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domingo, fevereiro 15, 2009

Todos somos culpados, todos somos suspeitos

Jandira Feijó
jandirafeijo@gmail.com

Arrombaram a minha casa e não tenho pra quem reclamar. A culpa foi minha. Nunca quis morar num lugar onde além da porta houvesse grades. "Não sabes que isto é errado?", assim fui condenada. Uma estupidez de quem ainda não se habituou à idéia de viver em uma cela. Uma saída rápida e 30 minutos foram suficientes para furtarem meu pequeno patrimônio e roubarem o que me restava do sentimento confiança. Quem se importa?
Arrombaram minha casa e acionar as autoridades policiais, apenas serve para alimentar as estatísticas. Nem eu nem ninguém acreditamos que algo possa ser feito. Os invasores tiveram tempo de assinar sua obra-prima, tomaram leite e o copo foi levado pela polícia. As impressões digitais só teriam utilidade se soubesse quem poderia ter invadido meu apartamento. Foi o que me disse o pessoal da perícia. Sou mais uma cidadã que cumpre seus deveres, mas não tem direitos atendidos.
Arrombaram minha casa e sou culpada por não ser miserável o suficiente para nada mais ter a perder. Os brigadianos que ali estiveram me viram com olhos de quem tem menos do que eu e que, portanto, "chorava com a boca cheia". Me consideraram desatenta e me lembraram ainda de que sou culpada por não ser rica o suficiente para poder me enjaular em condomínios com mais "segurança". Sou culpada por até agora ter sido movida pela confiança, por trabalhar para construir pontes e não muros.
Arrombaram minha casa e quem se interessa por estes lamentos? Todos os dias milhares de pessoas têm suas vidas roubadas, seus lares violados, suas histórias machucadas, nada que justifique sequer uma nota de jornal. O que aconteceu com minha família não é notícia, não causa espanto. Foi apenas mais um lance de um jogo de cartas marcadas. Nos acostumamos com a miséria, com a violência. Banalizamos a maldade, a maldade aliviada pela catarse libertadora da novela das oito. Esperamos simplesmente que mais cedo ou mais tarde chegue a nossa vez. E agradecemos por estarmos vivos, sem seqüelas físicas.
É um país estranho este o nosso. Arrombaram minha casa e sou colocada sob suspeita. "Humm, tem um filho com 23 anos, com quem ele anda?" Não é normal uma pequena família ter um filho trabalhador e responsável, bom estudante e bom cidadão. A cena do crime não impacta os olhos habituados a quadros piores. Entrar em sua própria casa, no entanto, e dar de cara com o espaço vazio onde antes estavam o computador, o telefone, o som dá um aperto no peito. Um aperto que se transforma em cansaço e solidão logo depois de ver suas roupas reviradas, jogadas pelo chão, caixas com os documentos e fotos esparramadas, sua história de vida vasculhada.
Arrombaram minha casa e a polícia suspeita que eu tenha contribuído para isto. Querem saber por que motivos teria estes equipamentos eletrônicos. Estranham que ali a gente trabalhe e estude. Menosprezam o fato ainda mais quando sabem que tínhamos um pequeno seguro: "Ah, tem seguro!!!, então tudo bem!" Como assim, tudo bem?
Arrombaram minha casa e o seguro não cobre o roubo do notebook, do pen drive, da máquina digital. A ninguém mais, a não ser a minha própria família, interessa saber que estas eram nossas ferramentas de trabalho e estudo. "Veja, estes são bens portáteis, ainda que as notas fiscais e manuais estejam aí, como podemos saber se eles foram mesmo roubados?" Se agora passo a trabalhar em cybers, se o trabalho de conclusão de curso de meu filho foi pro espaço, este é mais um drama sem cobertura.
Não faz parte da nossa lógica social, acreditarmos uns nos outros. Por isso agora deixo de ser uma aberração.
Já estou nas estatísticas, já mandei trocar a fechadura e me transformei numa prisioneira do medo. Considero meus vizinhos culpados. Acredito que algum deles foi displicente e deixou o portão do prédio aberto, muitos de fato são relapsos e costumam fazer isto mesmo. Considero meus vizinhos cúmplices dos ladrões, porque ninguém sabe, não viu nada. Suspeito daqueles que vivem no mesmo território que eu, suspeito daqueles que antes me davam bom dia. Talvez algum deles de boa fé - ou não - tenha aberto a porta do edifício pros bandidos sairem carregando em três malas as minhas coisas.
Minha vida foi arrombada e a reunião de condomínio acusa o trabalhador que pintava as grades do prédio, apontado por alguns moradores como principal suspeito por ser negro e por ser pobre. Estou cercada de preconceito, de desconfiança, de menosprezo. Como posso me conformar? Invadiram a minha casa, a minha vida, e me aconselham a deixar de ser tonta e colocar grade na porta. Como posso me calar? (*Coletiva.Net)

Um comentário:

Fernando disse...

Adorei o seu relato, hj msm a minha casa foi roubada. Roubaram a tv de 42' que o meu pai nem acabou de pagar ainda.
Liguei para policia, ela nem veio aqui em casa. Sou apenas mais um idiota que foi roubado.
Fiquei muito triste, não vou negar, mas creio que dias melhores virão.
Teremos que fechar duas entradas da casa, para ver se ela fica mais segura.
O foda é que eu sei que quem roubou aqui em casa foi o meu vizinho da rua de cima, e o mais foda ainda é saber que eu estou de pernas e braços amarrados mediante esta situação.
"Creio que o tempo é o pai do esquecimento, espero que esse aperto no coração passe, e que eu esqueça disso tudo que ta acontecendo."
Abraço forte, e adorei o seu post. ^^