Jardim Botânico, Porto Alegre. Fundado em 2006 por Vitor Minas. Email: vitorminas1@gmail.com
sexta-feira, junho 06, 2014
quinta-feira, junho 05, 2014
Escolas abertas aos domingos, uma solução fácil e possível
Sempre me tocou a falta de opções de lazer, sejam culturais ou esportivas, nas vilas e nas periferias pobres de Porto Alegre e outras grandes cidades, onde falta quase tudo e sobra violência e medo de se sair às ruas.
Anos atrás, em um jornal de bairro, fui conferir uma coisa que me alentou e até entusiasmou e que mostrou que há solução para determinadas questões, como esta da falta de espaços de lazer para quem não tem dinheiro para procurá-lo em outros locais. Fui convidado, não lembro bem por quem, a fazer uma matéria sobre as tais "Escolas Abertas" (não recordo se o nome era este mesmo) que funcionavam aos domingos, acessíveis a toda a comunidade vizinha, incluindo uma série de atividades programadas, sem contar biblioteca e outras estruturas já existentes.
Fui em três destes colégios que abriam aos domingos e encontrei dezenas de pessoas, a maioria jovens, entretidos com atividades que, de outro modo, não teriam como fazer. Esse pessoal, antes condenado a ficar em casa, vendo programas de tevê de péssima qualidade, a aguentar a briga dos pais, o porre do pai bêbado, o amargor da mãe neurótica, ou a zanzar tediosamente pelas ruas, remoendo seus ódios e frustrações, chutando latas e tampinhas, ou mesmo tentado a beber e a consumir drogas, estava lá, firme e sereno, praticando atividades físicas, jogando partidas de xadrez, de pingue-pongue, de pebolim, ou então lendo livros, enciclopédias e revistas na biblioteca do colégio.
Eram, na grande maioria, todos garotos e garotas, a maioria os tais pardos, mulatos e negros que fala-se hoje, gente pobre, previamente sentenciada a uma vida sem horizontes, chata e sem possibilidades de crescimento. Mas, de repente, o domingo - o dia mais chato para quem não tem dinheiro e nem companhia - se tornava um dia de lazer e aperfeiçoamento, um dia preenchido com coisas boas e construtivas.
Aquilo me tocou e mudou alguns conceitos que eu tinha, inclusive sobre vida comunitária.
Não sei se as tais Escolas Abertas - uma coisa tão simples, tão fácil e simpática de se fazer - continuam a funcionar, pois na nossa pátria guarani tudo muda ao sabor dos novos governantes, os quais geralmente desfazem tudo o que o anterior fez de bom. Mas eu gostaria de acreditar que sim, que os domingos continuam a ser úteis para essa gente carente (e que nós mesmo discriminamos) das vilas de Porto Alegre. (V.M.)
Todo mundo critica as leis e ninguém mais fala em Lei Fleury
As intermináveis discussões sobre a violência no Brasil, a forma de combatê-la, as leis a serem adotadas e aplicadas, a diminuição da idade penal etc etc, mostram que, mais do que não fazer nada de efetivo nessa área, como sempre tudo é mera discussão semântica e tudo é patético e até asqueroso. A leniência e a brandura das leis são sempre apontadas como causas da impunidade - e são mesmo.
O curioso é que aqueles que defendem inclusive a pena de morte institucional e legal aplicada pelo Estado (pergunto: qual juiz brasileiro teria peito de condenar alguém à pena de morte? Na semana seguinte matariam ele, a família, o cachorro, o papagaio e os peixinhos do aquário), inclusive insignes juristas e até alguns deputados, e que criticam a frouxidão permissiva dessas leis atuais, nunca lembram que isso tudo começou durante o regime militar, para proteger o maior nome da repressão às organizações de esquerda, o policial e integrante do Esquadrão da Morte Sérgio paranhos Fleury, morto em 1979 - morto não, assassinado no litoral paulista.
Foi em 1973, para proteger Fleury das acusações de homicídios de marginais praticados no seu tempo de Esquadrão, - ele iria em cana por insistência do Hélio Bicudo - que o então general-presidente Emílio Garrastazu Médici inventou e sancionou a lei do réu primário, aquela que diz que o sujeito, se for réu primário, não tiver condenação anterior, tiver "endereço fixo", responderá pelos seus crimes em liberdade e não trancafiado no xadrez. Era a forma de salvar o couro do bambambã da repressão.
Por que então, depois disso, com os militares saindo de cena na política, os civis não revogaram essa lei, seguindo o exemplo das práticas de países ditos civilizados? É, isso ninguém diz. Aliás, ao contrário de um tempo atrás, nem se usa mais a expressão Lei Fleury, tão conveniente ela foi e é para muitos. Nesse caso eles, os que se beneficiam, deveriam acender uma vela para o Médici e outra para o Fleury. (V.M.)
quarta-feira, junho 04, 2014
Quem tem os direitos de imagem da estátua do Laçador?
Acabo de ler que a Arquidiocese do Rio de Janeiro anuncia publicamente que irá tomar as "medidas legais cabíveis" contra uma empresa portuguesa que usou a imagem do Cristo redentor, o monumento, em uma peça publicitária: o monumento de braços aberto é retratado com a camisa de tal empresa lusitana do ramo de apostas. O Cristo que é o símbolo do Rio de Janeiro e um dos símbolos do próprio Brasil.
Achei deveras interessante o conteúdo da notícia, o qual mostra cabalmente em que mundo vivemos: um mundo onde tudo é licenciado e apropriado - não somente a palavra "pagode" engolida pela Fifa - como até o monumento do Cristo Redentor que, salvo engano, foi declarado um dos patrimônios visuais da Humanidade ou coisa assim, em escolha oficial ou quase isso.
Ingenuamente, até agora eu pensava que aquilo lá era patrimônio da humanidade, símbolo do Rio ("estranho o teu Cristo, Rio/sempre de braços abertos/ mas sem proteger ninguém"), uma coisa semelhante às cataratas do Iguaçu, aos pinheiros do Paraná e à estátua do Laçador, aqui em Porto Alegre. Pois me enganei, a Arquidiocese da igreja católica não perdeu a oportunidade e registrou - e parece que faz tempo - os direitos de imagem do Cristo como seu. Ou seja, tem que pedir autorização a ela para qualquer uso, inclusive pagando por isso.
Que estranho, não? Depois de saber de tal fato fiquei curioso em procurar saber se alguém, aqui no valeroso Estado gaúcho, é detentor dos direitos de imagem do Laçador, lá perto do aeroporto. Ou do por-do-sol do Guaíba. Sim, porque do jeito que as coisas vão logo vamos ter que pagar direito de imagem para a igreja católica caso usemos a foto de uma igreja qualquer em algum site ou blog. (Vitor Minas)
A ruivice está na moda dos publicitários
São os modismos do meio publicitário, uma coisa que não se explica direito e nem se sabe de onde se origina afinal - é algo talvez ditado pela etérea e eterna vaidade ou por quem é o bambambã do ramo e tem seus seguidores - ou mesmo pela necessidade de colocar coisa nova na telinha. Pois agora, todos podem notar, a qualquer momento, em qualquer publicidade de televisão, a moda predominante são as ruivas e os ruivos, tipos aliás pouco encontradiços no País do faz de conta. Pouco importa: é exótico para o Brasil tropical. Tem, por exemplo, aquele rapaz da operadora de telefonia, tem ruiva fazendo propaganda de chinelo com o Romário, anunciando sandália, sardinha, cerveja, maionese etc. Desse jeito até parece que temos um grande contingente de descendentes de irlandeses e galeses em nossa terra, aquele tipo que nunca bronzeia e nunca pode ir à praia para não se expor ao sol. Qualquer hora vão contratar aquele princepezinho inglês, o tal Harry, para estrelas propagandas de cachaça 51.
terça-feira, junho 03, 2014
É por isso que não me ufano do nosso Rio Grande
O Rio Grande do Sul tem o pior trânsito e os piores motoristas do Brasil, país que, por sua vez, já é um lixo nesta área, fazendo com que os povos civilizados se curvem, horrorizados e petrificados, à nossa ignorância maldosa e à falta de apreço pela vida dos outros que parece uma característica dos centauros dos pampas urbanos. Por essas e outras é que eu não me ufano do nosso Rio Grande. Não mesmo.
Porto Alegre sempre foi a pior das capitais tupiniquins e guaranis no quesito trânsito, e isto vem de priscas eras, conforme se vê nos jornais antigos - e eu pesquiso um bocado nesta área.
Mas, em meio à barbárie e à selvageria gaúcha e, sobretudo, porto-alegrense (ah, a nossa cultura européia!...), há um tipo ainda mais desprezível, boçal e nocivo - o nosso motoqueiro, especialmente aquele que faz entregas, o chamado moto-boy. Este merece um capítulo especial, tanta as vilanias que pratica pelas ruas, avenidas e até calçadas desta infeliz e mui desleal cidade farrapa - cada vez mais farrapa.
Já fui quase atropelado e morto por tais espécimes nos últimos meses, e a culpa não era minha - poderia até ser, mas não era. Fui quase assassinado e ainda por cima ofendido como um figurante de novela da Globo. Em uma das vezes este incauto estava, no seu justo direito, atravessando uma faixa de pedestres, com o sinal fechado para os veículos, quando, faltando dois metros para se alcançar a calçada, o semáforo deu sinal verde para os objetos metálicos motorizados seguirem em frente. Estes, claro, pilotados por ogros pré-homéricos, tocaram por cima, com prazer e volúpia, avançando celeremente tais como avançavam as hordas de Átila e seus sujos guerreiros hunos - ou seriam vândalos. Sim, porque aqui, se abre o sinal para os carros e demais tílburis automotores e fecha para o pedestre, quando este último está no meio da travessia tem tão somente duas alternativas: ou corre, igual um coelho assustado e perseguido pelo caçador, em uma humilhante e rastejante atitude de verme lutando pela sobrevivência, ou então tenta fazer valer seus direitos e segue - e é atropelado, virando uma espécie de patê moribundo gelatinoso no meio do asfalto sólido.
Pois falei que os motoqueiros de Porto Alegre são desprezíveis, e não retiro o que disse, até porque tais primitivos indivíduos, em sua grande maioria, são mesmo inclassificáveis e deveriam, no meu modesto ponto de vista, merecer a bíblica pena de quarenta chibatadas a cada infração que praticam. Morreriam todos, obviamente, tanta a laceração de suas carnes.
A bem da verdade, não é difícil definir o motorista de uma moto em Porto Alegre: é um sujeito geralmente jovem, muito jovem até, que se julga acima das leis de trânsito e que procura sempre uma brecha por onde seguir, não importa as consequências do seu ato. Muitos deles morrem nesta prática - e nem sei de devemos lamentar o fato. Outros ficam estropiados e padecem em agoniantes leitos de hospital. Outros ainda saem dos nosocômios com dezenas de pinos de titânio, e levam anos para tentar uma recuperação motora que geralmente não conseguem. O certo é que, a despeito disso tudo - e eles parecem não se importar nem com suas próprias vidas - os motoqueiros estão aí, infernais, nocivos, impunes, desprezíveis e sempre dispostos a praticar suas irresponsabilidades. Certamente, per si, formarão um espetáculo dantesco à disposição dos pobre turistas estrangeiros que aqui aportarem para assistir aos quatro jogos da Copa do Mundo que se aproxima. E, mais uma vez, digo e repito: é por isso que não me ufano deste ingrato e decadente Estado. (V.M)
segunda-feira, junho 02, 2014
Se há tanto mar, como é que vai faltar água de beber para a Humanidade?
Há certas coisas difíceis de compreender, mesmo lendo tudo o que sai na imprensa a respeito delas - ou talvez por isso mesmo. Falo isso a propósito da discussão - um tanto ultrapassada agora, que voltou a chover em grande parte do Brasil - a respeito da falta de água em São Paulo, da baixa total no nível dos açudes, represas e reservatórios que abastecem essa absurda concentração humana que é a Paulicéia e municípios vizinhos. São Paulo que está no alto, na serra, que não tem o nosso gigantesco e generoso Guaíba, mesmo podre e poluído, a lhe socorrer. Uma São Paulo gigante e devoradora, com sede de água, de beber água e de consumir água, não só para a sua população sedenta como também para suas centenas de milhares de indústrias e pontos comerciais. Durante os piores dias da estiagem o prefeito de lá - o tal galã do cinema indu, como dizem alguns caricaturistas - falou em racionamento e apelou à população paulistana - apelou não, ameaçou com multa - para que economizasse água por todos os meios possíveis. Certo. A princípio o homem tem razão.
Certo, há muito desperdício de água no Brasil, concordo, e concordam ainda mais os estrangeiros, sobretudo os europeus, que chegam aqui e se espantam em ver um sujeito lavar durante mais de uma hora seu velho carro, como se a água existisse em fartura e não custasse quase nada. Lavar o carro, a calçada, o cachorro e o papagaio. Lá eles pagam caro pelo fornecimento e rebolam para que dê para todos.
Pois é, há desperdício por todo o Brasil, de Sul a Norte, de Leste a Oeste, e isso todos, especialmente as autoridades e a imprensa, sabemos e mantemos um certo sentimento de culpa - aqueles dotados disso, obviamente. Dizem que somos perdulários e ingratos com a Natureza - e somos mesmo. Agimos como se a água nunca fosse faltar - até que ela falta, como em São Paulo.
Mas há algo que me intriga, pelo silêncio que cai sobre o tema, e pela falta de discussões pertinentes, aliás, falta até de referências. Me intriga pois é algo lógico e remete ao que apreendi lá nos velhos bancos da escolinha rural onde me alfabetizei nos anos sessenta - setenta por cento do nosso querido e castigado planeta Terra é coberto de oceanos, não é verdade? Pelo menos é o que nos ensinaram e ensinam há décadas e é o que a gente realmente deduz ao olhar os mapas e ver a imensidão dos mares que recobrem o planeta azul. É tanta água que até os aviões que caem nos oceanos não conseguem mais ser achados. O fundos dos oceanos é mais inexplorado e desconhecido que a superfície da Lua, repete o velho clichê. E deve ser verdade, creio.
Mas o que eu queria saber, e queria que alguém entrasse de verdade e tecnicamente nessa discussão, é o seguinte: se há tanta água, se três quartas partes da superfície da Terra é formada por mares (sem contar as águas interiores, as águas chamadas de doces), como é que vai faltar água para os habitantes da Terra? Well, well, de fato isso me intriga deveras - como é que há tanta água e vai faltar água de beber para os terráqueos? realmente não entendo niente.
Cá com minha braguilha, tentando equacionar logicamente a questão, penso o seguinte: a água do mar é tratável e pode, plenamente, ser transformada em água potável - isto é uma verdade comprovada. Tecnologia para tanto existe e faz tempo - esses dias, por sinal, vi a notícia de um empresário, aliás brasileiro, que está exportando água mineral retirada do mar, e ganhando dinheiro com isso. Se vende, é porque há mercado e há quem compre - ou seja, está produzindo coisa acessível à população e dentro da lógica da produção capitalista.
Então se existe a tecnologia, a mesma lógica - e aí insisto novamente - é que as grandes capitais e as grandes cidades litorâneas fosses abastecidas pela água do mar, não é verdade? Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Fortaleza, etc, poderiam muito bem beber essa água do mar, dessalinizada e tratada, em vez da água interior e subterrânea - pelo menos a lógica me diz isto. O Kuwait, país, não tem rios, e só bebe da água desssalinizada.
Coloco essa questão pois nunca vejo ninguém - nem esses jornalistas metidos a especialistas que surgem na tevê e nas rádios - falando a respeito. Simplesmente nos assustam com a possibilidade do fim das águas doces, do racionamento, das guerras que surgirão em função da conquista das reservas de água.
Cáspite!, se temos tanta água na superfície da terra, se há tecnologia para isso (talvez cara hoje, mas que certamente pode ser barateada), se os grandes centros urbanos estão à beira-mar, como é que vai faltar água no mundo nas próximas décadas?
Me respondam, que continuo e continuarei intrigado e ainda voltarei a esta pergunda: se três quartas partes do mundo são águas, se há tecnologia para transformar isso tudo em água potável, como é que vai faltar água no mundo, hein? Pode ser caro agora, mas televisão também era cara quando começou - meu pai comprou a primeira em 20 prestações, e custava o preço de um carro usado, carro meio baleado, mas um carro.
sexta-feira, maio 30, 2014
O trânsito de Porto Alegre é um espetáculo anárquico, triste e perigoso
Porto Alegre faz toscas maquiagens para receber os milhares de turistas que aqui aparecerão durante os dias da Copa do Mundo que se aproximam. Uma pintura aqui, uma placa lá, uma calçada modernizada mais adiante, um bar que muda a fachada e o cardápio, gramas aparadas nos canteiros da avenida Ipiranga, muita polícia nas ruas e avenidas principais.
Mas a capital gaúcha, em que conte algumas inegáveis qualidades, é uma cidade provinciana e isolada cujas autoridades e população ruminam a sua bovina e plácida satisfação conformista. Um lugarejo conservador e um tanto sonolento e inodoro: aqui ninguém quer ultrapassar os sinais, ir muito adiante, propor modificações maiores. Digamos, um clube restrito e de regras tácitas, uma espécie de Portugal salazarista, uma Espanha franquista na qual não se quer mudar a posição dos móveis e nem sequer trocar os mais usados ou avariados, até porque dá trabalho. Quem faz isso acaba se dando mal e é ou ignorado ou hostilizado, com o surgimento de grupos radicais, discursos e ofensas pessoais.
Fala-se no espetáculo da Copa e de tudo o que ela representa. A palavra legado - que nem o Felipão sabia o que era conforme demonstrou na televisão - talvez seja representada pelo grande número de obras inacabadas locais e pelo transtorno dos ônibus urbanos que passaram a mudar drasticamente seu itinerário devido à obstrução das ruas e avenidas nos últimos meses. Em termos coletivos e públicos, não é muito mais do que isso. Até o tal metrô, que se falou tanto há pouco tempo, já foi inteiramente esquecido por todos, nem se fala mais nele. Pior ainda: nem sequer se falou na despoluição do arroio Dilúvio e nem na cloaca do rio Guaíba, como se fazia nos anos setenta, o que talvez fosse querer muito, já que somos um povo pouco imaginativo.
Mas há algo em que deveremos, sem sombra de dúvida, surpreender os visitantes de países ditos de primeiro mundo - o nosso trânsito, a nossa "mobilidade urbana", como gostam de dizer.
A Espanha tem as suas touradas sangrentas e vibrantes, herança "cultural", mas nós, gaúchos e porto-alegrenses, temos bem mais do que isso - temos o nosso trânsito, a peculiar riqueza humana do nosso trãnsito. E que trânsito, torcida brasileira, que trânsito!... O mais espantoso e medieval trânsito de todo o Brasil (alguém contestará?), onde os motoristas, novos e velhos, homens e mulheres, dirigindo como loucos, não respeitam pedestres, sinais de parar, faixas de segurança, nada. Uma gente que, no momento em que passa a pilotar um veículo motor, seja ele carro, caminhão, ônibus ou moto, se julga o destemido e invencível centauro dos pampas, um lanceiro vingador e inatingível enrolado na bandeira do Rio Grande, investindo contra o inimigo, na certeza da vitória prometida.
Sem querer me vangloriar da pretensa qualidade, mas sou um inveterado, ainda que inócuo e inútil, pesquisador das atualidades do passado, de antigos jornais e revistas, especialmente as da nossa província. Ou seja, procuro ter memória, mesmo daquilo que não vivi. E nisso, nas páginas amarelecidas e dormidas que retratam os fatos acontecidos, o que sobremodo sempre me chamou a atenção é a permanência da impune e despreocupada mentalidade selvagem dos nossos motoristas, naquilo que o jornal Correio do Povo de 1950, com feliz exatidão, chamou de "mentalidade de cancha-reta" dos gaúchos. Ou seja, o nosso querido e altaneiro povo acha que as nossas (?) ruas e avenidas são locais de disputa de provas, cancha-retas onde o carro é o cavalo que está disputando as célebres carreiras do nosso interior Em um país semi-bárbaro, em que o trânsito é esse horror sanguinolento que todos bem conhecem, conseguimos ser ainda piores..
Para se dar um exemplo de como isso é crônico: em dezembro de 1974, portanto há 40 anos e quando havia bem menos veículos na cidade, o Correio observava, em editorial: "O trânsito de Porto Alegre é um espetáculo anárquico, triste e perigoso. Jogam-se os carros nas ruas e avenidas sem muita preocupação com os demais. O pedestre parece que se tornou simplesmente um obstáculo que deve ser afastado a qualquer preço. E os veículos usados para a condução das massas, quando não se encontram em condições precárias, são conduzidos com um mínimo de cuidado e o máximo de velocidade possível."
Imaginem então: um holandês, um francês médio que aqui chega para assistir a um jogo do selecionado de futebol do seu país - a princípio nem melhor e nem pior do que os nossos grossos xirus - e passa, por exemplo, na rua Guilherme Alves, bem defronte ao Bourbon Ipiranga, o que esse sujeito observará da nossa bela terra sulina?
Pois eu respondo: observará este escrevinhador brigando com motoristas que saem dos subterrâneos do shoping sem respeitar quem está atravessando a faixa de pedestres, tocando o veículo por cima, xingando, rindo, debochando. E às vezes também atropelando, ferindo, mutilando e matando. Mas isso é assunto para depois, para amanhã, que o espaço já se esgotou. (V.M.)
quarta-feira, maio 28, 2014
O jornalista que não conhece História critica homenagens a Prestes
Hoje pela manhã, em uma conhecida rádio de notícias da capital gaúcha, ouvi um não menos conhecido jornalista e comentarista político se posicionar, com veemência, contra uma homenagem ou seja lá o que for para Luiz Carlos Prestes, homenagem que foi proposta na Câmara Municipal ou na Assembléia Legislativa. Em si, o assunto não me interessa nem um pouco, pois a gente sabe o que são homenagens e tudo o que elas não representam. Também não sou comunista - longe disto - e, quando assistia às entrevistas de Prestes na televisão, nos anos oitenta, achava o sujeito um chato repetitivo e obtuso.
Mas fiquei espantado com o grau de ignorância deste jornalista calvo, alegre, simpático, gremista e falante, que é até inteligente mas demonstrou a sua superficial cultura e a sua evidente falta de leituras, e esta falta de cultura mínima embasou toda a sua exaltada condenação a Prestes: segundo ele, Prestes, comunista, totalitário (e foi mesmo), não merecia homenagem alguma exatamente por ser (palavras do jornalista), o comandante da Coluna Prestes, "movimento comunista, que percorreu o interior do Brasil matando e violentando". Ora, ora, meus amigos, só isso chegaria para desqualificar o jornalista e seus argumentos e demonstrar como a imprensa de hoje, em todos os níveis e em todo o Brasil, reduziu-se a um espantoso baixo nível cultural que parece, infelizmente, indicar tempos ainda piores - considerando o que são os tais cursos de jornalismo das nossas faculdades.
O jornalista calvo nunca deve ter lido um livro da história do Brasil e certamente não sabe o que são expressões como República Velha, movimento tenentista, eleições fraudulentas, acordo de Taubaté, política do café-com-leite etc etc. Não sabe, óbvio, que a Coluna Prestes nunca foi comunista e que dela participaram militares que depois foram considerados até direitistas como Juarez Távora, Siqueira Campos, Cordeiro de Farias e muitos outros que hoje são nomes de avenidas em todo o País. E muito menos sabe que o movimento era moralizador, até elitista, conservador, e que queria tão somente dar um jeito na vergonha nacional que existia na Velha República, com eleições fraudadas, intimidações e cartas marcadas. E mais: acusar Prestes de banditismo oficial na marcha da Coluna é é uma calúnia atroz e criminosa.
Por essas e outras está difícil ver noticiários de tevê, de rádio, de jornais e de revistas: se um sujeito que é "âncora" (!) de uma grande emissora, pertencente a uma grande rede, diz tais disparates, o que pensar do resto? Que ele não goste de Prestes e do comunismo é algo absolutamente natural e compreensível, mas que critique as homenagens a uma figura da História do Brasil (independente de questões ideológicas) com base na sua ignorância história, aí é outra coisa. Além do mais é bater em gato morto - Prestes e os comunistas perderam a batalha, não representam mais nenhum perigo e nem são levados a sério. Podia, o citado periodista, na pior das hipóteses - já que não é chegado a livros de História - ter acessado o tio Google, para se inteirar um pouco da biografia de Prestes e do real sentido da homenagem a ele dedicada. (V.M.)
segunda-feira, maio 26, 2014
Não é mesmo um País sério
Passei hoje à tarde, indo para a biblioteca da PUC, na Terceira Perimetral, em um trecho onde está um aviso em forma de placa, alertando que ali, sob o solo, existe uma tubulação de gás industrial - o famoso gasoduto Brasil-Bolívia, construído alguns anos atrás de forma silenciosa, discretamente, sem grandes anúncios e que resolveu muitos problemas. A bem da verdade o gasoduto é uma obra majestosa, que acaba, pelo que sei, em Caxias do Sul. Fizeram tal obra enterrada mas quase nunca se falou nela e no trabalho que deu. É que está enterrada, não aparece.
Aí fiquei também pensando que não é só o complexo gasoduto de milhares de quilômetros, vindo lá dos Andes, que nós brasileiros construímos - tem também Brasília, feita quase toda em poucos anos, algo que espantou o mundo. E temos ainda a ponte Rio-Niterói, com seus 14 quilômetros de extensão, outra proeza nacional. E a gigantesca Itaipu, na época a maior usina hidrelétrica do mundo.
Pensei nisso tudo agora, às vésperas da Copa do Mundo em que Porto Alegre - cidade surpreendente, ultimamente, pelo que tem de ruim e decadente e pela "malemolência" dos seus habitantes. pensei nos seis anos que se passaram desde o anúncio de que seríamos sede dessa competição - que eu era contra ser realizada aqui. Pensei no superfaturamento, na roubalheira, nos estádios feitos nas coxas, nos operários que morreram fazendo horas extras agora no final e pensei sobretudo em tantas obras anunciadas e iniciadas na cidade que é a capital gaúcha, obras que pararam, sem explicações, como a rótula da avenida Bento com a Salvador França e que só complicou a vida dos moradores desta parte de Porto Alegre. Pensei nos aeroportos de sul a norte que são autênticas gambiarras e na promessa, alguns anos atrás, de que teríamos até um metrô em Porto Alegre em função da Copa do Mundo - e alguns ingênuos acreditaram. E fiquei ainda mais meditabundo e melancólico ao pensar que não só a Copa será um fracasso em termos de infraestrutura e de promessas, uma vergonha mundial, uma prova da nossa falta de seriedade, da nossa alegre e irresponsável leviandade, como nos deixará com a auto-estima e o amor próprio bem mais baixos do que já estavam - e em um momento em que tudo o que não precisávamos era disso, no momento em que éramos considerados um dos "tigres" dos tais Brics. E fiiquei mais meditabundo porque daqui a dois anos teremos as Olimpíados do Rio e o Comitê Olímpico Internacional, apavorado, diz que nunca viu tanta inatividade e atraso em toda a história das Olimpíadas no mundo. Isso para um país que fez Brasília, Itaipu, a ponte Rio-Niterói, que construiu aquela famosa rodovia lá no Paraná, debruçando-se absurdamente sobre precipícios.
Dois erros mundiais, em exposição, nos colocando no ridículo, poderia se dizer. Talvez não: talvez apenas mostrando que somos uns bananas mesmo e que o Brasil, como disse de Gaulle ou sei lá quem, não é mesmo um País sério. Pior ainda é ver a cara-de-pau das autoridades, incluindo essa senhora presidente, dizendo que está tudo bem, que esta Copa do Mundo que logo iniciará será "a Copa das Copas" e que "não temos complexo de vira-latas". Até os argentinos devem estar rindo de nós. (V.M.)
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