diários nas rodas de conversação local. E, sobretudo, lamenta-se muito: o esvaziamento político que tirou forças da Zona Sul em favor da metade norte, industrializada e europeizada, a estagnação de uma economia que sempre se orgulhou da sua pujança, uma prefeitura tão endividada que jamais paga os salários dos servidores em dia, os meninos de rua, a violência, o abandono dos parques e praças, a falta de empregos, o lixo nas calçadas, o fechamento das grandes empresas locais, o tratamento dispensado pelo governo do estado.
   Radical, o ex-prefeito Irajá Rodrigues lidera uma campanha para separar a metade sul da metade norte do Rio Grande do Sul. A sul formaria o Estado do Piratini, investindo aqui o dinheiro que, reclamam os pelotenses, estaria sendo desviado para a metade norte, onde a renda per capita é três vezes maior. Irajá promove periódicas manifestações secessionistas reunindo meia dúzia de gatos pingados mas garante ter ás mãos uma lista com mais de 40 mil assinaturas apoiando a proposta separatista. Piada, dizem os pelotenses, mas interessados no projeto de reconversão econômica da metade sul gaúcha lançado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, mas cujos recursos ninguém sabe, ninguém viu – só no papel.
    De fato, o clima de desânimo e pessimismo aguçou-se nos últimos anos. Simpósios, seminários, discussões e mais discussões – conhecidas as causas do atraso, o que fazer para superá-las? Lançado pelo Centro das Indústrias do município, uma campanha de auto-valorização de Pelotas tenta neutralizar o derrotismo reinando através de mensagens de fé e otimismo propagadas pela mídia local. “Isso aqui está condenado”, exageram alguns cidadãos amargurados que não esquecem de traçar paralelos entre Pelotas e Caxias do Sul. Esta última progrediu imensamente, superou a Princesa do Sul em tudo, inclusive em habitantes, e tornou-se um poderoso parque fabril, produzindo de alfinetes a tratores. Pelotas, ao contrário, enriqueceu com a carne de boi em um período em que boa parte dos seus habitantes vivia à tripa-forra. Ganharam muito dinheiro, sim, e gastaram quase tudo em festas, jogatinas, viagens, palacetes, roupas caras. Investir na modernização das indústrias poucos o fizeram. Assim, quando o capital inicial secou os pelotenses se depararam com o deserto econômico e passaram a viver da saudade.
PIRATARIA CULTURAL – Adão Monquelat, figura conhecida nos meios culturais da cidade e dono de uma livraria a poucas quadras da Universidade católica, pensa que ainda há muitos mistérios a devassar na Atenas Rio-grandense. Para ele “o pelotense sempre teve mentalidade de gigolô de vaca, a burguesia daqui não soube a hora da modernização.” Como todo pelotense da gema, Adão divide-se entre o orgulho e o lamento depreciativo. Orgulho de um passado que, bem ou mal, ainda sobrevive em alguns aspectos. Lamento pelo que chama de “bolor”: a acomodação geral, a falta de perspectivas e ações reais.
   “No século 19 os cidadãos daqui iam muito à Europa, especialmente Paris, sabem antecipadamente das coisas. Para se ter uma ideia do que era esta cidade, o mercado editorial gaúcho da época estava todo aqui. Pelotas foi a primeira cidade do Brasil a editar Gibran Khalil. Foi em 1922, pela Tipografia Guarany. Aliás, um dado curioso: praticava-se aqui a mais aberta pirataria cultural e editorial, editava-se em pelotas os maiores autores nacionais e mundiais sem pagar um tostão de direitos autorais. Zola, Álvares de Azevedo e Machado de Assis, que provavelmente nunca tenham sabido disso. Um inglês, em visita ao Brasil, chegou a acusar o município disso, dizendo que só perdíamos para os belgas em matéria de pirataria cultural. Como a constituição do Estado foi inspirada em ideias positivistas que consideram todo o conhecimento como conhecimento comum à Humanidade, a desculpa era fácil.
    Algumas dessas obras-piratas estão expostas na livraria de Monquelat. São edições de capa dura, em formato pequeno, e levam a chancela da Livraria e editoral Americana, que não mais existe. Deve-se ao livreiro Adão Monchelat a descoberta – ou redescoberta – do primeiro romance editado em terras gaúchas, A Divina Pastora (1847), de Caldre Fião.
   O marco inaugural da literatura rio-grandense era uma espécie de Santo Graal quando Adão, em uma de suas viagens a Montevidéu, encontrou um único exemplar no mercado das pulgas, em 1991. Para o livreiro, foi como descobrir uma pepita de ouro: adquirido pela rede Brasil Sul de Comunicações, RBS, por uma quantia que Adão não revela, dorme agora em uma redoma de vidro da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre. Mas quando a pergunta envereda de cultura para costumes e se pergunta sobre Pelotas e sua fama, Adão coça a barba e torna-se sério: “Acho que não confere. Na década de sessenta, quando fui morar em Porto Alegre, o pessoal já nos gozava muito a esse respeito. Uns até perguntavam se era verdade que em Pelotas até os garis usavam gravata. Eu acho que a fama veio justamento do modo de ser e de vestir dos pelotenses.” Amigo de Monchelat, o psiquiatra José Wolfango Montes Vannucci, 47 anos, há dez na cidade, já publicou oito romances, entre eles Jonas e a Baleia Cor-de-Rosa, um dos vencedores do concurso Casa de Las Américas do governo de Cuba. Natural de Santa Cruz de La Sierra, Vannucci é psiquiatra por formação e escritor por vocação. Casado com uma pelotense, sente-se perfeitamente adaptado à cidade onde, conforme diz, há mais psiquiatras do que em toda a Bolívia.
    “Pelotas é uma cidade com personalidade, uma cidade em que o habitante é mais voltado para o passado e se torna com isso mais reflexivo. É uma cidade nostálgica que acha que suas glórias estão no passado, conservadora. Não é feita por imigrantes como tantas outras do Rio Grande do Sul. O cidadão daqui acha que tem uma essência, que não precisaria fazê-la, não é uma terra em que se tenha estimulado o espírito lutador, desbravador. Aqui se tem mais valores artísticos do mundo, e quando falo em pelotenses me refiro às classes média e alta, que são as que contam. As pessoas aqui não valem só pelo dinheiro e sim por outras coisas, sem tem uma vida intelectual que se faz nos cafés, nas livrarias. Pela própria nostalgia, pelo clima, as pessoas olham mais para dentro de si do que em outros locais.”
   Cidade gay? O escritor conhece bem a fama. “Eu vou a meu país e digo que moro em Pelotas e as pessoas já começam a rir, até no Chile já se conhece a fama. Mas eu não acho que Pelotas tenha um número de homossexuais superior à média. Penso que o que contribuiu para isso foi o carnaval. Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando cheguei à cidade foi o grande número de rapazes que se vestem de mulher durante a folia. Inicialmente isso dá a impressão de haver homossexualidade, mas eu passei a entender a questão como um ritual dionisíaco em que as pessoas assumem, digamos assim, alguns aspectos mais escuros de sua personalidade. Mas também reparei que, durante o ano, esses mesmo rapazes tinham conduta hetero.”
   Sobre o homem pelotense, Vannucci sustenta uma opinião bem pessoal: “O homem pelotense não é machista, isto eu noto. Mas eu vejo tanto bissexual enrustido... Por ser uma cidade em que o papel social é tão importante, isso faz com que as coisas se disfarcem mais.
    Piada: um viajante chega a Pelotas e observa que muitos locais apresentam uma estranha sinalização: Passagem Só Para Pederastas. Surpreso, aborda um transeunte e pede explicações sobre aquilo. “De fato, está errado”, concorda o sujeito. “O correto seria Passagem Só Para Pedestres, mas não vai ser por causa de uma meia dúzia que nós vamos mudar todas essas placas, né?”
CAPITAL DA ARISTOCRACIA – É a segundo cidade mais úmida do mundo, só perdendo para Londres. A comparação aristocrática agrada os pelotenses, que lembram da época dos barões do Charque, quando importou-se da Europa três grandes e artísticas caixas dágua, além de chafarizes, objetos de arte, móveis, livros e até material de construção para os palacetes, dos quais, em sua maioria, só restou a fachada ou a fotografia.
    Dessa cidade disse o Conde D`Eu, o marido francês da Princesa Isabel, em 1865: “Depois de ter percorrido por duas vezes em toda a sua extensão a Província do Rio Grande do Sul, depois de ter estado em suas pretensas vilas cidades, Pelotas aparece aos olhos cansados do viajante como uma bela e próspera cidade. As suas ruas largas e bem alinhadas, as carruagens que as percorrem (fenômeno único na província), sobretudo os seus edifícios, quase todos de mais de um andar, com suas elegantes fachadas, dão ideia de uma população opulenta. De fato, é Pelotas a cidade predileta do que eu chamarei a aristocracia rio-grandense, se é que se pode empregar o termo aristocracia falando-se de um país do novo continente, aqui é que o estancieiro, o gaúcho cansado de criar bois e matar cavalos no interior da campanha vem gozar as onças e os patacões que ajunto em seu mister.”
    A Pelotas que o Conde visitou, acompanhando a comitiva do Imperador Pedro II, contava com estabelecimentos comerciais que “fariam honra ao Rio de Janeiro”, no dizer do alemão Karl Von Koseritz (“Imagens do Brasil”), que visitaria a cidade cinco anos depois. O escritor, político e ex-mercenário alemão observou nas ruas “um ar de contentamento e prosperidade que penetra a gente”.
    Vários outros estrangeiros e visitantes teceriam comentários enaltecedores a respeito do surpreendente grau de progresso e civilidade encontro neste ponto da remota região sul: palacetes em estilo próprio, mesclando arquiteto neo-renascentista com detalhes em barroco, muitos dos quais valeriam mais de 100 mil libras esterlinas, mulheres bonitas, homens finamente trajados, sem contar os monumentais jazigos onde repousavam os defuntos mais ilustres, os tais “barões do charque”, assim agraciados pelo Imperador como agradecimento à fidelidade de uma elite conservadora e imperial (na Revolução Farroupilha a cidade manteve-se fiel ao império brasileiro). Tudo isso graças ao contingente de europeus que, por influência do seu dinheiro e da sua cultura, contribuíram “para que aqui houvesse mais civilização e mais gosto pela vida social do que em outras regiões”, na visão do mesmo Koseritz. Quanto às mulheres, “tocam piano, falam francês, dançam bem e permitem até o galanteio de um cavalheiro”. E conclui: “São senhora que não cem em elegância e boas maneiras às mais graciosas parisienses.”
    Em 1831 esta sociedade opulenta mandaria construir o teatro sete de Abril, o quarto mais antigo em atividade no Brasil. Nas décadas seguintes o município se consolidaria como o principal centro econômico da região sul brasileira. Localização privilegiada, às margens de vias navegáveis, proximidade do mar e das repúblicas do Prata, numeroso rebanho bovino, boas pastagens, chuvas bem distribuídas – tudo contribuía e facilitava.
    Tantas vias navegáveis já eram, por sinal, familiares aos índios que habitavam primeiramente a região. A palavra “pelotas” (bola, em espanhol) designaria uma tosca embarcação por eles utilizada para a travessia de rios e canais, espécie de caiaque feito de couro de boi estirado sobre varas.
DEGOLADORA DE BOIS – Em meados do século 19 um viajante inglês surpreendeu-se ao contar mais de oitenta embarcações de médio e grande porte atracadas às margens do canal São Gonçalo, à espera de carregamento de charque, alimento utilizado por tropeiros, famílias pobres, escravos e soldados em campanha. Quando eclodiu a Guerra do Paraguai (1864-70), a burguesia local locupletou-se ainda mais com o conflito – a soldadesca que combatia Solano Lopes nos charcos paraguaios e nas fronteiras gaúchas precisava de alimentos não perecíveis, e Pelotas estava ali, para fornecê-los.
    Uma cidade então com mais escravos do que homens livres, e muito mais bois que gente. No auge do chamado ciclo do charque abatia-se anualmente mais de 500 mil cabeças de gado nas cerca de trinta charqueadas do município. No início do século 20 o escritor João Simões Lopes Neto – o maior nome do regionalismo literário gaúcho – estimava em 17 milhões os bovinos já sacrificados em Pelotas. A possível beleza do espetáculo das boiadas chegando, tangidas por tropeiros vindos de todos os recantos do Estado e mesmo do Uruguai, onde também costumava-se roubar muitas reses, logo se desfaria em “uma pintura tão peregrina e hórrida quanto pode caber na imaginação” – a hora do abate. Algo realmente repugnante, nas palavras do médico alemão Robert Avé-Lallemant. Em seu livro “Viagem pela Província do Rio Grande do Sul”, publicado na metade do século 19, ele chama Pelotas de “a Degoladora de Bois” e não esconde o asco pelo que vê, sente e cheira no interior dos estabelecimentos saladeris, “um repugnante atascamento no sangue e na imundície dos animais, em que quase se animaliza a alma do magarefe dos homens”. O odor de sangue, couro, vísceras, fezes, ossos e carne espalhava-se por tudo, sempre temperado por um horrível cheiro de carniça.”
    Desses dois mundos complementares mas separados e até antagônicos – a cruel degoladora de bois e a refinada Atenas rio-grandense – surgiria talvez a tese do choque cultural. Dois universos, o do capital e o do trabalho. Gaúchos rudes e voluntariosos e a sociedade dândi dos salões e palacetes e suas mentes direcionadas para Paris, Londres, Lisboa e Rio de Janeiro, cidades onde estudavam muitos filhos da terra que, ao retornar, exibiam estranhas maneiras, frescuras tais como puxar a cadeira para as damas sentarem, pedir licença e arranhas expressões em francês. Tal comportamento fidalgo encontraria ressonância em uma das mais conhecidas obras da literatura brasileira. Ao escrever Quincas Borba, Machado de Assis incluiu uma moça pelotense, Sonora, “uma guasca de primeira ordem, um beijou” e que “só casa com homem da Corte.”
    À época da publicação do livro (final da década de 80 do século 19) Pelotas desfrutava do seu fausto econômico e social. Em seu livro Opulência e Cultura na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul – Um Estudo Sobre a História de Pelotas (1860-90) o historiador Mário Osório Magalhães fixa as causas da desaceleração de uma economia que, a partir do final daquele século, irá perdendo terreno para Porto Alegre e as novas colônias de imigrantes italianos e alemães à sua volta: o declínio das charqueadas e o descaso do governo estadual, que simplesmente volta as costas a Pelotas, negando-lhe obras essenciais de modernização e mesmo fechando ou transferindo muitos estabelecimentos oficiais que existiam no município. É possível que date daí o sentimento isolacionista e uma certa mágoa dos habitantes da “Chicago Brasileira” (a Chicago dos abates de bois, note-se, e não a dos gângsteres) em relação à capital gaúcha.
   Visconde da Graça, Barão dos Três Cerros, Barão de Santa Tecla, Barão do Girau, Barão do Butuí. Ao crepúsculo do reinado, a Degoladora de Bois já tinha os seus nobres de fato e seus conselheiros do império que, nos meses de verão, podiam ser vistos na praia do Cassino, em Rio Grande, cercados pela criadagem e passeando de fraque e polainas o seu soberbo ar imperial, indiferentes aos olhares mordazes dos peixeiros riograndinos. Mais de cem anos depois, os resquícios dessa época de ouro podem ser vistos no Museu da Baronesa, antiga residência da família Antunes Maciel, barão e baronesa dos Três Cerros. O museu abriga hoje mais de três mil peças que retratam o modo de vida e o luxo dos potentados antigos: mobiliário europeu, coleções de leques, vestidos franceses, bustos em mármore de Carrara, azulejos portugueses e retratos desbotados de senhores e senhoras circunspectos atestam uma riqueza refinada que feneceria em irremediável bolor.
    Voltando à economia: discriminada pelo poder central, a Princesa do Sul seria em seguida duramente atingida pela evolução tecnológica nos meios de produção. A nível regional, a Revolução Federalista de 1893/94 transformaria o Rio Grande em um vasto teatro de guerra, com mais de 10 mil mortos e outros milhares de refugiados, inviabilizando o trânsito e o comércio do gado. Em esfera mundial, a invenção do sistema de eletricidade e refrigeração tornaria a salga um obsoleto e caro processo de conservação da carne, agora armazenada em grandes frigoríficos. A chegada da ferrovia, por sua vez, deslocou as charqueadas para outras regiões, livrando-as da obrigatoriedade do escoamento por via aquática.
   Aos poucos ia silenciando o plangente apito noturno a sinalizar o início de mais uma matança de bovinos. Mesmo sem saber direito, a Chicago Brasileira vivia seus estertores, mas a Atenas Rio-grandense ainda dançava ao som das pianolas e mantinha a velha pose. Nesta sociedade onde “praticava-se o culto excessivo às belas artes” e discutia-se os clássicos franceses em alegres saraus, o escritor João Simões Lopes Neto jamais obteria o devido reconhecimento. O autor de cancioneiro Guasca, Casos de Romualdo e Lendas do Sul, de família rica e tradicional, preferiu no entanto descrever não o elegante universo urbano e sim a existência simples do homem rural. Audaz e sonhador, abriu inúmeros negócios e empresas fracassadas, nelas torrando toda a sua fortuna. Quando morreu de úlcera duodenal em 1916, com apenas 51 anos de idade, morava de favores na casa de um parente. Considerado azarento, era evitado nas ruas até pelos amigos mais próximos. Hoje é nome de um centro de cultura e de tradições gaúchas e de um bairro da cidade. Sua obra, redescoberta na década de quarenta graças aos estudos de Carlos Reverbel, Augusto Meyer, Lúcia Miguel Pereira e Aurélio Buarque de Hollanda, é sem dúvida uma das mais importantes da literatura regional brasileira em todos os tempos.
    Encerrado o grande ciclo de prosperidade, ainda assim a vida mostrava-se risonha e agradável na Princesa do Sul. A combinação opulência restante e cultura atraía homens e mulheres de outros estados e países e seduzia especialmente os judeus franceses fugitivos da dominação alemã na Alsácia-Lorena, os quais antes tentavam a sorte em Buenos Aires e Montevidéu. As cortesãs francesas pontificavam nos cabarés e davam o necessário verniz a airada vida noturna desta cidade perdulária e festiva.
Piada: Chegando à divisa de Pelotas um viajante vê um homem pescando. Curioso por saber se havia ali algum peixe, aproxima-se e pergunta: “E aí, tá dando?” “Não, hoje eu estou pescando”, responde o outro.
ROLETA E BELLE EPOQUE – Como e quando surgiu a fama que estigmatiza (se é que o termo é adequado) Pelotas até hoje, a de cidade gay onde as mulheres, para arranjarem homem, precisam esburacar as ruas, como escreveu o colunista e humorista José Simão, da Folha de S. Paulo? Ou como escreveu Millor Fernandes, na sua seção de humor Livre Pensar é Só Pensar, na revista Veja de 24 de novembro de 1976: "Em Roma, como os romanos. Até aí tudo bem. Mas, e em Pelotas?"
    Aos 90 anos, magro, lúcido e elegante, José Collares mantém a voz firme e a inteligência alerta: à menção do tema seus olhos deixam escapar um lampejo de malícia. Ele pede para que sua sobrinha retire-se por alguns instantes – isso não é assunto para mulheres. Em seguida descerra as cortinas e uma luminosidade difusa escoa do cinzento céu pelotense e envolve, lá embaixo, a Praça Coronel Pedro Osório, cercada de casarões históricos.
   A praça é adornada com belos e antigos chafarizes. À noite, porém, é “terra de marlboro”, com assaltos, prostituição e consumo de drogas. Mulheres de programa dividem espaço com travestis que enfrentam o rigor do clima em trajes sumários. Em fevereiro, na avenida em frente, realiza-se o desfile das escolas de samba e blocos de sujos daquele que já foi considerado o mais alegre e popular carnaval do Estado. É este cenário que José Collares compara à Belle Epóque pelotense, os anos vinte, período dos grandes cabarés, das francesas e da jogatina desenfreada. Menino rico, como ele mesmo diz, viu e viveu tudo aquilo.
    “Pelotas mudou muito, não há mais aquela educação e nenhum glamour. Sei dizer que foi uma cidade muito rica e o dinheiro foi todo na roleta, grandes fortunas se acabaram da noite para o dia nas rodas de bacará. Só aqui em volta do Mercado Público havia onze casas de jogos, mais umas três ou quatro adiante. Os croupiers vinham de Buenos Aires e Montevidéu. O cassino mais famoso era o Palace, que funcionava no Clube Caixeiral com roleta à tarde e à noite. Com os croupiers vinham as mulheres, mulheres fantásticas, quase todos estrangeiras, francesas, italianas, argentinas, as nacionais eram poucas. Sem falar nas das companhias de operetas, que acabavam ficando por aqui, se tornavam amantes dos homens ricos. No resto do Estado se criticava muito este comportamento, dizia-se que isso era “coisa de pelotense.”
    Pelotenses que, afirma Collares, formavam quase uma casta à parte em relação aos demais habitantes do Rio Grande do Sul. “Os pelotenses eram mesmo diferentes. Até no comer. A gente ia a Bagé e notava que o sujeito era de Pelotas só pelo modo de empunhar o garfo. De um modo geral o pessoal daqui não gostava dos bageenses e eles não se aclimatavam bem na cidade, nos consideravam “poseur”, diziam que tínhamos mania de superioridade. Nunca esqueço a vez em que fui a Bagé e, em um baile, vi um sujeito deixar cair o revólver em pleno salão. Pois ele simplesmente se agachou, apanhou a arma e a colocou no coldre como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, e seguiu dançando. Isto me horrorizou. As próprias mulheres nos diziam que até na hora do amor o pelotense era diferentes, antes de ir para a cama tirava os sapatos e as meias, tomava banho e perfumava-se, enquanto em outras cidades o sujeito às vezes nem tirava as botas e fazia de pé mesmo. Exagero, mas diz alguma coisa.”
    Em 1920 o censo apontou 82 mil habitantes em Pelotas, somente na área urbana, e o município mantinha-se como o décimo primeiro mais populoso do Brasil e o oitavo quanto às rendas, superando muitas capitais e cidades importantes como Santos, Campinas e Juiz de Fora. A primazia pelotense incluía a radiodifusão – a primeira emissora de rádio do Rio Grande do Sul, a Rádio Sociedade Pelotense, fundada em 1925, precedeu em alguns meses a Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Também estava aqui a primeira loja maçônica do Grande Oriente do Brasil no Estado. Por sua vez, a telefonia local – moderna para os padrões da época – estava sob o controle da municipalidade e os bondes elétricos ligavam o centro aos bairros mais distantes. Antes, em 1913, o português Francisco Santos rodou na cidade aquele que é considerado o primeiro filme brasileiro de ficção, Os Óculos do Vovô. Descoberta em 1973 pelo cineasta Antonio Jesus Pfeil, da película só restaram cinco minutos, hoje conservados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
   Nessa terra de ócio e riqueza não faltavam prazer para a classe alta. Procedentes de Buenos Aires, muitas companhias europeias de teatro e opereta iniciavam aqui sua turnê em terras brasileiras, seguindo depois para os grandes centros. Aos espetáculos de gala no Teatro Sete de Abril – depois surgiria o cine-teatro Guarany – sucediam-se, para os homens, noitadas no “Apertadinho”, cabaré e cassino na Rua 15 de Novembro e onde brilhavam mulheres como Maria Vesuviana, italiana, e Louisette, francesa – as duas depois abririam seus próprios negócios. Como de praxe, tinham um amante oficial – que pagava as contas – e um rapaz bonito para os prazeres da cama.
    Havia cabarés, roleta, coronéis, gigolôs, jogadores – e a fama de requintada cidade boêmia. A outra fama, porém, já estava em gestação. José Collares não fala em “gays”, prefere o termo “invertidos”: “Havia invertidos sim, até porque os pelotenses eram muito mais civilizados e tolerantes do que os outros. A maioria das cidades do Estado tinha essa mania de ser gaúcha, de trabalhadores, e os pelotenses estavam à parte. Mas isto de invertidos também em outras cidades que nunca ganharam a fama. Jaguarão, por exemplo, era conhecida por isso só porque dois irmãos, donos do principal hotel de lá, eram. Essa fama de Pelotas, pelo que eu me lembro, veio depois da Revolução de 30, quando as tropas do Getúlio seguiram para o Rio. Lá difamaram a cidade.”
   Ele inclina a cadeira de balanço para a frente, olha em volta para conferir se não há mais ninguém e sussurra, tossindo: “Se der o senhor volte outro dia que eu vou lhe falar de um homem, um homem muito bonito, riquíssimo, que era...”
   Não deu tempo: José Collares faleceu duas semanas depois.
ÓDIO DE GETULIO – A quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a depressão norte-americana e mundial que se seguiu a este fato e Getúlio Vargas na presidência do Estado gaúcho atingiram duramente o município. Com a crise econômica e a redução do consumo geral, o preço do boi e do charque entrou em queda livre. Em 1930 a venda de carne gaúcha para fora do Estado já caíra pela metade. O assoreamento do canal São Gonçalo e a modernização do porto de Rio Grande, para onde se deslocou o comércio exterior gaúcho, pioraram ainda mais as coisas, a ponto de lideranças locais, conduzidas pelo empresário Cássio Tanborindeguy, encaminharem ao intendente municipal (prefeito) um documento de alerta intitulado “Defesa de Pelotas”. Para muitos, 1930 marca o início do decadentismo pelotense. Em 1931 a mais rica e prestigiosa instituição local fecharia em definitivo as suas portas: o Banco Pelotense, então um dos cinco maiores bancos do País, com mais de 20 filiais em diferentes Estados e, em 1925, o campeão gaúcho em volume de depósitos, teve todo o seu patrimônio transferido para o recém criado Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Efeitos da crise mundial, má administração, armação política, tudo é aventado para explicar como o banco oficial do Estado de 1921 a 1928 foi riscado do mapa.
   Getúlio, conta-se, fez de tudo para destruir o Pelotense, um dos tentáculos da política do seu antecessor, Borges de Medeiros. Ao suceder a este na presidência do Estado, em 1928, transferiu para o Banco da Província todas as contas do governo e, no final, recusou-se a mover uma palha em defesa da instituição. Outra versão garante que Vargas teria feito isso por motivos pessoais, já que seu cunhado, Antonio Sarmanho, suicidou-se ao ser acusado de desfalque na agência de São Borja, onde era gerente.
   Em seu belo livro Os Vargas, um relato sobre a história da família de Getúlio e suas origens, editado pela Livraria do Globo, o jornalista Rubens Vidal Filho fala da crise de 1929 e da Revolução de 30 que levou Getúlio ao poder, reportando o que era a Princesa do Sul por ocasião do Crack da Bolsa de Nova Iorque: "Pelotas, com suas charqueadas e plantações de arroz, era a cidade mais rica. Naquele ano de 1929 o Carnaval  de rua em Pelotas foi tão deslumbrante que empolgou os próprios pelotenses. Muito luxo, gastos espetaculares, corsos com automóveis de capota arriada repletos de mulheres esplêndidas de shorts, com as pernas nuas para o ar, ruas cheias de confetes e serpentinas".
Piada: Ao viajar a Pelotas, um cidadão é advertido, em tom de brincadeira: “olhe que aquela terrinha é fogo, quem chega lá já sente uma coceira no rabo...” Sem fazer caso, mal chega à cidade, é acometido de uma forte diarreia e obriga-se a saltar do carro e fazer suas necessidades no mato. À falta de papel, vai um ramo de urtiga: “Caramba, bem que tinham me avisado que essa terrinha é fogo mesmo!”
LIBÉLULAS PELOTENSES – Fábio de Souza Ferreira, 32 anos, chegou à cidade faz 11 anos, vindo da vizinha Camaquã. Em vez de seguir para Porto Alegre, a 130 km de distância, preferiu seguir mais para o sul e instalar-se em Pelotas. Aqui – homossexual assumido – passou a trabalhar como estilista. Ganhou amigos, sossego e dinheiro para viver confortavelmente. Quando está circulando pelo mundo gay pelotense, Fábio Ferreira passa a ser Fabíola Ferrer. Porém, não se considera travesti – homossexual sim. Assíduo em festas da sociedade local, desenha e confecciona vestidos e trajes carnavalescos para homens e mulheres que frequentam o seu atelier em um sobrado no centro.
   Quem sobe as escadarias de madeira se depara com fotos emolduradas, alguns quadros e, na peça contígua à sala, uma imensa cama de casal. De bermudas, cabelos presos à nuca, Fábio – ou Fabíola – acaba de encerrar seu expediente. Senta-se, cruza as pernas com feminilidade não afetada, acende um cigarro e estuda o repórter com o olhar discreto. Está sem pintura ou maquiagem. A voz é quase de mulher. “Vamos lá, o que você quer saber?” O namorado, que abrira a porta, some de cena levando consigo um cão felpudo. Fábio está à vontade – antes, porém, quer saber se pode falar tudo, se a entrevista será mesmo publicada e se há necessidade de fotos. Exponho as duas versões – a do choque cultural em primeiro.
    “Puxa, é tanta coisa que você me pergunta, que a gente teria de parar e conversar vários dias até esgotar o assunto. O que eu acho é o seguinte: não vá nessa de que os filhos das famílias antigas iam à Europa, voltavam assim e assado. Aqui há de fato mais homossexuais do que em outros locais. Muitos vêm de fora, atraídos pela fama da terra, por Pelotas ser considerada mais tolerante a este respeito. Não sei qual a explicação, mas posso dizer que aqui o homossexual é tratado com carinho e respeito, com naturalidade, ele pode frequentar qualquer ambiente sem se sentir discriminado, inclusive casas de família. A cidade toda aceita o homo, embora, claro, se façam piadinhas, o que eu acho natural, faz parte. O homem pelotense gosta de transar com homossexuais, há procura. Dá para dizer que nesta cidade a gente se complementa não só sexual como afetivamente, namorados são fáceis, a coisa rola normal. Dou um exemplo: aqui eu nunca saía de uma festa sem um namorado, já em Porto Alegre é muito difícil conseguir namorado. Muitos homens pelotenses, até casados, mantêm relações estruturadas com gays.”
   Pausa para o café. Mais descontraído, Fábio levanta-se e traz dois convites em papel cor de rosa, Eles X Eles, Elas X Elas. “Apareça para conhecer mais. Estarei lá.”
   A festa Gato Calabouço aconteceu dali a duas semanas. Fábio – agora Fabíola Ferrer – integrava o corpo de jurados encarregado de escolher o mais belo e atlético rapaz dentre uma dúzia que desfilavam seus músculos para uma numerosa plateia GLS. Casa cheia, paredes escuras, ambiente de caverna, garçons vestidos a caráter da cintura para cima – cobrindo o sexo apenas uma sunga reduzida. Clientela animada, mas comportada. Funcionando em uma espécie de casamata no bairro Fragata, a boate atrai não só gays e simpatizantes como grupos de mulheres que cotizam-se para aniversários ou despedidas de solteira. Há outra do gênero no centro, a Bay Bay, mais escrachada. A Calabouço funciona somente nos finais de semana e vésperas de feriados. Mesmo assim é lucrativa, informa Cleuton Alves, 24 anos, um dos sócios. “O nosso público é quase sempre o mesmo. Às vezes somem, dão um tempo, mas sempre acabam voltando e gastando bem. Têm políticos, empresários, professores universitários. Nós fazemos muitas promoções, trazemos transformistas de Porto Alegre, promovemos shows. Também damos uma canja para os michês, que não pagam ingresso.”
   A festa Gato Calabouço foi, meses antes, precedida pelo Bingo Boy, cujo principal atrativo foi o sorteio de um loiro estilo Conan O Bárbaro de quase dois metros de altura, oferecido como prêmio ao vencedor, que imediatamente o levou para casa. Se quisesse, porém, poderia consumar ali mesmo: há uma peça escura nos fundos destinada ao usufruto dos mais afoitos, homens e mulheres. “No dia seguinte temos de recolher dúzias de camisinhas que ficam no chão”, diz Cleuton.
VAMOS ARRASAR COM ELES, COLEGAS! – Na noite em que o programa Você decide, da rede Globo, foi transmitido ao vivo da Praça Coronel Pedro Osório para todo o Brasil uma piada circulava pelo Café Aquário, o mais tradicional e frequentado da cidade. “Sabe como vai ser o final? Não dúvida entre as duas mulheres, o sujeito acaba ficando com a bicha.”
    Gracejos domésticos, tudo bem. Da porta para fora a coisa muda de figura. Ano passado um jornal de Rio grande noticiou o despejo na praia do Cassino de cães vadios recolhidos nas ruas de Pelotas por funcionários municipais. A questão originou discussões e protestos entre a Noiva do mar e a Princesa do Sul. O que irritou mesmo os pelotenses foi a ilustração da matéria: ao desembarcar do caminhão, um cachorrinho de fitinhas amarradas à cabeça, convocava os demais: “Vamos arrasar com eles, colegas!” Irritado, o jornalista José Ricardo Castro, colunista político do Diário Popular, esbravejou: “Querem nos denegrir!” Os ânimos, felizmente, não tardaram a serenar, embora alguns pelotenses tenham se recordado do Doutor Pelotas, personagem criado pelo humorista porto-alegrense Carlos Nobre no final dos anos cinquenta e que ia ao ar pela Rádio Gaúcha. Para alguns o Doutor Pelotas consolidou a fama da terra. Criado para comentar os jogos do Esporte Clube Pelotas durante o campeonato gaúcho, o personagem emitia comentários maliciosos com voz efeminada.
   A cidade, contudo, dava alguns panos para manga. Em 1968 gays de todo o Rio Grande do Sul aportaram em Pelotas para participar do feérico e inesquecível Baile da Pedra, evento realizado no dia da emancipação do município e que culminou com a escolha da Miss cocota do ano, um transformista chamado Mônica. Precursor do atual Gala Gay e do Nós em Festa, conhecidos em todo o Estado, o baile for realizado em uma oficina em obras com mesas de pedra e tornou-se o acontecimento social do ano, recebendo amplo destaque da mídia. Quem viu garante: foi um luxo só.
   As reações contrárias logo surgiram entre a população local. Uma campanha “moralizadora”, deflagrada por um conhecido locutor de rádio, encontrou respaldo nos setores conservadores da sociedade e que se julgavam atingidos pela onda de libertinagem desenfreada e pela nódoa que pesava sobre o nome de Pelotas. Iniciava-se a “caça ás bichas” – quem aparentava ser era agarrado na rua e ali mesmo tinha seu cabelo raspado, deixando-se apenas uma mecha sinalizadora. A campanha, executada em pleno regime ditatorial, durou vários anos e, se não diminuiu o número de homossexuais assumidos, deu samba, a marchinha Rapa o Côco Dele, composta por um fotógrafo e um pintor de paredes e o maior sucesso carnavalesco de 1969 na cidade. “Rapa o côco desse/que ele também é/caminha rebolado e tem nojo de mulher.”
    Vieram os anos setenta e nada da fala refluir. Na tarde de 4 de fevereiro de 1974, um domingo, o apresentador Silvio Santos fez referências à suposta ambiguidade sexual da população masculina pelotense. Justamente naquele dia – ou talvez por isso – uma comitiva de vereadores de Pelotas visitava o programa. Soava como injusta provocação. Faltava só o crachá, como publicou o jornal A Platéia, de Santana do Livramento, em um gracejo que passaria despercebido não fosse a ira de alguns vereadores liderados pelo peemedebista Raimundo Vieira da Cunha. Em veemente protesto em plenário, o edil repudiou “este jornal de 50 exemplares”: “Estão nos chamando de veados!” Também se fez referência a um projeto apresentado na Câmara de Rio Grande e que propunha o uso de um crachá com a letra V a ser usado por todos os vereadores gaúchos. Em Pelotas teria havido eufórico apoio à medida...
    No mesmo período o mundo gay pelotense dava nome a alguns dos seus membros através de uma escrachada imprensa cor de rosa e circulação restrita. Nos anos sessenta surgiram, por exemplo, o Ponto Clube, Maricolândia e Clube dos Inocentes, informativos em papel ofício e cuja tiragem raramente ultrapassada os 50 exemplares rodados em mimeógrafo e que eram remetidos a travestis que moravam na França, Itália e Inglaterra. “Muita gente acha graça de nós, mas nós também achamos graça de muita gente”. Com esse bordão na capa o Ponto Clube, “semanário de divulgação das libélulas pelotenses”, noticiava, opinava, denunciava e fofocava. Uma discoteca que abrira em Milão, um filme recém lançado com atores gays, a escolha da Miss Boneca do ano na cidade, e também muita fofoca: “Sara Jane já retornou de sua circulada pela Europa, onde curtiu horrores”. “Com um sorriso de orelha a orelha, Michelle Morineau está aguardando impaciente a chegada do seu príncipe de Bagé neste feriadão. Grandes badalos e quebra-louça à vista.”
   O Ponto Clube desapareceria ainda nos anos setenta para ressurgir nos oitenta, agora sob a responsabilidade de Andrea Messalina, Leide Messalina, uma das locomotivas da sociedade gay pelotense. As libélulas esvoaçavam então sob a luz mortiça do Fruto Proibido e do Clube 77, onde tais jornais eram distribuídos gratuitamente. Rebatizado de Ponto Gay Clube, o informativo dava asas à imaginação, como se vê aqui neste texto assinado por “Luis Augusto”:
   “Sob o Signo da Ilusão (fantasia sexual”
   “Tudo começou lá em casa, após um uísque. Os convidados todos já tinham ido embora. Restávamos Cláudio e eu na sala. Conversávamos sobre sexo. De repente senti sua mão pousar nas minhas coxas. Era sempre assim. Cláudio tinha essa mania de falar comigo me tocando. Aquilo me vencia, mas jamais poderia dizer-lhe. Não suportei. Toquei as suas, desta feita já excitado. O moreno de coxas grossas penetrava na minha mente, aumentando ainda mais a minha ansiedade. Naquele ida eu seria seu, custasse o que custasse – e bolas para a sociedade. Cheguei ao monte divino. Senti o tamanho e pensei no estrago que iria fazer em mim. Não importava. Eu havia chegado a um limite. Não dava mais. Era apaixonado por ele. Era meu sonho pegar aquele roliço e depois me oferecer. Ele, um pouco espantado, deixava tudo. Já estava também bastante excitado com minhas suaves massagens. Então chegou a hora. Após todo o ritual de nudez, encostei meu ânus no seu pênis e comecei a penetrá-lo em mim. Gemendo e gritando, sentava em cima – a princípio vagarosamente e depois com violência – um paraíso de gozo jamais imaginado. Quando dei por mim, porém, percebi o quanto havia sonhado. O Prestobarba estava todo enfiado em meu ânus e o Cláudio não era mais que um pôster da revista Rose”.
    Em outubro de 1976 um grupo de jornalistas resolveu encarar de frente a fama da cidade. Ayrton Centeno, Luiz Ricardo Lanzetta e Róbson Barenho colocaram nas bancas o semanário Triz, “o nanico de Pelotas”. Bem redigido, equilibrado em sua linha editorial e com boa apresentação gráfica, trazia a seguinte manchete de capa: “Frescura?” E, como título interno: “São 250 mil habitantes e uma fama nacional”. Em cinco páginas, com muitos depoimentos, isentando-se de emitir juízos ou conceitos e sem resvalar para o folclórico fácil, esmiuçava o tema, sem esquecer de traçar paralelos. “No extremo da rodovia, a nossa irmãzinha: Campinas”. A rodovia, no caso, era a famosa Transviadônica.
   Triz durou um único número.
GAIOLA DAS LOUCAS – “Sabe como o pelotense tira a camisinha? Dá um passo pra frente”. Paulo não é pelotense, é bageense, mas mora na cidade faz mais de dez anos. Bageense tem fama de machão, exatamente o contrário de quem nasce em Pelotas. Dois pesos e uma só medida. Ele explica, brincalhão: “Acho que é melhor ser pelotense do que bageeense. O bageense tem sempre que estar fazendo pose de machão, já o pelotense, se não for bicha, já está no lucro.”
    Já é mais de meia-noite, estamos em um bar da Avenida Bento Gonçalves. Como é sexta-feira, não chove ou faz frio, a madrugada promete: “Vamos lá?”
   Seguimos de carro. Primeira parada: Rua Santos Dumont, esquina com a Doutor Cassiano, onde dezenas de travestis fazem ponto, à espera dos clientes. Paulo pára, sem desligar o motor, e uma loira (o) de óculos de grau com ar de professora primária aproxima-se e oferece seus serviços. “Faço tudo”, garante. Preço: 50 reais, mais o motel. “Se for pra passar a noite é mais caro.”
   Na quadra seguinte a oferta é ainda maior – meia dúzia de travestis, loiras oxigenadas, morenas, perfilam-se profissionalmente. A demora da escolha irrita um mulato (a): “Escolhe rápido, querido, e leva!” Nova rodada de negociações. Nada feito. Avante.
   Mais deles na Rua Barão de Santa Tecla e na Voluntários da Pátria. Paulo calcula mais de 50 travestis em atividade nas ruas, bares e boates da cidade. “Mas se você for escrever sobre isso, não esqueça de dizer que oficialmente Pelotas é a capital do Doce e da conserva, entendeu?”

sexta-feira, agosto 30, 2013

Hoje, 30 de agosto, Cameron Diaz completa 41 anos.
Parque Esportivo promove aulas de ginástica para terceira idade    
O Parque Esportivo da PUCRS promove aulas de Ginástica para terceira idade, em turmas abertas aos públicos interno e externo da Instituição. São realizadas ginásticas e caminhadas orientadas que ajudam na melhoria da condição física em geral, com ênfase nas propriedades motoras como força, flexibilidade, coordenação e consciência corporal.
A iniciativa busca proporcionar maior capacidade nas atividades de vida diárias e qualidade de vida. Os encontros acontecem nas terças e quintas-feiras, das 15h30min às 16h15min no prédio 81 do Campus (avenida Ipiranga, 6690 - Porto Alegre). Inscrições no endereço citado. Detalhes pelo telefone (51) 3353-4787.

Cuidados e manejo de animais de experimentação é tema de curso    
A Faculdade de Biociências da PUCRS (Fabio) promove o curso de extensão Cuidados e Manejo de Animais de Experimentação. As inscrições seguem até 10 de setembro e podem ser feitas pelo site www.fijo.org.br . As aulas vão de 12 a 14 de setembro e tratarão de questões como ética em experimentação animal, principais doenças de interesse em animais de laboratório e fatores que alteram o resultado de uma pesquisa.
O curso tem a chancela do Council of Laboratory Animal Science (ICLAS) e da Sociedade Brasileira de Ciências em Animais de Laboratório (SBCAL/COBEA) e é direcionado a professores, pesquisadores, alunos de Pós-Graduação e iniciação científica. Informações pelo telefone (51) 3205-3107 ou site citado.
Relação entre Brasil e Uruguai é tema de encontro    
O Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da PUCRS (FFCH), promove mais um encontro da série Fronteiras e Integração: olhares do cinema, na próxima quinta-feira, 5 de setembro. Desta vez será exibido o longa Mixtura de vida. A ideia do evento é debater sobre filmes que contextualizem a relação da fronteira entre Brasil e Uruguai. Participam os professores da FFCH Maria Izabel Mallmann e Ademir Baptista Chiappetti.
A atividade ocorre das 19h às 22h, no auditório do prédio 5 do Campus (avenida Ipiranga, 6681 - Porto Alegre). As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no local. Podem participar interessados no tema. Estão previstos ainda encontros no mês de outubro e novembro com as temáticas Presidentes de Latioamérica e El baño del Papa. Informações pelo telefone (51) 3320-3555.
Os cursos de mestrado e doutorado em Direito recebem inscrições até 31 de outubro. O Programa de Pós-Graduação em Direito da PUCRS oferece três linhas de pesquisa: Eficácia e Efetividade da Constituição e dos Direitos Fundamentais no Direito Público e Direito Privado; Hermenêutica, Justiça e Estado Constitucional e Jurisdição, Efetividade e Instrumentalidade do Processo. Os editais e as inscrições estão disponíveis em www.pucrs.br/direito no link Programa de Pós-Graduação em Direito. Detalhes pelo telefone (51) 3320-3537. ASSESSORIA

quinta-feira, agosto 29, 2013

Hoje a cantora Mallu Magalhães faz 21 anos.

Fatos históricos do dia 29 de agosto



Nasce Aleijadinho
No dia 29 de agosto de 1730, nasce o grande expoente do barroco no Brasil, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Aos 47 anos, o mais famoso escultor mineiro foi atacado por uma doença (não se sabe se sífilis, escorbuto ou reumatismo deformante) que o deixou aleijado, deformando-lhe os pés e as mãos.

1533 - O último rei inca do Peru, Atahualpa, é estrangulado por ordem do conquistador espanhol Francisco Pizarro.
1540 - As galeras de Bernardino de Mendoza destroem a esquadra turca que se apoderou de Gibraltar.
1730 - Nascimento de Aleijadinho. O escultor brasileiro Antônio Francisco Lisboa nasceu em Vila Rica (atual Ouro Preto), em Minas Gerais, e foi um expoente do estilo barroco no Brasil.
1825 - Assinatura por D. João VI da convenção em que reconhecia a independência do Brasil, mediante o pagamento de uma indenização de um milhão de libras esterlinas.
1842 - Tratado que põe fim à Guerra do Ópio. A China cede Hong Kong à Grã-Bretanha e abre vários de seus portos ao comércio britânico.
1852 - A primeira estrada de ferro do Brasil começa a ser construída pela Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis. O primeiro trecho da Estrada de Ferro Mauá, com extensão de 14,5 quilômetros, seria inaugurado dois anos mais tarde.
1853 - Desmembramento do Paraná da província de São Paulo.
1862 - Garibaldi é derrotado, ferido e aprisionado em Aspromonte, dando fim ao movimento revolucionário iniciado dois anos antes.
1903 - Primeira exibição em Berlim de um filme falado, mediante a utilização de um gramofone.
1903 - O primeiro automóvel do Brasil é licenciado, no Rio de Janeiro, como propriedade de Francisco Leite de Bittencourt Sampaio.
1904 - Inauguração em Saint Louis (Estados Unidos) dos 3° Jogos Olímpicos da era moderna.
1932 - Explode um movimento revolucionário no Equador, que não obteve sucesso, mas causou a morte de mais de mil pessoas e deixou centenas de feridos.
1943 - Os ocupantes alemães proclamam a lei marcial na Dinamarca e iniciam o terror contra a resistência popular durante a Segunda Guerra Mundial.
1945 - Lord Mountbatten recebe em Singapura a capitulação das tropas japonesas do sudeste asiático.
1949 - A União Soviética faz seu primeiro teste com a bomba nuclear.
1949 - Nasce Richard Gere, ator norte-americano.
1950 - Os comunistas ocupam o porto de Poang durante a Guerra da Coréia.
1958 - Nasce Michael Jackson, cantor norte-americano.
1965 - Retorno da cápsula espacial norte-americana "Geminis V", tripulada por Gordon Cooper e Charles Conrad, que permaneceram mais de uma semana no espaço, a maior duração até então.
1968 - O estado de exceção é implantado na Guatemala.
1969 - Um desabamento de terras na Guatemala causa a morte de 80 pessoas.
1973 - O presidente Anuar el Sadat se reúne com o coronel Gadaffi no Cairo e impõe o abandono do projeto de união entre Líbia e Egito.
1975 - O presidente do Peru, general Juan Velasco Alvarado, é destituído de seu cargo e substituído pelo também general Francisco Morales Bermúdez.
1975 - Morre, aos 92 anos, o estadista Eamon de Valera. Ele lutou pela independência da Irlanda do Norte e foi presidente do país de 1959 e 1973.
1982 - A atriz Ingrid Bergman, estrela de Casablanca, morre de câncer aos 67 anos.
1986 - O rei Hassan II anuncia pela televisão a ruptura do tratado de união entre Marrocos e Líbia, firmado dois anos antes.
1987 - Morre Lee Marvin, ator norte-americano de cinema.
1993 - Israel anuncia um acordo prévio com a OLP, para auto-gestão da Faixa de Gaza e da cidade de Jericó.
1994 - Fidel Castro anuncia a adesão de Cuba ao Tratado de Tlatelolco, que proíbe a proliferação de armas nucleares na América Espanhola.
1994 - Refugiados cubanos pedem asilo político ao Brasil depois de passarem cinco dias à deriva e serem resgatados no Golfo do México.


Redação Terra

Tecnopuc completa 10 anos

 
Seis mil empregos gerados e 118 organizações instaladas. Estes são os resultados mais evidentes do Parque Científico e Tecnológico da PUCRS, que nesta sexta-feira, 30 de agosto, comemora 10 anos de atuação. O evento que marca a data será realizado nas novas instalações do Tecnopuc Viamão (avenida Senador Salgado Filho, 7000), foco prioritário da expansão do Parque nos próximos anos.
Muito além de números, o Tecnopuc tornou-se um vetor de desenvolvimento econômico regional e referência na América Latina como Parque Científico e Tecnológico moderno e focado em transformar pesquisas em negócios, contribuindo para promover a interação entre universidade, empresas e governo. Jorge Audy, pró-reitor de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento da PUCRS, considera que "o Parque transformou a região onde está instalado em um ecossistema de inovação, contribuindo para que o empresário percebesse que a tecnologia e a inovação são um jogo de troca e de parceria entre todos os atores envolvidos, naturalmente experimentado no Tecnopuc".
As pioneiras no Parque, Dell e HP, cooperaram para este cenário. Âncoras da área de TI, concentram no Tecnopuc seus centros de pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Atentos a esta realidade, outros players mundiais, como Microsoft, Accenture, Tlantic/Sonae e ThoughtWorks, foram atraídos. Mas não é só de grandes que se abastece esse ambiente. Muitas startups foram criadas a partir desse movimento e, percebendo a oportunidade de estar ao lado de grandes, instalaram-se no Tecnopuc, contribuindo para a consolidação desse habitat de inovação. Além disso, diversas empresas de médio e pequeno portes, entidades da área de inovação e tecnologia, centros de pesquisa da Universidade e do Governo Federal completam o variado ecossistema.
Foco em Viamão
Com a maturidade da operação em Porto Alegre, os investimentos na expansão do Tecnopuc voltam-se prioritariamente para Viamão. Lá, o prédio original de 33 metros quadrados foi parcialmente modernizado, com troca de aberturas, criação de espaços de convivência e colocação de vidros que isolam som. O prédio existente, instalado em um terreno de 15 hectares, teve 15% da área reformada para receber empresas e laboratórios e projetos de P&D. Em breve, também estará em funcionamento a nova subestação de energia com potência de 800kVA, cinco vezes mais eficiente que a instalada atualmente. Roberto Moschetta, diretor do Tecnopuc, afirma que a área disponível em Viamão pode receber empreendimentos de qualquer porte. Considerando que o terreno é três vezes maior que o da Capital, estima-se um potencial de dobrar a geração de empregos, se comparado ao gerado no Tecnopuc em Porto Alegre.
Preparado para receber companhias das áreas de TI, Energia, Meio Ambiente e Saúde, o Tecnopuc em Viamão também voltou-se para a Indústria Criativa quando lançou, em parceria com a Fundacine e a Secretaria Estadual da Cultura, o Centro Tecnológico Audiovisual do Rio Grande do Sul, o Tecna, em 2011. O Tecna já recebe equipamentos para a montagem de laboratórios, que também estão em construção. "Nossos esforços são para transformar o Tecna no cluster gaúcho de audiovisual, movimentando toda a indústria do setor", avalia Moschetta.
Global Tecnopuc
Em Porto Alegre, são 5,4 hectares e cerca de 44 mil metros quadrados de área construída. "A intenção é manter a densidade populacional atual, preservando a qualidade de vida no Parque", informa Audy. Ainda assim, há duas obras em andamento. Uma delas é a construção do Global Tecnopuc, área de quatro mil metros quadrados, que deve favorecer o networking e a realização de projetos de open innovation e entre empresas, estimulando a atuação interdisciplinar e o empreendedorismo. "Haverá espaços para trabalho em grupo, ancorados em plataformas colaborativas virtuais e orientados às novas relações organizacionais de trabalho, transcendendo aspectos tangíveis de local e hora", destaca Audy.
Ainda assim, há terrenos livres para a construção de novos prédios, para operações estratégicas, caso seja necessário. Além do Global Tecnopuc há ainda, em Porto Alegre, as conclusões das obras da ampliação da Petrobras e a construção do novo condomínio de empresas e do Instituto de Eletrônica e Telecomunicações (IET).
Espírito internacional
Focado em contribuir para a formação de organizações com um olhar global, o Tecnopuc conta com programa de softlanding, facilitando o acesso de empresas parceiras a países de interesse. Da mesma forma, empresas estrangeiras têm apoio para ingressar no mercado brasileiro, contando com consultoria comercial, jurídica e operacional, como o aluguel de salas, contatos com instituições de interesse, entre outros aspectos que facilitem a entrada no País.
Moschetta aponta que essa aproximação não beneficia apenas as empresas interessadas em se estabelecer fora do Brasil, mas também as que desejam conexões internacionais, mesmo permanecendo por aqui. "Queremos que nossos parceiros pensem e atuem de maneira global, incluindo o mercado internacional na sua lista de clientes", explica.
Atualmente o Tecnopuc possui parcerias de internacionalização com 15 parques tecnológicos em 12 países. Duas experiências bem sucedidas, a Pandorga e a FK Biotec, já implantaram sedes em Londres e em Toronto, respectivamente, e estão em operação. A Pandorga, há dois anos instalada no Tech City, centro criativo do Reino Unido, alcançou clientes no mercado europeu e asiático. A FK criou a FKx no Canadá e busca consolidar a questão da propriedade intelectual (tem patente depositada nos EUA), aprovar a vacina contra o câncer na América do Norte e ter acesso a mercados de capitais.
Também focado na internacionalização, o Global Tecnopuc deve se configurar em uma plataforma para articular e ser a casa provisória de empresas de fora. "É um local propício para quem quer desenvolver produtos e serviços para o mercado global, considerando espaços temporários", garante Moschetta. O prédio já está em obras e deve estar concluído no final de 2014. (Assessoria imprensa PUC)

terça-feira, agosto 27, 2013

Camus, os loucos alegres e os frios sádicos

Sempre gostei de Albert Camus romancista, como em A Peste. Aconteceu de me cair à mão um livro dele sobre uma viagem que fez à América do Sul em 1949, quando era ainda jovem (aliás, morreu jovem) mas já muito famoso e respeitado. É um diário de viagem, delicioso de ser lido.
Lendo as anotações da viagem por várias capitais brasileiras, cresceu ainda mais a minha admiração por Camus. Ele estava deprimido quando visitou o Brasil, país do qual não levou lembranças muito lisongeiras, incluindo a sua rapidíssima passagem por Porto Alegre, cidade que achou feia, mas cuja luminosidade considerou muito bela.
Também me chamou a atenção a sua descrição do trânsito brasileiro e o seu espanto com os motoristas brasileiros. Segundo Camus, existem aqui dois tipos de motoristas: os "loucos alegres" e os "frios sádicos".
Definições estupendas - é exatamente isso, até hoje, mais de seis décadas depois. Basta ver o que acontece em Porto Alegre, cidade que, hoje, é território livre dos "motoqueiros loucos", aliás, loucos e sádicos também. Esses dias um deles quase me matou aqui em frente do edifício.
Outro fato que chamou a atenção do escritor argelino foi as cenas que viu de atropelamentos nas grandes cidades tupiniquins. Mais do que o atropelamento em si, ele achou bárbaro e revoltante o costume de se deixar o corpo estirado no local, coberto com um lençol, enquanto se aguarda, por horas e horas, a chegada da tal perícia técnica.
Eu não tinha me atentado sobre esse assunto.
Mas, pensando bem, é sim um costume bárbaro e que mostra bem o que somos. 

Crachá e sinal da cruz

Esses dias eu estava pensando sobre as figuras que nós encontramos por aí, nas ruas, alguns tipos esquisitos ou prosaicos - um pouco mais ou menos como este que agora escreve. Justamente naquele momento eu estava na PUC aqui de Porto Alegre, onde vou seguidamente à belíssima biblioteca que lá existe e que vi surgir, faz alguns anos. Foi então que atentei a respeito de um tipo que julgo curioso,que é aquele sujeito que sai às ruas com um crachá pendurado no pescoço. Crachá geralmente de uma empresa, da empresa para a qual ele trabalha ou faz algum serviço.
Digo que acho esse hábito curioso pois é justamente quando está na rua, de folga, quase sempre no horário do almoço, que o sujeito pode e deve tirar o seu crachá de identificação, até mesmo para se libertar da tirania daquela canga. E é justamente a insistência em não fazer isso que me levou a teorizar a respeito. Pensei um pouco e concluí que o cara que usa crachá na rua é, em essência, um pobre diabo em busca de afirmação. Justificação: ele se orgulha daquele documento no pescoço, que, a seu ver, mostra a sua importância - por menor que esta seja. Também prova que ele não é um vagabundo e não está desempregado e que, obviamente, sua empresa é tão importante que manda confeccionar crachás para os seus pobre-diabos etc etc.
Outra figurinha que acho deverasmente curiosa é o do católico que, ao passar por uma igreja, a pé, de ônibus, de carro, a cavalo, se apressa em fazer o sinal da cruz, todo contrito.
Como sou um cidadão cético - cada vez mais cético, devo dizer - costumo lançar um olhar debochado à essa gente. Afinal, fazer o sinal da cruz por si só já é o fim da picada. Mas fazer isso por causa de uma igreja, então é o máximo do máximo. Ou seria da submissão ao Vaticano? 
Dizem que, na Espanha, no passado, as prostitutas costumavam colocar um pano sobre a cabeça das estátuas de santos que tinham nos quartos, para que eles não vissem o ato sexual, o que, no meu humilde entendimento, faz mais sentido do que sair às ruas com um crachá no pescoço ou fazer o sinal da cruz na frente das igrejas.
Mas por que estou falando desses assuntos tão triviais, eu não sei dizer. Deve ser esta melancólica e cinzenta tarde de terça-feira, em Porto Alegre, o agravamento do meu problema de fígado e uma vontade de estar bem longe daqui, em alguma cidade à beira-mar, no belo ano de 1998 que tanto me marcou.

Quintana: quem não é fazendeiro é boi...

Quando completava setenta anos de vida, em 1976, o poeta Mário Quintana teria dito, jogosamente, como era do seu feitio, que havia nascido em Alegrete, "onde quem não é fazendeiro é boi". A frase provocou uma tremenda polêmica e ele teve de desmentir a sua autoria - muito embora todos nós saibamos que, de fato, nas cidades da fronteira e da pecuária, como é o caso do Alegrete, quem não é fazendeiro é boi, sim. O certo é que achei essa notícia numa das minhas garimpagens na coleção do Correio do Povo do Arquivo Histórico de Porto Alegre. A data é 31 de agosto de 1976 e achei interessante publicar a reprodução da matéria.

sábado, agosto 24, 2013

Implosão do edifício Renner foi um espetáculo público de 6 segundos

A implosão do que restou do edifício das Lojas Renner, no centro de Porto Alegre, um dos mais trágicos incêndios dos anos setenta, aconteceu no último dia de maio daquele ano, um domingo chuvoso, cinzento e frio. Uma tremenda estrutura foi montada para que isso acontecesse, com mais de 150 policiais,ambulâncias, evacuação dos prédios próximos etc etc. Quando o engenheiro da empresa paulista Triton, contratada para fazer o serviço, acionou os detonadores de mais de 300 bananas de tritonita, uma imensa nuvem de fumaça se elevou no céu, enquanto um barulho semelhante à explosão de uma grande bomba se fez ouvir por toda a cidade. Durou apenas 6 segundos e as reações do público que compareceu ao local para ver o espetáculo variaram do assombro à decepção.
O certo é que, no lugar do esqueleto calcinato, onde morreram, no mínimo, 41 pessoas na tarde de 27 de abril de 1976, surgiu o atual e moderno prédio da empresa. Junto com os monturos foram parar nos depósitos municipais os restos esparsos de algumas vítimas - que, aliás, não receberam qualquer homenagem das autoridades e muito menos da firma apra a qual trabalhavam. A implosão da Renner - a primeira que aconteceu em solo gaúcho - foi considerada "perfeita" pelos técnicos e autoridades de um tempo em que normas de segurança - ainda mais do que hoje - pouco diziam para muitos. O prédio da Renner era uma autêntica "gaiola", com janelas trancadas por armações de ferro, como descreveram os bombeiros que participaram da operação de salvamento. O ocorrido com a Renner foi, tudo indica, deliberadamente esquecido e pouco ou quase nada se falou sobre ele quando do acontecido com a boate Kiss, em Santa Maria, com um saldo de 243 mortos, mais de três décadas depois. Vivia-se, em abril de 1976, um tempo de ditadura militar, a imprensa estava amordaçada e também sujeita aos grandes interesses econômicos.  O inquérito policial sobre a tragédia da Renner, a cargo da Primeira Delegacia de Polícia da capital gaúcha, jamais veio à luz e talvez nem tenha sido feito. Azar das vítimas e de toda a comunidade. 

quinta-feira, agosto 08, 2013

Talidomida, o calmante monstruoso

As pessoas mais velhas e bem informadas ainda lembram bem deste nome: Talidomida. Prescrito como calmante e sonífero no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, o medicamento (na verdade Talidomida é o seu nome químico e não o de vendas) transformou-se em um sinistro sinônimo da ganância monstruosa da indústria farmacêutica.
Lançada sem a devida comprovação de seus efeitos colaterais, testada apenas em ratos, produzida em dezenas de países com nomes comerciais diferentes (Contergan, Distaval, Kevadon, Softnon, Talimol etc), a substância foi sintetizada pelo laboratório Chemie Grünenthal, de Nordrhein-Westfalen, na então Alemanha Ocidental e, dentro em breve, logo após o seu lançamento comercial, em 1956, (como anti-gripal e com o nome de Grippex), transformou-se em uma mina de ouro para a indústria, a qual investiu pesadamente na sua divulgação. Na verdade, a partir de tal substância, fabricava-se inúmeras marcas comerciais que, somente em um ano, na Alemanha, venderam a assombrosa quantidade de 14 toneladas. Mais de 20 outros laboratórios, em diferentes países de todo o mundo, foram licenciados para a sua produção.
No Brasil, a Talidomida chegou em março de 1958, nas marcas Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil e Slip, todas vendidas sem a exigência da receita médica. Era, então, considerado o melhor soporífero jamais inventado, passando também a ser utilizado contra a gripe, a nevralgia, a asma, a tosse e, sobretudo, como antiemético para as mulheres grávidas. Foi justamente aí que ele fez história - uma tétrica história: receitado para muitas grávidas em início de gestação, ingerido em pílulas brancas, era um sedativo barato que provocava um sono rápido, profundo e natural, sem a característica "ressaca" da manhã seguinte. De igual forma, podia ser ingerido em doses maciças que não causaria a morte do paciente, nem mesmo se este quisesse praticar o suicídio.
BRAÇOS DE FOCA - Ideal, e, como logo se viu, fatal, ou pior que isso, para os fetos em início de formação. Usado nos primeiros 40 dias da gestação, atuava como teratogênico - ou seja, produzia monstros, se é que, infelizmente, assim se pode falar de suas vítimas, calculadas em cerca de 10 mil em todo o mundo. As crianças nasciam muitas vezes sem dois, três ou até quatro membros, dentre tantos outros efeitos observados. A má-formação dos membros tinha um nome científico: focomelia (do grego "phoke" - foca- e "melos" - membros), ou "membros de foca". Os braços dos recém-nascidos surgiam como tocos abaixo dos ombros, semelhantes às nadadeiras das focas. Também se observou deformação dos olhos, do esôfago e do tubo digestivo. De cada duas crianças nascidas assim, apenas uma sobrevivia.
Sem entender o porquê daquilo, com problemas de consciência, algumas mães enlouqueceram e outras chegaram a praticar o suicídio. Em 1961, os casos de "focomelia" já eram tantos que se falava em uma "epidemia". De início foi extremamente difícil descobrir-se a origem de tal fenômeno, o elo comum. Pensou-se nos alimentos, na água, até em poeira atômica. Porém, graças a duas pessoas precisou-se exatamente a Talidomida como o fator causador. Uma delas, o advogado Karl Schulte-Hillen, de 32 anos, não havia aceito a explicação "genética" como a causadora da focomelia do seu filho recém-nascido. Homem saudável e esclarecido, ele descobriu que, coincidentemente, um casal de amigos seus tivera um filho em condições idênticas. Intrigado e inconformado, Karl passou a fazer investigações por conta própria, conversando com as mães que haviam dado a luz a tais "monstros". Ao tentar chamar a atenção da comunidade médica para o que estava se passando, encontrou uma revoltante indiferença e ignorância.
Foi então que surgiu em seu caminho o médico Widukind Lenz, um pediatra especializado em genética que aliou-se a Karl, encampando a causa. Lenz, por fim, achou o nexo causal. No dia 16 de novembro de 1961, Lenz comunicou oficialmente à indústria fabricante dos efeitos nocivos dos medicamentes a base de Talidomida - Contergan, no caso da Alemanha Ocidental. Ele, pessoalmente, já conhecia 13 casos. A Chemie Grünenthal, porém, não retirou o remédio do mercado - o que de fato só ocorreu quando a história virou manchete de jornal. O Contergan era o carro-chefe das suas vendas, uma verdadeira "galinha dos ovos de ouro", rendendo milhões e milhões de marcos. Sooou então o alarma em todo o mundo. Nesse tempo, às suas próprias custas, Schulte-Hillen contratou oito fisioterapeutas que, juntamente com ele, passaram a percorrer a Alemanha Ocidental, à procura de vítimas da Talidomida.
Entre agosto de 1964 e dezembro de 1965, visitaram 1.600 das 3.000 vítimas vivas da substância. Com seu endereço publicado nos jornais, choveram cartas, narrando novos casos.A maioria das vítimas da Talidomida estava na Alemanha e na Inglaterra. Nos Estados Unidos, graças a uma mulher, o medicamento (lá chamado de Kevadon), não chegou a causar tantos danos e sofrimentos (não mais do que 20 vítimas). A ser fabricado pela Merrel Co., uma empresa de Cincinati, Ohio (e que ainda hoje é uma das grandes do mercado farmacêutico), não chegou a ser liberado pela Secretaria de Alimentos e Remédios (FDA, sigla em inglês). Apesar das terríveis pressões da indústria, a médica responsável pela aprovação, Dra. Frances Oldham Kelsey, recusou-se a dar o parecer favorável, alegando que as provas de garantias de não havier efeitos colaterais deletérios eram insuficientes.
Em agosto de 1961, quando o escândalo veio a público, ela recebeu do presidente John Kennedy a medalha por Destacados Serviços Civis, por reter a aprovação da Talidomida - medalha esta que é uma das mais altas condecorações daquele país.
NO BRASIL - A Talidomida chegou ao Brasil em março de 1958, com os nomes de Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil, Slip. Em março de 1962, o Serviço Nacional de Fiscalização de Medicina e Farmácia proibiu o uso da Talidomida em todo o país, mandou apreender os estoques e cassar as licenças de fabricação. A medida, no entanto, não surtiu lá grandes efeitos pois o medicamento continuou ainda a ser usado durante anos devido à falta de informação da população, do descontrole na distribuição e, sobretudo, graças à omissão do governo e ao poder econômico dos laboratórios. Em 27 de novembro de 1973 foi criada, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Associação Brasileira dos Pais e Amigos das Crianças Vítimas da Talidomida, entidade declarada de utilidade pública. Nos últimos anos o interesse pela Talidomida trouxe novamente o debate à tona. Conforme alguns testes - ainda não plenamente comprovados - ela teria eficácia na luta contra a lepra e contra a tuberculose. (Pesquisa: Conselheiro X.)