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domingo, maio 24, 2009

Silêncio para Zé


Maristela Bairros


Então, Zé Rodrix se foi, assim, de repente, sem um sinalzinho que colocasse a família, os amigos, os fãs de sobreaviso. Quem disse que a morte tem de avisar sua chegada? Quantas vezes ela até engana, faz que vem mas não aparece? Afinal, tem tanta gente vivendo seu tempo de bônus por aí, gente que se agradece aos céus por ter ficado, outras que se fica pensando sobre os mistérios do além e do aquém para merecerem estar vivas.
Andei passeando pelo youtube e fiquei triste por ver que tem muita coisa atual do Zé mas pouca memória da época em que ele marcou a vida de adolescentes num Brasil sem esperança, sem saber para onde ia. Como a gente vai esquecer aquele sujeito de voz rascante, cabelo crespo avoado, óculos, debochado e ao mesmo tempo romântico para parir algo como a eterna
Casa do Campo? Envelheci ou foi ontem que vi este cara nos festivais de mpb? E aquele comprido e feio Guarabyra cantando Apareceu a Margarida. E Wilson Simonal, antes de ser desgraçado pela esquerda sempre afoita e dona da verdade cantando Sá Marina, Tributo a Martin Luther King e uma coisa linda chamada Silêncio, que nem a letra se acha na internet, ou ainda Correnteza, do Tibério Gaspar e Antônio Adolfo?
E aí me lembro de Marcos e Paulo Sérgio Valle, de Viola Enluarada, de gente lotando teatros para aplaudir e vaiar, brincando de levar a sério disputas que preenchiam a alma vazia de futuro, universitários que meteram a boca em Caetano Veloso, passando recibo de burrice aguda, de não entender o que viria, o novo, o desafiador. Faz tempo tudo isso.
Faz tempo que Elis, num lance de estupidez absoluta, misturou cocaína com birita e nos deixou na mão, tendo de nos contentar em ouvir velhos vinis, cds e espiar o youtube para suspirar com
Atrás da Porta.
Viro e reviro as listas dos novos talentos, em especial dos compositores, em busca de espírito, de sopro vital, e só não fico mais triste porque existe um
Marcelo Quintanilha lembrando que existe vida inteligente além dos solavancos de Ivete Sangalo e Cláudia Leite. Na verdade, acho que procuro o que se foi, o que não se perdeu mas que vai se esvaindo com a gente, que vai indo também, nesta semgracice da música pasteurizada e modinha que invade tudo e todos.
Nem vou falar mais, porque estou amarga da silva com esta partida de Zé Rodrix. Outras virão, a gente sabe. Há que ficar firme e ir cantando o que gente como ele deixou, passando adiante o que a pressa e o sem sabor deixa de lado. (Coletiva.Net)

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