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terça-feira, junho 02, 2009

Bichos ao Sol

Ernani Ssó

Uma tarde dessas passei pelo Banhado do Taim. Fiquei olhando os bichos ao sol — só olhando, sem adjetivos na alça de mira. Mas em casa fui pra internet descobrir como se chamava aquela ave do tamanho de uma galinha, cinza, com coleira preta e penacho arrepiado. Tachã. Aí o universo entrou nos eixos de novo. É como se sem o nome eu não conhecesse o tachã de verdade.
Por que é tão difícil apenas curtir as coisas?
Acho que as palavras devem chegar depois, ou pelo menos não se meterem onde não são chamadas. Há sempre o perigo de o mundo e nossas emoções ficarem toldados pelas palavras. É, acho que as palavras são como as mulheres fatais dos filmes de detetive de antigamente. Muito belas, muito insinuantes, com olhares de mormaço e uma grande lábia apoiada por uma voz rouca, também conhecida como voz de travesseiro, essas mulheres enrolam o detetive em sua versão da história de tal forma que apenas os mais durões conseguem ver a realidade por baixo dela. Mesmo assim pagam um preço alto: olho roxo, um dente quebrado, a licença de investigador quase cassada — isso quando não são implicados num assassinato. Entre os escritores, o preço é mais alto ainda: uma cadeira na academia, uma homenagem de vereadores ou deputados, o apelido de poeta…
Na adolescência, em Garopaba, vi duas famílias acampando. Tiraram fotos desde a chegada: descendo do carro, armando a barraca, comendo o lanche. Se deram ao luxo de medir quantos litros de água uma bica jorrava por minuto. Imagino que no fim do verão, quando viram os slides, tiveram uma ideia do que viveram, ou deveriam ter vivido.
Susana Vieira
Susana Vieira declarou que com ela vai ser assim: direto do baile funk pro cemitério. É ou não é infinitamente melhor que ir pro cemitério direto da frente da televisão que passa a novela das oito? Mas tenho a sensação de que toda essa alegria desfraldada em praça pública, pronta para sair na capa da Caras, se deve a um choque: Susana deu de cara com a melhor idade num beco escuro e tremeu as perninhas. Afinal, durante a juventude, ela era mais discreta.
Há muitos modos de tremer as perninhas. Não sei se uns são melhores que os outros. Sei que uns são mais vistosos ou mais divertidos.
Lembro sempre do Jorge Luis Borges nos últimos tempos. Ele dizia que, como o pai, desejava morrer inteiramente. Quer dizer, fim, se acabou. Nada de ficar baixando em centro espírita, indo pro paraíso ou pro inferno, ou fazendo alguma outra coisa mais escabrosa ainda. Se a morte não é o fim mesmo, é uma espécie de fraude, não? Mas Borges estava cansado, esperava a morte como um alívio.
Também lembro sempre do meu avô materno. Tremendo gozador, instantes antes de morrer ainda tinha energia pra se divertir às custas dos outros, como com o enfermeiro, no hospital, na hora do banho. Quando o cara lhe segurou o tico para passar a esponja, disse como quem não quer nada: “Te pagam bem pelo serviço?”
Meu avô não queria morrer de jeito nenhum. Apesar de tudo — resumia sua vida, rindo: “Como sofri” — não se sentia cansado. Não tinha medo de morrer, pelo que notei. Simplesmente não queria largar o osso.
Talvez seja muito esperar fugir de um fim melancólico. Mas tem gente que merece. Eu — bem, se eu não pedir penico, já está bom.
Propinas
Saulo Ramos, no seu livro Código da vida, espinafra Severino Cavalcanti: um pobre diabo capaz de receber propina de restaurante… Com Sarney e outros do mesmo tipo é só gentileza. Está certo. O Sarney nunca levou propina de restaurante.
Oscar Wilde
Ele tem dezenas de tiradas mortais. Mas gosto especialmente de uma. Wilde saiu da prisão e foi para o exílio, na França. Na hora da despedida — velho, gordo, pobre —, vendo a cara dos amigos, disse: “Não se preocupem. Continuarei como sempre: vivendo acima de minhas posses”.
Por que ler José Onofre
Em vez de lamentar a morte do José Onofre, senti vontade de reler a novela Sobra de guerra e citar um trecho aqui. Mas minha biblioteca é esculhambação. A única coisa que encontrei foi um recorte de jornal com uma resenha desfavorável sobre Saramago. Mas não é pouco. Vejam a lucidez e a paixão típica de Onofre:
“A literatura não custa caro. Demanda tempo, mas não custa caro. É até natural que sua produção tenha se tornado popular e sem qualidade. Qualquer um que não sabe diferenciar uma angústia de uma azia se atreve a perpetrar seu livro. A mesma coisa acontece com o cinema e para lá vai, se já não foi, o teatro. E, de cambulhada, a música. Quem sabe não é este o destino da arte, o de ser assimilada pelo público ao ponto de não precisar mais dos artistas, os especialistas, os talentosos. A arte para o povo significa o povo fazendo sua arte e não sendo meramente consumidor. Sabe lá.
“Num quadro destes, não cabe Saramago. Ele é do ramo, embora tenha sobre ele uma soberba digna do último da dinastia. Não está só. O sentimento de estar encerrando um ciclo e de ser o último de sua raça está chegando até a televisão. Velhos artistas, por mais inseguros que estejam, sabem que foram os últimos a introduzir alguma novidade no seu ramo. Mas, para não ficar apenas num mundo em nanquim, o presente das artes está de tal maneira entediante que um bom dilúvio limparia a atmosfera, desinfetaria o mundo, devolvendo a alguns poucos a capacidade da paixão como forma de ler as coisas da vida. A arte não é apenas sua carpintaria, ela precisa ter a capacidade de acreditar mais na alma que na técnica, o oposto do credo neomodernista. Até lá, celebre-se as retrospectivas, as reedições e se mantenha a memória do que já foi feito com o que se faz agora. Esta dedicação quase insultante em ser moderno tem a densidade da fumaça. E o mesmo destino. Mas antes disto o estrago vai ser grande”. (Coletiva.Net)

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